O que fazer quando o céu cair

9 O que pode Fazer Sozinho


Ah, minha querida Esmeralda... eu acho que tem um guarda esperando por você. Esperando para me dar o melhor dos presentes.

Nem mesmo nos seus sonhos aquele demônio a dava o mínimo de paz. Insistia em aparecer. Aquela figura queimada, presa em um emaranhado de correntes de platina. Seu demônio.

Ela não faria aquilo. Não pegaria as drogas.

Você sabe o que vai acontecer se não fizer isso.

A voz dele ecoava na sua mente.

Aquelas crises...

Sabia que aquilo aconteceria, mas não. Não se daria aquele luxo.

Seja egoísta pelo menos uma vez na sua vidinha miserável! Se não se drogar, não vou te dar paz. Nunca!

— Mathias!— Taiti o chamou preocupada.— Ela está suando de mais!

— Ótimo, está viva.

— Não sabemos quando foi a última vez que tomou alguma coisa.

— Ela está com soro, Taiti. Já fiz tudo o que dava para fazer. É só esperar agora.

Ela negou com a cabeça. Estava sentada perto da sua cama, segurando sua mão com força, esperando que aquele toque a lembrasse que devia estar no mundo dos vivos. Seu vestido toalha de mesa já estava dobrado e guardado. Seria um desperdício lavá-lo, já que estava rasgado, queimado em alguns pontos, só alguns degraus acima de um pano de chão. Seria jogado fora assim que voltassem para o reformatório. O de Amy, bem... não sobrou muita coisa dele para falar a verdade. A saia estava acima dos joelhos e as mangas cortadas como regatas, esse virou um pano de chão legítimo. Ela vestia agora um pijama limpo, ou o mais limpo que era possível achar no seu guarda-roupa, com um shorts curto e uma camisa de manga larga. Mathias insistiu que ela deveria cobrir o mínimo possível para que ele tivesse acesso à tudo que precisasse. Não que aquilo tivesse agradado alguém. Aquele quarto estava um gelo.

Taiti olhou para Amy de novo. Fazia tempo que ela esteve inconsciente, tanto que Mathias ignorou seu ódio por agulhas e pegou uma bolsa de soro para que não lhe faltasse água. Suas bochechas estavam rosas, como alguém com calor, apesar de as janelas do quarto estarem semi-abertas para que o ar do inverno entrasse. Sua respiração estava pesada pelo tanto de fumaça e pó de concreto que inalou (isso tirando os cigarros). Parecia doente. Todo seu corpo denunciava seu estado.

— Amy.— essa fala foi baixa, suave. Taiti torcia para que Mathias não tivesse ouvido.— está tudo bem agora. Você está em casa. Todo mundo está te esperando. Você já pode voltar.

Com a mão livre tirou uma mecha de cabelo do seu rosto, deixando-a sobre seu ombro depois.

E me parece que não é só um guarda... vou quebrar seu galho, mas saiba que se não se drogar, querida Esmeralda, eu não vou te deixar em paz. Nem pense em falar nada para ela. Você sabe que não poderá fazer nada.

Seu corpo ficou ainda mais quente, era como se estivesse perto de mais da lareira, envolta em cobertores de mais.

— Mathias!— Taiti chamou de novo.— acho que ela está com febre.

— Normal.— esse lia seu exemplar de o Médico e o Monstro com sobre a cadeira da escrivaninha que estava virada para janela. Alguns flocos tímidos de neve balançavam pela brisa suave, não era a primeira neve, nem mesmo a segunda, mas era a que seguia semanas sem nada. As plantas deviam começar uma revolução por tão pouco tempo de descanso.

Acorde, Esmeralda. Eu preciso do ópio para me saciar!

Aquela figura cresceu diante dos seus olhos, como se pulasse sobre ela. Amy abriu os olhos rápido, puxando mais ar do que devia enquanto se sentava quase que em um pulo.

— Não faz isso, Amy!— Mathias fechou o livro, deixando-o em cima da escrivaninha. Assim que chegou perto da sua cama, fez com que se deitasse novamente.

Ela fechou os olhos com força por causa da dor. Algumas lágrimas teimosas desceram pelo seu rosto quando pontinhos coloridos apareceram nas suas pálpebras fechadas.

— Quanto tempo que eu.—ela tentou se levantar de novo, não podia ficar lá, a fumaça do fantasma estava impregnada no colchão.

