O seu lugar é comigo
1 Capítulo Único
Notas iniciais
– Capí, por que tu não chama a Gi pra sair?
Tudo havia começado com uma simples sugestão de Hugo. Capí agora estava sentado em um banco na sala onde ensinava português aos analfabetos. Com os olhos fixos no vazio, tentando pensar no porquê de ter decidido fazer aquele convite à Gislene.
– Gislene! – Chamou a garota durante o horário de almoço. – Eu posso falar com você?
– Claro, Capí. – Ela pareceu preocupada. – Tem algo errado?
– Não exatamente, eu queria saber se... Se você iria querer... É...
Gislene se aproximou um pouco mais de Capí. Posicionou uma de suas mãos no braço do amigo, como se querendo transmitir conforto a ele. O jovem Ítalo respirou fundo, a fim de tomar coragem para fazer o convite.
– Você gostaria de se juntar a mim hoje à noite?
– Me juntar a você? Você tá planejando dar mais aulas pros alunos analfabetos? O que a Kanpai te disse, Ítalo? Você ainda não se recuperou completamente, não tá em condições de dar mais aulas. Mas tu é teimoso mesmo, não é?
Capí riu baixo. Ele estava realmente planejando dar aulas extras, mas não era esse o objetivo da conversa.
– Não é isso, Gi. Eu queria saber se você gostaria de jantar comigo.
Gislene paralisou. Surpresa. E Capí se preparou para as perguntas que ela certamente faria em seguida. Ele ainda estava tomado pelo nervosismo, mas não havia mais como voltar atrás.
– Eu adoraria! – Simplesmente disse. Nada de interrogatório, ela somente aceitou, com um sorriso do tamanho do mundo. Sorriso esse que fez o coração do Capí acelerar.
Ele não se arrependera. Não. Sem arrependimentos. Só estava nervoso. Capí nunca havia tido qualquer aproximação amorosa com alguém, isso era novo para ele, então era normal se sentir aflito.
– Chegou quem faltava, véio – Viny apareceu, seguido de Caimana, Hugo e Índio.
– Como tá o coração, Capí? – Caimana perguntou docemente, se aproximando de Capí e fazendo carinho em uma cabeça.
– Eu não sei dizer... – Ítalo deu um riso nervoso.
– Não tem o que temer, véio. A gente tá aqui pra te ajudar. Não vamos deixar nada dar errado, tá certo?
Capí meneou a cabeça.
– Então, primeiro temos que decidir a roupa que você vai usar. – A elfa começou a falar, abrindo uma sacola que trouxera, exibindo dois trajes para Capí. – Qual você prefere? Algo mais sofisticado, ou mais confortável?
– Algo mais sofisticado. Ele quer impressionar a Gislene, não quer?
– Não, Hugo. Não é assim que a banda toca. O Capí quer que a Gislene goste dele pelo que ele realmente é. Ele não vai criar um personagem por uma noite, só pra impressionar.
– Então só escolhe o mais confortável e pronto, oras. – Hugo se exaltou.
Caimana lançou um olhar repreensivo para Hugo, e ele foi bufando até o canto da sala, então sentou em uma cadeira e se calou.
– Quem chamou o adendo aqui? – Índio murmurou.
– Você cala a boca, Índio, que ninguém aqui pediu a sua opinião!
– Gente, gente. Sem brigas, por favor, o foco aqui é o Capí. – Caimana apartou, e se voltou para Capí logo em seguida. – Qual roupa você escolhe, Capí?
O garoto olhou para as duas roupas, e ficou alternando o olhar entre uma e outra, tentando decidir qual seria a melhor opção. Ainda hesitante, ele apontou para a roupa o cabide da direita, a mais sofisticada.
– Pronto, agora o mestre da sedução aqui vai te dar algumas dicas. – Caimana falou, se referindo ao namorado.
– Então, véio, o que eu tenho pra te dizer é o seguinte: Seja você mesmo! A Gislene já gosta de você, tudo o que você precisa é agir naturalmente.
– Mas e se ela me vir só como um amigo? – Capí suspirou temeroso.
– Se é essa a visão que ela tem de você, pode ter certeza de que isso vai mudar hoje à noite.
– Agora já tá na hora do Capí ir se arrumar – Caimana disse olhando no relógio. – Vai pra casa, toma um banho, passa um perfume bem cheiroso e coloca essa roupa.
A loira se aproximou do amigo e deu um beijo em sua bochecha, querendo passar confiança. Viny deu dois tapinhas de leve em seu braço. Índio acenou com a cabeça. E Hugo esperou que todos os outros fossem embora para, enfim, falar com Ítalo.
– Você tá achando isso muito engraçado, não é, cabeção?
– O que? Por que você acha isso? – Idá respondeu rindo.
Hugo colocou a mão no ombro do amigo, em um gesto amistoso, oferecendo seu apoio.
– Eu conheço a Gislene, eu sei que ela gosta de você, e também sei que vai dar tudo certo. Então, faça como o Viny disse, seja você mesmo. Não tem como não se apaixonar por você.
Capí abriu um grande sorriso. Ele via honestidade na fala de Hugo. Os dois pixies então se abraçaram.
– Boa sorte com a Gislene, pequeno gafanhoto – Hugo brincou antes de ir embora.
Ítalo ainda ficou mais algum tempo na sala, pensando no que seus amigos disseram, tomando coragem para sair e se preparar para o tão esperado encontro.
