O que sobrou

1 Capítulo Único


Notas iniciais
Eu sempre quis fazer alguma fanfic de Life is Strange. É um jogo que com certeza já passou da sua época nos holofotes, mas que me conquistou totalmente desde que joguei pela primeira vez em 2015. Tentei passar o máximo possível da personalidade das personagens, espero ter feito um bom trabalho.

A chuva caía violentamente, acompanhada de trovões e rajadas de vento. Ao fundo, o gigantesco tornado varria de forma brutal o que ficava em seu caminho. Próximo ao farol, a uma distância segura da cidade, Chloe me entregava aquela foto. A minha última oportunidade de consertar tudo. Eu tinha o poder, e o destino daquela cidade, o destino de todos nela, depende apenas da minha decisão. Eu peguei a fotografia de sua mão enquanto ela tentava me convencer do que talvez fosse o certo a ser feito.

Eu sabia que, em algum lugar na cidade, nesse exato momento, pessoas estavam morrendo. Warren, Joyce, Frank, Alyssa… Eram tantos rostos. E todos eles passaram pela minha cabeça durante aqueles arrastados minutos.

Chloe, deixando a decisão em minhas mãos, me encarava conformada. Não sei quanto tempo se passou até que minhas mãos se movessem, rasgando aquela foto ao meio, mas quando seus pedaços foram levados pelo forte vento, eu soube que não teria mais volta. Estava feito, e a decisão havia sido minha.

— Max… — disse Chloe, se aproximando. — Eu sempre estarei com você.

— Para sempre — confirmei.

E enquanto Chloe me dava sua mão, tudo escureceu.

Quando o teto do quarto surgiu, desfocado, soube que havia acordado. Não era a primeira vez que meus pesadelos me faziam retornar para aquele momento. Como um vídeo em replay, eu presenciava aquela decisão, de novo e de novo. Sem qualquer alteração, e tão real quanto da primeira vez. Ainda olhando para cima, tateei com a mão o outro lado da cama. Quando minha mão encontrou a de Chloe, relaxei. Ela estava ali, estávamos bem. Deixei meus dedos cruzados com os seus por alguns segundos, enquanto minha respiração acalmava.

Quando me senti pronta, me afastei, tendo o cuidado para não acordá-la, e preparando-me para sentar na ponta da cama. Chloe ter puxado todo os cobertores para si durante a madrugada facilitou, e também explicou o porquê de eu estar com tanto frio. Virei o rosto para ver a responsável por aquele ato egoísta, e quando vi seu rostinho mal-humorado embaixo do amontoado de cobertores, ri baixinho. Sempre fico boba quando a vejo dormindo.

Recuperando o foco, peguei o celular na mesa de cabeceira e conferi o horário. Ainda não era nem 4h. Estralei a língua e suspirei, decepcionada e impaciente, enquanto colocava o celular no lugar. Acordar de um pesadelo durante a madrugada é perigoso: não sentimos confiança de voltar a dormir logo, pois tememos retornar ao mesmo pesadelo, ou acabar tendo outros. E não havia muito o que fazer a essa hora que me incentivasse a ficar de pé. Tendo me afastado das redes sociais desde que saí de Arcadia Bay, procrastinar nelas deixou de ser uma opção.

Permaneci encarando o nada por alguns segundos. Quando um trovão retumbou distante, anunciando uma chuva, tremi. Um calafrio percorreu meu corpo e antes que eu pudesse pensar, pressionei com força a colcha da cama e gritei.

— Chloe!

Esperei, torcendo para que minha voz desesperada não a tivesse acordado. Quando senti que o peso da cama mudando, me repreendi, arrependida do grito no impulso. Ela se ergueu depressa, mas não estava assustada, talvez por já ter se acostumado a me acalmar durante esses momentos.

— Pesadelos, novamente? — ela perguntou, ficando ao meu lado da cama e pondo sua mão sobre a minha, que ainda pressionava a colcha.

