O seu léxico
7 Capítulo VI
Quezília
que.zí.li.a
Desentendimento, discussão, briga
Embirração, antipatia
Transtorno, importunação
O dia do esperado terceiro encontro chegara. Harry esperava Draco em Hogsmeade, em frente ao Três Vassouras. Estava mais frio que o habitual, e Harry duvidava que conseguissem ver as flores do tal Jardim Sei-lá-o-quê.
Draco Malfoy chegara com sua pomposidade habitual. Os cabelos loiros estavam cobertos por uma grossa touca de lã verde-musgo, usava coturnos negros, assim como o seu pesado sobretudo. Seu cachecol estampava as cores de sua casa de Hogwarts, embora não tivesse o brasão da Sonserina. Talvez Draco só gostasse muito da cor verde.
Harry, por sua vez, não estava tão elegante. Ele usava tampões de orelhas pretos com uma touca de mesma cor. O cachecol era o mesmo de seus tempos de escola, e seu casaco não era, nem de longe, tão bonito quanto o de Draco. Na verdade, seu casaco era bem feio, mesmo sem compará-lo ao de Malfoy.
Tratava-se de uma monstruosidade branca com detalhes geométricos em preto, que se pareciam com aqueles tapetes indianos bregas. Nas linhas dos botões, porém, haviam faixas pretas preenchidas por flores vermelhas desconhecidas a qualquer botânico que se atrevesse a olhar o desenho. Pareciam ser tentativas de rosas, mas “tentativa” é a palavra-chave.
O casaco ia até a metade das coxas, e era grande demais em Harry. A gola era alta, e os botões eram daqueles protuberantes e detalhados, e tinham uma cor enferrujada horrível.
Draco torceu o nariz e olhou para os lados, como se procurasse alguma testemunha do que estava acontecendo. Ele não poderia ser visto com alguém vestido daquela maneira. Nem morto.
Draco colocou as mãos nos ombros de Harry. — Quanto te pagaram para você se vestir… assim, como um tapete brega, velho e feio? — Ele perguntou. — Sabe que eu não vou sair com você desse jeito, não sabe?
Harry bufou. — Você é um ridículo. As minhas roupas estavam todas sujas. Sobrou esse casaco velho.
— Quem te deu esse casaco? Porque eu não acredito que você mesmo tenha escolhido uma monstruosidade dessas.
— Eu não sei. Como eu disse, ele é velho.
— E por que não se livrou dele?
Harry ficou em silêncio.
— Enfim, vamos comprar um casaco novo para você. — Disse Draco, segurando o braço de Harry.
Harry já havia se acostumado à sensação de aparatar. Bem, ainda era como ser forçado por um tubo de borracha, mas Harry já havia passado por coisa pior.
Eles aparataram perto de um beco da Londres trouxa. Draco praticamente o arrastou para a loja mais próxima.
Ao entrarem, ele cruzou os braços e esperou. Harry suspirou, resignado, e olhou em volta.
— Eu não achava que já estava na hora de presentes. — Disse ele. — Mas já que você insiste.
— É claro que eu insisto, Potter, isso é uma questão de honra! — Ele disse. — Eu não vou sair por aí com você vestido assim!
A atendente da loja observava a cena com um certo sorrisinho em seu rosto. Provavelmente pensava que eram um casal.
Mas eram, não eram?
Harry procurou um casaco que gostava, um que não fosse idêntico ao de Draco.
Ele acabou optando por um casaco preto com pelinhos brancos no capuz. Draco o encarou.
— Você é uma criança?
— Cale a boca.
Não demorou muito para que os dois aparatassem novamente; dessa vez, para o lugar do encontro.
Era um lugar um tanto simples por fora. Tinha uma cerca viva, um portão de ferro negro e adornado que guardava as flores daquele jardim.
Os dois entraram sem cerimônias, e Harry logo segurou a mão de Draco, que parecia outra pessoa da de poucos minutos atrás, que havia jogado seu casaco no lixo.
Ele estava todo sorrisos. — Sorria também, Potter. — Disse ele, e Harry forçou um riso. — Eu acho que você vai gostar disso, venha.
E Draco o guiou por entre as flores. Harry não conhecia nenhuma, e também não entendia como poderia haver flores naquela época do ano.
Draco parou em frente a um campo cheio de flores brancas. Tinham as pétalas longas e pontudas, e ainda haviam alguns botões que não desabrocharam.
— E então? — Perguntou Draco.
— E então o quê? — Perguntou Harry. — Você espera que eu saiba que flores são essas? Sinto muito, mas se você quisesse alguém que sabia sobre plantas, você deveria ter começado a namorar com o Neville, e…
— São lírios. — Draco disse, soltando a mão de Harry. Parecia extremamente irritado com o pequeno monólogo de Potter.
Oh.
Harry o encarou, surpreso. Eram lírios? Ele olhou para as flores brancas novamente. Agora que sabia o que eram, as olhava com um certo assombro. Por que Draco havia o trazido para ver aquelas flores? Será que ele sabia o nome de sua mãe? Mas como ele saberia?
