O que sobrou de nós

3 capítulo II: sobrevivendo ao caos


I watched my wild youth
Disappear in front of my eyes
Moments of magic and wonder
It seems so hard to find
Is it ever coming back again?

Estavam encurralados.

Kira tinha parado o carro em uma rua estreita que havia usado como um atalho, pois não tinha como avançar. Fugiu do caos que estava as rodovias principais e pegou o máximo de desvios que conseguiu, mas não tinham como continuar. O Jeep não podia simplesmente passar por cima dos outros carros amontoados que fecharam a saída da rua. Eles precisariam continuar o trajeto que restava a pé.

Aquilo não era nada bom.

O silêncio reinava dentro carro, como se todos estivessem com medo de emitir qualquer ruído e atrair aquelas coisas para eles. Kira encostou a testa no volante e tentou respirar pausadamente para que conseguisse enviar oxigênio o suficiente para seu cérebro pensar com clareza.

Precisariam continuar o caminho a pé, e se de carro faltava apenas cinco minutos para chegarem, andando seria vinte minutos, no mínimo. Levando em consideração o pavor que sentiam e a tremedeira que vinha de brinde, não podia dizer exatamente se conseguiriam cobrir o terreno tão rápido. E ainda tinha os infectados que apareciam do absoluto nada sem que eles esperassem.

Não tinham mais a proteção do Jeep, não se atentaram em pegar nada que pudesse servir de arma para se defenderem, só poderiam contar com a sorte daqui pra frente.

E a sorte parecia ter abandonado o mundo, o que tornava tudo pior.

— O que a gente vai fazer agora? – Ava sussurrou ao seu lado.

Kira não sabia dizer. Não conseguia pensar direito, pois o pânico mordia os dedos de seus pés com força. Sentia como se seu corpo todo estivesse sofrendo de uma câimbra terrivelmente dolorosa. Aquilo era um pesadelo.

— Estou pensando. – Foi o que conseguiu responder no momento. Sua mente disparava mil pensamentos por minuto e ela não conseguia focar em nenhum.

— Estamos perto, se caminharmos rápido conseguimos chegar no seu condomínio em menos de dez minutos. — Davi quem falou, mas sua voz estava tão trêmula que não passava um pingo de segurança.

— Eu posso tentar fazer uma ligação direta no carro que estiver no início da fileira, podemos seguir com ele. – Luna sugeriu. Fernando estalou a língua.

— Vamos ficar presos em outra fileira de carros e não sabemos se a próxima rua estará tão tranquila quanto a que estamos parados agora.

— Ele tem razão. – Ana concordou. – Vamos ter que seguir a pé, é o único jeito.

Kira respirou fundo três vezes antes de erguer a cabeça e olhar pelo para-brisa, estudando o ambiente. Mapeou todos os possíveis objetos que poderiam servir de arma contra os infectados e saiu do carro. Ouviu seu nome ser chamado por todos, mas ignorou. Se fariam aquilo, não podiam continuar enrolando, qualquer segundo que perdessem poderia custar as suas vidas.

Caminhou até uma caminhonete que estava com a porta do motorista aberta e olhou para dentro procurando a ignição. Por sorte, a chave estava ali e ela poderia abrir o porta-malas com facilidade. Tinha notado o nome estampado na lataria do carro, era de uma empreiteira famosa pela cidade, o que fazia do porta-malas deles um tesouro naquele momento. Pegou a chave da ignição e observou ao redor antes de seguir para a parte de trás do carro.

— Nós nem sabemos se o mundo acabou mesmo e você já vai saquear um carro? – Ava brincou, caminhando ao seu lado. Kira bufou em deboche.

— Saquear um carro está na minha wishlist, tenho que aproveitar as oportunidades que a vida dá. – respondeu, ouvindo a risada baixa da garota. Ergueu os olhos até os de Ava e lançou uma piscadinha, enquanto abria a porta.

Como ela tinha previsto, tudo que precisavam estava ali dentro. Havia caixas lotadas de ferramentas que poderiam usar para se defender caso algum infectado os achasse caminhando pelas ruas. Não estariam mais indefesos.