— Não fala nada.— o médico aceitou que ela não conseguiria fazer com que ela ficasse deitada, então deixou-a apoiada sobre seus cotovelos enquanto servia um copo de água.— algumas horas, só isso. Está todo mundo aqui, fique calma.

Não era possível ficar calma. Aquela dor era tão forte que nem parecia ter origem. Entorpecia seus nervos como uma cólica de corpo inteiro.

Taiti não se mexeu. Suas mãos continuavam no mesmo lugar que as deixou, só sua cabeça que levantou um pouco para que Amy ficasse no seu campo de visão.

— O que aconteceu?

— Amy, por favor, fica quieta.— Mathias a entregou um comprimido e um copo de água. Ela virou aquilo num gole só. Não parecia ter gosto melhor que aquele.— As coisas aí dentro ainda não estão cem por cento.

Ela recostou-se na cama conformada. Tinha esquecido como era acordar depois daquilo. Era como ser atropelada por um caminhão, depois cair pela montanha onde esse caminhão andava, depois afogar-se em um rio e cair na sua cachoeira. Qualquer coisa que a aliviasse seria mais que bem vinda.

Mesmo assim aquele comprimido deixou um gosto amargo na sua boca...

Mathias juntou as mãos e passou-as por cima do seu corpo sem tocá-lo. Precisava saber o que fazer. Aquilo não podia ser nenhuma dor fantasma. Não demorou muito para perceber que seu quadril que a castigava, então focou-se lá.

— Eu achei que não conseguiria falar.— comentou

— Também não tenho certeza de como estou fazendo isso.— rir doía, mas doía ainda mais segurar a risada.— valeu.

— Disponha.

Tentando ignorar que Mathias segurava seu corpo enfermo, olhou para Taiti com um sorriso de quem segurava dor e só falou para esquecer que ainda doía.

— Não sabia que você gostava tanto desse pijama.

— Era o único quase limpo...— ela falou sem jeito, as mãos no mesmo lugar de antes. Estavam suadas por causa do calor, mas não sairiam de lá tão cedo.

— E você estava com uns cortes bem nojentinhos abertos.— Mathias complementou.

— Se o pessoal do reformatório ficar sabendo, meu apelido vai ser zumbi. Alguma cicatriz?

— Eu sou o melhor médico em um raio bem grande.— depois de ter feito o que podia no seu quadril, passou para as pernas para que pudesse andar.— não subestime meu poder.

Ela olhou para Taiti de novo com cara de quem não acreditava.

— E quem faz o jantar hoje?

— O Alex.— Mathias teria respondido antes se Taiti não tivesse o interrompido. A quantidade de raiva que foi imprimida naquela fala assustou até mesmo o Fantasma. Foi baixa, reprimida, mas essa repreensão so a fez maior, já que sua vontade de sair venceu o bom-senso.

Eles se calaram depois daquilo até que o médico acabasse de consertas os estragos mais rápido do que achou que faria. Seu ego inflou com aquilo. Era, no fim das contas, o melhor médico.

Não foi ele, Esmeralda. Fui eu.

Todo seu sangue caiu para seus pés quando ela viu, atrás de Taiti, seu sorriso maníaco. Seu corpo ficou mais leve, sua barriga fria como se gelo corresse pela sua pele. Fechou os olhos com força com medo que, se os abrisse, veria aquela coisa a encarando como a sombra da morte. Deixou o ar sair do seu peito corrompido, esperando que o Fantasma saísse junto, mas sabia que nunca sairia. Com as correntes estava preso a ela, sem as correntes, estava dentro dela.

— Aqui que dói?— Mathias a soltou assustado, ela não tinha dado pista alguma daquilo. Olhou para seu rosto estranhando a perda repentina de cor.

— Uhun.— Amy fez o possível para colocar dor na sua voz. Só para que não soubessem que era culpa daquela coisa. Tinha medo do que faria se falasse.

Taiti segurou sua mão com ainda mais força. Não aguentava vê-la assim e era uma tortura não poder fazer nada. Com a outra mão segurou seu braço. Não o que tinha cortado antes, o esquerdo. Não sabia se algum dia voltaria a tocá-lo.

As memórias do que aconteceu no complexo voltaram como que em uma fonte, jorrando-as por toda sua mente como água. A corrupção subindo pelos braços dela, a cela onde estava. Aquele membro cortado, jorrando sangue, estatelado no chão de mármore. Aquele grito que ela deu...

