O seu léxico
10 Capítulo IX
Silente
si.len.te
silencioso
— Por que nos chamou aqui, Harry? — Hermione perguntou, sentando-se em uma das poltronas da pequena sala de estar que Harry tinha em Hogwarts. Ronald se sentava na poltrona oposta, e Harry estava em pé, na frente da lareira. — Ah, e que maneiras as nossas, sente-se Harry. — Ela começou a se levantar, mas o moreno balançou a cabeça.
— Eu tenho notícias. — Ele disse. — E é melhor que vocês dois estejam sentados para ouvir.
Hermione sentou-se, dando-se por vencida. Harry comprimiu os lábios. Já não queria mais fazer aquilo.
— Bem, vocês com certeza devem ter visto a manchete do Profeta Diário essa semana.
— De você e do Malfoy? Quem não viu? — Perguntou Hermione, lançando um sorriso para Harry.
— Então, é mais ou menos sobre isso que eu queria falar. — Disse ele. Os dois amigos o encararam, olhares curiosos, rostos cheios de expectativas. — Eu e o Draco, nós… Nós estamos juntos.
Hermione franziu o cenho, enquanto o queixo de Ron caiu. — Antes que vocês gritem por eu estar com o Draco, eu tenho outro anúncio a fazer. — Disse Harry. — Eu sou… bissexual. Isto é, eu gosto de homens e mulheres. Igualmente.
A sala mergulhou em silêncio. Harry brincava com os seus dedos, enquanto seus olhos permaneciam grudados em seus sapatos, que repentinamente pareciam muito interessantes. Os segundos se passaram e Harry procurou toda a sua coragem Grifinória, mas não conseguiu encontrar o suficiente para poder olhar para os seus amigos.
Pronto, ele tinha os perdido. Tinha perdido seus dois melhores amigos no mundo inteiro. E a culpa era dele. Ou não era? Afinal, de quem era a culpa por ele ter nascido assim?
Harry sentiu os olhos arderem, e ele procurou alguém a quem culpar, mas não havia ninguém além de si mesmo. Era um idiota. Draco havia o alertado sobre as reações deles, mas ele não quis pensar no pior, quis ser otimista até o final, e olha só o que aconteceu.
— O Malfoy?! — Ronald gritou, tirando Harry de seus pensamentos. Seu cenho estava franzido, seu queixo ainda caído, sua boca tentando formar palavras, mas suas cordas vocais não colaboravam. — De todas as pessoas, você escolheu o Malfoy?!
— Ronald, eu acho que esse não é o ponto mais importante dessa conversa. — Disse Hermione. — Não é mesmo, Harry? Não é isso que te preocupa, não é mesmo?
— É… — Ele disse, desviando os olhos novamente.
Ele percebeu Hermione se levantando e indo em sua direção. Dois braços finos o envolveram pela cintura, e ele demorou alguns segundos para processar o que acontecia e abraçá-la de volta.
— Você ainda é você, Harry. Continuamos gostando de você, não importa se você gosta de caras ou de garotas. Continuamos te amando, não importa o quê, entendeu? — Ela disse, sorridente. — E eu não consigo nem imaginar como isso deve ter sido difícil para você, como foi difícil arranjar a coragem para nos contar. Eu estou muito orgulhosa de você, e eu agradeço muito por ter nos contado.
Um outro par de braços envolveu os dois de maneira um tanto bruta, mas afetuosa. — É, seu grande idiota. — Disse Ronald. — Eu sei que a maioria das famílias puro-sangue não aceita isso muito bem, mas… Saiba que nós estaremos aqui para você. Os Weasley, quero dizer. Mesmo que não estejamos familiarizados com isso… Mesmo que eu não saiba nada do assunto, e provavelmente vou cometer umas mancadas pelo caminho, saiba que você ainda é meu melhor amigo.
— Desde quando você ficou tão articulado, Ron? — Hermione perguntou, rindo.
— Deve ser a convivência. — Ele respondeu, divertido. Então, ele fechou a cara. — Mas eu ainda quero entender essa história com o Malfoy.
Os três se separaram, e as lágrimas finalmente correram pelo rosto de Harry. Não eram mais lágrimas de desespero, ou de raiva, ou de tristeza. Aquelas lágrimas que lhe escorriam pela face eram lágrimas de puro júbilo.
Ele riu, e o ar tentou sair por seu nariz de uma vez só, o que fez com que muco saísse dali, fazendo com que os dois amigos se afastassem. Aquilo fez com que Harry risse ainda mais, o que só piorou a situação.
— Aqui… — Hermione lhe passou um lenço, sem esconder a expressão de nojo.
Harry assoou o nariz, ainda chorando.
— Obrigado. — Ele disse, bem baixinho. Erguendo a cabeça, ele lançou um sorriso emotivo para os amigos, que pareciam extremamente felizes e orgulhosos. Harry imaginou como seria ter essa conversa com os seus pais, e parte de si lamentou pela aceitação que ele nunca seria capaz de sentir. Pelo menos não de seus progenitores.
