O segredo de Esti
1 Prólogo
2007, outubro, 23 – Portland, Estados Unidos. 02:30 AM
O céu da cidade tinha os seus encantos noturnos, naquela madrugada Portland fora coberta por um manto prateado de neblina, cujas estrelas camuflaram-se por entre a névoa que fazia também a lua cintilar. Nesta história você irá se deparar com inúmeras declarações passionais pelo céu, pois Esti o admirava desde que os olhos se abriram para o mundo a primeira vez. O céu era fora o seu primeiro, mas Roni seria o segundo, e último.
— Esti! Es! — a menina surrava embarga na calada da noite, desejando que a outra também despertasse e não a deixasse só naquela madrugada silenciosa.
— Ronnie? — a voz escapou entrecortada, de sono e rouquidão.
— Quer ver algo?
— São duas e meias da manhã! — estranhou o pedido, deixando os olhos esbarrarem no despertador sobre a cômoda.
— Venha, Es! — tocou seus dedos aquecidos pela cama morna.
— Hunhum... — reclamou, manhosa.
— O céu está prata!
Os olhos da loira abriram-se em cômodo da atração pelo manto natural que cobria o mundo.
Ronit lhe puxou pelo punho e andaram cuidadosamente até a janela do quarto da pequena judia. Esti tinha 16 anos e o seu corpo media em volta de 1,64. Era pequena, no mais possuía curvas demasiadas corpulentas, era uma jovem já cobiçada e extraordinariamente bela. Ronit era mais alta alguns centímetros e mais magra, o que ela tinha de belo eram os olhos ingenuamente lascivos e uma pele brilhante e viçosa, além de lábios chamativos. Eram inseparáveis desde muito meninas e os pais discutiam entre si que na idade delas, deveriam se adaptar à uma distância respeitável. Estupidez, dificilmente deixar-se-iam.
Debruçaram-se sobre a madeira polida da janela e avistaram em encanto a beleza avassaladora da noite. Por vezes, olharam-se com sorrisinhos e piscadelas longas de olhos. Ronit adorava o cheiro suave de baunilha que exalava do corpo de Esti, fungando o trajeto do ar sempre que a menor se movia. Esti notava o seu embriago e muitas vezes deixou a alça do pijama escapulir dos ombros para ter que remexer-se trazendo-os de volta ao lugar. O frio arrepiava a pele alva de Ronit e a tornava muito atraente, aquecia-se com os dedos comprimidos, fazendo um movimento repetido para provocar calor. Os olhares viam e voltavam, até que elas decidiram que estava muito frio e deviriam ir para as camas. Fizeram o mesmo percurso silencioso na volta, mas o breu escuro do espaço fez Ronit pisotear uma caixinha que havia sido esquecida ali, ela se desequilibrou, mas foi segurada por Esti, levaram a mão à boca em conjunto e riram do deslize.
— Posso dormir na sua cama hoje? — Ronit falou em seu ouvido, sussurrante, beneficiando-se da proximidade.
Esti demorou a responder, mas fez que sim com a cabeça e a puxou para irem logo.
— Eu durmo na ponta e você no canto. — disse a morena, já puxando as cobertas.
— ‘Tá, sem problemas, aposto que quando cairmos no sono estaremos uma no norte e a outra no leste.
Ronit sorriu e se virou, deixando o rosto bem perto. Elas ficaram em silêncio e inquietas, orando para que a réstia da luz durasse mais tempo sobre a cama e assim poderiam enxergar uma a outra. Logo, uma mão macia pôs a mexa grossa dos cabelos louros de Esti para fora dos olhos, e a moça sentiu um arrepio inconsciente escapar pelo corpo.
— Ronnie...
— Hum?
Esti pensou, quis perguntá-la por que quis ir dormir ali se tinha uma cama maior e os seus pais notariam a falta dela logo cedo, mas teve medo da resposta e não disse nada.
— Eu queria tentar algo. — Ronit decidiu quebrar o silêncio.
— Como?
— Não sabe do que eu estou falando? — a morena insistiu, contornando a face da amiga com um toque suave de suas digitais.
— Não...
— Venha mais perto.
— Por quê? — Esti suava debaixo das cobertas, podia jurar que estava da cor de um cáqui.
— Quero contar um segredo.
O corpo enrijecido da loira denunciou a inquietude de seu corpo em contraste da saliência juvenil de Ronit. Ela avançou tensamente, apenas mais um pouco, e sentiu a aceleração brutal no peito quando a morena a fez vir para mais perto com um puxão leve no pescoço.
— Feche os olhos, Esti. — pediu lacrimosa e Esti obedeceu.