Taiti fez o possível para fechar os olhos, esperando que as pálpebras segurassem as lágrimas, mas logo percebeu que aquilo era inútil.

Onde estava o sol quando ela precisava dele? Onde estava aquela luz ofuscante que pararia com aquela vontade?

— Mas não tem nada de errado aqui.— Mathias voltou a sondá-la.— Acho que já consegue até andar. Quer tentar?

Amy assentiu, soltando a mão de Taiti para que pudesse se apoiar na cama. Não doía mais, era como se todos os cacos tivessem voltado para o lugar, fazendo-a inteira novamente. Fingindo fazer força deslizou as pernas para fora do colchão, tocando-o de leve com seus pés. Estava frio, quase que como metal na neve.

Que saudade que tinha da neve...

— Vai com calma.— Taiti esperava que não desse para perceber fraqueza alguma na sua voz.

— Sim senhora.— Amy sorriu para ela enquanto usava os braços de Mathias como apoio. Não fazia força, mas, ainda assim, fingia esforçar-se para não parecer que recebeu nenhuma ajuda indesejada. Não queria nem imaginar o que Mathias faria se soubesse que seu demônio que a curou.

Foi como alongar-se depois de muito tempo parada. Seus músculos chiaram por usá-los de novo depois da maratona que os fez correr, mas era a mesma dor que sentia depois de um treino pesado. Familiar, mas nem tão bem-vinda assim.

Eram raros momentos assim, em que a gloriosa Amy, classe cinco, arcana, espelho, era vista daquele jeito, miserável, dependente de quem tivesse pena dela. Por mais que toda propaganda que Alexandre fez glorificasse sua imagem, ele não podia mudar sua natureza, era humana. Humanos sangram quando caem, choram quando perdem e gritam quando doem. Ela mesma não era exceção.

Mathias não deixou que ficasse de pé por muito tempo antes de fazer com que se sentasse de novo.

— Se não conseguir descer a escada, sem ressentimentos, te trazemos um prato.— disse.

— Só um?

— Duvido que aguente mais que um. Qualquer coisa, Amy, qualquer coisa mesmo, você precisa me chamar.

— Sim, senhor.

— Taiti, você pode sair um pouco?— ele pediu no tom mais educado que conseguia. Aquela coitada já tinha visto o suficiente para ter um idiota enchendo seu saco.

Ela não falou nada, só deixou o recinto como se nunca tivesse estado lá.

— O que foi?— Amy choramingou colocando todo seu cabelo para o lado. Não estava com estômago nem coração para conversas sérias, preferia voltar a dormir. Esperava que o médico só entendesse e deixasse-a se cobrir de novo.

— Como está seu defeito?— ele a olhava sério, de baixo para cima por causa do tamanho do banquinho, mas, mesmo assim, não parecia menor.

— Ah...— ela sorriu coçando a nuca, sentando-se mais para trás no colchão.— mesmo de sempre, sabe?

— Os mesmos de sempre variam. Eu sei que é a última coisa que quer falar, mas eu preciso saber. Se não se sentir bem, teremos que abortar a missão-

— Não!—Amy falou aquilo antes que tivesse a chance de processar seus pensamentos.— o mesmo de sempre é bem, nem ótimo, nem ruim. Aquilo não está falando comigo, só está como estaria em outro dia qualquer.

Boa garota, Esmeralda. Boa garota. Parece que você finalmente entendeu que sou eu que mando. Se fosse você, não falaria para ele nada sobre mim. Só deus sabe o que eu farei.

Seu rosto perdeu a cor, o ar naquele quarto não parecia o suficiente. Sabia que os olhos de Mathias eram bem treinados, ele já devia saber que estava mentindo, mas não tinha controle sobre aquilo, pelo menos, não sobre o que esse aquilo faria no seu corpo.

— Toma uma água.— ele a entregou um copo suado de frio, cheio, só faltava alguns cubos de gelo e uma fatia de limão para ser como nos filmes, o copo do deserto, e afagou seu ombro, esperando que aquilo não a deixasse desconfortável, mas sim, que fizesse com que falasse.— aquilo não vai mais voltar, você deu um jeito. Só quero saber se está falando alguma coisa, daí fazê-lo calar a boca.