— Essa é a minha mulher. – Pedro a abraçou por trás e pegou um martelo grande o suficiente para esmagar um crânio. Kira se remexeu em seu aperto. Ultimamente andava muito incomodada com as investidas de Pedro e nem sabia por quê.

Ignorou, não tinha tempo para pensar em como estava o seu relacionamento naquele momento. Tinha coisas muito mais importantes para se preocupar. Viu Ava escolher um martelo com as duas pontas ovais e testar o peso passando de uma mão para outra. Não entendia o que tinha naquela garota que conseguia prender sua atenção com qualquer movimento que ela fazia. Era estranho demais como tinha criado uma ligação com ela tão imediatamente. A última – e única – vez que isso aconteceu foi com Davi e Ana, seus melhores amigos de uma vida toda. Eles tinham cinco anos quando resolveram ser suas sombras e, por incrível que pareça, Kira viu neles a oportunidade de ter irmãos para compartilhar a vida. Nunca mais se desgrudaram.

Quando Ava olhou em sua direção novamente, sentiu como se o mundo tivesse parado de girar na mesma velocidade que o de costume. Franziu as sobrancelhas. Que porra era aquela?

No entanto, a garota entendeu errado sua reação, pois se afastou indo se juntar aos seus amigos que também procuravam coisas úteis em outros carros. Suspirou contrariada, e também foi entendida errado por Pedro que a apertou mais contra si. Foda!

— Sei que você está com medo gata, mas eu estou aqui e vou te proteger. – Sussurrou em seu ouvido. Revirou os olhos e balançou a cabeça em afirmação. Tinha sido ensinada que se você não tinha nada de bom para dizer, era melhor não dizer nada. Várias vezes Pedro perdia a oportunidade de não dizer nada. Odiava quando ele a via como uma coisinha frágil que não podia se defender, ou pior, que não podia viver sem ele.

Pegou um machado de porte médio no porta-malas e o testou da mesma forma que Ava fez com seu martelo. O peso do machado não era impossível de carregar, mas faria com que seus braços doessem em algum momento em que seu corpo pudesse esfriar da adrenalina. O pensamento de que talvez não tivesse tempo para perceber esse tipo de dor tão cedo, fez com que os pelos dos seus braços se arrepiassem. A sensação de que o mundo nunca mais seria o mesmo continuava cutucando suas costas.

Se desvencilhou de Pedro e caminhou para onde o resto do grupo estava reunido. Todos tinham achado algo para se defender, o que era ótimo. Davi e Fernando estavam cada um com um cano de ferro enorme que tinham tirado de sabe lá onde, Ana tinha pegado um serrote no porta-malas da caminhonete, mas Kira não tinha certeza se ela saberia usar quando fosse necessário, portanto, pediu que ela ficasse sempre por perto. Luna tinha achado um taco de baseball dentro de um dos carros e Yuri estava com uma pistola.

Uma pistola?

— Onde você achou isso? – questionou o garoto que não parecia saber nem como segurava uma arma.

— Estava dentro da viatura. – Apontou para o veículo parado a três carros de distância. – Sei lá, parecia certo pegar.

— Irado, cara! – Pedro foi até ele e deu um tapa em seu ombro. Aquilo era mesmo um pesadelo.

— Fala baixo, Pedro! – Ana repreendeu o namorado de sua amiga. O cara não parecia levar a sério nada do que estava acontecendo. – Se uma daquelas coisas correr pra cá, eu juro que jogo você de isca!

Pedro encheu a boca para retrucar, mas Kira interveio. Não precisavam daquilo agora.

— Você sabe usar isso, Yuri?

— Claro que não. – respondeu, fazendo uma careta. – Mas é melhor ter por perto do que não ter, né?

— Então me dá isso aqui. – Estendeu a mão, esperando que ele lhe passasse a arma. – Procura outra coisa para você usar de arma. Algo que não faça barulho, de preferência.

— Opa, espera aí. – Pedro se intrometeu, entrando na frente de Yuri que já se mexia para fazer o que Kira pediu. – É melhor a arma ficar com algum dos homens do grupo, por questão de segurança.