Mansamente, Ronit aproximou a boca úmida do rosto da judia, curiosa sobre aqueles lábios tão convidativos. Houve um choque quando as bocas se encontraram e nenhuma das duas se mexeu, só esperaram até que os corpos se acalmassem. Sem mais nem menos, Esti passou a ponta quente da língua contra a parte inferior dos lábios quase abertos da morena, aquecendo-a por toda a cerviz. Lentamente, uma boca foi engolindo a outra, até que entre elas só havia saliva e desejo. Uma perna buscou calor sobre a outra, mãos caçaram além da roupa e no passar de um cometa as meninas estavam despidas, colo sobre colo, lambidas tênues sobre as clavículas, arranhões que faziam grunhir baixinho e dedos intrusos criando segredos e liquidez. No rosto de Esti havia uma expressão ardente de quem faria música daqueles gemidos salientes que a outra entoava a cada roçar de centros. No rosto de Ronit havia a imensa satisfação de quem descobrira mais do que gostaria. E quando já havia luz invadindo a janela, os corpos segredados caíram lado a lado, apagados, inertes sobre a lembrança que deixariam sobre aquela noite prateada.
***
2007, outubro, 23 – Nova Iorque, Estados Unidos. 02:37 AM
Naquela noite em especial, Portland estava com um céu imensuravelmente lindo, o suficiente para arrancar toda a atenção de Debbie. A morena estava no alto de um prédio, o que a concedia uma sensação de estar mais próxima das estrelas e da lua. Lá dentro, um grupo de pessoas bebem exageradamente e curtem o sucesso de mais um caso bem-sucedido. Ela, no entanto, preferia lutar contra o frio, ou adaptar-se a ele, para admirar algo do qual nunca fora admiradora.
Debbie esfregou suas mãos uma contra a outra antes de agarrar-se ao seu próprio corpo. Quando sentou, após decidir que ficaria ali até o frio se tornar incômodo demais, pôde ouvir o som da voz de Ray Davis ecoar no ambiente. Se não estava enganada, aquela era a música que escutou na manhã em que acordou na cama de sua mais nova amiga – talvez tenha escutado no carro dela também –, especificamente na noite em que saíram para comemorar outra missão que dera certo. Ainda observando o céu, ela cantarolou o refrão e inevitavelmente pensou na loira de olhos claros e roupas extravagantes. Lembrou da gargalhada que ouviu algumas vezes. Lembrou daqueles olhos bastante expressivos e de como a cativavam. Lembrar de Lou estava se tornando comum demais.
Foi pega de surpresa quando sentiu mãos macias cobrir seus olhos. O perfume que invadiu suas narinas há muito já não era estranho. Sorriu como não havia feito durante todo o dia. Seu coração saltitou como uma criança alegre ganhando o presente de natal. Todo seu corpo relaxou e sentiu um alívio como quando alguém chega em casa após um longo dia.
— Achei que não viria… — disse enquanto buscou a mão que ainda estava em seus olhos.
— Nossa, suas mãos estão geladas… — a loira deu a volta no assento e sentou no espaço vazio do banco, suas mãos não soltaram as de Debbie. É uma sensação estranha para ela a necessidade que possui de tocar a morena sempre que estão juntas, é quase como se precisasse confirmar de que ela estava mesmo ali e que não iria sair. — Por que está aqui fora?
— Não sei…
Lou franziu o cenho ao ouvir a resposta de sua pergunta, mesmo as coisas mais insignificantes são feitas com uma razão já compreendida quando se trata de Debbie Ocean. Em outras palavras, ela sempre sabe o que faz e a razão pela qual o faz.
— Eu só não queria ficar lá dentro. Não estou muito animada.
— E veio fazer… hum… qualquer coisa — disse em um tom quase explicativo — Em um terraço vazio…
— Especificamente… — interrompeu — observando o céu.
Houve silêncio. Um silêncio que entre elas era estranhamente confortável. Debbie de fato se concentrava no céu, ou talvez só o olhasse enquanto sua mente vagasse distante dali. Lou, ao seu lado, a observava. Algo que vem se tornando costumeiro e sempre que o fazia seu peito se agitava. É sempre tomada por sentimentos que quase não consegue explicar. Existe admiração, carinho, desejo.
— O que é? — questionou a loira e quase imediatamente os olhos cor de mel encontraram os azuis. Mergulharam na imensidão de ambos os olhares por um bom tempo até que, impulsivamente, os olhos azuis caíram para os lábios da outra. Soltaram a respiração que prendiam.
