O que os olhos não veem...
2 Capítulo 1 – O “convite”
Não se via uma comoção tão grande no Olimpo há uns bons anos...
Décadas.
Talvez até mesmo séculos.
Divindades de todos os tipos aglomeravam-se na sala do trono e pelos corredores anexos, sussurrando sobre o misterioso convite intimando-os a comparecer ali. Sátiros, ninfas, dríades e até nereidas confabulavam sobre o zum-zum-zum entre os deuses e qual poderia ser a justificativa para tamanho caos. Uma nova ameaça? Guerra? Apenas uma brincadeira de mal gosto? Nem mesmo os nomes do mais alto escalão pareciam ter ideia da força responsável pela tal convocação.
O próprio Hades – constantemente confinado no Mundo Inferior – acabara de cruzar as imponentes pilastras que demarcavam a entrada do grande salão e aquela pareceu ser a última gota de absurdo no copo já transbordando para alguns.
— Isso é loucura... – Atena murmura, quase que para si própria, de forma inconsciente buscando avistar Dionísio na pequena multidão.
— Um absurdo, isso sim! – O deus dos deuses se intromete. – Onde já se viu, a audácia de interpelarem nossa hierarquia e convocarem uma reunião sem o meu consentimento!
Poseidon, sentado de braços cruzados em seu trono, não pode evitar discutir com seu irmão mais novo:
— Claro, Zeus. Porque isso tudo certamente gira em torno de você...
— Ora, seu insolente! Quer saber, tem cara de ter dedo seu no meio de toda essa confusão e...
A acusação do senhor dos céus é interrompida pelo ritmado soar de saltos ecoando por entre as paredes de mármore, conforme as conversas paralelas vão calando-se, até que só há olhos arregalados, silêncio estupefato e a deusa Afrodite no centro de tudo, trajando um longo vestido de festa, como quem viera diretamente de uma cerimônia de premiação Hollywoodiana.
— Mas que maravilha! – Exclamou, animada, sorrindo de orelha a orelha. – Todos os meus convidados pontualmente aqui! Ai, é por isso que adoro vocês...
— O quê...? Mas o que significa isso, Afrodite?!
Aquela parecia ser a deixa aguardada. Certificando-se de ter inúmeros olhos voltados para si, a deusa do amor abandona o sorriso angelical e seu corpo parece resplandecer, rodeado por uma aura rosada de poder.
— Isso, meu querido, sou eu me rebelando. – Um único movimento de suas mãos, e todos os presentes congelaram em seus lugares. Forçados a ouvi-la e à mercê de seus caprichos por tempo indeterminado. – Estou farta da hipocrisia de vocês.
Como?, os imortais se perguntam. Impossível... De onde está vindo tamanho poder? Esqueceram que o nascimento de Afrodite é anterior a todos ali. Descendente do próprio Urano, criada à partir da semente, do sangue e da espuma do mar.
A manifestação tangível de sua força parece escorrer meio viscosa, meio líquida pelo chão a seus pés, rapidamente espalhando-se pelo salão e é então que as divindades aquáticas ali presentes – Nereu, Anfitrite e Poseidon – se entreolham, compreendendo antes dos outros. Porque água faz parte da essência dela muito mais do que os 70% compondo um corpo humano. Tal como esse elemento, a deusa está provando poder ser bela e fluída, mas longe de frágil, passiva ou até mesmo pacífica.
— Ora, não me venham com essas caras abismadas. Tenho a sensação de que vocês vão acabar me agradecendo pela forma benevolente que escolhi para provar meu valor. – A forma despreocupada com a qual a mulher inspecionava suas unhas ao ditar o futuro próximo de mais de uma vintena de entidades beirava o maníaco. – Não se preocupem também, pois não tenho qualquer interesse em assumir o controle de forma permanente e blá blá blá. Tudo que desejo é me divertir um pouco.
Com o final desta frase, vários dos deuses foram libertos de sua condição de estátuas, mas não havia como ignorar que se tratavam apenas de divindades menores.
— Pronto, meus amores. Vocês serão apenas meus hóspedes nesta grande experiência. Espectadores, até, eu diria. Estão livres para encontrarem suas acomodações e disfrutarem das festas e banquetes que organizei. Perdão por esse excesso inicial, eu acabei me empolgando, mas só queria que testemunhassem essa minha pièce de résistance.
Aparentemente dispensados, se apressaram para esvaziar a sala até que restaram apenas os seres ainda sob o efeito da mágica de Afrodite e um ou outro curioso, rondando as portas de entrada.
— Para vocês, as coisas serão um pouquinho diferentes. Durante um bom tempo fiquei matutando sobre qual seria a melhor estratégia para fazer vocês pagarem por todas as vezes que me subestimaram e, para sua sorte, cheguei à conclusão de que não há prêmio mais satisfatório do que estar certa. Então isso é o que faremos: vocês vão concordar em participar do meu experimento focado em autoconhecimento e desenvolvimento de afetividades e então, depois de um mês de atividades propostas por mim, estarão livres para voltarem às vidinhas medíocres de vocês. O que acham?
— Isso é um absurdo! Não vou me sujeitar a essa loucura!
— Tem certeza de que quer me testar? Vocês não achavam que eu seria capaz de fazer um terço disso aqui. Acho que é melhor agarrarem a oportunidade de se manterem sóbrios e conscientes durante o processo, antes que eu decida transformar todos em meras marionetes de vez. O que acham?
Para a surpresa de boa parte deles, a primeira a concordar é Atena.
— Aparentemente não há como argumentar contra sua lógica, Afrodite. Mas podemos ter garantias de que você não nos forçará a fazer nada que não seja de nossa vontade, caso concordemos?
— Mas é claro, Teninha! Juro pelo Estige.
Um trovão ribombou no horizonte e, simples assim, o acordo estava selado.
— Perfeito! – Afrodite celebrou, dando pequenos pulinhos no lugar.
Os olimpianos são, finalmente, libertos do feitiço e, enquanto testam seus movimentos com cautela, a deusa da beleza faz sinal para que seu filho – até então aguardando próximo à porta – se aproxime, envolvendo-o num abraço apertado.
— Ai, vou me divertir tanto! – Confessa, para ninguém em particular. – Eros, então, nem se fala. Se bem que você está nas nuvens desde quando descobriu estar sendo interpretado pelo Harry Styles no novo filme da Marvel, não é, meu pequeno anjinho do amor?
Cantado pela voz do ex-integrante do One Direction ou não, aquele certamente era um sinal dos tempos...
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