Ouviu quando as mulheres bufaram em descrença. Esse era um daqueles momentos que Kira se questionava o porquê namorava há tanto tempo com Pedro e nunca chegava a uma resposta coerente pra suas decisões. Reuniu toda paciência que tinha antes de perguntar:

— Você sabe atirar?

Assistiu quando a confiança foi sumindo do seu rosto, enquanto ela erguia uma das sobrancelhas em sua direção. Pedro lutou contra a afirmação que ela sabia que viria, mas por fim, falou:

— Não.

— Eu sei, então vai estar mais seguro comigo. – Ergueu novamente a palma da mão, mas não precisou esperar muito já que Davi tomou a frente e pegou a arma da mão de Yuri, entregando-a para Kira. Checou se a arma estava travada e colocou na parte de trás da sua saia, presa entre a sua cintura e o tecido. – Certo, precisamos ser silenciosos e rápidos. O condomínio onde fica a minha casa não é muito distante daqui e a estrada de acesso não é muito movimentada por ser um lote com residências muito fechadas.

— Com residências fechadas você quer dizer: residências de gente rica. – Fernando pontuou sarcástico.

— Sim. – Kira deu de ombros, sem se importar. Ela era rica mesmo, não podia negar uma coisa que todos já estavam cansados de saber. – Minha riqueza vai nos trazer bons frutos quando chegarmos na minha casa e tiver comida o suficiente para encher suas barrigas.

Ninguém discordou ou quis ser espertinho para o seu lado depois daquela afirmação. Todos estavam cansados e com fome, desesperados por um lugar onde se sentissem seguros e pudessem colocar seus pensamentos em ordem. O mundo caiu sob suas cabeças não fazia nem cinco horas e tudo que fizeram foi correr sem parar. Precisavam descansar.

Depois de conferir pela segunda vez se todos estavam devidamente armados, seguiram o caminho por entre os carros até alcançar a rua principal. Estava vazia e tranquila, sem nenhum infectado perambulando por ali, mas sabiam que não podiam baixar a guarda, pois tudo podia mudar em questão de segundos. Todos se esforçavam para que seus passos fossem os mais silenciosos possíveis, sempre em alerta para qualquer indício de perigo que se apresentasse. Kira sentia o suor descer pela sua pele, ensopando seu uniforme de líder de torcida. Ainda estava vestida como se fosse treinar com seu time depois do intervalo, como se sua vida ainda fosse normal e não a loucura que virou. Naquele momento, levou em consideração todas as vezes que Maria, sua governanta e babá, tinha lhe aconselhado a se permitir viver a vida o máximo que podia já que nunca se sabia quando tudo podia acabar. Ela sempre esteve certa.

Queria ter vivido mais para ela do que para os outros. Queria não ter dedicado tanto do seu tempo para agradar os seus pais. Queria não ter perdido tanto do seu tempo em uma relação que sabia que não tinha nada a ver com ela. Queria ter dito mais aos seus melhores amigos, seus irmãos, que os amava. Queria ter feito tantas coisas, vivido tantas coisas quando lhe sobrava tempo. Agora tudo que ela tinha era alguns instantes. Instantes esses que podiam definir se ela continuava viva ou morta.

Ou semimorta, já que não existia mais uma morte definitiva nesse mundo.

Já estavam na metade do caminho quando Kira parou de se remoer em sua própria mente. Reconhecia o parque do outro lado da rua, dois quarteirões depois, era a entrada para seu condomínio. As toneladas de preocupação que estava carregando sobre os ombros começaram a se dissipar vagarosamente à medida que se aproximavam mais. Se continuassem daquele jeito, em silencio e tomando cuidado com seus passos, conseguiriam chegar muito antes do que ela tinha calculado.

Olhou para trás na intenção de avisar a todos que chegariam em breve, mas sua visão disparou para o infectado que cambaleava para fora de um dos becos. Seu corpo inteiro gelou quando mais dois saíram atrás dele. Levou o dedo indicador a boca em um pedido desesperado por silêncio e abaixou o corpo devagar, sendo seguida por todos imediatamente. Os olhares confusos em sua direção buscavam explicações, mas Kira só conseguia olhar fixamente para os infectados que ainda não tinham percebido a presença deles. Quando Yuri olhou para trás, puxou uma respiração alta, chamando a atenção de todos para o mesmo lugar.

