Os dragões continuaram na direção do túnel, Chihiro voltou a pedalar desesperadamente e sem pensar não olhou para frente ao pedalar, com isso bateu com força em algo antes de cair no chão e perder os dragões de vista. Ela ficou deitada por alguns instantes, devido a tontura e só conseguiu se sentar quando a sensação passou.

Erguida, percebeu que a bicicleta batera justamente na estátua do guardião. Chihiro havia alcançado o pátio de entrada do mundo dos espíritos sem sequer perceber que pedalara tanto.

O túnel não estava mais lá, a gigantesca construção vermelha voltara ao local como na primeira vez, fazendo garota engolir seco. Ela estava muito confusa, em pouco menos de um dia a entrada mudara totalmente.

Ela observou atentamente o prédio e ouviu o leve farfalhar das folhas das árvores ao lado, elas balançavam mesmo sem vento, não haviam pássaros ou carros e o vento uivava de dentro da passagem da gigante construção, deixando Chihiro com o corpo todo arrepiado. Devagar ela se levantou e olhou sua bicicleta, a roda da frente estava um pouco torta devido ao impacto e por isso ela a deixou no chão próximo a estátua andando na direção do gigante prédio vermelho. Olhou para trás e sentiu um calafrio, ela sabia que precisava entrar, que era a escolha certa, mas não sabia se conseguiria voltar.

Naquele momento, a recordação dos olhos verdes de Kohaku a contaminou e sem pensar melhor, Chihiro mergulhou na escuridão da entrada vermelha, que parecia não ter fim.

***

Chihiro não lembrava o quão escuro o túnel era, ou como fora difícil atravessá-lo, ou quão silencioso era o caminho. Ela não lembrava do som alto que os passos tomavam naquele chão ou de como o uivo do vento impregnava os ouvidos quase lhe dizendo para ir embora. Ela sentia medo, não sabia onde pisar ou o quanto andar, então tateava as paredes até avistar a luz da saída, mas todo aquele medo desapareceu no momento em que viu pátio do prédio.

Tudo estava igual, os bancos, o bebedouro de pássaros, os três tuneis na parede de qual saíra, dois levavam ao desconhecido, a curiosidade era grande, mas sabia que não era o momento.

Lentamente ela atravessou o lugar, até sair da construção e se virou para analisar o prédio. Estava um pouco mais acabado do que antes. As paredes estavam desgastadas, no entanto, o relógio que ficava no topo estava funcionando, mas com um ponteiro a menos.

O relógio marcava 18h, bem diferente do que era em seu mundo, isso indicava que ela não tinha muito tempo, pois se avançasse demais, podia não retornar.

Enquanto se preocupava com o tempo, ela olhou para cima em busca dos dragões e começou a andar de costas tentando aumentar sua amplitude do céu, foi quando tropeçou em algo e caiu de costas no chão, rapidamente se sentou para olhar. Era a feiticeira que vira no dia anterior.

Ela estava ali, jogada no chão, cheia de manchas de sangue.

Chihiro se levantou e se aproximou da feiticeira, então olhou novamente para o céu em busca dos dragões e finalmente avistou Kohaku, vindo em sua direção. Inicialmente, pensou onde o outro estava, mas isso desapareceu quando percebeu a velocidade com que Kohaku se aproximava, isso a assustou. Com toda a sua força e o mais rápido que conseguiu, ela pegou a moça desmaiada e sem prestar muita atenção, e a puxou para dentro do prédio vermelho.

No momento que conseguiu entrar, o dragão alcançou o chão, ele a teria pego se não tivesse se apressado, mas ele não estava ali por ela, e sim pela feiticeira. Ela estava com um vestido semelhante ao do dia anterior, cinza com alguns detalhes brancos e estava gravemente ferida, havia cortes em toda a clavícula, braços e no rosto. Na barriga uma enorme mancha de sangue, sua perna esquerda parecia quebrada e o braço também. Apenas sua respiração indicava que ela estava viva.

Quando viu que um bom tempo já havia passado desde que entrou no prédio, olhou em direção a porta que dava para os restaurantes, o dragão desaparecera e o cheiro de comida começou a contaminar o ar.

— A refeição dos espíritos – ela murmurou para si.

Ela queria correr e se perder novamente naquele mundo, aquele lugar a transformara e trouxera sentimentos que nunca sentira novamente, mas mesmo com a vontade tão desesperadora, o medo a tomou e ela sentiou que não deveria tomar essa decisão agora, então retornou para a entrada, para o mundo humano carregando a feiticeira.

Enquanto a carregava, pensou no que faria com ela. Queria protege-la, mas não sabia o que fazer depois disso.

A feiticeira não era mais alta que ela e era extremamente leve, como se realmente não fosse uma pessoa, por isso não teve a dificuldade que imaginou que teria. Chihiro acelerou o passo quando ouviu o som da cidade tomando vida, fez o possível para não agravar os ferimentos da outra.

O túnel pareceu crescer como o rio do lado de fora e alguns espíritos cruzaram com ela no meio do caminho a assustando. Tentando escapar do que quer que eles fossem, Chihiro correu em direção à saída, a passagem parecia estar diminuindo e ficando mais distante, o mais rápido que pode ela atravessou os espíritos e alcançou a luz da tarde de seu mundo.

Quando conseguiu ultrapassar o portal, caiu ajoelhada no chão, ela estava exausta. Agora chovia forte e a estrada estava cheia de lama novamente. Sua bicicleta continuava ali, jogada no chão.

Depois de descansar por alguns instantes, Chihiro se levantou e buscou a bicicleta, ela tinha um pequeno acento na parte de trás para que mais de uma pessoa pudesse subir nela. Isso ajudaria a levar a feiticeita com ela. Sem pensar muito e vendo que o tempo também passara nesse mundo e já era tarde, Chihiro subiu na bicicleta e começou a pedalar para casa.

— Como vou te esconder? — Chihiro falou na direção da feiticeira.