O sangue que corre em minhas veias
1 Capítulo I
Notas iniciais
Fazia duas horas que os gritos abafados ecoavam pela cidade. Alguns estremeciam de medo, outros riam do destino daquela jovem.
A Santa Inquisição havia chegado a um pequeno vilarejo na Alemanha para livrar todos das bruxarias e pecados que rondavam o local. Suas torturas conhecidas ficaram ainda mais eficientes e outras novas foram trazidas.
A primeira vítima havia sido um garoto de treze anos que sofria de alguns distúrbios e dizia falar com demônios. Nem sua chorosa mãe pôde salvá-lo de ser queimado vivo. O cheiro de carne queimada ainda estava no ar quando outra vítima foi feita.
Uma senhora fofoqueira havia delatado que uma jovem vivia sozinha na beira da floresta. Sem filhos ou marido, ela cuidava de sua horta cheia de ervas e ajudava as mulheres no parto e com remédios. O Inquisidor chegou e a viu mexendo com ervas e cantando uma antiga canção passada por sua avó, nem suas desculpas a salvaram do que estava para acontecer.
Uma nova tortura seria testada. Um touro feito de bronze foi colocado no centro do mercado, a garota foi jogada dentro do aparelho e trancada lá. Uma fogueira foi acesa abaixo dele e depois de alguns minutos, fumaça começou a sair do nariz do touro e de sua boca, gritos de dor.
Depois de um tempo todos saíram do local e quando tudo estava quieto, o touro foi aberto, mas não por um guarda e sim por outro ser. Os cabelos longos caíram sobre a face queimada da garota, a fazendo gemer de dor. Foi levada até a beira da floresta pelo estranho, que cortou os pulsos e a alimentou de suas veias.
~*~
Assustada, a jovem abriu os olhos e se viu perdida na escuridão, sentiu frio e se abraçou, esqueceu-se que seu companheiro repousava ao seu lado.
– Agnes? Está tudo bem?
– Eu sonhei com aquilo de novo...
– Minha deusa, esqueça isso, tudo acabou. Lembra-se daquela noite em que matamos a maldita velha? – O homem passava a mão pelo rosto da mulher, que balançou a cabeça concordando. – Então! Não precisa ter medo, não vou deixar que nenhum mortal a toque novamente.
– Não sei Elijah, acho que está na hora de sairmos daqui... Vamos para algum lugar calmo, isolado...
– Criar gado e viver dele? Não. – Elijah falava enquanto abria a pesada tampa do caixão de pedra bruta. – Somos vampiros e os humanos nossa presa, não seja tola.
– Meu amado, somos fortes, mas frágeis ao mesmo tempo. O Sol, a prata... Às vezes acho que nós somos fracos. – Agnes se sentou na pedra e encarou o amante.
– Se arrepende de estar ao meu lado, de dormir em meu leito todos os dias e de se alimentar comigo da vida de outros todas as noites?
– Não! Eu lhe agradeço todos os dias por ter me salvo, você sabe! Mas cuidado nunca é pouco. – A vampira abaixa face, triste. Mas logo é erguida nos braços pelo homem e ela acaricia seus cabelos vermelhos. – Eu o amo tanto.
– Também te amo, fleur. – Elijah beijou carinhosamente a boca de Agnes, que retribuiu com afeto.
~*~
Quando Agnes acordou, ela ainda sentia as dores da queimadura. Arrastou-se pela terra até chegar a uma pequena poça d’água, viu sua face queimada e gritou de horror. Como poderia estar viva depois de ter passado por aquilo? Lembrou-se do homem, olhou em volta, mas não o viu.
A dor era insuportável e chegava até seus ossos. Seus longos cabelos castanhos já não estavam em sua cabeça, seus dentes estavam enegrecidos e seu corpo cheirando à morte.
O homem finalmente havia chegado, trazendo nos braços uma jovem que estava inconsciente e que sangrava.
– Você? – Agnes falava com dificuldade, a garganta estava seca.
– Vejo que se lembra de meu rosto, senhorita. – O homem de longos cabelos vermelhos falou, depositando a garota na frente de Agnes. – Você precisa se alimentar muito bem para que seu corpo se recupere, tem sede, não? – Agnes concordou, mas antes de perguntar como tudo havia acontecido, o homem colocou um dedo em sua boca e a olhou, carinhoso. – Irei te explicar tudo, senhorita Agnes, mas antes você precisa beber o sangue dela. Faça isso, por favor.
Timidamente e sem escolha, ela foi chegando perto do corpo da mulher e encostou os lábios no pescoço sangrento. Foi sugando o sangue calmamente, saboreando o líquido ferroso e então começou a sugar violentamente, se agarrando ao corpo da mulher, que gritava e tentava escapar daquele abraço mortal. Agnes sentiu a dor crescer em seu coração e soltou a mulher, que estava quase morta. Sua respiração ficou pesada, olhava para o homem suplicando por ajuda, mas ele apenas a olhava, esperando pelo final. Então, tudo escureceu.
Em apenas alguns segundos depois, ela acordou, um pouco da dor já havia passado. Olhou pelo corpo e sua pela queimada já havia melhorado um pouco.
– Você ainda precisa se alimentar muito. – O homem abaixou-se, ficando do seu lado.
– O que você fez comigo?
– Te transformei no que sou... Sinto muito, mas não pude deixar que você morresse. Você ajudou minha serva no parto de seu filho, deveria te ajudar. Não sei se você se lembra de meu nome, é Elijah Valerius. – Elijah abraçou Agnes, que recuou assustada.
– E o que você é? – Ela indagou. – Diga-me!
