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3 Capítulo 2 - Tempestade Noturna
Notas iniciais
O grafite deslizava por cada linha, compulsivamente, tomando nota detalhada de cada informação ao seu redor, cada horário, cada detalhe da rotina de cada uma das pessoas a sua volta. Raros eram os instantes que a lapiseira abandonava a folha, diferente dos olhos verde escuros, que dividiam sua atenção entre o papel e o ambiente que o cercava.
O silêncio nunca foi necessário para que obtivesse atenção necessária no que fazia, talvez por essa causa que apreciasse tanto estar sentado no sofá da área comum naquela noite, ouvindo a conversa animada dos colegas de classe enquanto tomava nota de tudo. Alguns colegas até admiravam a perseverança de Midoriya por estudar desse modo, mas só o próprio garoto conhecia a importância do que escrevia.
Enquanto isso, sentado ao seu lado estava Shoto Todoroki, tentando evitar causar transtornos a sua companhia e, inutilmente, distrair-se com o mesmo livro de poemas que tentara ler mais cedo. Se na sua primeira tentativa de leitura a sua atenção foi quase que completamente roubada pelo amigo, assistindo-o escrever na sala de aula, agora era o seu próprio âmago que deixava-o inquieto. Em momentos assim tendia voltar ao seu quarto, aproveitar do silêncio para focar-se na leitura, mas o convite recebido de Midoriya mais cedo, dizendo para ele sentar-se ao seu lado enquanto lia, realmente mexeu consigo.
E agora se encontrava sem rumo, deleitando-se com o esbarrar suave que ocorria casualmente entre os ombros dos dois, um contato precioso naquele momento, junto da bela visão que era assistir a inquietação do outro rapaz, e a adorável forma que ele mordia os lábios enquanto parecia pensar, olhando ao seu redor como se caçasse entre as pessoas a palavra certa a colocar a seguir em suas notas.
Como se isso não fosse inebriante o bastante, recebia de bônus a flagrância agradável vinda da pele e cabelos do menor, apreciando o doce cheiro de baunilha. Alguns poderiam dizer que era um perfume sem graça, enjoadamente açucarado e sem nenhuma característica forte que predominasse entre os demais odores, mas o dono dele tornou esse o favorito do guardião das duas individualidades.
— Uhn.. — Mais uma vez os olhos verdes fugiram do papel, procurando inspiração entre as pessoas. Parou, entretanto, quando notou a atenção da sua companhia o admirando, mordendo suavemente os lábios.
Ter a atenção do Midoriya era algo que lhe enfeitiçava, mais ainda podendo receber a gentil zelo dele mesmo depois daquele desastroso encontro mais cedo. Seus sentimentos transbordaram de suas mãos, escapando entre os dedos em uma armadilha bem arquitetada. Nunca cogitara a possibilidade de expôr o que sentia, mas com uma pergunta tão direta apenas deixou tudo vazar e, sem saber do peso que a sua declaração pudera ter. Tudo o que restou, no fim, foi derramar aquela paixão até então oculta, tendo em retorno o mais afável dos sorrisos, abrindo-lhe uma nova realidade de percepções e emoções.
— Heh — um riso curto fugiu do Midoriya, parando de permitir que seus dentes continuassem castigando seus lábios, substituindo o gesto por um sorriso.
Sem sequer poder respondê-lo, o coração de Todoroki acelerou, notando o corpo do outro tombar em sua direção, apoiando mais o seu ombro no seu. Quando Midoriya abandonou o seu caderno no colo e moveu a mão esquerda para o lado, aproveitou-se da oportunidade concedida, largando igualmente o seu livro e levando a sua própria mão ali, segurando-a.
As mãos do Midoriya eram fortes, ásperas, mesmo que pequenas para um garoto. A firmeza que ele tocava passava segurança, as unhas cortadas bem curtas e quadradas mostravam um desleixo natural com a própria aparência, junto com as pontas gastas traduzindo a verdadeira face do esforço. Não eram iguais as mãos do Todoroki, com dedos longos e estreitos, com a maciez garantida de sua vida privilegiada e das unhas redondas e quase femininas, preservadas pelo talento que sobrepunha o trabalho duro.