Suspirou, afastando aqueles pensamentos da cabeça. Aquele era um momento feliz, e ele não queria estragá-lo sendo depressivo. Ron sorriu para ele. — Obrigado por nos contar, Harry. — Hermione assentiu.
Tinha os melhores amigos que alguém poderia querer.
— Deixa eu ver se eu entendi. — Ron disse, suspirando. — Vocês se encontraram na reunião de cinco anos, você o insultou. — Harry assentiu. — Foi pedir desculpas e os dois transaram… Como chegou a isso?
— Ron! Não seja indiscreto! — Hermione disse, franzindo o cenho.
— Tudo bem, Hermione. — Harry riu. — É só que… Ele já tinha pedido desculpas publicamente, e ele parecia… mudado, sabe? Ele está mudado, e muito. Dava para perceber que todos os perdões que ele pedira não foram da boca para fora, e eu acho que foi naquela noite que eu vi ele por quem ele realmente era, entende?
— Não. — Disse Ron. — Mas tudo bem, prossiga.
— Nós conversamos, e estávamos meio bêbados, e… Só aconteceu. — Harry deu de ombros.
— E por que não contou isso para nós, Harry? — Hermione perguntou.
— Como se vocês fossem entender. Eu… Eu não estava preparado para me assumir ainda, e eu acho que só entrei em pânico, porque era o Malfoy.
— Faz sentido. — Ron assentiu. — E então você o encontrou de novo nesse encontro às cegas que a Hermione preparou tão habilmente para você?
— Tão habilmente que ela nem sabia com quem eu iria me encontrar… — Harry bufou. Hermione pareceu ofendida.
— Olha, eu tinha um palpite, ok? Mas eu sabia que se eu dissesse quem era, você iria fugir do encontro.
— Fugiria mesmo. Depois de tudo que aconteceu? Nem olharia para trás. — Riu Harry. — Mas foi bom, de verdade. Nós tivemos que conversar sobre o que aconteceu, e nós percebemos que a culpa não foi só da bebedeira. Nós tivemos a chance de conversar de novo, e… sei lá, quanto mais a gente conversa, mais ele parece…
— Uma pessoa? — Perguntou Ron.
Harry assentiu. — Uma pessoa gostável. Descobrimos que somos só… duas pessoas, entende? Somos só duas pessoas comuns que acabaram tendo uma segunda chance na vida. Nós conseguimos entender um ao outro, e eu gosto da maneira em que ele arranja intriga por tudo. — Disse Harry. Parte daquilo era verdade. Ele achava divertido a maneira que Draco conseguia irritá-lo, provocá-lo por qualquer coisa. Era divertido, sabe? Não tinha que segurar sua língua quando estava com ele, e aquilo era uma novidade para Harry, que passou toda a sua infância ouvindo que ele tinha que ficar calado e obedecer. Poder ser obstinado, atrevido e impertinente com alguém era divertido. Talvez fosse por essa mesma razão que os dois não conseguiam se deixar em paz em sua época de escola.
— E então vocês começaram a namorar? — Perguntou Hermione. — Em qual encontro?
— Bem, foi meio implícito, entende? Nenhum de nós virou para o outro com um buquê de rosas na mão e ajoelhou, entende?
— Eu disse namoro, não casamento. — Hermione riu. — Mas eu estou feliz por você, Harry. Embora… Embora eu não goste muito dele, por… você sabe.
Sim, Harry sabia, e era exatamente por isso que ele admirava ainda mais Hermione e Ron. Draco os infernizara durante suas vidas escolares, chamando-a de sangue-ruim, insultando a família de Ron, entre várias outras coisas. Era muito importante que eles aceitassem Draco. Mesmo que, bem, eles não fossem realmente um casal.
Como se o maldito fosse invocado só por Harry pensar em seu nome, uma coruja entrou o recinto, deixando uma carta no colo de Harry.
“Harry,”
Ah, então era uma carta falsa.
“Espero que tudo tenha corrido bem entre você e os seus amigos. Caso tudo tenha corrida bem, parabéns! Fico feliz por pelo menos o seu lado ter bom senso.
Caso as coisas não tenham corrido bem, podemos chorar as nossas perdas juntos. Eu estou indo para Hogsmeade hoje, se você quiser me encontrar basta aparecer na frente da Dedosdemel às oito. Pode aparecer mesmo se tudo tiver dado certo. Você me enche tanto o saco que não consigo mais aguentar nenhum ambiente silente.
Até (mais tarde, talvez?)
Draco.”
Harry bufou, mostrando a carta para os dois amigos. Ronald franziu o cenho, com nojo. — Ver a doninha agindo dessa maneira é muito estranho. — Ele disse.
— Vocês querem ir comigo? — Harry perguntou, sem pensar. Assim que as palavras deixaram a sua boca, ele se arrependeu.
— Uh... Claro! Por que não? — Hermione disse.
— Porque ele é um Malfoy, Hermione. — Ron disse, fazendo com que ela revirasse os olhos.
— Vamos lá, não vai ser tão ruim! — Ela disse. — Quer dizer, eu espero…
Os dois continuaram discutindo, para ver se iam ou não iam. Enquanto isso, Harry se amaldiçoava por ser tão burro.
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