Estavam paralisados. Ninguém movia um músculo sequer, enquanto assistiam os corpos cambaleantes andarem por entre os carros. Não estavam vindo em sua direção, o que era a primeira sorte do dia, então só precisavam esperar que estivessem distantes o suficiente para que não os escutassem. Mesmo que estivessem armados, o confronto direto com aquelas coisas não parecia algo que nenhum deles estava preparado para vivenciar. Ainda não sabiam nada sobre esse mundo novo para acumularem coragem para tomar alguma atitude que não fosse correr pelas suas vidas.

Quando os infectados estavam longe o suficiente, Kira sinalizou para continuarem. Apressaram os passos o máximo que conseguiam sem fazer barulho, criando ainda mais distância. O desespero era como uma corrente elétrica que estalava no ar entre eles, deixando todos tensos o suficiente para nem respirarem direito. Estavam quase chegando na calçada que precisariam atravessar para chegar ao parque, quando alguém esbarrou em um carro fazendo o alarme ser ativado.

O som reverberou por todo o quarteirão.

Kira sentiu seu coração parar de bater por um milésimo de segundo ao ouvir os rosnados que se iniciavam por todas as partes. Olhou para trás apenas para ver os três infectados que estavam distantes darem meia volta em sua direção e começarem uma corrida desengonçada. Ao redor, nos prédios, mais deles começavam a aparecer, se chocando uns com os outros na disputa de quem chegaria primeiro na refeição. Os becos deixados para trás começaram a expelir a morte que tinham abrigado quando mais deles apareciam. Os gritos do seu grupo terminavam de compor a cena de horror que se desenrolava, e se Kira não estivesse tão anestesiada, poderia começar a chorar como um bebê.

Um dos infectados que estava no prédio ao lado conseguiu se livrar da porta de entrada e correu para cima dela com toda a sua fúria. Nada passou pela mente de Kira quando ela ergueu o machado em sua mão e afundou no crânio da coisa, respingando sangue por todo o seu rosto. Tinha aprendido que acertar em outras partes do corpo não surtia efeito nenhum neles, mas quando acertava a cabeça, eles não se levantavam mais.

— Hora de correr! – gritou para o grupo e colocou seus pés em movimento, iniciando uma corrida na maior velocidade que podia.

Pedro correu ao seu lado, indo para cima de um dos infectados que vinha na direção deles, enfiando o martelo em sua cabeça com força. Não estavam preparados para o confronto, era certo, mas tinham pegado o espírito da coisa. O cotovelo de Kira doía como o inferno devido ao esforço que fazia ao acertar os infectados, mas ela não se deixou vencer. Acertou um deles que parecia muito mais lento do que os outros e empurrou seu corpo com o pé para conseguir recuperar seu machado que estava grudado na cabeça dele. Diminuiu seus passos para se assegurar que todos estavam conseguindo acompanhar e deixou que o grupo passasse a sua frente para que ela pudesse ficar atrás, protegendo a retaguarda. Sabia que Pedro acharia o caminho de sua casa, já tinha feito aquele trajeto inúmeras vezes durante anos, então poderia confiar. Davi e Ava ficaram junto com ela, enquanto o resto fechava o meio, se protegendo da forma que podiam.

Atravessaram a rua para o parque e entraram, acelerando ainda mais os passos. A área arborizada também não estava livre dos infectados, mas eles estavam espalhados e eram lentos demais para conseguirem alcançá-los. As árvores ajudavam a diminuir a horda que os seguiam, fazendo com que desacelerassem, mesmo que ainda continuassem os seguindo com ferocidade. Era hora de dar tudo que podiam para chegar aos portões do condomínio se quisessem ficar vivos. Agarrou a mão de Ava e entrelaçou seus dedos, puxando-a consigo. Davi entendeu que não era mais hora de lutar e começou a correr com mais velocidade junto com elas.