Enquanto seu treino foi focado em reforçar sua individualidade, a pessoa que amava reforçou seu corpo. Enquanto se lamentou pelo seu destino, o gentil rapaz correu atrás de escrever sua própria história. Eram completos opostos, mas enquanto assistia suas mãos tocando uma na outra, tinha certeza que elas se encaixavam perfeitamente, como se desde o começo elas estivessem feitas para estarem juntas.
Sorriu ao sentir a ponta dos dedos dele passeando na palma da sua mão, adorando a sutil troca de carícias. Seu coração estava em chamas, ardendo intensamente de uma forma que nunca ardera antes. Isso era a felicidade? Era ser correspondido? Estava queimando por dentro, sendo consumido pela simples existência do rapaz ao seu lado. Queria que esse momento durasse para sempre.
— Deku.
Mas não durou.
Bakugou parou diante do sofá onde os dois estavam, encarando com sua típica irritação o ex-amigo de infância. A forma que Deku e o meio à meio confortavam um ao outro não lhe passou despercebida, de mãos dadas como se confidenciassem segredos através daquele toque. Em sua mente já suspeitava que devia ter algo por trás disso tudo, que fosse lá qual era o problema que o Deku enfrentou, ele havia compartilhado com aquele cara. Eram melhores amigos agora? Deviam ser, aqueles dois e o quatro-olhos estavam sempre juntos.
— Ahm? Você quer alguma coisa comigo..? — Perguntou uma vez que foi chamado, continuando com a mão junto a do outro, mesmo que tivesse parado de apoiar o ombro nesse.
— Vem — mandou enfurecido. Iria arrancar algumas respostas dele.
Não demorou para que o rapaz explosivo saísse andando, esperando que o outro o seguisse, encarando-o para garantir isso. Foi impossível que os olhos de Todoroki não ficassem estreitos, esse comportamento era algo que vinha lhe incomodado há algum tempo. A forma que ele tratava o Midoriya, sempre com repulsa, não demonstrava o respeito que esse merecia.
— Bakugou, espe-
Um aperto suave na sua mão fez com que olhasse pro Midoriya, vendo aquele radiante sorriso que ele carregava ser tomado por uma expressão triste de negação. Ele estava pedindo para não interferir? Sentiu a sua mão ser solta e o menor levantar-se, seguindo silenciosamente o amigo. Pode apenas assisti-los se afastarem, sentindo uma pequena semente de inquietação ser plantada em seu peito. Não entendia porque, mas estava com a forte sensação que falhara em salvar o Midoriya.
Trezentos e vinte e dois degraus foram subidos para que chegassem ao terraço do dormitório. A mente do garoto de cabelos escuros não era rápida como a Katsuki, não conseguia achar as soluções de imediato, mas tentava compensar isso procurando registrar o máximo de informações possíveis. Era por isso que sempre anotava tudo, tentava compensar não ser um verdadeiro gênio. Mesmo assim, tentando ser observador, ainda não entendia a razão de ser levado até ali.
— Uau.. — Deixou escapar quando tirou os olhos das costas do loiro para o local que estavam.
Se antes sempre olhava para baixo, buscou então olhar para cima, seguindo o conselho que o Shicchan uma vez lhe dera, mantendo a cabeça erguida. E agora via-se recompensado, deixando aquele panorama noturno entretê-lo, sendo um ponto de fuga impressionante. O céu escuro, tomado parcialmente por enormes nuvens cinzentas, exceto por pequenas áreas onde as estrelas eram visíveis e até mesmo o brilho fraco da lua minguante.
— Isso é tão lindo — comentou, totalmente absorto.
Quantas vezes havia visto o céu dessa maneira? Ou melhor, quantas vezes havia visto o céu? Estranhamente não recordava, em nenhuma das suas memórias existiam imagens semelhantes, era como se alguma coisa nelas estivesse faltando, como se tudo o que não parecesse relevante tivesse sido deletado.
— Que merda você está falando? — Questionou o louro, meio incrédulo com esse comentário.
Mesmo se obrigando a olhar o céu, não via nada demais nele, muito pelo contrário. Havia chovido o dia todo, ali estava particularmente frio e o vento que batia no alto não era o que podiam chamar de boas vindas. Mas estava quieto, claro, e foi por isso que o trouxe. Perdeu rápido o interesse na visão, voltando a encarar o outro, pensando em dar-lhe um bom empurrão para fazê-lo parar de ser tão disperso, entretanto algo o intimidou.
