Você conhece o desconforto de comer em um lugar público com completos estranhos te olhando? Essa mocinha que vamos acompanhar — Leticia Medeiros – 17 anos— sabe tão bem que já nem se importa mais. Todo dia ela sai de casa e fala para sua mãe que vai almoçar no trabalho da sua amiga da escola como sempre, mas na verdade, ela está pontualmente às 12:00 em um fast food, acompanhada apenas de dois combos grandes.

Se isso é um dia normal, do seu cotidiano, o que há de errado? Sem ninguém notar, ao fundo alguém – ou talvez alguma coisa — a vê e por algum motivo seu pensamento chama sua atenção. Você consegue saber o porquê? Seria porque ela estava esperando alguém? Não. Ou estava com vergonha dos olhares alheios? Também não. Mas inacreditavelmente por não querer comer aquilo, mesmo devorando tudo até a última batata frita com cheddar. Quem não ficaria surpresa com uma contradição dessas, sem sentido, já que ela não estava sendo forçada por ninguém para comer.

O que a presença viu foi além dessa cortina que todos notavam e a rotulavam como: gorda, alguém que não se cuidava, espinhenta, etc. Ela era verdadeiramente bonita, mas por alguma razão, não percebia. Ela tinha a pele um pouco morena, com espinhas como todo adolescente, cabelo bem preto mas infelizmente mal cuidado, olhos castanhos tão claros que até pareciam amarelos em contraste com sua pele, mas ninguém notava isso porque seus olhos sempre estavam semiabertos por ficarem longos períodos no celular para conseguir se distrair dos seus problemas, e se recusava a comprar um óculos para não a rotularem de mais nada. Quando ela terminou de comer ela ficou olhando para os pacotes, agora vazios, do seu lanche. Isso durou mais ou menos 2 minutos e já pegou seu celular, onde ficava lendo mangá o dia todo. Por nenhum motivo aparente, a presença estala os dedos – Snap – aparentemente nada acontece e a presença some logo depois.

Enquanto isso atrás do balcão, há uma moça trabalhando seriamente, limpando tudo que ela via, com a esperança de ser a funcionária do mês e receber um aumento que ela tanto precisava. Ela já é uma moça mais velha, de 22 anos. Sua aparência, à primeira vista é de alguém magra, se preocupa com a aparência, tem cabelos ruivos e olhos escuros. Por coincidência seu nome também é Leticia Medeiros. As duas não se conhecem, mas possuem cicatrizes semelhantes.

Depois de pouco tempo, a menina mais nova – a chamarei de Letty – volta para casa. Chegando lá sua mãe está no notebook e seu pai e irmão estão trabalhando. Ela vai se sentar no sofá e voltar a ler seus mangás. 5 minutos depois sua mãe lembra que tinha pedido para ela estender as roupas e ela tinha falado que já ia, mas até agora não foi. Então pediu denovo.

Mãe: Filha, vai estender as roupas.

Letty: já vou.

A mãe de Letty tinha muitos problemas, como o da coluna que não a deixava ficar em pé mais de 5 minutos até que começava a tremer, e também como já teve câncer de mama, teve q tirar 5 ínguas que haviam em sua axila. Por isso não conseguia mover o braço acima da cabeça. Ela precisava da ajuda de sua filha para cuidar da casa, mas infelizmente, a filha sofria de depressão a anos e achava que não existia mais motivo para viver pela frente, um dos motivos era que não sabia o que faria do futuro, então estava sem motivação nenhuma de viver. Ela estava viva, mas não estava vivendo.

Então depois de mais 10 minutos a mãe perguntou denovo:

Mãe: Filha, vai estender as roupas.

Letty: JÁ VOU MÃE. – falou em tom mais auto pq a mãe já havia a pedido de manhã e ainda n tinha feito isso.

Ela tinha irritabilidade e achava a cobrança da mãe um incômodo já que a mãe pedia ajuda de 5 em 5 minutos, mas não é como se ela não soubesse que a mãe precisava de ajuda. As duas sabiam dos seus problemas e de alguns dos da outra, já que as duas não gostam de falar dos seus problemas e deixar sua pessoa amada triste, mencionando o quão ruim elas estavam.