Kira conseguia ver a rua que levava para os portões do condomínio, mas sabia que não conseguiriam entrar pela frente sem que alguém abrisse de dentro. Tinham que dar a volta até a entrada de trás, onde podia usar a sua digital para liberar a passagem. Quis gritar por não ter pensado nisso antes. Correu mais rápido, ainda agarrada na mão de Ava, passando pela rua que deveriam entrar e os guiando para a próxima, que dava acesso a parte de trás. Passaram pelos muros enormes, repletos de trepadeiras que cobriam todo o cimento, e seguiram até a guarita que guardava a porta por onde iriam entrar.

Kira diminuiu a velocidade quando alcançaram o seu objetivo e colocou seu dedo no leitor que negou o reconhecimento de sua digital. Quis xingar todos os palavrões do mundo, mas tentou de novo. Seu dedo tremia com violência, o suor empapando todo o seu corpo e a palma da sua mão, os rosnados ficando ainda mais perto deles. Sentiu que podia desmaiar a qualquer momento quando o reconhecimento foi negado novamente.

Ava pegou sua mão e limpou o suor em sua blusa, colocando o seu dedo novamente no leitor. O painel ficou verde e a porta se abriu. Todos passaram correndo pela entrada, alguns se embolando e caindo no chão, enquanto Ava fechava a porta com força antes que algum infectado conseguisse os alcançar. O barulho dos corpos se chocando contra o metal com violência fez com que os ossos de Kira tremessem.

Por um momento, somente as respirações afobadas do seu grupo e os rosnados dos infectados podiam ser ouvidos. Ficaram parados ali, recuperando o fôlego, esperando que seus cérebros voltassem a ser algo sólido e não a geleia que tinham se formado para que conseguissem seguir até a casa, onde finalmente poderiam sentir alguma sensação de segurança. Kira apoiou as mãos nos joelhos, curvando seu corpo, tentando controlar a crise de ansiedade que sentia que estava pronta para tomar o controle de suas ações. Não podia se dar esse luxo agora que estavam tão perto, mas era impossível não entrar em pânico diante daquela situação.

O que tinha acontecido com o mundo? Por que aconteceu? Onde isso começou? Alguém viria resgatá-los? Seus pais estavam vivos? Ou só tinha restado eles?

As perguntas rodopiavam em sua mente, sem respostas.

Sentiu uma mão acariciar suas costas com leveza, os dedos fazendo círculos carinhosos, subindo até o seu pescoço, onde uma massagem começou a ser feita. Por mais que seus músculos não conseguissem relaxar, sua mente limpou consideravelmente, permitindo que ela pensasse com clareza novamente. Ou, pelo menos, lhe trouxe o senso de responsabilidade que tinha adquirido, contra a sua vontade, de volta. Ajeitou sua postura novamente, encontrando os olhos preocupados de Ava.

É claro que tinha que ser ela. Não bastava Kira estar caindo infinitamente em um espiral de interrogações, também tinha as sensações estranhas que aquela garota lhe causava para atormentá-la. Não tinha um segundo de paz, porra.

Assentiu a cabeça levemente na direção da loira, agradecendo pela ajuda. Não sabia como agir perto dela, o que tornava tudo pior, pois Ava tinha uma queda por interpretá-la da maneira errada. Como agora, afastando seu toque como se Kira estivesse pegando fogo. Maravilha!

— Se sente melhor? – Ava perguntou, os olhos ainda analisando Kira de cima a baixo.

— Sim. – Respondeu usando o melhor tom manso que conhecia. Não queria parecer ingrata. Sabia que ela era uma mulher de poucas expressões. Ninguém que não a conhecia profundamente sabia interpretar o que ela realmente estava sentindo. Uma das coisas que aprendeu vivendo no meio da alta sociedade: nunca ser um livro aberto para ninguém. – Obrigada.

Ava acenou e se juntou novamente com o grupo que olhava para ela com o mesmo ar preocupado. Aparentemente sua quase crise de ansiedade ficou visível para todos. Sentiu uma pontada de vergonha, mas ignorou. Ela era humana, também tinha sentimentos, mesmo que não parecesse na maioria das vezes.

Olhou para o portão onde os infectados estavam amontoados e percebeu que eles já estavam mais calmos do que antes. Aparentemente eram movidos pelas partes sensoriais e quando não havia nada para chamar sua atenção, a caça acabava.

Esperava que estivesse certa quanto a isso, afinal, não sabia o quanto aqueles portões aguentariam.