Não era tão simples quanto sondar alguém à procura de hemorragias, ossos quebrados, traços de veneno ou coisas do tipo. Precisava que seus pacientes cooperassem, o que nunca faziam. Não podia falar que os entendia. A ajuda estava bem a sua frente, estava lá para livrá-los das vozes, mesmo que só por um tempo, mas, mesmo assim, se recusavam. Era quase como se gostassem daquilo.

— Só ouço o mesmo de sempre.— a água parecia ter trazido um pouco de coragem.— não é como se tivesse sobrado o mínimo de ousadia nele depois do que aconteceu no complexo.

— Posso te perguntar o que é esse mesmo de sempre?

Por que ele pedia permissão se já chegava perguntando?

— Você sabe.— se verbalizasse, começaria a chorar. Não importava quantas vezes ouvisse o que ouvia, as mesmas palavras a derrubariam como uma onda. Impiedosa força da natureza. Impossível de se parar.

— Amy, preciso que me ajude.

Ela parou por um tempo.

Estava lá para ajudar, mas sentia-se incapaz de colocar as frases já formadas na sua cabeça para fora. Era como se a mão daquele fantasma segurasse sua garganta, pronto para apertá-la caso fizesse alguma coisa indevida. Mexeu as mãos com força, esperando que o gestos formassem palavras de algum jeito e que essas palavras transmitissem as ideias que não conseguia por para fora. Mathias segurou seus braços, não com força, mas só um toque, fazendo com que relaxassem e repousassem sobre seu colo.

— Ele está aqui.

Não abriria seus olhos para vê-lo face a face. Quase sentia sua respiração pesada no seu pescoço, seus olhos brilhantes a encarando, almejando sua alma.

Eu falei para calar a boca, sua vadia!

Ele contorceu-se sob as correntes.

Nem isso você consegue fazer?!

— Não vai me deixar em paz.— ela fechou os olhos com ainda mais força, encolhendo-se para ainda mais fundo na cama.

Eu te disse o que farei!

— Ele não pode fazer nada, Amy.

Ele está mentindo! Não acredito que pôde fazer isso comigo. Eu que te curei!

— Eu não quero mais isso...

— Me dá suas mãos.

Amy não queria quebrar seu casulo improvisado. Querendo ou não, aquilo a passava um estranho censo de segurança. Mas foi o que fez. Descruzou os braços e entregou-os para o médico, que segurou seus pulsos sem olhá-la nos olhos.

— Vai ficar tudo bem.— disse levantando os olhos e sorrindo para ela.— você conseguiu prendê-lo, ele não pode fazer mais nada, você pode.— suas mãos brilhavam, iluminando as correntes e as algemas que a mantinham conectada ao seu demônio, com tempo, toda sua extensão se iluminou, até chegar em seu corpo moribundo. Ele contorcia-se, temendo a luz.

Fui eu que te ajudei, Esmeralda! Fui eu quem fiz com que saísse daquela casa miserável! É assim que me agradece?

Do mesmo jeito que como no complexo, o corpo da criatura queimou, chiou como metal quente na água fria. Uma advertência para que nunca ousasse a se aproximar dela.

Era uma pena que demônios tivessem memória curta.

— Ele vai voltar!— já havia jogado todos seus filtros fora, não tinha mais controle algum sobre o que falava. As palavras fugiam antes que tivesse a chance de vê-las.

— Não vai.— Mathias segurou seu ombro.— ele teme a luz, eu sou a luz. Estou aqui para te ajudar, ele não voltará enquanto estiver ao meu lado.

— Você não vai ficar aqui para sempre!

— Por isso, Amy, que você é um espelho. Já deve ter copiado-

— Já, já mesmo.— disse impaciente.—já copiei mais talentos do que você viu na sua vida inteira. Mas mesmo assim, ele não vai embora!

Não havia nada tão simples como uma receita que pudesse prescrevê-la para que tivesse paz, ao menos nos sonhos. Não havia nem mesmo um tratamento. Tudo que fazia com ela para evitar que seu defeito a castigasse era oura tentativa e erro, experimentos que fez com outros pacientes.

— Amy... preciso que me ajude.

— Eu não sei como.

— Só não acredite que ele vai voltar, tudo bem?

— Tudo.— ela secou o rosto com a gola da camisa, estendendo seu braço para o médico.— só tira isso de mim.