O jantar seria próximo ao Pé de Cachimbo, aproveitando que Fausto estava viajando mais uma vez – como tinha feito diversas vezes durante o ano anterior. Os pixies tinham colocado uma pequena mesa redonda e duas cadeiras. Alguns postes de luz clareavam os arredores. A floresta estava em silêncio, como se a escola estivesse desejando ao máximo que esse encontro desse certo. Tudo pelo seu aluno favorito.
– Então, está tudo pronto? – Viny perguntou alguns minutos antes da hora marcada para o encontro.
– Ela tá vindo! A Gislene tá a caminho! – Caimana correu apressada.
Todos os pixies desejaram sorte ao amigo antes de saírem. Capí ficou escorado a uma árvore, esperando que sua dama chegasse. E quando aconteceu, ele ficou sem palavras.
Gislene usava um vestido branco simples, na altura da coxa, e um cinto vermelho. Seus cabelos estavam presos em uma trança lateral malfeita. E ela usava uma sapatilha vermelha. De fato, suas vestimentas não eram extravagantes, mas ela estava simples e unicamente linda.
– Se você me permite dizer, você está linda! – Capí se aproximou da garota vagarosamente. Pegou a mão de Gislene e deu um leve beijo, fazendo a morena corar.
– Ah, que isso, Capí. – Ela sorriu, encabulada. – Você também tá muito bonito.
Soltando a mão de Gislene, Ítalo caminhou até a mesa e puxou uma cadeira, para que ela sentasse. Ela sorriu e sentou. Capí puxou a outra cadeira e se sentou. Eles ficaram em silêncio. Gislene sem saber o que dizer e Capí nervoso demais para pensar em alguma coisa.
– Então... – Gi tentou puxar conversa. – Você ficou sabendo que a Janaina entregou o filho dela para a Guarda?
– Sim, eu soube. Inclusive, foi até o Hugo que me disse. Ele estava pronto para assumir a criança, por amor à baianinha dele. Só que ela já tinha decidido que ia dar o filho pra Guarda de Midas. Só que mesmo assim, ela ficou tão feliz pelo gesto nobre do Hugo, que agora eles estão namorando de novo, sem ressentimentos.
– Deixa eu adivinhar... Teve dedo seu ai?
Capí sorriu timidamente.
– Não dessa vez. O Hugo tá se tornando a pessoa melhor que ele sempre quis ser. Foi decisão dele, então eu não mereço o mérito.
– Você não tem jeito mesmo, não é? Você tem a capacidade de fazer coisas maravilhosas, mas não assume, não admite que foi você quem fez. Por quê? Capí, você inspirou o Idá a ser uma pessoa melhor, simplesmente por você ser um exemplo. Não só o Hugo, mas a mim também.
Gislene falava com tanta convicção, mas quando ela pronunciou essas últimas palavras, ela abaixou o tom de voz, envergonhada.
– Você sempre foi uma pessoa boa, Gi.
– Eu morava na favela, Capí. Eu convivi com o pior tipo de gente que você pode imaginar. Quando eu cheguei aqui na Korkovado, eu não tinha muita fé nas pessoas, até que eu te conheci. Esse seu jeitinho modesto, simples, sempre querendo ajudar os outros. Isso me fez mudar. Eu aprendi a confiar mais nas pessoas, acreditar mais nelas, sabe?
Capí abriu a boca para dizer alguma coisa, mas Gislene não o deixou falar.
– Capí, eu te admirava muito. Você era o meu maior exemplo.
– Era? Então isso mudou? – Ele se entristeceu.
– Era, porque durante aquelas aulas de português que a gente dava, as suas aulas de Segredos do Mundo Animal, quando você cuidou de mim, algo mudou... – Gislene fez uma pequena pausa, receosa se devia ou não prosseguir. Mas depois de alguns segundos na dúvida, ela abriu um enorme sorriso. – Eu não pude evitar de me apaixonar por você.
Gislene abaixou o olhar. Capí ficou surpreso. Ele definitivamente não esperava por isso. Por tanto tempo achando que seus sentimentos não eram correspondidos, com medo de se abrir e ser rejeitado.
– Eu acho que eu vou te beijar agora.
Foi só o que Capí disse antes de colar seus lábios nos de Gislene. A princípio, a garota ficou sem reação, mas logo correspondeu ao beijo. E assim eles ficaram por algum tempo.
– Eu não entendo – Gislene falou quando eles se afastaram.
– Gislene, eu a amo. Amo tanto que não consigo assimilar.
Eles se beijaram outra vez. Só que dessa vez foram interrompidos por Viny que chegara segurando uma bandeja com os pratos dos dois. Eles se afastaram envergonhados, mas Viny deu um sorriso malandro para Capí, e os dois não puderam conter a risada.
O resto do jantar correu perfeitamente, eles ficaram conversando sobre qualquer coisa. Estavam tão felizes que nem prestavam atenção no que estavam dizendo, só queriam aproveitar o momento.
No fim da noite, Capí acompanhou Gislene até a porta do dormitório feminino, e deu-lhe um beijo de despedida.
– Independência ou morte! – Dom Pedro exclamou, mas Capí ignorou-o completamente, estava contente demais, e sabia exatamente o que fazer.
Saiu da escola rapidamente e caminhou apressadamente para o Pé de Cachimbo. Pegou sua mais nova varinha, a que tinha ganhado de presente da Zô enquanto estava na enfermaria, apontou para sua frente e gritou:
– Saravá!
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