O que você deixou para trás
1 Capítulo Único
Notas iniciais
A foto na mão de Verônica parecia fosca por conta das histórias que ela carregava. Ela se ajeitou na cama, que outrora havia companhia. A foto, afinal, não tinha sequer uma moldura, era pura e simplesmente uma imagem, mostrava uma mulher com um chapéu de palha sentada no capô de um carro amarelo, ela tinha aparência antiga, mas a foto havia sido tirada cerca de três anos atrás, em uma viagem para a praia. A mulher não era somente uma mulher, Verônica gostaria que fosse, entretanto uma mulher desconhecida não teria o sorriso suficientemente belo para causar arrepios nela. Era Bruna. Sua antiga companheira das noites movimentadas de São Paulo. E naquela foto ria como se tivessem lhe contado uma piada segundos antes. Verônica sentia dor por ter um dia causado alegria naquela moça da foto, Bruna, mas a dor só vinha de fato por lembrar que hoje ela não tiraria nem um suspiro da outra.
O quarto de Verônica era varrido pelo frio e pelo silêncio. Ela olhava em volta e tudo que sua vista alcançava lhe remetia à Bruna. Queria ter o poder de mudar aquilo no mesmo instante, seu apartamento estava virando um mausoléu de um amor que já não estava mais ali. Para ela, era impossível não reconhecer Bruna em cada pedaço que mirasse seus olhos, ela tinha tocado todas as paredes, pisado em todos os pisos. Ainda sim, aquilo era o menor de seus problemas, ela poderia ir embora dali, comprar novos móveis e mudar as roupas, mas e ela própria? Como poderia arrancar de si cada toque, cada beijo, cada sensação? Ela não poderia sair da própria pele.
Apertou a foto contra si e fechou os olhos. Lembrando dos sorrisos e das piadas internas que ela tinha com Bruna. Quanto mais queria esquecer, mais ela lembrava.
— Vem, vem dançar. — Chamava ela, com uma taça de vinho meio cheia na mão e vestida apenas de roupas íntimas, dançando lentamente uma música tocada no piano. Era desengonçada, mas trazia em seus ritmos uma leveza que acalmava Verônica.
— Ah, não. — Reclamou, se esticando na cama. — Chega de dançar, eu quero descansar.
— Descansar do que? — Perguntou Bruna, com falsa indignação. — Volta pra cá, meu amor.
— Deita aqui, teimosa. — Ela a puxou para si, fazendo a menina quase derrubar o vinho na cama.
Bruna colocou a taça sobre o criado-mudo ao seu lado esquerdo e virou-se encarando Verônica.
— Quem dera se essa fosse a vista que eu tivesse para sempre.
— Que vista? — Indagou Bruna.
— Que vista, Bruninha?! Você, oras!
— Mas você já tem isso. — Esboçou um sorriso malandro.
— Por enquanto. — Disse enrolando sua mão na cintura da outra. — Até parece que bonita desse jeito só vai ter uma mulher para o resto da vida.
— Claro que vou. Sou firme como terra nas minhas escolhas. Constante. — Ela disse, irônica e divertidamente.
Verônica jogou a cabeça para trás, rindo. Empurrou Bruna levemente que também riu.
— Então me conta — Voltou a abraçar a menina. — além de firme como terra e constante, o que você é?
— Um pouquinho mentirosa. — Brincou.
— Isso! — Murmurou entre sorrisos. — A resposta que eu estava esperando.
— Boba. — Riu, indo em direção aos seus lábios. — Eu te amo, sabia?
— Claro que sei.
— A mentirosa e a convencida. — Bruna imitou a voz de um locutor. — Formamos um belíssimo casal.
— Sem dúvida alguma. — Verônica encerrou a conversa bem humorada.
Ela lembrava de cada detalhe daquela noite, o que não era surpresa já que lembrava de todas as outras, e o fato de estar presa no cenário onde a maioria dessas cenas tinha acontecido não tornava nada fácil. A Verônica vista ali era mais jovem. Não como se tivesse passado décadas. Mas ali parecia mais jovial, com uma olhar mais brilhante e uma postura mais confiante. Seus cabelos estavam mais compridos e mantinham a cor de ruivo quente de sempre. Talvez não tão quente quanto a mulher que a acompanhava. A Bruna daquele momento era a única palpável à Verônica. Ela quase podia ver tudo que tinha acontecido, como se estivesse acontecendo naquele momento. Jogou a foto que segurava no chão, com medo de lembrar daquele dia também.
A memória anterior ainda martelava na sua cabeça. Quando aquilo tinha acontecido, era só uma conversa descontraída em uma noite boa como todas as outras que vivia naquele tempo. Mas agora doía. Cada palavra doía, porque no fundo, fazia sentido, como nunca tinha feito antes. Se sentia uma perdedora por toda angústia que estava sentindo. Por que lembrar de algo tão casual fazia seu estômago revirar? Parecia que alguém tinha lhe acertado um chute na barriga. E se ela tivesse que adivinhar quem foi, ficaria entre duas opções: Bruna ou ela mesma.
A quietude das lembranças gritava na mente de Verônica. Alto demais para algo que deveria ser silencioso. Para piorar, não só gritava, levava tudo embora, tudo que era bom. O gosto da suas comidas preferidas, o som dos pássaros na janela, parecia levar até mesmo as estrelas do céu. Tudo passou de belo para insosso rápido demais e assim permanecia. Ela gostaria de saber quando as coisas parariam de ser tediosas.
Verônica desfez a carranca que acabara de perceber em seu rosto. Tinha medo que seu semblante soasse amor e ódio, se isso fosse possível. Em um solavanco se levantou, passou pela porta de seu quarto e desceu as escadas rapidamente, enxergando as pegadas invisíveis que Bruna deixou pelo caminho.
Sentou no primeiro degrau, com a esperança que um pouco de movimento e a mudança de local fizesse seus pensamentos perturbadores irem embora. No fundo, sabia que não adiantava nem um pouco. Onde ela ia, Bruna estava, em todas as entrelinhas era possível vê-la, e se evitasse enxergar ela no entorno, se encontrava com ela dentro de si. Sabe a sensação de não conseguir fechar os olhos mas ter muito medo para olhar? Era um ardil 22.
Verônica deixou uma lágrima escorrer, exausta de sabe-se lá o que. O amor era uma arma perigosa e ela não tinha certeza se sabia manuseá-la.
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