Amy não quis nem olhar Mathias tirar o esparadrapo que prendia a agulha no lugar, mas, quando o fluxo parou, era como se faltasse alguma coisa no seu sangue. A primeira coisa que veio na sua mente foram as drogas, em como esconderia aquele vazio quando apagasse o cigarro. Fechou os olhos, fingindo ser por dor, virando a cabeça para o lado como se não quisesse olhar.

— Qualquer coisa, qualquer coisa mesmo, estarei no meu quarto, certo?— ele sorriu para ela, dando-lhe um leve afago no ombro. Depois que saiu do quarto, virou-se para Taiti, que esperava imóvel ao lado da porta. Ela não retribuiu o olhar.— pode voltar, só não comente nada.

Só não comente nada. Como se aquele idiota tivesse alguma ideia de como aquilo a atormentava, como se tivesse alguma ideia do que viu. Como se fosse o dono da verdade que podia sair por aí dando ordens sobre o que deveria ou não falar. Tinha que desabafar com Amy, ela seria a única que não daria um conselho maternal, de que ai ficar tudo bem se acreditasse no poder da amizade. Aquele idiota...

— Amy...

O ar saiu dos seus pulmões como se nunca mais fosse voltar. Ela estava sentada na beirada da cama, agarrando a moldura de madeira como se fosse sua tábua de salvação, as costas tensas como em um arco. Não era possível ver seu rosto, uma cortina de cabelo foi posta lá quase que de propósito, mas estava encharcado, rubro, a face da derrota. A outra cara nunca vista.

— Considere o Alexandre.— disse quase sem abrir a boca por causa da raiva.— um homem morto.

Taiti não queria ficar lá. Assim que a viu, todo seu corpo, sua parte racional, seus músculos, mandaram-na fazer o caminha de volta, mandaram-na fugir daquela cela, mas ficou. Ficou parada como uma estátua a alguns passos da porta. A boca semi aberta, movendo-se sem emitir som algum.

— Amy... — repetiu sentando-se ao seu lado.

Seus dedos machucados pelas semanas de tortura seguraram os de Taiti com força, apertando tanto que os ossos adequaram-se à nova pressão.

— Não vá.

Ela pensou em soltar-se, quase o fez, mas não podia. Segurou-a de volta, apoiando a testa no seu ombro. Seu coração batia forte

— Por favor, Tai. Você é tudo o que eu tenho.— Amy conseguiu coragem o suficiente para virar-se, para tirar o cabelo do caminho revelando seu rosto. Não era o mesmo. Não era belo como acreditava. Estava, vermelho, inchado, molhado de lágrimas e suor. Ela mal abria os olhos.

— Não vou.— levantou a cabeça para que Amy pudesse aconchegar-se no seu peito.— Não vou sair daqui.

Ela não respondeu, só abraçou-a de volta, tentando segurar as lágrimas para que não molhasse sua camisa, mas logo desistiu, não conseguia. Queria falar sobre o que aconteceu lá, o que fizeram-na fazer para que pudesse comer, para que tivesse acesso a um banheiro, mas não pôde nem mesmo formar as frases. As palavras voavam como mosquitos na sua mente, passavam velozes na frente de seus olhos, dando somente uma ideia de o que significavam, nada mais.

Fez o possível para respirar fundo, inalando o cheiro forte de baunilha que Taiti tinha. Só para que aquela sensação não parasse, forçou-se a se acalmar, a diminuir seus batimentos, a normalizar seu peito. Não podia se lembrar do que aconteceu lá, tinha que focar-se em tudo daquele momento, a fazer aquela realidade ainda mais real. Sentiu as mãos dela sobre suas costas, sobre sua cabeça, seus lábios sobre sua testa e seu vai e vem constante, como em um barco solto no mar aberto.

— Estava com saudades.

— Eu sei...— Taiti afundou o rosto no cabelo dela. Por mais que tivesse um cheiro desagradável, por mais que estivesse duro, seco, sujo, ainda mantinha uma sombra do seu cheiro, do cheiro de casa.— eu também.

— Por que você não veio antes?

— Você não é a única que quer o Alexandre morto.— disse com raiva, cravando as unhas na pele dela com muito mais força do que devia.— porque quando é para manter chimpanzés a salvo, ele pode tirar meu talento e por onde quiser, mas quando é para algo mais útil, fica todo fresco. Quero ele morto.