A mãe ficou um pouco surpresa, mas não é como se fosse um acontecimento raro, elas sempre brigavam, mas se amavam muito. Inclusive, a mãe era o motivo de sua filha não ter se matado ainda, porque ela não queria deixar a mãe “sozinha” com todos os problemas que ela tem. Como o pai e o irmão trabalhavam eles não ajudavam na casa, só chegavam de noite. O pai dela também a amava muito, e como n dizia não — por querer q ela ficasse feliz e melhorasse — ela ficou um pouco mimada e sem educação.

Infelizmente na casa ao lado – casa de sua chara – as coisas eram completamente diferentes. Ela vivia sozinha, longe de sua família e cidade. Na infância, ela era a “gorda” da história. Não se cuidava e não tentava fazer amigos, então no 1º ano da escola ela foi convidada por um menino da sua sala, o Matheus — sendo o único amigo dela — a ir em um show de rock num barzinho da cidade, ela percebeu que o menino deu a entender que isso seria um encontro e claro que ela aceitou.

Se arrumou o máximo que conseguiu, com suas roupas novas dadas pela sua mãe, mas que ela nunca tinha usado – como outras que ela tinha — porque não saia de casa. Ela pediu ao seu pai para levá-la como ele sempre fazia quando ela precisava sair de casa.

Chegando lá, estava empolgada, quem não gostaria de sair com alguém para ouvir as músicas que gosta? Ela ficou na fila para entrar e pegou a comanda do bar. Subindo as escadas, onde havia o caixa e o show, ela ficou esperando-o chegar. Quando Matheus chegou, os dois sorriam e se cumprimentaram, depois sentaram no sofá para conversar.

Leticia: Oi, turu bom?

Matheus: Oi, tudo sim. Tem novidades? Tô por fora já q faltei hoje.

Leticia: Amanhã é o dia de entregar o trabalho, n pode esquecer eim e também...

Matheus: O que? Pq essa cara?

Leticia: nada ia falar q hoje a Amanda tava estranha...

Matheus: Ela falou mais alguma coisa sobre você?

Leticia: Não o q foi estranho, ela só ficou me olhando e sorrindo? N sei muito bem...

Matheus: Esquece ela. É uma biscate kkkkk ela tem inveja pq você tira notas melhores q ela.

Leticia: kkkkkk verdades.

Os dois foram jogar em uma daquelas máquinas antigas de vídeo game que tinham lá, jogaram Street Fighter e advinha quem ganhou? YES Letícia destruiu o Matheus na porrada kkkk. O show começou e eles foram assistir. Ela percebeu que o baixista não parava de olhá-la, mas logo parou de pensar nisso porque achava que não tinha como mais alguém estar interessada nela. Quando o show acabou, eles subiram no 3º andar para jogar sinuca e lá estava o cantor. Eles eram fãs dele e foi isso que os aproximou. Pediram para tirar uma foto, o Matheus foi primeiro, depois ele tirou uma pra ela e ela pensou q seria legal ter uma foto deles juntos com o cantor para lembrar desse dia. Então ela pediu ao Matheus que estava falando com o cantor:

Leticia: -TAP TAP – ela cutucou as costas do Matheus e fala.

Leticia: Vamos tirar uma foto juntos também?

Matheus: Não precisa, cada um tem a sua já.

Leticia: Ah, tá bom então, deixa pra lá.

E ele continuou a falar com o cantor, a ignorando. Ela tirou o celular e ficou usando até o cantor ir embora.

Matheus: — chegou perto dela – Não é demais?? Eu consegui falar com o cantor. Foi muita sorte.

Leticia: Q bom. Você ainda vai jogar sinuca?

Matheus: Ãnh?? Ata, vamos.

Depois de terminar de jogar eles ficaram apoiados na parede sem ter o que conversar, com o clima tipo: hahaha – hahaha entãooo... Ele olha pra ela e fala:

Matheus: Hoje foi bem legal néh?

Leticia: Sim, foi super!

Matheus: Já tá tarde, vamos?

Leticia: Vamos!

Nesse momento ele dá um beijo na bochecha dela e vai embora rápido.

Leticia: ?!?!!? QUÊ, e pq ele foi embora, ele tá com vergonha? Kkk s2