Mas que porra era essa? Teve de levar os punhos aos olhos, esfregando-os. Podia jurar que, por um momento, viu um Deku diferente ali. Não aquele moleque irritante que se sentia superior, mas uma criança, um Izuku pequeno e imaturo que tratava cada coisa do mundo como uma nova e única descoberta. E o que mais chocou o Bakugou naquele momento foi que, mesmo depois de esfregar os olhos, a visão permanecia a mesma. Ele estava mais alto, mais velho, mas olhava para o céu como se nunca tivesse ficado fora de casa depois do sol se pôr.
Era como naquele verão, onze anos antes, que convenceu-o a vir consigo e escalar a colina próxima ao templo. Tinha se arrependido de tê-lo chamado no meio do caminho, quando teve de puxá-lo pela mão, pois logo na metade do percurso o Izuku estava exausto, arrastando-o ao topo. Esse atraso fez com que o percurso ficasse mais penoso que o usual, fazendo-os atingir o topo da colina apenas quando atingiram seu topo.
Pelo jeito que o moreno tropeçava no final da trilha, achava que ele choraria como um bebêzinho lá em cima, pedindo para voltarem, mas não, ele olhou pro céu da mesma maneira aquela noite. E mesmo que naquela espaço noturno as estrelas estivessem reluzentes e o tempo limpo, tornando a escuridão muito mais impressionante que essa, entendia um pouco o que ele estava sentindo.
— O que houve com você? Está diferente. — Perguntou calmo, abandonando seu espírito raivoso uma vez que foi comedido por sentimentos nostálgicos.
— Shicchan — chamou-o, descendo o olhar do alto lentamente, para ver a sua companhia. — Você lembra de quando nós- parou de falar, olhando os olhos carmesim de Bakugou.
Sentia que algo havia sido modificado nas suas memórias, como um erro momentâneo seguido de um trecho excluído. Lembrava dos olhos vermelhos o observando dessa forma, dessas pequenas orbes vermelhas que despertando-lhe um forte sentimento de admiração, mas mesmo com os olhos parecessem os certos, não era a pessoa certa. Nas suas memórias não era o Katsuki que estava ao seu lado.
— Izuku..? — Bakugou não entendia, ele havia errado o seu nome? Quem era Shicchan? Foi com quem ele esteve nesses dias que esteve desaparecido? Havia algo errado ali, não conseguia manter a sua postura afrontosa até entender o que era.
Um sorriso voltou a tomar os lábios do Midoriya, deixando o cativante painel a sua frente parar de turvar sua mente. Era a primeira vez que havia notado, mas o Bakugou e o Shicchan tinham a mesma cor de olhos. Isso devia fazê-lo feliz? Ou entristecê-lo? Diferente do Katsuki, Shigaraki era único.
— Você tem olhos lindos, Katsuki — elogiou-o, desviando o olhar desse para o chão, sentindo-se inquieto.
O elogio, porém, não foi bem recebido. O dono dos olhos rubi recuou um passo, desconfortável com aquelas palavras sem propósito. Era alguma declaração ou algo do tipo? Izuku virou homo? Isso devia ser culpa do meio à meio. Não era estúpido, já havia percebido o jeito bizarro que ele ficava olhando pro maldito do Deku, só não achava que ele se deixaria influenciar.
— Que porra você está falando? Seu maldito! Você está fugindo das minhas perguntas! — Tratou-o com agressividade, sendo a forma que encontrou para lidar com o momento. Fechou os punhos, tomando uma postura defensiva. Se ele lhe atacasse, quebraria todos os dentes daquela boca, assim ele nunca mais conseguiria sair sorrindo por aí.
— Desculpe-me — falou logo, sem querer deixá-lo desconfortável. — Eu estava pensando, você realmente me odeia, não é? Eu me pergunto quem começou com isso, se foi você ou eu.
Deixou seus pensamentos fluírem, dizendo tudo o que pensava e sentia naquele momento. Seus pés foram seguindo pelo terraço, um passo após o outro, rumo as grades de proteção. Não possuia nenhuma memória familiar com esse céu noturno, ao menos não com o outro rapaz, mas carregava ainda algumas lembranças ao lado dele, todas carregadas junto de um punhado de amargura. Pousou as mãos na grade, olhando para baixo, acessando recordações preservadas intactas em sua mente.