Amy não respondeu, não conseguia pensar em nada bom o bastante para falar. Mesmo que já respirasse sem soluçar, falar ainda era um desafio inalcançável. Precisava pôr aqueles pensamentos corrosivos para fora, mas não conseguia, parecia que esse ácido dissolveu sua garganta, por mais que tentasse, por mais que abrisse a boca e pensasse nas palavras, não saiam. Nada além do que já era certo.

— Tai.— disse num sopro.— te amo.

— Eu sei.— ela a abraçou com força.— é a vez do Alex fazer o jantar. Que tal trocar alguns temperos?

— Eu também vou comer aquela comida...

— Eu cozinho alguma coisa para você, que tal?— disse em uma voz suave.— está a fim do que?

— Ir para cama assim que possível.— Amy fez força para se sentar e secou o rosto na gola da camisa. Não estava mais tão limpa assim, estava encharcada por causa de lágrimas, suor e catarro, mas já que teria que andar da cama até a banheira, forçou-se a permanecer vestida. Tentou olhar para Taiti, mas não conseguiu. Puxou os lábios para dentro, uma mão segurando a outro com força. Não parava de trançar os dedos, não até que Tai os tocasse, sem olhá-la.— eu... eu achei que iria morrer...

— Eu não ia deixar isso acontecer.

— Você deixou.— assim que essas palavras deslizaram para fora da sua boca, arrependeu-se por tê-las dito.— eu achei que não viria. Achei que tinha me deixado para trás e aquilo...— Amy segurou o braço direito.— eu não queria ter feito aquilo, mas doeu.— ela fez uma careta.— não achei que fosse possível sentir tanta dor.

Aquela imagem sangrenta do membro decepado, jogando com desleixo em uma poca de sangue cada vez maior a acertou como um caminhão. Aquele era, no fim das contas, o braço dela, não do fantasma como rezava que fosse. Foi ela, quem sentiu dor, talvez fosse ela que tivesse gritado...

— Me perdoa. Por favor, eu não tive escolha. Amy...?

Ela havia se fechado novamente. Sua coluna estava colada à parede, suas pernas dobradas tendo os braços como apoio. Seus olhos estavam fechados, tinha medo do que veria se abrisse-os: que estava de volta na prisão; que alguém viria drogá-la, mas agora teria que fazer aquilo sozinha.

Condenava-se por causa daquilo. Lembrou-se de como era quando criança e seu rosto manchou-se de vergonha. Deixou-se virar um espelho defeituoso por causa das drogas. Aquilo parecia ser tudo que era. Tudo que um dia foi e seria. Tudo que se deixaria ser, porque precisava de um cigarro. Lambeu os lábios, esperando que houvesse alguma pista de ópio lá, mas nada. Estavam secos e arderam com o contato da sua saliva. Mordeu-os com raiva, cravando o que sobrou das suas unhas na pele do seus braços. Esperou que aquela dor a impedisse de voltar a chorar, mas só fez com que as lágrimas chegassem mais rápido.

— Eu achei...— fez uma pausa para respirar.— achei que me queria morta.

Taiti não moveu-se. Piscou algumas vezes, virou a cabeça para o lado, respirou forte e franziu o cenho.

— Eu?

— Você.— agora que seu fantasma estava preso, sabia que aquelas memórias eram falsas, mas mesmo assim, pareciam tão reais...

— Você deve estar alucinando.— fez o possível para sorrir e colocar a mão sobre sua testa para checar se estava febril, mas nada. Estava lúcida. Sabia o que estava falando e era aquilo que queria falar, que achava que Taiti a queria morta.— ah, bonitinha... não é.

Amy balançou a cabeça, relaxando as pernas e os braços. Não queria se lembrar do que aconteceu no complexo. Não porque era passado e não podia fazer nada, mas porque a machucava do mesmo jeito que seu fantasma fazia. Mais feridas eram a ultima coisa que precisava.

— Me ajuda a tomar banho?

— Achei que não confiasse em mim para lavar seu cabelo.— Taiti sorriu para ela, cruzando as próprias pernas.

— Não mesmo, mas estou muito cansada para fazer isso sozinha.— Amy jogou seu peso para frente para que pudesse sair da cama, mas o braço de Taiti a segurou no lugar assim que viu o que queria.

