O renascimento de Jon Snow
14 Chegadas e partidas
Notas iniciais
Jon
Jon não entendia o porque da insistência de Melisandre para eles irem até as criptas. A mulher já havia ido lá tantas vezes e nunca havia achado nada demais. Mas ele aceitou a acompanhar. Se era preciso fazer isso para que ela e seu filho ficassem em segurança ele faria, mesmo temendo o que encontraria. Mesmo tendo que fazer isso no meio da noite.
A notícia da gravidez o pegou de surpresa, mas visto o número de vezes que os dois haviam dormido juntos era obvio que isso uma hora ocorreria. Era natural. Mas o que pegou ele de surpresa mesmo foi o fato da mulher ter tentado preparar o chá de lua.
Logo que Jon soube que a mulher havia tentado fazer o chá para se livrar de seu filho, ficou triste e com certa curiosidade de saber o porque dela tentar fazer isso. Não entendia porque ela tentaria se livrar de uma parte dele que crescia dentro dela. Ele planejava perguntar isso a ela,logo que entrasse no quarto, mas não teve coragem ao ver que ela chorava.
–O tempo está acabando, Jon.- falou Melisandre do seu lado segurando a tocha que iluminava as criptas. Tirando-lhe dos seus pensamentos
–Como?
–A batalha se aproxima. –falou ela com uma voz séria
Jon tinha até se esquecido de que era o Azor Ahai por alguns minutos.
–Tenho recebido notícias dos selvagens e dos irmãos que deixei na Muralha. Até agora está tudo sob controle. Quando chegar a hora vamos lutar. Podemos convocar os vassalos para a luta também.
–Você ainda não está pronto. A luminífera ainda não está pronta. Perdemos tempo demais aqui.
Jon sentiu algo parecido com desespero na voz da mulher.
–Quando será essa batalha?
–Daqui há um ano.
Um ano parecia tempo suficiente para ele se preparar e descobrir uma forma de acender a luminífera. Nesse tempo seu filho já devia ter nascido e talvez ele já estivesse achado Bran e Rickon.
–Ainda temos tempo.
–Não. Ainda temos um longo caminho a seguir. Você tem que conquistar o trono de ferro antes da batalha. Você tem que derrotar esse exército dos Freys o quanto antes.
Aquela conversar estava fazendo a cabeça de Jon doer. O silêncio e a escuridão das criptas já o faziam se sentir mal, a conversa apenas piorava tudo.
–Não vamos falar de guerra agora...Não aqui...-Jon ainda estava falando quando começou a ouvir a mesma música dos sonhos. Ele seguiu ao lado de Melisandre até o local.
Os guardas seguiam a ambos. Alguns passos atrás.
Quando chegaram ao local, a tocha iluminou a estátua de uma bela mulher.
–Lady Lyanna. Sua mãe. – Falou Melisandre em voz baixa em seus ouvidos
Jon sentiu as lágrimas escorrerem pelo seu rosto. Isso era uma das coisas que tentava evitar. Jon tocou na imagem da mãe e ouviu novamente a música. Dessa vez Melisandre também ouviu, pois comentou:
–Há algo oculto na estátua da sua mãe... Talvez junto dos ossos.
Jon também havia pensado nisso, chamou os guardas e deu uma ordem com lágrimas nos olhos.
Davos
Davos ainda não acreditava que havia conseguido voltar a salvo Skagos. E melhor ainda, conseguiu voltar com Rickon Stark. Por alguns momentos pensou que não fosse conseguir voltar inteiro da temível ilha.
No navio,Rickon estava agitado assim como seu lobo gigante. Quem olhasse para ele o tomaria como uma criança selvagem, não como o herdeiro de Winterfell. O menino estava usando trajes selvagens e seu cabelo, cheio de nós, estava grande, quase até a cintura. Ele estava incontrolável, mostrava os dentes para as pessoas, como um animal selvagem, todas as vezes que alguém tentava o tocar. Somente obedecia a selvagem Osha, que era quem havia cuidado dele todo esse tempo.
Foi somente a selvagem que conseguiu convencer o menino de que eles estavam voltando para casa. Assim como seria somente ela que conseguiria convencer Rickon a descer do navio quando chegarem em Porto Branco.
