O segredo de Rhea
2 Capitulo 2
Rhea
O laboratório estava gelado, com o ar carregado de uma atmosfera tensa e concentrada. O Dr. Silas, um cientista dedicado, estava quase completando sua obra-prima. Com delicadeza, ele ajustava a última peça do complexo sistema que formava o coração da garota biônica que havia criado. Essa jovem era uma réplica de sua filha, uma jovem brilhante que havia perdido a vida tragicamente em um acidente quando tinha apenas 17 anos. O semblante da garota biônica refletia a aparência da filha, com traços que lembravam as memórias mais queridas de Silas. Cada detalhe estava cuidadosamente estruturado para preservar a essência da vida que ele havia perdido, enquanto ele trabalhava incansavelmente em seu laboratório, na esperança de reviver, de certa forma, a presença da filha e dar continuidade a um legado interrompido prematuramente.
Ele havia dedicado longos anos à tentativa de reconstruir aquela obra, um verdadeiro projeto de vida. Não sentia fadiga nem desinteresse; ao contrário, sua ansiedade crescia a cada dia enquanto esperava ansiosamente pelo momento em que ela estaria completa. Assim que colocou a última peça, ele se acomodou em uma cadeira ao lado, sentindo o coração acelerar. Agora, a única coisa que ele podia fazer era esperar que aquela criatura abrisse os olhos e o visse ali, ao seu lado.
O tempo parecia se arrastar, com as horas passando lentamente. O som de um bip, proveniente de algum aparelho, ecoava na sala, interrompendo o silêncio tenso que o cercava. Ele passou a mão pela barba, um gesto habitual , enquanto desviava o olhar para o relógio em seu pulso, ansioso para que os minutos se transformassem em horas. Cada segundo parecia carregar um peso maior, e ele mal podia conter a expectativa que pulsava dentro de si.
A jovem lentamente abriu os olhos, revelando um tom castanho profundo que refletia confusão e curiosidade. Sentou-se na cama com cuidado, como se cada movimento fosse rodeado de incerteza, e lançou um olhar atento ao homem que estava parado ao seu lado. Havia uma expressão de total desorientação em seu rosto; era como se ela não conseguisse compreender exatamente onde estava nem o que estava acontecendo ao seu redor.
Ela olhou para suas próprias mãos, com os dedos levemente trêmulos, como se estivesse avaliando a realidade que a cercava. Em um impulso, voltou seu olhar para o cientista que a observava com uma expressão neutra, e abriu a boca, talvez para fazer uma pergunta ou emitir um som, mas as palavras não saíram. Pensativa, decidiu silenciar novamente, mantendo os olhos fixos nele, como se esperasse que ele revelasse algum detalhe que pudesse ajudá-la a entender sua situação.
— Olá. — Ele disse, sua voz soando rouca, mas ele fez um esforço para parecer mais animado, não queria assustá-la ainda mais do que ela já estava.
— Olá? — Ela repetiu, quase como um eco, mas sua entonação fez com que soasse como uma pergunta. O cientista se levantou da cadeira e se sentou ao lado dela, oferecendo um sorriso enquanto ajustava os óculos que estavam um pouco tortos em seu rosto.
— Você sabe quem eu sou? — Ele perguntou, mas ao notar a expressão confusa dela, percebeu que a resposta era óbvia; ela não fazia ideia de quem ele era. Por isso, ela não respondeu.
— Eu sou seu pai. — Ele disse, segurando delicadamente a mão biônica dela, mostrando um semblante caloroso e acolhedor. — Seu nome é Rhea. — A afirmação ressoou no ar enquanto ele a olhava com uma mistura de expectativa e ternura.
- Rhea. -Ao pronunciar esse nome, um sorriso iluminou seu rosto, como se estivesse plenamente ciente de que aquele nome combinava perfeitamente com sua essência. Era como se a própria sonoridade de Rhea refletisse sua personalidade vibrante e única. Agora, ela estava prestes a receber um chip de inteligência, um avanço que prometia potencializar suas habilidades e conhecimentos. Essa inovação tecnológica, que seria incorporada a ela, não só a tornaria mais perspicaz, mas também permitiria que sua singularidade se destacasse ainda mais no que ela iria fazer.
