No fim de sua longa e exaustiva viagem, Zahra estava tão cansada que a cruz marcada com ferro quente em seu braço já não doía mais. Ela já não tinha certeza de quanto tempo fazia que ela estava dentro daquele navio... Cinquenta dias? Dois meses quem sabe... Mas suas preocupações iam muito além... O que ela faria de sua vida em sua nova morada? Como sobreviveria? Zahra não tinha grandes ambições, ela só queria sobreviver, como vinha fazendo ao longo de sua vida miserável. Podemos dizer que sua vida foi responsável por matar toda a esperança que ela tinha de algum dia ser feliz, de algum dia poder ter o simples prazer de deitar em uma cama confortável e ter uma noite tranquila de sono, sem precisar pensar no dia de amanhã. Apesar de todas as dificuldades, ela havia recusado inúmeras propostas de casamento que poderiam fazer dela uma mulher rica, por onde passava sua beleza marcante atraía muitos homens apaixonados... Ela tinha o rosto quadrado adornado por grandes olhos castanhos debaixo de grossas sobrancelhas arqueadas, as maçãs de seu rosto eram altas e vivazes, seus lábios carnudos tão bem desenhados que pareciam ter sido feitos a pincel e seu nariz levemente protuberante dava ainda mais personalidade a sua beleza, seus longos cabelos pretos emolduravam aquela beleza exótica típica de uma cigana e combinavam perfeitamente com sua pele tom de oliva. Zahra sabia que não poderia mais ganhar a vida com o que fazia em Portugal, afinal, esse foi o motivo de ela ter sido condenada ao exílio... Seu baralho de cartas e suas receitas de banhos de ervas já não poderiam mais fazer parte de seu novo cotidiano... Não que alguém teria dúvidas de que ela havia sido acusada por feitiçaria, já que uma grande cicatriz em forma de cruz agora estava marcada em seu antebraço esquerdo, essa era a maneira da igreja fazer com que as pessoas reconhecessem os feiticeiros que haviam se redimido em troca de uma segunda chance.

Zahra estava dormindo sentada no chão com as costas apoiadas na parede de madeira quando sentiu uma grande mão empurrar seu ombro.

— Acorde, bruxa! Pegue seus trapos e desça, nós chegamos.

Gritou um velho homem sujo, barbudo e de roupas encardidas.

Ela limpou os olhos e levantou do chão pegando uma pequena mala velha que mais parecia um baú com alças.

As pessoas apressadas empurravam umas as outras em direção da saída do navio, eram centenas de pessoas, de fidalgos a degredados que ficaram por mais de cinquenta dias amontoadas durante aquela longa e desconfortável viagem.

Ao desembarcar no porto de São Salvador, Zahra se deparou com cores, cheiros e sons vivazes da cidade. As pessoas caminhavam pelo porto, alguns iam ao encontro de parentes que os esperavam, outros encontravam amigos e alguns saíam sem rumo se misturando a todas aquelas cores e etnias. Zahra não tinha ninguém esperando por ela, a não ser as autoridades locais que esperavam que ela apresentasse a carta escrita por frei Dom Gonçalo, que em um gesto de generosidade preferiu dar uma segunda chance a ela, desde que deixasse Portugal rumo ao Brasil. E era isso o que ela faria antes de decidir o que fazer de sua vida naquela nova cidade.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.