— E trovões. — Soltei a colcha e agora segurava a sua mão. — Como os daquele dia. Parece que não importa quanto tempo passe, eu sempre estarei voltando para lá. . Acho que no fim esse é o preço por tentar tirar proveito do tempo.

— Ei, já falamos sobre isso — ela disse, em tom tranquilizador. — Você não voltou mais a usar seus poderes desde aquele dia. Isso não tem relação com eles, Max.

— Não dá para ter certeza, Chloe. Mesmo tendo o utilizado tantas vezes, eu nunca entendi a real proporção disso. Quando a Kate… — Eu engoli em seco e balancei a cabeça. — Quando ela tentou pular. Tudo parou. Por completo. Talvez essa lembrança seja um efeito colateral a longo prazo para o quão longe eu fui com isso.

— Max, você adquiriu um trauma... — Sua expressão mudou, um tom triste tomou conta do seu olhar. — Nós adquirimos. Sei que não tem sido fácil, mas nós iremos passar por isso, juntas.

Ela me encarou, pressionando minha mão de leve. Ela sabia que isso me tranquilizava. Eu apertava de volta, era minha forma de retribuir. Por um tempo, ficamos quietas. Chloe sabia que eu queria falar algo, e por isso esperou.

— Chloe. Eu sou extremamente grata por ter você aqui, e não a deixaria por nada nesse mundo. — Lágrimas começaram a brotar dos meus olhos, enquanto um nó se formava em minha garganta. — Mas quando olho para trás, quando lembro dos rostos deles e do quão rápido parece ter sido para mim cortar aquela foto, eu não consigo não pensar o quanto fui impulsiva.

— Max, não havia tempo para pensar. Talvez não tenha sido o melhor, mas você fez o que julgou ser o certo, e agora temos que seguir em frente.

Eu assenti, enxugando as lágrimas e agora já mais calma, mas ainda sem saber se realmente concordava. Chloe passou o seu braço em torno do meu ombro, e me beijou.

— Sentindo-se melhor?

— Acho que sim.

Voltamos a nos deitar. De conchinha, Chloe atrás, com o braço envolta do meu corpo, e agora compartilhando os cobertores.

— Estive pensando em fazer algo no cabelo — disse Chloe, inesperadamente.

— Assim, de repente?

— O azul marcou essa fase da minha vida que ficou para trás. Está na hora de um recomeço.

— Não sei se consigo te imaginar com o cabelo de outra cor — disse, rindo.

Suspirei. Aquela era a minha Chloe, seguindo em frente. E eu a apoiaria, é claro. Eu sabia que aquela não seria a última vez que eu teria pesadelos, e sabia que superar ao menos parte de tudo o que houve levaria muito tempo. Mas quando ela me recebia em seus braços depois de eu ter uma crise de choro, ou quando ela me confortava após aquelas lembranças virem novamente à tona, era quando eu tinha a certeza de que tinha o que eu precisava. Eu precisava dela, e ela estava ali, ao meu lado, me confortando quantas vezes fossem necessárias.

Se eu houvesse retornado através da foto, se eu houvesse deixado Chloe morrer sozinha naquele banheiro, sem saber a verdade sobre a Rachel, sem saber que era amada por mim… Talvez esse peso eu não seria capaz de suportar. Eu não aguentaria deixá-la uma outra vez, e não ter ninguém para conversar sobre tudo o que aconteceu. Talvez minha impulsividade não tenha apenas salvado a Chloe, mas a mim também.

— Chloe.

— Ainda aqui.

— Eu amo você, sabia? Tenho que lembrar de te dizer isso mais vezes.

— Você já demonstra o suficiente, bobinha.

E, pelo menos naquela noite, quando eu adormeci novamente, não tive mais pesadelos.

Notas finais
Espero que vocês tenham gostado da leitura. :)
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!