— Eu pego o que precisa.— ela andou até o armário e abriu a necessaire que deixava perto do chão. Por algum milagre não estava coberta de roupas sujas. Abriu-a e tirou alguns frascos de shampoo, condicionador e o resto dos requintes que Amy fazia questão de levar para todo lugar. Viu de relance as pílulas que tomava e foi como um clique.— precisa de um absorvente?

— Não.— foi a primeira vez que riu em semanas.— você acredita que aqueles putos não me deram nada? Eu tive que usar meu vestido.

— Que anfitriões simpáticos...

— Não fale mal deles. Se preocuparam o bastante para me dar banho de mangueira.

— Gente educada, da próxima vez que visitarmos, levo um bolo.

— Coloca algum cianureto, eu não reclamaria.

— Sei que não.— riu.— alguma preferência de pijama, madame?

— Aquele cinza com calça rosa.

— Está ciente, madame,— Taiti falava como se ainda estivesse no bolsão.— que temos ilustres visitantes nas nossas propriedades?

A camisa daquele conjunto tinha um decote avantajado e fazia séculos que não se depilava, mas era bonito, não confortável para dormir, mas, ainda assim, bonito para as atividades que antecediam.

— Como está o Noah?

— Nunca esteve mal.— claro que se lembrava da sua perda de consciência, mas aquilo não foi nada. Levantou-se em questão de minutos.

Com frio, Amy levantou-se para fechar a parte de vidro da janela, examinando os papéis que deixou sobre a mesa antes de sair. Estava tudo no mesmo lugar, como se ninguém houvesse tocado neles. Sorriu. Eram poucas as pessoas que entendiam sua bagunça organizada.

— Onde está Antonie?

Taiti continuou a pegar as coisas no armário como se não tivesse ouvido nada, mas foi forçada a se manifestar pelo silencio.

— Morto, espero. Só me seguiu até aqui para agradar Papai.

— Não está morto. Não tinham motivos para matá-lo.

— Não vou procurá-lo. Espero que não volte mais.

— Ele é seu irmão, Tai.

— E é por isso que devo amá-lo?— ela levantou-se com tudo o que precisava bem guardado em um trouxa de toalha.— dois de três com tudo que aconteceu já é uma vitória. E tem mais, ninguém vai sentir falta dele e ele sabe disso.

— Não é porque não tem motivos para voltar que não queira.

— Então que ele volte sozinho. Por que se preocupa tanto com ele?

— Ele... fez o possível para me ajudar quando o circo pegou fogo— ela fez uma pausa, lembrando-se vagamente do que aconteceu antes de ser presa.— o que aconteceu com os humanos que fui ajudar?

— Foram executados, um casal de irmãos amorfos.

— Que desperdício...— eles não tinham nome, não tinham face, era isso que sua morte era: um desperdiço de talento.

— Vem, antes que o Alex entre no chuveiro.

— Você sabe que demorarmos mais que ele?

— Você sabe que na primeira oportunidade jogo ele fora?—Taiti pegou-a pela mão, puxando-a até o fim do corredor onde estava a porta para o banheiro. O teto rebaixado fazia parecer que o caminho era muito menor do que era. Alex conversava com Tina na porta ao lado do quarto que acabaram de sair. Só faltava que tivessem as ouvido. Tudo que conseguiu entender eram algumas palavras soltas: Alexandre, defeito, casa. Claro que fofocavam sobre o que acabou de acontecer.

Assim que se viram dentro do cubículo do banheiro, Taiti trancou a porta atras de si com um pouco mais de raiva do que deveria.

— Odeio esse filhinho de mamãe.

— Mesmo.— Amy já ia ligar a água quente quando Taiti fez com que se sentasse na bancada da pia, levantando-a pela cintura.

— Você tem que descansar, bonitinha.— disse sorrindo enquanto montava seu próprio atelier de produtos de beleza.— e eu só ofereço o serviço completo.

— Vou cobrar quando voltar para casa.

— A vontade. Levanta os braços.

Taiti puxou a camisa dela para cima, tratando-a quase que como lixo radioativo. As tatuagens nas suas costas foram expostas, vendo a luz pela primeira vez em semanas. Os desenhos que marcavam suas cópias espalhavam-se por quase toda extensão, fazendo com que essa parte do seu corpo fosse mais tinta do que pele. Ganhou a primeira, no ponto oposto ao seu umbigo, quando seu talento emergiu. Cortesia do seu pai. Amy balançou a cabeça, esperando que o movimento fosse forte o bastante para que aqueles pensamentos fossem embora. E foram. Pela primeira vez aquilo a deu paz.

