O que fazer quando o céu cair
3 Pode vir de quem menos imaginamos
Notas iniciais
Aquilo era impossível. Ela faria de tudo para voltar suas ações em só alguns segundos, alguns segundos insignificantes.
— Eu te odeio!- foi tudo o que Leandro conseguiu gritar quando viu seu irmão de joelhos, envolvendo os braços e só não chorando por falta de força.
— O que está acontecendo?- Alex gritou a distância, a alguns poucos metros da cabana.
— Chama o Mathias.- ela falou aquilo baixo por causa da culpa, não queria ter feito aquilo, faria de tudo para que não tivesse, mas fez. Fez e lá estava a última chance de achar os voluntários da pátria, sua última esperança. Não queria imaginar que a culpa era sua.
Ela tentou aproximar-se com a esperança de que metal quente ajudasse a pelo menos diminuir a dor, mas sabia que não, só seria pior. Leandro incendiou as mãos, sentindo um estranho frio na barriga por usar seu talento em público, mas precisaria, não deixaria que aquela bruxa chegasse perto deles novamente. Talvez alguns segundos atrás ela fosse sua salvadora, mas depois desses segundos aquela ideia era algo que merecia até censura. Ao ver aquilo, Noah reuniu as poucas forças que tinha para segurar o braço do irmão, levantar um pouco a cabeça e olhá-la no fundo dos olhos, do mesmo jeito que Amy olhava para ele na prisão.
— Por quê?- Noah usou o resto do seu fôlego para falar aquilo. Leu em algum lugar que o melhor jeito de aliviar-se minimamente da dor era com uma respiração regular. Quando ouvia aquilo repetida vezes nas aulas de pronto socorro, julgava que seria tão fácil de fazer… se algum dia chegasse a dar essas aulas, falaria que aquilo era mentira.
— Desculpa!- ela sabia muito bem que aquilo não serviria para nada, mas não queria ficar parada olhando-o sofrer por sua causa, por mais inútil que ele fosse.
— Você quase me matou!
— Eu não sabia-
— Não sabia que eu podia ser útil? Eu te falei isso um milhão de vezes.
— Taiti, sai de perto dele.- Mathias tirou-a do caminho, tendo que fazer o mesmo com Leandro. Se Noah fosse ou não um moribundo, aquilo não importava, já que Alex falou que ele precisava de ajuda, ele precisava de ajuda e ponto final.- pode confiar em mim, ok? Eu sou um médico. Posso dar uma olhada nisso?
Noah não quis olhar para o machucado, sabia que não teria estômago para aquilo, então fez um esforço para desgrudar as mãos do sangue coagulado e estender os braços o máximo possível. Ele fechou os olhos, alheio aos olhares de Taiti e de Leandro. Ela não queria ver aquilo, sabia que estava feio, extremamente fundo, mas sabia que não devia desviar o olhar, por honra. Pela pouquíssima que ainda restava.
Mathias segurou a ferida com força o suficiente para juntar as duas partes e respirou fundo, pensando em como seria estar na pele dele, era quase como se estivesse mesmo. Uma luz forte saiu de suas mãos, causando um calor confortável, quase como água morna. A dor foi passando junto com a ardência, dando lugar a essa estranha sensação de conforto. Era como se lagartas subissem do fundo do machucado até a pele, fazendo-a nova, como se nada tivesse acontecido. Noah conseguiu abrir os olhos o suficiente para examinar seu braço, não parecia que nada tinha acontecido, aquele sangue parecia ser de outra pessoa, ou até mesmo de um animal, já que não tinha nenhuma fonte aparente.
O médico fez o mesmo no outro braço, dando uma leve batida nas costas dele quando pronto.
— Valeu.
— Relaxa. Consegue andar?
— Consigo…- Noah esforçou-se para levantar e ficou um tempo só de pé, olhando para Taiti.- é Taiti, não é?
— É.
— Você pelo menos sabe o nome de quem quase matou?
— Não.- ela sentiu uma tentação extremamente forte de falar que um corte horizontal no braço, por mais profundo que fosse, com a rapidez do auxílio médio estava longe de ser fatal, mas Noah sabia, Leandro sabia e a sua consciência sabia que o alvo não eram os braços.
— É Noah. Vocês vão me deixar ficar com o meu irmão, ou nunca vão saber onde a sua queridinha está.
Alex e Mathias riram ao fundo sem nenhum motivo aparente, mas pelo olhar de confusão que receberam, sentiram a necessidade de explicar, bem na frente dela.
— Ela é a única que dá a mínima para a Amy.
— Ah é? Quero ver vocês voltarem sem ela para o Alexandre, ele vai comer o rim de vocês cru.
— Ele se preocupa com a figura dela, não com ela, depois de uma prisão por moribundos, tenho certeza que não será a melhor.
— Eu já até sei como vocês serão chamados: Os rebeldes abaixo de classe quatro com problemas com o papai que deixaram que a "queridinha do Alexandre" morresse. Não me parece que esse é o tipo de título que vocês quereriam no seu nome?
— Vamos botar os dois em um quarto, depois discutimos isso.- Alex não esperou por uma resposta, só começou a andar de volta para cabana enquanto era seguido por um Mathias ávido por uma pia para lavar as mãos, uma Taiti que olhava para baixo, um Noah e um Leandro que encarava os braços do irmão sem acreditar que eles ainda estavam no lugar, sem marca alguma.
E lá estava ele, naquele novíssimo mundo.
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