— Você ainda tem muitas coisas a aprender, mas, uma vez que dominar tudo isso, você sairá daqui e vai se divertir com outras garotas por aí — ele disse, contando suas ideias. — Você se tornará inteligente quando eu colocar isso no seu cérebro. — Nesse momento, ele mostrou um pequeno chip, e ela se aproximou para observar melhor, como se fosse algo extremamente importante. Então, um sorriso voltou a surgir em seu rosto. . O Dr. Silas se levantou e fez o procedimento de desligar a jovem, permitindo-se assim inserir a nova inteligência. Com cuidado, ele abriu o compartimento cerebral metálico dela e instalou o chip que prometia aprimorar suas capacidades cognitivas. Após concluir a instalação, ele acionou o botão de ligar novamente. Gradualmente, os olhos dela se abriram, desta vez revelando uma expressão que carregava menos medo do que antes. Um sorriso surgiu em seu rosto ao olhar para o cientista.
- Meu pai — ela disse, com um brilho nos olhos.
O Dr. Silas retribuiu o sorriso, sentindo-se emocionado.
- Minha filha — respondeu ele, envolvendo-a em um abraço caloroso.
Com carinho, ele a incentivou:
- Venha, levante-se.
Ele a ajudou a se erguer, apoiando-a enquanto ela tentava se equilibrar. Ela caminhou lentamente, hesitante e sem saber exatamente qual direção seguir, mas decidiu simplesmente acompanhar o cientista, confiando nele em meio a esa nova realidade.
Eles pararam em um quarto que parecia completamente diferente de qualquer outro. As paredes eram feitas de metal polido, refletindo a luz de maneira quase sobrenatural. No centro do ambiente, uma cama imensa dominava o espaço, com lençóis que pareciam feitos de um material futurista e brilhante.
— Este é o seu quarto — disse a ela, com um tom de voz que transmitia tanto acolhimento quanto uma certa formalidade.
A garota começou a caminhar lentamente pelo espaço, observando cada detalhe com uma mistura de surpresa e curiosidade. Seus olhos percorriam cada canto do quarto, como se tentasse absorver cada aspecto daquele lugar incomum. Ao se aproximar da cômoda, feita do mesmo metal reluzente que as paredes, ela notou alguns objetos sobre a superfície: uma escova, um relógio, e um pequeno vaso com flores artificiais.
Intrigada, a jovem pegou a escova e a segurou diante do espelho que estava fixado na parede. Olhou para seu reflexo e, por um breve momento, pareceu contemplar não apenas sua aparência, mas também quem ela era. Com um sorriso tímido nos lábios, ela começou a passar a escova suavemente em seu longo cabelo castanho, sentindo a textura do metal sob suas mãos.
O cientista observava atentamente a jovem enquanto ela passava a escova metálica pelos cabelos soltos, com um olhar concentrado e uma expressão de tranquilidade. Ele decidiu se aproximar, puxou uma cadeira que estava ao seu lado e sentou-se, criando um espaço entre os dois pronto para uma conversa importante.
Com uma voz calma e controlada, ele disse: — Agora precisamos conversar sobre você. Quem você é.
Ao ouvir suas palavras, ela imediatamente interrompeu o movimento da escova, colocando-a cuidadosamente de lado. Virou-se para encará-lo, seus olhos curiosos.
— Quem eu sou? — a pergunta ecoou em sua mente, fazendo-a refletir sobre sua identidade. ela se deparou com uma parte metálica na sua cabeça ao fastar de lado seus cabelos.
— Sim, por favor, sente-se. — Ele apontou para a beira da cama, enquanto ela se acomodava. Embora possuísse um chip de inteligência, havia algo que a deixava confusa: a única informação que lhe faltava era sobre sua própria identidade, ou melhor, sobre o que ela realmente era.
O cientista estava consciente de que aquela não seria uma conversa simples. Explicar a origem dela, o material do qual ela era composta, não seria uma tarefa fácil. No entanto, ele sabia que precisava revelar toda a verdade. Caso contrário, ela não teria a liberdade de explorar o mundo, permanecendo aprisionada dentro daquele laboratório. Essa perspectiva o incomodava profundamente, pois não era essa a vida que ele desejava para ela.
- Você sabe de que é feita? — Rhea olhou com curiosidade para suas mãos metálicas, depois direcionou o olhar para os pés, igualmente feitos do mesmo material.
- Do que eu sou feita? — Ela questionou, evidentemente confusa.
- Bem, digamos que você é composta por uma substância semelhante à de um carro.
- O que é um carro? — A inocência na voz de Rhea revelava que ela realmente não compreendia o conceito.
- Um carro é como uma máquina que se movimenta quando alguém o ativa ou liga — explicou observando atentamente a reação de Rhea.
Rhea pareceu ponderar sobre aquela informação, processando os novos dados.