A porta da casa de Kira era enorme, não do tipo enorme como um eufemismo, era mais como uma porta que devia estar na casa de gigantes e não de pessoas normais. Sua mãe adorava aquela porta, já seu pai odiava. Ela, particularmente, achava uma breguice sem fim, mas não partilhava de suas opiniões com seus pais. Mesmo se quisesse, eles nunca estavam em casa para ouvir.

— É uma porta e tanto. – Fernando comentou, contemplando o monumento junto com Ava e Luna. O resto do grupo já conhecia sua casa suficientemente bem para não se importarem mais com as excentricidades de sua mãe.

— Por que uma porta desse tamanho? – Luna perguntou. Uma de suas mãos estava apoiada na cintura, fazendo com que ela parecesse uma xícara de chá.

— Não faço ideia. – Kira respondeu, digitando a senha de acesso na fechadura digital.

O bipe da tranca destravando fez com que sua ansiedade se fizesse presente de novo. Havia uma pessoa dentro daquela casa que ela esperava encontrar. Alguém que fazia parte da sua vida desde quando ela nasceu, que cuidou dela com carinho, que foi a figura materna e paterna em todos os momentos que precisou. Sua Maria. Também esperava encontrar Sabrina, a filha de Maria, sua amiga que cresceu com ela e participou de todas as fases da sua vida. Esperava que as duas estivessem bem, que nada tivesse acontecido com elas. Rezava por isso, e ela nem era do tipo apegada a Deus.

Conseguiu dar um passo para dentro da sala antes de uma arma ser apontada para sua cabeça. Soltou uma respiração aliviada. Sabia quem seria corajosa o suficiente para ficar de tocaia na porta de entrada caso ouvisse algum barulho suspeito em sua casa. Conhecia aquela mulher como a palma da sua mão – literalmente.

— Se for atirar, faça logo. – Brincou, olhando de esguelha para ela. Assistiu quando a expressão de Sabrina se transformou de fúria para felicidade em questão de segundos.

— Porra, Kira. — Sabrina sussurrou antes de abaixar a arma e puxá-la para um abraço apertado. – Estava tão preocupada com você, linda.

Linda era o apelido carinhoso que ela usava para se referir a Kira. Algumas vezes era amigável, na maioria delas, era como Sabrina gemia para ela ou tentava seduzi-la para que isso acontecesse. Muitas histórias, realmente.

— Estou bem. – Afirmou, tranquilizando-a enquanto a abraçava de volta. – Você está bem? E sua mãe, onde está?

— Eu pedi para ela ficar escondida enquanto checava a casa. Ela está apavorada. – Sabrina respondeu, tentando manter o contato entre elas. Kira se desvencilhou de seus braços da forma mais gentil que encontrou. A mulher olhou ao redor encontrando o resto do grupo, suas sobrancelhas franziram em confusão. – E quem são esses?

— Davi, Ana, Pedro e Yuri você já conhece. – Kira foi até a porta, esperando que todos entrassem, fechando logo em seguida. – Ava, Fernando e Luna são nossos novos amigos. Eles saíram da escola junto com a gente.

Sabrina cumprimentou a todos de forma gentil, mas apenas olhou com desgosto para Pedro. Um não gostava do outro. Kira nunca escondeu de nenhum dos dois o tipo de relação que tinha com eles, pelo contrário, era sincera com Pedro, da mesma forma que era sincera com Sabrina. Pedro aceitava a relação aberta que tinham e Sabrina aceitava que tinham uma amizade colorida. Ou ambos fingiam.

Kira não poderia se importar menos com aquilo. Na atual situação que se encontravam, ela tinha coisas muito mais importantes para se preocupar.

Maria apareceu em seu campo de visão, em seu vestido florido, cabelos brancos arrumadinhos e o corpo rechonchudo. Era a típica senhorinha gentil que aparecia em filmes ou era descrita em livros, mas Kira a conhecia muito bem. Ela era a mulher mais forte que já tinha conhecido. Tudo que sabia sobre a vida tinha aprendido com ela. Maria abriu os braços, seus olhos repletos de lágrimas que brilhavam. Kira correu para ela, a abraçando com toda a força que tinha, sentindo conforto e segurança pela primeira vez desde que tudo se tornou um inferno.