Enquanto o navio encostava-se ao porto, Davos se lembrava de como tudo havia começado. Stannis o havia mandado para negociar com Lorde Wyman Maderly. Para tentar convencer o Lorde a declarar Stannis como rei. Mas as negociações não saíram como o planejado. De alguma forma Cersei soube de sua presença lá e ordenou que Lorde Maderly o executasse, para provar sua lealdade ao Trono de Ferro. O lorde executou outro preso parecido com ele. O preso foi decapitado e teve a sua cabeça mergulhada em alcatrão para que a semelhança fosse maior os dedos de uma das mãos também foram cortados.
Depois que o lorde conseguiu convencer o Trono de Ferro de que havia executado Davos e de por esse ato conseguir seu herdeiro de volta, ordenou que Davos, que durante esse tempo ficou oculto em outro lugar, fosse trazido a sua presença. Durante esse encontro,Lorde Maderly disse a Davos que ele iria jurar sua lealdade a Stannis se ele conseguisse trazer Rickon de Skagos.Davos se sentia orgulhoso de ter conseguido isso.
Quando desceram do navio eles foram imediatamente recebidos pelos homens de Lorde Maderly e levados a presença dele.
O lorde estava mais gordo do que da última vez que Davos o havia visto. Estava sentado diante de uma grande mesa repleta de comida. Sorriu ao ver Davos, a selvagem, o lobo e o menino.
–Vejo que cumpriu sua missão, cavaleiro das cebolas. Mas temo...
Antes que o lorde terminasse a frase e antes que Osha pudesse dizer algo, Rickon correu até a mesa e pegou um pedaço de pernil. Lorde Maderly começou a rir alto e disse:
–Vejo que nosso jovem príncipe tem fome. Fique a vontade criança. Sente aqui do meu lado.- disse enquanto puxava Rickon para perto dele.- Acho que nossa outra hóspede gostará de descansar, foi uma longa viagem. Pode deixar que ele está em boas mãos- disse apontando para Osha
A selvagem fez uma cara de desconfiança. Não queria deixar o menino sozinho. Por isso agradeceu da forma mais educada que uma selvagem conhece. Com desconfiança saiu de perto de Davos e foi para mais perto do garoto.
–Bem, como eu ia dizendo. Você cumpriu sua parte do acordo, mas temo que não poderei cumprir a minha.
A raiva tomou conta de Davos. Ele havia se arriscado e cumprido a sua parte. Não era justo o lorde não cumprir a sua palavra. Tentando manter a calma, ele disse entre os dentes:
–Como?
–Ficaste longe tempo demais, sor Davos. Não sei como dizer isso, mas há outro rei no Norte, há quem jurei lealdade e não é o seu rei. O rei Stannis perdeu a batalha e foi mantido prisioneiro pelos Boltons, até que esse novo rei chegou e o tirou das masmorras. Seu exercito foi quase todo destruído, sua esposa morreu, assim como sua filha. Ele não é mais rei, têm gente que diz que embarcou rumo ao exílio, outros que morreu.
As palavras pegaram Davos de surpresa. A dor o anestesiou de tal forma que a única coisa que conseguiu dizer foi:
–Rei no Norte...
–Sim. E você irar se surpreender ao saber de quem se trata. Acho que você o conheceu. Só que quando você o conheceu ele ainda era Snow, mas agora ele é Stark. Além de ser Stark é rei. Estou falando de Jon Stark.
–Jon?- falou Rickon de forma agitada- Vamos ver meu irmão! Quero ver meu irmão!
–Nós vamos, príncipe.
–Quero ver agora!
A mente de Davos estava confusa. Sua cabeça doía. Os gritos do menino exigindo ver o irmão o deixavam ainda mais perturbado. As lágrimas logo molharam seu rosto ao lembrar que provavelmente nunca mais veria Stannis.
–Para onde vou agora... Não tenho mais rei...
O lorde o olhou de um jeito triste e disse que lamentava muito e completou:
–Sei como era fiel ao seu rei, sor Davos. Também creio que ele seria um bom rei, mas os deuses quiseram que fosse assim...- o lorde fez uma pausa e depois continuou- O senhor mostrou competência. Pode ser um dos meus homens de confiança. Se quiser... Ou se preferir pode ir falar com o rei Jon. Uma antiga serva do rei Stannis sempre o acompanha.