- Aperte esse lado do seu cérebro — instruiu, apontando para um local específico em sua cabeça. Rhea, em um ato de curiosidade, levou os dedos até o ponto indicado e pressionou levemente. Num instante, seus olhos brilharam de uma forma intensa e quase sobrenatural.
- Então, é isso que é um carro? — Ela perguntou, com a boca entreaberta em um misto de alegria, espantada com as imagens que agora se formavam em sua mente.
— Sim, isso mesmo.
— É incrível — disse ele, sorrindo. Contudo, parou repentinamente e lançou um olhar curioso para o cientista.
— E você? Também é feito desse material?
— Não, eu sou humano. Ao contrário de você, eu posso sangrar, sentir dor, emoções, chorar... Essas são características que nós, humanos, possuímos. Você, por outro lado, é diferente. Não pode sentir essas coisas, muito menos fraqueza. Sua força é muito maior do que a de nós, humanos.
Ela ficou admirada com o que ouvira.
— Você sangra?
— Sim — confirmou ele.
Ela parecia refletir por um momento, até que fez uma pergunta que pairava em sua mente.
- E por que eu não sangro, não sinto dor ou o que vocês sentem? Por que eu sou diferente?
- Você não é humana.
- Eu não sou humana? — Ela pareceu surpresa, mas não triste, pois a tristeza era uma emoção que lhe era totalmente alheia. Na verdade, esse reconhecimento poderia ser quase benéfico para ela, já que jamais teria que enfrentar a angústia de saber o que é sentir tristeza.
- Você é biónica, o que significa que você é única e especial, disse ele com um sorriso no rosto. Ela retribuiu o sorriso, seus olhos brilhando com curiosidade e entusiasmo.
A conversa fluiu de forma natural enquanto ambos permaneciam ali, imersos em suas palavras. Ele começou a explicar para ela o que realmente significava ser um ser especial, elucidando os conceitos de singularidade e capacidade que isso envolvia. Ela ouvia com atenção, absorvendo cada detalhe que ele compartilhava, como se estivesse gravando aquelas informações em sua memória.
De vez em quando, ela interrompia sua fala com perguntas que, embora soassem simples e até óbvias para outros, revelavam uma mente curiosa e sedenta por conhecimento. A conversa era uma troca rica, onde cada nova questão trazia à tona reflexões profundas e ampliava a compreensão de ambos sobre o que é ser especial.
Assim, eles permaneceram juntos naquele espaço de diálogo, trocando ideias e descobrindo novas perspectivas, até que ele, eventualmente, olhou para o relógio e percebeu que era hora de se afastar para fazer sua refeição. O ambiente ao redor parecia ter se tornado secundário.
— Posso comer alguma coisa também? — perguntou ela, com um brilho de expectativa nos olhos.
— Acho que sim — respondeu ele, após uma breve pausa para pensar.
Ele saiu do quarto e voltou em seguida, segurando um copo de suco fresco. Com um sorriso gentil, ele entregou o copo a ela. Ela pegou o recipiente e tomou um gole do líquido. No entanto, ao observar sua expressão, era evidente que algo estava diferente: apesar de beber, parecia não sentir o gosto do suco.
— Eu não sinto o gosto de nada — disse ela, com uma mistura de surpresa . Seu paladar, modificado por implantes biónicos, não permitia que ela experimentasse sabores como as outras pessoas. Contudo, em vez de se deixar abater por essa realidade, um sorriso se formou em seu rosto.
— Mas eu gostei — acrescentou, como se a experiência fosse mais sobre a sensação de beber do que sobre o sabor em si. A alegria em sua voz refletia uma resiliência admirável, mostrando que, embora não pudesse apreciar o suco da maneira tradicional, ainda assim encontrava alegria nas pequenas coisas.
— Agora é hora de descansar — disse Silas, enquanto a garota se acomodava na ampla cama metálica. ela fechou os olhos Silas, por sua vez, deu um passo para trás, hesitante, antes de se afastar do quarto. Ao sair, ele fechou a porta com cuidado, fazendo o menor barulho possível.
Enquanto observava a figura dela, tranquila e serena em meio aos lençóis, uma onda de memórias veio à mente. Ele pensou em sua filha, em momentos que pareciam tão distantes, e em como a inocência dela era semelhante àquela da garota que agora dormia pacificamente. Um aperto no peito o acompanhou, e ele sentiu o impulso de deixar as lágrimas escorrerem. Contudo, ele manteve a compostura, resistindo à dor que o inundava. Com um último olhar para a jovem adormecida, ele fechou a porta com delicadeza, afastando-se de tudo que a cena evocava, mergulhado em sentimentos profundos e silenciosos.
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