O sonho de Steve

2 Capítulo 2 - Presente


O silêncio permaneceu, mas o horizonte negro fora iluminado por uma luz incerta. Entre ela havia um senhor sentado, utilizando toda sua concentração na pintura de um quadro. Sem muitas opções, Steve aproximava a passos curtos e olhares atentos até o senhor. Olhou para o chão e percebeu que onde os seus pés pisavam o chão ganhava forma, tábuas de madeira o direcionavam até o pintor. Quando restavam apenas poucos metros de distancia, as laterais também ganharam forma, quatro paredes apareceram fechando Steve dentro daquela caixa, mas não havia teto, apenas estrelas e a lua nova, tão próxima que passava a sensação de poder ser tocada. O pintor estava no centro da sala. As paredes demonstravam pinturas já prontas, muitas delas semelhantes e todas, absolutamente todas, representavam Steve realizando alguma coisa em um passado recente.

Não agiu da mesma forma que agiu com o velho, sem questionamentos, até porque o pintor estava ocupado demais. O observou e andou ao redor do mesmo, observando seus traços

— O que? — Já esperava por isso, mas mesmo assim a alfinetada no coração ainda o incomodou. Os olhos da cor de terra eram os mesmos que o de Steve, os cabelos encaracolados, a pele morena, até mesmo os lábios. Steve estava pintando um quadro enquanto o próprio o observava pintar.

O artista sorria, chorava, parecia se frustrar a cada pincelada. Do quadro estava se formando um desenho de uma escola. Não era necessário a pintura ficar pronta para Steve saber o resultado, pois no canto direito da sala, havia várias pinturas exatamente iguais dessa escola "É a minha escola" concluiu o óbvio. À medida que Steve foi entendo cada pintura, sentia-se mais vazio "São tantas iguais, tantas! E parece que cada uma representa um dia. É como se, por diversas vezes, a minha vida pudesse ser representada por apenas um quadro, apenas uma fotografia. A minha rotina nada mais é do que um quadro que vislumbro todos os dias, gastando tinta na mesma pintura, sem ter a noção de que um dia a tinta acabará, o papel também, e eis que só irá ficar os retratos. Mas de que adiantará? Visto que todos terão os mesmos traços, os mesmos sentimentos? Valerá mesmo trocar todas as folhas por apenas uma imagem? Não ... " Apertou os braços enquanto as lágrima vinham participar da história

— Não dá para pintar outra coisa? Viver outra coisa? Fazer qualquer outra coisa?! — Gritou Steve a ele mesmo, e ele respondeu

— Eu não posso pintar o novo se você nunca me trouxer o novo.

Não precisou de mais nenhuma palavra, o silêncio foi o símbolo da concordância. As lagrimas ainda queriam seu papel na história e insistiam em permanecer, mas Steve sentia algo nascendo dentro de si, algo que estava trocando suas partes de robô por carne humana. Sentir-se humano é algo extremamente difícil no mundo das máquinas, mas no mundo dos sonhos é apenas a sua humanidade que possuí voz.

Uma porta se formou entre as paredes

— Parece que a criança está te chamando

— Criança? — Perguntou Steven, mas o pintor nada disse, estava ocupado demais.

Caminhou até a porta e a abriu e quando a abriu já viu que não havia mais nada atrás, a sala desapareceu, o pintor também. Uma sala branca onde havia uma criança sentada

— Pai? — As palavras pegaram Steve de surpresa, que por muitos minutos fez do silêncio novamente a sua resposta.