Davos não precisou que o lorde falasse o nome dela para saber de quem se tratava:
–Melisandre
–Ela mesma.- o lorde deixou um risinho escapar e falou de forma baixa para que Rickon não ouvisse- Dizem que ela tem um lugar de honra tanto na mesa como na cama do novo rei.
Davos sentiu uma pontada de raiva de Melisandre, mas essa raiva logo passou. A tristeza de saber que ele nunca mais veria Stannis ou a princesa tomavam todo o seu coração.
–Agradeço a proposta, senhor- falou de uma forma educada
–Ou talvez gostasse de rever sua família.
A menção a família fez Davos sentir um fio de esperança nascer em seu coração. A dor e a tristeza haviam feito com que ele se esquecesse momentaneamente de sua família. Era exatamente isso que queria. Rever sua esposa Marya. Seus três garotos. Talvez até ter outros garotos.
–Rever minha família me deixaria muito satisfeito, senhor.
O lorde tratou de providenciar que ele se colocasse a caminho de casa naquele mesmo dia. Lorde Maderly também lhe deu títulos e ouro suficiente para que vivesse um bom tempo com sua família.
Nos dias que passou a caminho de casa pensava em tudo que havia vivido. No tempo que passou servindo Stannis. Na batalha de água negra em que perdeu os filhos. De tudo que lhe custou tentar ajudar Stannis a conseguir o Trono de Ferro. De seu tempo na ilha procurando Rickon. Mas agora tudo isso eram fantasmas de um passado que mais parecia um pesadelo.
Stannis sempre teria um lugar em seu coração e sua eterna gratidão. Ele desejava, se Stannis ainda estivesse vivo, que ele estivesse bem e encontrasse uma forma de recomeçar assim como ele encontrou.
Na última noite antes de chegar, seus pensamentos foram até Jon e Melisandre. Ele nunca simpatizou muito com a mulher, mas agora isso não importava. Ele se perguntou se ela estaria tentando ajudar Jon a consegui o Trono de Ferro ou se fez o rapaz acreditar que ele era o Azor Ahai ou então se os dois se contentaram somente com o Norte e iam ficar por lá. Perguntou-se por quanto tempo Jon se manteria no poder. Também se perguntou em como seria o reencontro entre Rickon e o irmão. Davos nunca saberia as respostas e preferia não saber. Não importava mais.
Davos também não se importava mais com Cersei e seu filho que estavam no poder. Para ele os poderosos poderiam continuar com seus jogos de traições e mentiras. Poderiam continuar jogando esse terrível jogo que é o jogo dos tronos. Ele estava oficialmente fora. O único motivo para ele ter entrado foi Stannis.E agora que seu rei estava morto ou no exílio, não havia mais motivo para continuar.
O reencontro com sua mulher e filhos juntou todos os pedaços que faltavam nele. Ele reparou com lágrimas nos olhos que os meninos haviam crescido muito desde a última vez que os viu. Principalmente os dois mais novos. Enquanto todos se abraçavam, ele ficou contente de ter saído do jogo dos tronos há tempo de ficar com sua amada família. Antes de perder tudo no jogo do poder.
Sansa
Sansa ficou até tarde na cama naquele dia. Havia acordado cedo, na verdade não havia nem dormido de tão apreensiva que estava.
Desde a noite em que começou a envenenar Mindinho ela acordava cedo na esperança de que logo viessem bater em seu quarto lhe avisando que ele estava morto, porém isso ainda não havia ocorrido. Sansa queria que ocorresse o mais rápido possível, pois quando ocorresse ela não seria mais obrigada a se deitar com ele e poderia finalmente voltar para perto de seus irmãos.
Sansa ainda estava pensando nisso quando um grito agudo quebrou o silêncio. A menina se sentiu segura como a muito tempo não se sentia, esse grito, provavelmente vindo de uma serva, significava que seu plano havia dado certo e que logo estaria perto de seus irmãos.
Sansa saiu do quarto e viu que várias pessoas estavam paradas na porta do quarto do Mindinho. Mais um sinal de que tudo havia dado certo. Agora bastava ir para a segunda parte do plano.
A menina planejava assumir quem ela realmente era e firmar uma aliança com o Vale através de um casamento com seu primo Robin Arryn. Mindinho disse que planejava entregar o Norte para ela dessa forma, mas a verdade era que ele planejava controlar ela e consequentemente o Norte. Ela iria falar essa verdade para os cavaleiros e vassalos do Vale.