— Você é o-menino-que-sobreviveu. É claro que todos sabem o nome dos seus pais, seu tapado. — Draco revirou os olhos. — Eu pensei que você fosse gostar de ver lírios no inverno, mas parece que eu me enganei. — Draco disse, claramente desgostoso.
— Eu… realmente não sei nada sobre plantas. — Harry disse. — Mas obrigado por me trazer aqui, Malfoy. Não sabia que se importava.
— Não me importo. É tudo pelas aparências, Potter.
— Mas é claro… — Harry riu, segurando a mão de Draco novamente.
Os dois andaram um pouco pelo jardim, até que chegaram a um banco de parque, ao lado de uma árvore de flores lilás. Era uma árvore baixa, de tronco não muito grosso. — Isso é uma glicínia. — Disse Draco, percebendo que Harry encarava a árvore.
— Isso não me diz nada. — Disse Harry. — Como eu disse, eu não sei nada sobre plantas. Por que me trouxe aqui?
— Além de ser um lugar público, estamos na melhor época do ano. — Disse ele. Sinalizou para o redor, e completou: — Olhe essas pessoas.
Harry olhou para os outros ali presentes. Alguns já haviam percebido a presença dos dois ali, e quando os olhares destes e de Harry se encontraram, eles desviaram os olhos. Pareciam confusos, o que fez com que Potter suspirasse.
— Pelo menos ainda não vieram tirar satisfação. — Disse ele. — Espero que isso não aconteça com frequência.
— Se prepare, porque é algo frequente, sim. — Disse Draco, amargurado.
— As pessoas te param na rua? — Perguntou Harry, genuinamente curioso.
Draco suspirou, olhando para o céu. — Às vezes. — Ele murmurou. — Mas não mais. Bem, eu ainda recebo cartas ameaçadoras e trotes, mas depois que eu pedi desculpas, as pessoas pararam. A maioria, pelo menos.
Harry observou o semblante de Malfoy.
Seus olhos cinzentos eram guardados por cílios longos e olheiras profundas, que indicavam um sério problema de insônia. Sua pele branca e pálida revelavam que ele não aproveitava o Sol da Inglaterra, quando ele decidia aparecer.
Ele tinha um rosto angulado e os lábios finos, o nariz pontudo. As sobrancelhas eram finas e tão loiras quanto os cabelos, que pareciam quase brancos.
Ele era bonito. Querendo ou não admitir, Harry sabia que Draco era muito bonito. Se ele não fosse um pé no saco, Harry com certeza conseguiria se ver apaixonado por ele.
Claro, não era só a beleza de Draco que chamava atenção. Seu porte elegante e altivo, sua inteligência e sagacidade. Seu charme. Haviam muitos motivos para apaixonar-se por Draco Malfoy.
Bem, haviam muitos motivos para não se apaixonar, também. Havia sua teimosia, seu ar de superioridade, sua ganância, seu egocentrismo e egoísmo… Além de tudo, era interesseiro.
Sim, haviam muitas razões para não se gostar de Draco Malfoy.
— Por que você está me encarando, Potter? — Draco perguntou, despertando Harry de seus pensamentos. — Eu sei que eu sou lindo, mas ficar me comendo com os olhos desse jeito já é demais…
Ah. Como Harry poderia ter se esquecido da sua arrogância?
— Enfim, sobre o que estava pensando? — Perguntou Draco.
— Sobre como você é um pé no saco. — Disse Harry.
Draco franziu o cenho, indignado. Harry deu uma risada, e a expressão revoltada sumiu do rosto de Malfoy.
Os dois encararam o campo de flores à frente. Tinham várias pétalas brancas sobrepostas uma sobre a outra meticulosamente. Era realmente incrível como a natureza conseguia produzir coisas tão belas.
— São crisântemos. — Disse Draco. — Eu tenho uma coisa para te pedir.
— É um beijo? Porque se for um, não precisa pedir… — Harry disse, rindo, mas ao se virar para Draco, porém, percebeu que o loiro falava sério. — O que foi?
— Eu sei que eu não sou uma pessoa fácil. — Ele começou. — Mas eu honestamente não quero que você mostre o quanto eu sou ruim em relacionamentos. Eu não quero que você saia por aí falando como eu não sei nada sobre romance, ou como eu sou um péssimo namorado. Eu não quero que você fale mal de mim pelas minhas costas, porque eu já estou cheio de gente assim. — Disse, sério. — Eu não quero que o meu namorado seja alguém como todos os outros. Eu sei que a minha presença e a minha personalidade causam quezílias aonde quer que eu vá, mas eu realmente não quero que nosso "relacionamento"... — Fez aspas com os dedos. — Seja como todos os outros que eu já tive.
Uau. Aquilo era sinceridade pura saindo de Draco Malfoy. Um momento de vulnerabilidade que não se vê todos os dias. Harry estava humildemente embasbacado com o rumo que aquela conversa tinha tomado.
E ele não havia pensado exatamente nos defeitos de Draco? Não havia feito uma lista mental do porquê não se apaixonar pelo loiro? Não havia sido, naquele momento, como todos os outros?