— Minha filha, graças a Deus você está bem. – Maria sussurrou em seus cabelos, acariciando suas costas com as mãozinhas pequenas. Sentiu vontade de chorar, o peso que carregava parecendo querer esmagar seus ossos até não restar nada. – Eu rezei sem parar pedindo para que você chegasse em casa viva e em segurança.

— Estou aqui agora. – Kira respondeu, sua voz embargada pelo choro entalado em sua garganta. – Não vou deixar nada acontecer com você.

Era uma promessa que daria tudo de si para cumprir. Não suportaria se algo acontecesse com Maria, se não pudesse protegê-la da mesma forma que ela fez por Kira durante toda a sua vida. Apertou ainda mais o abraço, enquanto sentia seu coração apertar. Tinha medo de que as coisas fugissem do seu controle, que ficar naquele condomínio fosse um erro, que estivessem encurralados para sempre. Tinha medo da comida acabar e não saber onde arranjar mais, dos infectados derrubarem os portões no meio da noite e não tivessem chance nem de se defender. Tinha medo do mundo permanecer assim para sempre e não restasse ninguém para vir salvá-los. Tinha medo de tantas coisas e só agora, nos braços de Maria, conseguia se deixar pensar nisso.

Maria tomou seu rosto em suas mãos e a olhou profundamente. Sabia que sua menina não era a rocha firme que transparecia o tempo inteiro, que ela tinha seus momentos de fragilidade como todas as outras pessoas. Era verdade que Kira tinha aprendido muito cedo que demonstrar fraqueza era um erro e que não podia deixar as pessoas lhe alcançarem, mas Maria tinha lutado muito para embutir seus próprios valores na menina, ensinando que nem sempre a vida precisa ser solitária. Por mais que os pais de Kira tivessem forjado ela a ferro e fogo, Maria a amansou com cuidado e carinho. Ela era o melhor dos dois mundos, quando se permitia ser vista.

— Estamos juntas agora, filha. – Assegurou para sua menina, apaziguando o medo que via em seus olhos. Kira assentiu, respirando fundo algumas vezes antes de recuperar sua personalidade usual. Era sempre doloroso para a senhora ver o quanto ela podia se fechar quando queria. – Me apresente seus novos amigos.

Kira se encarregou de apresentar todos novamente para Maria, que se ofereceu para fazer sanduíches para todos. A menção de comerem alguma coisa fez um brilho ocupar os rostos de todos os presentes na sala, já que não comiam desde o café da manhã no Ruy Barbosa.

— Então... Estamos aqui. – Fernando quem quebrou o silêncio. – E agora?

Todos os olhos se voltaram ansiosos para Kira, como se ela fosse a detentora de todas as respostas do mundo. Odiava aquilo. A responsabilidade de levá-los em segurança até a sua casa ela podia aceitar, mas a de decidir os próximos passos não. Jogou seu corpo no sofá, apoiando os braços no encosto e cruzando as pernas. Não sabia o que dizer, então não diria nada.

— Vamos ficar aqui o máximo de tempo que conseguirmos até o resgate chegar. – Pedro falou, em um tom que beirava ao autoritário. Kira já conhecia aquele modo operandi dele. Seu namorado gostava de estar à frente das coisas junto com ela para que as pessoas os vissem como uma frente única, fechando qualquer chance de aproximação. Se não estivesse tão cansada, acharia engraçado, como sempre. Pedro não fazia ideia de quem Kira realmente era, sua obsessão por ela o cegava completamente. Ele continuou: – Tem quartos para todos se acomodarem e aposto que comida o suficiente para aguentarmos até toda essa loucura acabar.

— Acontece que nós não sabemos se existe um resgate. – Sabrina pontuou, se acomodando no sofá ao lado de Kira. Pedro cruzou os braços, sua expressão se desfigurando em ódio.

— É claro que tem, o exército vai intervir, logo estaremos dentro de um avião indo para algum país que não esteja tomado por pessoas ensandecidas.

