Notas iniciais
Eu escrevi isso há muito tempo em uma madrugada solitária. Espero que vocês gostem :)

Dirk Strider sentia-se infeliz. Seu irmão mais novo, Dave, era o centro de sua vida nos dias de hoje. Mas ele sentia que o pequeno irmão não se importava de fato com ele. O que ele sentia pelo pequeno garoto era mais do que incondicional e mesmo assim, depois de tanto esforço, ele achava que não recebia exatamente o que deveria. Culpar o garoto? Não, não era isso que ele queria. Mas ele precisava de alguém ou algo para culpar, ou ele encontraria a verdade: O culpado era ele mesmo, por não saber como cuidar propriamente de uma criança.

Há muito tempo, quando ainda era jovem, muito jovem, tivera amigos verdadeiros. Três, para ser exato. Jane Crocker, a boleira feliz – ou era isso que ela deixava aparecer – que sempre estava lá quando qualquer um deles precisasse. Roxy Lalonde, uma grande amiga, uma irmã. Sofria de graves problemas de alcoolismo e depressão, mas mesmo assim estava sempre sorrindo, tentando animar seus mais queridos amigos. E finalmente, Jake English. O rapaz sedento por aventura e apaixonado por filmes que conquistara seu coração havia tanto tempo. Mas ele se fora junto com as meninas e agora ele estava sozinho. Sozinho no mundo para criar Dave.

“Você achará o arco-íris no final da estrada, Roxy. Ele estará lá, esperando por você, brilhando com o sol” ele se lembrava de ter dito isso a Roxy uma vez, porém desta vez, parecia que ele próprio precisava acreditar nessa frase. Ele olhou para o teto, deitado em sua cama. Queria desesperadamente dormir; queria sonhar, queria ver aqueles que ele amava novamente. Mas algo o impedia. Se seus olhos fechavam, mais preocupações surgiam e ele os abria novamente. Que lástima que era ter de viver desta maneira, preocupando-se com problemas que nem ao menos existiam.

Ele levou a mão ao rosto e ela voltou estranhamente molhada. “Lágrimas” concluiu ele. Estava chorando. Pois o homem se segurara por tanto tempo e era agora que as lágrimas decidiam aparecer. Como que sincronizado, Dave começou a chorar em seu quarto, alta e claramente. Dirk, entretanto, não era capaz de se levantar. Não podia mexer um músculo sequer. De repente, uma voz ecoou em sua cabeça. Não pôde deixar de reconhecer aquela voz, afinal já sonhara com ela tantas e tantas vezes: Jake English. O que ele dizia ainda era nebuloso, mas seu tom era reconfortante. A de Roxy logo se juntou à do garoto e Jane entrou logo em seguida. Aquela era sua família, lembrando-o de continuar. Os três podiam não estar mais ali com ele, mas sempre estariam observando-o. Sua mão se ergueu no ar, esperando encontrar alguém, porém nada. Tudo que seus dedos encontraram ao vasculhar o que havia em cima dele foi ar. Nenhuma mão quente em que pudesse se ancorar.

Por isso, ele se levantou, ainda pensando nos amigos e entrou no quarto de Dave. O pequeno garoto estava deitado em sua cama, chorando baixinho agora. Ele se agarrava a um pequeno urso de pelúcia que Dirk dera a ele. Dave insistia que odiava o brinquedo, mas ainda assim o segurava sempre que dormia. O irmão mais velho se agachou perto da cama do irmão mais novo, colocando a mão em cima da outra menor.

-O que aconteceu, homenzinho? – ele perguntou, a voz macia mesmo depois do choro. Dave se agarrou à mão dele, chorando.

-Eu tive um pesadelo. Ninguém gostava de mim – a voz da criança era tão cortante que as lágrimas retornaram aos olhos de Dirk, que abraçou o irmão, pousando a cabeça dele em seu ombro e pressionando-o fortemente contra seu peito, querendo mostrar que ainda estava ali. “Eu também tenho esse pesadelo, Dave. Só que ele é real” o loiro teve vontade de dizer, mas sabia que era inútil.

-Shhhh... Eu estou aqui, Dave. Está tudo bem agora. Está tudo bem... Eu gosto de você, pequenino. Seus amigos gostam. Não precisa ficar com medo desse pesadelo. – ele suprimiu um soluço, porém isso não passou despercebido por Dave.

-Bo... Você tá chorando também? Por quê? – a pergunta pegou Dirk de surpresa. Não esperava ser confrontado dessa maneira por seu pequeno irmão, principalmente quando este estava tão vulnerável.

-Eu estou chorando porque você está chorando, entendeu? – Ele limpou as bochechas de Dave – se você parar de chorar eu também paro, tudo bem?