– Sou um ser da noite, abraçado pelo demônio e odiado por Deus, sou um vampiro e é isso que você é agora. – Ele encarou Agnes, enquanto ela o olhava cheio de raiva. – Infelizmente ou não, só posso deixar você viver sozinha quando tiver aprendido tudo sobre nosso mundo e quando estiver melhor, com uma aparência menos rude, para que os humanos não desconfiem. – Elijah se levantou do chão e a pegou no colo.
Eles foram para uma caverna, onde passaram um mês e mais alguns dias, até que Agnes se recuperou totalmente. Sua pele se tornou pálida, os cabelos cresceram cheios de brilho e mais encaracolados. Nesses dias, Elijah tentou conquistar a confiança de sua criação e conseguiu. Ela se apaixonou por ele e ele por ela, como prometido, Elijah a libertou de seu domínio, mas Agnes preferiu ficar ao seu lado.
Quando saíram da caverna, foram para a casa de Elijah, onde Agnes foi tratada como uma verdadeira dama. Agora eles iriam se casar, mas era um casamento diferente, já que não poderiam ser abençoados por Deus. A casa ficou totalmente vazia e estava iluminada por apenas algumas velas, no quarto os dois estavam sentados na cama, trocando carinhos.
– Minha fleur, a união dos vampiros é diferente. Vamos ficar ligados pela eternidade e somente se um de nós morrer o outro vai ficar livre dessa união. – Elijah tinha Agnes em seus braços e passava a mão pelos seus cabelos. – Tem certeza de que quer fazer isso?
– Você é meu criador e conseguiu fazer com que de meu ódio nascesse o amor, é claro que quero permanecer ao seu lado durante toda a minha vida na escuridão. – A mulher beijou os lábios de Elijah, que retribuiu faminto. – Quero apenas ser sua.
– Serei odiado pelos reis e as rainhas invejaram sua beleza, minha dama da noite. – Elijah mordeu o pulso de Agnes e vice-versa. Com a troca de sangue, os dois estariam ligados como amantes e nenhum outro vampiro conseguiria desfazer esse laço. Depois de fazerem esse laço, Agnes se deitou na cama e Elijah sobre ela. – Apesar de sermos vampiros, ainda podemos nos dar ao luxo do prazer da carne. Agora serás minha mulher de todas as maneiras, humanas ou não. – Agnes gemeu e Elijah a tomou como uma mulher. Os corpos unidos fazia com que o cheiro do sexo ficasse no ar e os dois ficaram assim por longos momentos, até que Elijah se levantou da cama e se vestiu. Trouxe o vestido para sua nova esposa e a ajudou a vesti-lo. – Venha, tenho algo para você, minha rainha.
Elijah conduziu Agnes até o porão feito de pedra, onde o caixão dos dois ficava. Sentada no chão, com as mãos e pés amarrados, com a boca amordaçada, estava a velha que havia delatado a jovem.
– Elijah, por que você fez isso? – Agnes se virou para o marido.
– Pensei que iria gostar...
– Eu não gostei. – Elijah abaixou a cabeça, triste. – Eu adorei! – Agnes o abraçou, dando pulos de felicidade. – Eu posso?
– Ela é toda sua.
Agnes então foi se aproximando lentamente da velha, ajoelhou-se no chão e sussurrou em seu ouvido: — Agora você irá pagar o que me fez. – Agarrou o pescoço da velha, suas unhas afiadas foram sendo enfiadas lentamente na carne e com um movimento rápido, arrancou a garganta da mulher. O sangue jorrou para todos os lados e Agnes lambeu o sangue que saia do corpo da senhora, se satisfazendo. Elijah chegou e também começou a se alimentar. Depois de secarem a velha, entraram no caixão de pedra e dormiram.
~*~
Já haviam se passado cinco anos desde que aquelas coisas aconteceram. No começo Agnes era violenta e impulsiva, um mau costume criado por Elijah, que se divertia com as mortes. Mas depois de algum tempo, ela começou a amadurecer e pensar antes de matar, não fazia mais por prazer e sim por necessidade.
Sentada na varanda da casa, a jovem observava as estrelas e a lua. Tinha vontade de caminhar novamente na floresta que cercava o vilarejo, de sentir a terra, de correr, mas como era uma dama, tinha quer permanecer na casa.
– Agnes? Podemos conversar? – Elijah sentou-se ao seu lado. – Pensei sobre o que você disse... E achei um lugar na Inglaterra, uma igreja abandonada. Um lugar lindo e cheio de árvores e um rio passa entre a construção, você pode plantar suas flores e também há uma vila por perto. O que acha?
– Lá é seguro?
– Fleur da minha vida, não tema, a Igreja Católica é fraca naquelas terras e não vamos correr nenhum perigo. Além disso, você irá gostar de provar o sangue das nobres que rodeiam a Rainha Ana. – Elijah riu, mostrando os dentes pontiagudos.
– Acho que é mais seguro então... Quando partimos?
– Daqui alguns dias. Primeiro irei mandar nossas coisas para Londres e irei alugar uma casa para nossos empregados ficarem.
– Não tem problema em deixa-los sozinhos?
– Não, todos são muito fiéis a mim, eles sabem o que acontecem se me traírem. – O vampiro beijou a testa pálida da esposa e sussurrou que a amava. Depois saiu para terminar os preparativos para a viagem.
Agnes continuou encarando o céu e uma angústia surgiu em seu coração. Seria estranho abandonar sua terra natal, mas ali ninguém a amava, apenas Elijah. Sim, talvez fosse melhor ir para um lugar mais calmo e isolado dos outros e, além disso, ela poderia andar por uma cidade grande e rica como Londres.
Mas agora o Sol já estava nascendo, e era hora dos mortos voltarem aos seus túmulos.
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