— Quando nós dois estavamos na sexta-série tivemos aquele festival esportivo na escola. Você lembra? Eu lembro, você ficou em primeiro em todas as competições. — Apertou a mão junto a grade, eram lembranças realmente dolorosas. Por que a escondia? Medo de encará-las? — Naquela semana, o meu pai estava voltando pra casa sempre muito cansado do trabalho. Quando chegou o dia do festival, os meus pais não foram, você recorda? E você, junto com os outros garotos, riram de mim por ir tão mal em todas as provas.
O dia ensolarado, a forma que os garotos lhe jogaram areia, gargalhando por ter ficado em último na corrida. Naquele dia não conseguiu encará-los, não conseguiu revidar nenhuma das palavras maldosas, apenas ficou lá, sendo alvo da crueldade infantil.
O Bakugou queria poder dizer que não lembrava do que ele dizia, mas recordava-se bem daquela época. Não propriamente do festival, mas da forma que o Izuku saiu correndo no meio do dia, desistindo das demais competições. Nos dias que se seguiram ele faltou as aulas, foi uma das poucas vezes que o seu pai lhe chamou pra conversar e pediu para que tomasse cuidado com as palavras que usaria com aquele Deku.
— Naquele dia vocês me disseram que os meus pais não haviam ido por terem vergonha de mim, vergonha de me ver falhar. Que eles seriam mais felizes se eu não existisse. Então, acreditando nessas palavras, eu subi no terraço da escola. Eu estava com tanto medo — riu das próprias lembranças, soltando um pouco a grade.
Recordava-se das sufocantes lágrimas rolando pelo seu rosto, da forma que mesmo achando que tirar a vida seria a solução, acabou perdendo toda a sua coragem ao chegar no terraço. O modo que olhou todos se divertindo lá embaixo, no festival, enquanto era o único ali no alto, chorando. Estava com medo de ser a razão da infelicidade dos seus pais, deles se sentirem mal por sempre ficar em último lugar, por não dar orgulho para eles.
Naquele tempo não tinha nenhum amigo, estava todo o tempo sozinho, excluído. Seu único refúgio de felicidade era a sua casa, onde podia jantar a gostosa comida que a sua mãe preparava, ouvir o seu pai contar as coisas que presenciava no trabalho. Se, por qualquer razão, sentisse que a sua existência fizesse-os infelizes, não se perdoaria.
— Eu pensei em pular, mas eu era fraco. Se fosse você, teria pulado? Provavelmente, não é, Katsuki? Você nunca hesitou depois de tomar uma decisão — virou-se para o outro, mantendo o ar de serenidade em sua face. — Então eu corri para casa, corri o mais rápido que os meus pés permitiam. E quando eu cheguei, meu pai me abraçou.. — Envolveu os próprios braços ao redor do seu corpo, recordando bem a sensação.
Aquela noite poderia estar gelada, o vento castigava-os toda vez que os atingia, mas a tarde preservada em suas lembranças não. Os braços do seu pai eram grandes, quentes, o acolhiam com tanto amor e diligência. Foi quando entendeu o que acontecia, o problema não era seu, era apenas o seu pai sofrendo, passando também por um momento difícil. Seu avô naquele dia havia partido, não tinha tido muitas lembranças com ele, desde bem pequeno ele vivia indo para o hospital, mas para o seu pai era uma pessoa realmente importante. Se tivesse tido coragem, isso teria o destruído, não é? Perder duas pessas que amava no mesmo dia. Foi quando decidiu que não deixaria mais as palavras do outro o machucarem novamente.
O louro via que essa conversa não era nada produtiva, sabia que pensar sobre o passado não os tornaria mais fortes, mas mesmo assim estava ali, em silêncio, assistindo-o contar aquela história. Lembrava de ir ao funeral do avô do Izuku, o jeito que seu pai alertou-o que deviam demonstrar respeito, o modo que teve de cumprimentá-lo enquanto o menor estava lá, sentado ao lado dos pais, em silêncio. O jeito que o Midoriya segurava a mão da mãe, tentando acalmá-la sem derrubar uma única lágrima, fez com que notasse como ele era forte. Mesmo sendo um chorão sem talento, naquele dia ele estava amparando a própria família.