O pequeno garoto acenou com a cabeça e as lágrimas pararam de vir lentamente. Este momento de quietude permitiu que Dirk observasse o irmão com atenção mais uma vez. As íris vermelhas de Dave chamavam atenção, fortes e escuras, com alguns pontos claros em um mar rubro. O pequeno nariz de Dave não era parecido com o seu próprio, não sendo reto e levemente arrebitado e sim arredondado na ponta. Havia uma pequena mancha na lateral esquerda do nariz, uma marca de nascença. Poderia ser facilmente coberta com um óculos escuro. Os lábios dele eram cheios, mesmo que pequenos. Finalmente, Dave levou uma das mãos até a bochecha de Dirk.

-Eu parei de chorar. Agora falta você – sorrindo levemente, Dirk limpou a região abaixo dos olhos com as costas da mão que não estava segurando Dave.

-Está melhor assim? – o garoto acenou e o homem prosseguiu – quer dormir na minha cama, só por hoje? Assim você não chora e eu também não choro.

-Tudo bem.

Dirk levantou, carregando o irmão no colo até seu quarto, onde cuidadosamente colocou Dave na cama e se deitou junto. Ele passou um braço em volta do menino, que se acomodou perto dele, como um pequeno pássaro na asa da mãe. Havia momentos como esse em que ele sabia que Dave realmente se importava com ele e realmente o amava. Eram esses momentos que ele adorava tanto e que o mantinham de uma tristeza contínua e profunda. Ele amava tanto aquela miniatura de pessoa que daria sua vida por ele. Qualquer coisa.

As vozes não estavam mais ali e Dirk sentia que tinha dito para Dave o que ele próprio precisava ouvir “Está tudo bem”. Por mais vazias e simples que parecessem essas palavras, eram cheias de conforto e calor. Quando pensou melhor e tentou se lembrar, percebeu que era isso que seus amigos falavam em seu ouvido. Que tudo estava bem. Pela primeira vez ele conseguiria dormir bem por pelo menos uma noite. Ele não tinha certeza se era por causa do fato de que seu irmão estava com ele, aquecendo-o, ou se era porque havia conseguido algum conforto. Tudo o que sabia era que na primeira vez em que fechou os olhos, pôde sentir o sono chegar e levá-lo, caindo em sono profundo. Ele ainda continuava infeliz, sim, mas sabia que precisava seguir em frente, afinal, seu arco-íris o esperava logo ali na frente.

-Dirk, que bom que veio! Estávamos esperando – sorriu Jake, abrindo os braços. Ele, Roxy e Jane estavam sentados em uma sala, cada um sentado em uma cadeira. Porém ainda havia uma vazia, de costas para ele.

-Eu... Estou morto? – ele perguntou, olhando para as próprias mãos. Não havia nada de diferente nelas para acreditar que não pertencia mais ao mundo dos vivos. Jake riu com a pergunta.

-Longe disso, meu amigo. Está aqui porque nós queríamos conversar. Sabe, nós quatro, mais uma vez. Têm sido chato aqui sem você, Dirk. – Jake o levou em direção à cadeira dele e o gesticulou para Dirk sentar. – Vamos lá, sente-se, queremos conversar.

Dirk sentou-se, olhando novamente para a cara dos amigos. Não haviam mudado nada desde o dia do acidente. Roxy sorria feliz para ele, o cabelo misturado de rosa e loiro. Um copo com alguma bebida encontrava apoio na mesinha na frente dela e seus dentes brancos quase brilhavam com seu sorriso, assim como seus olhos. Jane trazia seu sorriso pequeno, mas ainda assim deslumbrante. Seus olhos diziam “bem-vindo” e só aquilo já confortava imensamente o coração do sonhador. Jake sorria levemente, sem abrir os lábios e seus olhos ilustravam seu desejo de estar sozinho com Dirk, simplesmente para dizer “Eu te amo”.

Os quatro amigos conversaram, riram, a morte de três deles esquecida. Parecia que tudo havia voltado ao normal, desde problemas com Roxy bebendo demais e Jane provocando-a sobre isso. Todo e qualquer problema, romântico ou não, foi ignorado, concentrados em jogar conversa fora. O tempo parecia nem existir, e eles não poderiam se importar menos com esse fato. Depois do que pareceu horas e horas de conversa, sem serem abatidos por fome, sede ou sono, os amigos conversaram. Até que chegou a hora de Dirk partir.

-Veja só isso – exclamou Jake, olhando para um relógio de pulso, aquele que sempre estava com ele – já está na hora.

-Veja, você ainda tem esse pedaço de su... – começou Dirk, animado, porém a animação desapareceu rapidamente de sua voz. – hora do que, Jake?