— Tenho um plano — confessou a morena recebendo atenção redobrada da amiga — eu venho pensando nele há um tempo e acho que finalmente é o plano perfeito.
— E por que eu não sinto que você esteja tão animada?
— Eu estou. — sorriu abertamente — o fato é que é algo muito grande, maior até que qualquer plano do Daniel. Um dos maiores roubos da história.
Olharam-se cúmplices. É claro que Lou estava incluída nos planos de Ocean, afinal, desde que se conheceram uniram-se como se fossem uma só. E de qualquer forma não conseguiria não se envolver. Estava envolvida, sabia que estava, seus pensamentos e emoções pertenciam a ela. Debbie tinha esse jeito instigante que a fazia ficar interessada em qualquer plano infalível de sua mente brilhante.
— Quando o colocarmos em prática e tudo der certo, teremos tanto dinheiro em nossas mãos que certamente poderemos refazer nossas vidas completamente.
Os olhos de Debbie se fixaram novamente aos da outra, que agora pareciam tão enigmáticos. Sentiu seu estômago revirar, seu peito palpitar quase em desespero. Estava claro que entre elas havia muito mais que amizade, afinal, sempre que propício se entregavam aos seus desejos e à atração evidente que sentiam mutuamente. Mas há muito tudo aquilo havia ultrapassado uma mera atração física. Existe nessa relação sentimentos que até o momento não foram totalmente expostos. Queriam despir-se de toda aquela onda de paixão que as unia, mas eram as duas tão cautelosas, e aquele sentimento aflorou-se com a rapidez de um vulcão em chamas.
— E o que iremos roubar? A casa da moeda? — questionou Lou tentando dispersar seus pensamentos motivados pelo olhar sedento de Debbie em sua boca.
— O Toussaint.
Os olhos de Miller se arregalaram em surpresa. Jamais passou por sua cabeça que o plano se tratasse de roubar uma das joias mais bem guardadas do mundo.
— Debbie, isso…
— Eu disse que tenho tudo pensado. Revisado infinitas vezes. — interrompeu sabendo que mesmo ela poderia ficar insegura. — O plano é perfeito. E eu tenho você.
— Querida, está me pedindo em casamento? — brincou
“E eu tenho você”, aquela frase entonteceu a loira da cabeça aos pés, a pressão se fez desregulada. Lou sabia que aquilo era tão maior e mais intenso do que qualquer “te amo” proferido sem intenção. O coração correspondeu com batidas infindas.
— Se eu souber que a resposta é um sim, então... Lou, você se casaria comigo? — a morena falou de forma tão segura que nem parecia estar mergulhada em nervosismo. Olhou com imenso carinho para a mulher de olhos azuis que tanto lhe roubava suspiros e dificilmente sai de seus pensamentos. Queria Miller ao seu lado, tinha certeza disso. Não somente por uns dias, ou por uns meses. Precisava de cinco, dez, trinta ou cinquenta anos. Precisava daquela mulher em suas manhãs atípicas, pois não queria mais fingir que fazer sexo e trocar um beijo matinal era suficiente. Cansou-se de deixar a cama de Lou depois de terem madrugadas ofegantes, e orar para que o acaso as unisse outra vez.
— Mas eu ainda não tenho um diamante.
Um silêncio se instaurou novamente entre elas. Estudavam cada mínimo detalhe do rosto uma da outra. Detalhes que já conheciam de cor, cada pinta minimamente desenhada, os cílios, o desenho retilíneo das bocas. Conheciam-se e ponto. Foi quando Lou esboçou seu belo sorriso responsável por deixar Debbie sem ar, que a morena instintivamente levou suas mãos ao rosto da loira trazendo-a para mais perto. Os lábios se uniram delicadamente e surgiu um beijo macio e sem pressa alguma. Um beijo que tanto provaram e que ainda assim sempre parecia único. Lou levou suas mãos para a nuca de Debbie e seus dedos acarinharam a raiz de seus cabelos. As línguas se encontraram e deram profundidade àquele beijo, queriam morar naquela sensação salivante, gostavam de roçar as bocas em resposta do sentimento silencioso que tinham.
Entenderam ali que apesar de serem perfeitamente boas e suficiente sozinhas, se tornam versões ainda melhores quando estão juntas e que seria um erro enorme ir contra isso. Lou e Debbie roubaram aquele Toussaint, alguns poucos meses depois daquela noite.
E sobre essa noite: houve uivos, cabelos amassados, unhas sob a pele, beijos tão quentes quanto a atmosfera de um quarto escuro e houve juras, juras de amor ditas entre intervalos tênues de paixão sentida. Entre elas, esse era o segredo mais bonito.
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