Sansa não queria ser rainha do Norte, queria sua família. E teria isso. Os soldados do Vale iriam ajudar seu irmão nas batalhas e depois que essa guerra finalmente terminasse, todos poderiam viver em paz.
Ela planejava ir para Winterfell logo após falar com os cavaleiros, pois o casamento prometido teria que esperar, porque seria necessário que Ramsay morresse para que ela ficasse livre para outro compromisso. Quando ele morresse, ela voltaria para o Ninho da Águia e selaria a aliança, mas até lá teria muito tempo com seus irmãos.
Melisandre
Jon não podia mais adiar a sua ida para a batalha. Ele já havia se atrasado alguns dias devido ao sumiço da irmã, mas agora não era possível se demorar mais. Algumas tropas já haviam até saído.
Melisandre lembra do dia em que Jon soube do sumiço de Arya. Foi o mesmo dia em que eles encontraram um importante objeto nas criptas. A notícia chegou logo pela manhã e pegou o jovem rei de surpresa. Melisandre lembra a mistura de sentimentos que tomou conta do rosto de Jon. Era raiva, desespero, mas acima de tudo tristeza.
Ela lembra a confusão que o restante do dia se tornou. Jon mandou realizar buscas e culpou os guardas por não terem guardado direito a sua irmã. Culpou o meistre por ter feito ele e os guardas perderem tempo. Enfim, foi uma confusão que piorou nos dias seguintes.
Melisandre ficou tentada a falar a verdade para Jon, mas não sabia como o jovem rei iria reagir ou se iria acreditar. E também havia a promessa que havia feito a Arya. Disse que nunca contaria nada.
Quando Jon foi até o quarto se despedir dela, ela ainda segurava o objeto que eles haviam encontrado nas criptas. O objeto era uma bela harpa de ouro com fios de prata. Era a harpa de Rhaegar. Foi com essa harpa que o pai de Jon havia feito uma canção para ele logo no seu nascimento. Rhaegar deve ter deixado a harpa com Lyanna e quando ela morreu, Ned deve ter a levado junto com o corpo. Logo que viu a harpa, entendeu a essência dos sonhos de Jon.
Jon havia ficado encantado logo que viu a harpa, porém esse encantamento acabou com o sumiço de Arya. Ela lembra que na noite em que voltaram para o quarto com a harpa. Logo que fecharam a porta, Jon a beijou e a agradeceu por ter insistido tanto para ele ir até as criptas. Pegou o objeto nas mãos e chorou. Enquanto chorava disse que havia encontrado uma parte dele.
Mas tarde naquela mesma noite, Jon havia dito:
–Se for menino vamos o chamar de Rhaegar. Podemos contar dessa harpa para ele. Será nosso segredo.
–Quando você conquistar o trono de ferro, quem são seus pais não será segredo para ninguém.
Melisandre lembra-se de Jon ter somente sorrido.
–Tentarei voltar o mais rápido possível. – a voz de Jon espantou seus pensamentos – Essa batalha não vai se estender muito.
–Você deveria levar a harpa com você. Deve ter algum motivo para o Senhor da Luz ter lhe levado até ela.
–Se você diz. Irei a levar. – a voz de Jon não mostrava alegria
–Você também deveria me levar junto.
Ela já havia pedido isso várias vezes, mas a reposta era sempre a mesma. Jon sempre lembrava que ela havia prometido ficar se eles fossem até as criptas.
–Já decidimos isso.- Jon a puxou para perto e a abraçou- Vou voltar logo. Fique e receba minha irmã quando ela voltar.
O coração da mulher se apertou mais uma vez.
–E, além disso, agora você é oficialmente minha rainha. Fique e cuide dos assuntos do reino na minha ausência.
Isso ainda incomodava Melisandre. Sentia que ela não devia ser a rainha. Porém, devido a todo sofrimento que Jon estava passando por causa da irmã, ela não teve coragem de rejeitar mais uma vez a proposta dele. Até a coroa pesava demais em sua cabeça. Mas seria por pouco tempo... Quando a pessoa a quem pertence o cadeirão de Winterfell chegasse, ela iria atrás de Jon. Mas o rei não precisava saber disso naquele momento.
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