-Hora de você ir – o sorriso leve continuava no rosto dele, fazendo com que Dirk arregalasse os olhos. Ele olhou ao redor deles, o ambiente todo estava se desfazendo em pequenas partículas. Roxy e Jane acenaram, desaparecendo junto com a sala até que só sobrou ele e Jake, que já começava a se despedaçar.

-O quê? Não, não, eu não quero ir. Não quero, quero ficar aqui com vocês. Quero conversar mais, quero morar com vocês aqui. Não vão embora de novo...

-Nos encontraremos outra vez, Dirk. Agora vá – Jake se inclinou para frente e deu à testa de Dirk um suave beijo, e desapareceu logo em seguida, desfazendo-se no ar.

Dirk acordou, fechando os dedos em um punho no ar. Seu rosto estava molhado novamente, porém agora muito mais úmido do que anteriormente. Pela luz, ainda era cedo, Dave ainda nem estava acordado. Ele assim correu até o banheiro, fechando a porta. Apoiou-se na pia, olhando para o próprio reflexo no espelho. Encontrou um homem com aparência cansada, os olhos alaranjados pálidos e inchados de choro. Havia olheiras sob seus olhos e as lágrimas ainda não haviam acabado de descer. “Como você é idiota, Dirk Strider” ele pensou, esmurrando a pia. Idiota por pensar que seu arco-íris chegaria tão cedo. Tudo porque seu irmão dissera que pararia de chorar se ele chorasse. Não, o que ele realmente precisava não estava a seu alcance. Precisava de um demorado abraço de sua família adotiva, seus amigos. E depois de ter sonhado o que sonhou, ficou ainda mais certo disso.

Pensou na última vez que vira os amigos. Despedira-se deles na saída de seu apartamento; não esse, um mais antigo. Eles saíram para comprar alguma coisa, alguma coisa que Dirk era incapaz de lembrar. Enquanto os amigos iam, o rapaz louro decidiu ficar em casa para arrumar as coisas para o almoço. Roxy e Jane nem haviam olhado para ele, entretidas em uma discussão boba e de brincadeira. Jake sorrira e o beijara levemente nos lábios, sussurrando um “Até logo”. Então Dirk esperou. Esperou dez, quinze, vinte minutos, mas nada. Já era tempo de eles terem voltado, o mercado era a algumas quadras do prédio, porém nada. Até que decidiu olhar por si mesmo. Desceu as escadas e abriu a porta de entrada do prédio. Sabia que os amigos tinham ido de carro, havia visto Jane pegar a chave, por isso nem se incomodou em ir até a garagem checar. Porém ao dobrar a primeira esquina, uma parede de preocupação começou a se erguer. Um acidente acontecera e havia muita gente em volta.

Foi incapaz de chegar mais perto. Esperando que estivesse errado, pediu para uma mulher verificar como eram as vítimas e se estavam bem. A mulher voltou chocada.

-Segundo o policial, não houve sobreviventes. E as vítimas foram dois jovens e um homem aparentemente bêbado. Era algum conhecido? – Dirk não conseguiu responder, abriu caminho pela multidão a empurrões, caindo de joelhos quando viu os corpos sendo retirados dos carros.

Não podia acreditar no que seus próprios olhos informavam. Era uma algazarra, uma confusão de fumaça, sons e pessoas. "Foram dois jovens. Não três. Talvez ainda haja alguma esperança..." porém ele sabia que eram mínimas. Aquele fora uma acidente destruidor, os carros haviam batido de frente. Mal registrou as vozes das pessoas ao redor, ou de um policial pedindo para que se levantasse. "Não" sua mente gritava. Sentiu um gosto terrível subindo-lhe à boca, mas não permitiu que fosse além. O rapaz viu alguns paramédicos indo até um dos carros, retirando um corpo.

Ao ver cabelos louros e rosas, manchados de sangue, todas as suas esperanças de ter um sobrevivente se foram. Os três estavam mortos. Com essa conclusão, Dirk sucumbiu à dor e perdeu os sentidos.

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Dirk despertou de seus devaneios, curvado sobre a pia do banheiro e tremendo incontrolavelmente. Ele suava e suas unhas penetravam em sua própria carne. O homem tentou regular a respiração, porém não obteve sucesso. Aquilo só o tempo poderia parar.

Desgrudando-se da pia, ele recuou até encontrar uma parede, onde deslizou até sentar-se no chão. É tolice pensar que há um arco-íris no fim do caminho. O arco-íris só acontece quando há sol. E a minha chuva nunca vai acabar. Meus fantasmas nunca vão acabar.

Notas finais
É isso, minha gente bonita. Meio (muito) deprê, mas espero que tenham gostado de qualquer jeito :)
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!