— Não são pessoas ensandecidas. – Ava se pronunciou, enquanto se sentava no chão ao lado de seus amigos. Ela cruzou as pernas, segurando os joelhos com as mãos e erguendo sua postura o máximo que pode. A língua de Kira coçou para perguntá-la se sentia alguma dor para estar se alongando, mas aquilo era óbvio. Todos sentiam dor pelo corpo inteiro depois de horas correndo sem parar. – Nós vimos pessoas mortas voltarem a vida, correndo por aí atrás de nós como se fossemos pedaços suculentos de carne, comendo outras pessoas como animais famintos. Isso não é um comportamento ensandecido, é outra coisa, algo que foge da nossa compreensão.

— Qual é mesmo o seu nome? – Pedro questionou, encarando Ava como se ela fosse um inseto. – Quer saber? Tanto faz. O que eu acho é que você não deve dar opinião quando não for solicitada, afinal, você está aqui de favor.

Kira sentiu uma corrente elétrica passar pelo seu corpo, acordando sua personalidade mais obscura. Não gostava nadinha quando Pedro crescia para cima de pessoas que ele achava ser mais fracas, muito menos quando essas pessoas eram mulheres. Pior ainda, quando era Ava, a garota com quem ela tinha uma conexão que nem mesmo entendia, mas descobria ser forte o suficiente para fazê-la reagir.

— Não fale assim com ela. – Quebrou o silêncio, enquanto se levantava do sofá. Pedro abriu a boca para retrucar, mas ela o cortou. – Não sabemos o que está acontecendo lá fora, não sabemos se existe um resgate e nem quanto tempo ficaremos aqui. Não dá pra saber. O mundo acabou de cair sobre nossas cabeças e estamos fazendo o melhor que podemos. – Olhou para todos os rostos naquela sala, o cansaço sendo quase palpável. – Vamos nos proteger, proteger essa casa e viver um dia de cada vez.

Todos acenaram em concordância, menos Pedro, que continua com a mesma cara amarrada. Fernando levantou o dedo indicador, como se pedisse permissão a uma professora para falar. Kira deu um meio sorriso para o garoto e balançou a cabeça em sua direção.

— Podemos mapear o condomínio amanhã, é bom sabermos quem ainda está aqui ou o que está aqui para evitar conflitos desnecessários se precisarmos sair da casa. Nunca é demais reconhecer o terreno em que está.

Kira concordou, também pensava o mesmo. Não conhecer o ambiente em que estava era o pior erro de quem precisava se proteger.

— Também podemos reforçar os portões de acesso para o caso daquelas coisas tentarem invadir. Segurança nunca é demais. – Luna opinou, certeira. Ava assentiu em sua direção, segurando sua mão. Kira franziu as sobrancelhas para o gesto.

— Sei que temos comida o suficiente aqui, mas não seria demais olhar as dispensas das outras casas. – Ana entrou na conversa. Estava apoiada em uma das paredes, ao lado de Davi. – Já que não sabemos quanto tempo vamos ficar aqui é melhor estocar.

Davi balançou a cabeça em concordância e falou:

— Também precisamos aprender a nos defender melhor, acho que ninguém aqui quer virar refeição de nenhum doido.

Todos estremeceram com a menção. Cada um pensando nas cenas que viram durante aquelas horas em que estavam na escola e depois nas ruas. Todas as pessoas que viram morrer, o sangue, a carne sendo mastigada. Ninguém queria o mesmo destino.

— Então temos muito trabalho pela frente. – Kira finalizou, tendo a certeza de que não se veria livre tão cedo das responsabilidades que adquiriu.

— Os sanduíches estão prontos meninos! – Maria chamou, limpando as mãos no avental que usava. Apesar de seu rosto ainda demonstrar medo, estava mais aliviada por ter todos ali.

Enquanto todos se levantavam e se encaminhavam para cozinha para finalmente se alimentarem, Kira pensava no quanto aquele grupo era disfuncional. Não eram nada parecidos uns com os outros, tinham personalidades totalmente diferentes, mas eram inteligentes e corajosos. Mesmo apavorados, conseguiam deixar a razão sobressair em muitos dos momentos em que precisavam, o que era mais do que ela esperava.

Em meio ao pesadelo que viviam, estarem juntos parecia até um sonho.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.