— Você está protegendo alguém? — Era onde ele queria chegar? Por causa disso que havia desaparecido nos últimos dias?
— Eu estava com tanto medo de morrer, mas estar vivo era tão aterrorizante.
Não respondeu a pergunta dele, deixando toda a sua calma fugir-lhe pouco à pouco. O sorriso, antes tranquilo, tornava-se deturpado pela raiva crescente. As sobrancelhas curvavam-se para a frente, as bochechas tornavam-se coradas pela fúria, o desejo de gritar lhe consumia.
— Por que está me olhando? Você não tem esse direito, não com os olhos do Shicchan!
Não havia nada bom no rapaz a sua frente, nada que fizesse-o querer manter a sua máscara de amizade. Katsuki era um monstro, um monstro com os olhos iguais a única pessoa boa que ainda existia no mundo. Alguém devia destruí-lo, acabar com ele antes que ele acabasse com tudo. Deu alguns passos em direção a esse, largando o seu caderno no meio do caminho.
Não era a primeira vez que recebia um olhar tão desesperado assim, Bakugou já havia provocado o Deku ao seu limite inúmeras vezes, mesmo assim ele voltava a persegui-lo, como se nada tivesse ocorrido. Sempre que pisou nos sonhos dele, viu-o juntar seus fragmentos e levantar-se mais uma vez, sendo uma insistência irritante, um espírito inabalável.
Deixou pequenas explosões se formarem em suas mãos, sentia-se pronto para revidar qualquer ataque que recebesse, mas mesmo que tivesse força, não lhe passava despercebido que havia algo bem diferente ali. Toda essa raiva, todo esse medo, mais parecia olhar-se no espelho agora do que estar encarando o seu rival. A vontade do Deku estava abalada.
— Esse não é você, sou eu — disse, perdendo o interesse. Não iria lutar contra aquele Deku, ele parecia patético, parecia alguém que procurava desesperadamente uma forma de ser salvo. E encará-lo não estava lhe fazendo bem, estava se reconhecendo nele.
Virou as costas, abandonando o moreno para trás, sozinho no terraço. Não importava se ele ainda estivesse com raiva, menos ainda se sua negação o deixasse frustrado. Midoriya não era o único frustrado ali, não saber o que acontecia também lhe incomodava, não saber qual foi essa força devastadora que abalou os alicerces do seu rival.
Quando fechou a porta do terraço, Bakugou ouviu-o gritar, alto e desesperado, patético e melancólico. Seja lá o que tivesse acontecido, algo dentro do Midoriya estava quebrado e ele não parecia estar conseguindo consertar e levantar. Seria mentira se o louro dissesse que isso não o assustava, era a primeira vez que via o Deku precisar de ajuda.
Midoriya não acreditava ainda que havia se desestabilizado dessa forma, olhar para o Katsuki e pensar no passado era como se tentasse vasculhar demais dentro da própria cabeça. Podia sentir que havia algo lá dentro, um outro eu, gritando incansavelmente. Mesmo assim esses gritos não tinham nenhum efeito, por aquele seu outro eu não conseguia sentir nada.
Seus pés o levaram ao próprio quarto, sentando-se na cama e encarando a sua mão, vendo as cicatrizes e marcas que as batalhas deixaram nessa. Por que elas lhe pareciam tão pouco familiares? Nunca havia sentido tanta raiva, então por que agora toda a sua mente só parecia carregar coisas ruins do Katsuki? Como controlava esse sentimento antes? Suas relações estavam desbalanceadas.
Ergueu a cabeça, procurando as respostas e vendo vários posteres espalhados pela parede. Bonecos, fotografias, livros, todos eles de um único homem, como se tivesse marcado por todo o lugar um importante lembrete, um aviso constante sobre o que era primordial.
A iris musgo estavam escurecidas, abismada com tudo o que via, não importava para onde olhasse, haviam mais e mais imagens do mesmo herói. Sentia ter deixado uma mensagem para trás, como se todos os sentimentos de raiva, medo ou hesitação tivessem de ser abandonados em pró de uma única coisa. Porém, havia algo errado nisso tudo, um componente essencial faltava.
— Quem é ele..?
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