Veja bem, Harry não gostava de Malfoy. O tolerava, o respeitava; mas não gostava dele. Apenas não nutria aquele ódio de antigamente.
Também não queria que seu relacionamento com Draco fosse como todos os outros. Ele não queria a idolatria que todos insistiam em ter por ele, por ser O-menino-que-sobreviveu, por ser o Eleito. Ele não queria aquela fé cega, não queria toda a admiração por uma vida que ele não escolheu.
— Eu não quero que isso seja um erro, entende? — Draco riu, sem humor. — Mesmo que não seja de verdade… Eu não quero passar por mais um relacionamento ruim.
Harry colocou uma de suas mãos no ombro de Draco. — Não vai ser um. — Ele disse. — Eu prometo que você não vai se arrepender. Posso até fazer um voto perpétuo aqui, agora. — Ele disse, fazendo com que Draco soltasse uma risada. — Você não precisa se preocupar com isso. — Ele disse, passando o seu braço pelos ombros de Draco, aproximando-se dele. — Eu nunca imaginei que você ficaria preocupado com uma coisa dessas. Na minha mente, você parece tão inatingível.
— Eu não sou inatingível. Você deveria saber disso melhor do que ninguém. — Disse Draco. — Ninguém é inatingível, inalcançável, invencível. Todos caem às vezes. — Então, ele tremeu de frio. — Mas vamos sair daqui, porque eu estou congelando. Vamos ir ao café do jardim.
— Aqui tem um café? — Perguntou Harry. — Como eu não o vi ainda?
— Ele fica num lugar mais afastado, e esse jardim é mais como um bosque. É bem grande.
Os dois andaram em silêncio até o suposto café. Era uma construção simples, as paredes de tijolos brancos, imensas janelas enfeitando o pequeno lugar. A porta estava fechada, mas tinha um sinal de "empurre" no vidro.
Eles adentraram o lugar, um sininho tocando assim que colocaram os pés naquele lugar quentinho e aconchegante. Sentaram-se numa mesa e fizeram seus pedidos para uma garçonete.
Foi Harry quem quebrou o silêncio.
— E você, já caiu muitas vezes? — Perguntou, apoiando o seu rosto em uma de suas mãos, o cotovelo na mesa. — Você me disse que todos nós caímos.
— Já. Meu sexto ano foi basicamente isso. — Disse, suspirando. — Eu, caindo e levantando. Por todos os motivos errados. — Ele terminou, desgostoso. — E o Sr. Potter? Caiu muitas vezes?
— Eu caí muito, sim. — Ele respondeu. — Quando eu perdia as pessoas… Era como se eu estivesse caindo sem nunca chegar ao chão. Não tinha um fundo do poço, entende? Eu ficava esperando pelo pior momento para que eu pudesse me levantar, mas como você pode se levantar se você ainda está caindo? — Draco o encarou, a expressão neutra. — Isso não faz sentido nenhum, não é?
— Não, não. Faz todo o sentido. — Disse Draco. — Foi assim para mim, depois da batalha de Hogwarts. Depois que eu perdi o Crabbe. Era como se todo dia fosse o pior, e nunca melhorava. É como se você dissesse "Este é o fundo do poço, agora eu vou poder me levantar" e aí o dia seguinte se prova pior. Eu sei como é.
Harry assentiu. — É exatamente assim. — Ele disse. — Mas aí… A gente procura ajuda. A gente leva um dia de cada vez.
— É… — Draco murmurou. — Mas não é tão fácil.
— Não disse que era.
— Você conseguiu esquecer?
— Não se trata de esquecer. Se trata de aprender a lidar com as cicatrizes que a guerra nos deixou. Se trata de não desistir. — Disse Harry. Draco desviou o olhar, parecendo estranhamente distante.
— Malfoy, você sabe que você tem que deixar tudo para trás, não sabe? S você estiver com problemas, você pode pedir ajuda…
— Eu não vim aqui para uma sessão no psicólogo, Potter. — Draco disse, cansado.
Harry pressionou seus próprios lábios um contra o outro. Draco parecia tão quebrado, tão exausto daquele tópico. Era impressionante a maneira como ele conseguia mudar de humor tão rapidamente.
A garçonete chegou com os seus pedidos, e assim que ela deixou os cafés super-elaborados do lugar na mesa, Draco ergueu a mão para pegar o seu copo. Harry, então, pegou a mão dele e entrelaçou os seus dedos com os do outro.
— Eu entendo se não quiser falar sobre isso… — Disse Harry. — Mas saiba que, quando você quiser, eu estarei aqui.
Draco lançou um leve sorriso para Harry, que escutou um suspiro ao seu lado. A garçonete ainda não havia ido embora.
Sentiu seu rosto esquentar, largando a mão de Draco rapidamente, ele pegou o seu copo e engole o líquido quente sem pensar duas vezes, queimando a sua língua em seguida.
Ele colocou a língua para fora, abanando-a com uma das mãos enquanto Draco ria.
Ele preferia ver o loiro rindo do que triste daquela maneira, mas ainda assim, ele lançou o dedo do meio para Draco, que só riu ainda mais.
É, era melhor assim.
Fale com o autor