A água quente que enchia a banheira mergulhava o quarto em um vapor turvo, embaçando o espelho. Ela virou-se um pouco para fazer desenhos no vidro, uma cara sorridente, uma frase positiva e o que ela jurava pela própria vida que eram olhos.

— O shorts eu tiro quando levantar do mármore. Essa coisa é muito fria.

— Como quiser, madame.— ela se curvou em reverencia.

— Não passei tempo o suficiente lá dentro para começar a falar como eles. Chega de frescura.

— Não é frescura, m’laidy. De que outro modo devo me dirigir a uma rainha?

Valeu a pena toda aquela linguagem requintada quando Amy sorriu. O sorriso mais belo daquele mundo e de outros. O sorriso que Taiti tinha a honra de ser a causa.

A última coisa que ela seria naquele momento era uma rainha. Estava com o torso nu, os seios fartos caindo para frente, o cabelo marrom armado caindo até o meio das suas costas, alguns pequenos cortes e hematomas espalhados pela pele bronzeada, tatuagens. Uma marginal, talvez, mas, de jeito nenhum, uma rainha.

— Me passa a escova.— pediu com preguiça de se levantar.

— Seu desejo é uma ordem.

— Pode parar com isso.— Amy riu pegando o máximo de cabelo que conseguia e colocou-o sobre o peito para que, pela primeira vez em semanas, tivesse a chance de tirar seus nós.

— Sinto muito, majestade.— Taiti disse enquanto checava o nível e temperatura da banheira com a ponta dos dedos.— fui amaldiçoada por um druida corrompido. Meu castigo só pode ser quebrado com um beijo de amor verdadeiro.

— Você conhece jeitos mais simples de me pedir um beijo.— Amy levantou-se para jogar o pijama sujo no tanque, deixando Taiti para trás. Depois parou na frente do espelho, assistindo seu cabelo armar enquanto penteava.

— Ainda assim, quero um beijinho.

— Se meu cabelo ficar bom depois de você lavar, vou pensar no assunto.— Amy tirou o shots do pijama, jogando-o no tanque. Colocou uma perna depois a outra dentro da banheira, quase se dissolvendo na água quente.

Expirou todo ar que tinha nos pulmões para que afundasse sua cabeça, emergindo logo depois para respirar. Esqueceu como era bom tomar uma banho direito. De água quente, limpa, parada para que pudesse apreciá-la. Jogou um pouco de sabonete nela para que não precisasse se mexer muito, só deixar-se de molho, então sentou-se de costas para Taiti, levantando as costas para que pudesse tirar seu cabelo de lá e deixou-o cair para fora da banheira de porcelana, molhando todo o chão.

Taiti puxou um pequeno banquinho de plástico de baixo da pia e sentou-se na frente dela, colocando um pouco de shampoo na palma da mão, aplicando sempre um pouco mais a cada camada.

— Você é cruel.— reclamou.

— Não sou não.— aproveitando que seu talento voltava junto com a sede por drogas, começou a criar figuras de água, colunas sem forma, bonequinhos palito que lutavam entre si para se distrair.

— Como você consegue? Meus braços já estão ardendo.

— Frouxa.— Amy pegou a parte que Taiti deixava suspensa para que ela não tivesse que fazer força. Dessa vez, diferente das outras, deixou que fizesse aquilo.

— Economizo forças.

— Sei.— quase foi possível ouvir um “Ç” na sua voz.

Amy afundou-se na água novamente, tirando o produto da cabeça. Colocou um pouco de água na boca, enchendo as bochechas como um esquilo. Sentou-se olhando para Taiti, um pouco de água vazando por causa do se sorriso travesso.

— Cospe isso, está sujo.

Tão bonitinha, tão inocente.

Amy mirou nela, deixando só um pouco mais de água dentro da boca.

— Ha, há. Minha cara de felicidade.

Amy cuspiu o resto, sorrindo de orelha à orelha depois, os dentes à mostra.

— Estou vendo.— e virou-se de costas para que Taiti pudesse continuar com sua parte da promessa.

— Que bom que está.— ela deu um leve puxão no seu cabelo antes de colocar condicionador.— já sei o que é, você não me ama mais.

— Isso é uma mentira descarada!— Amy virou-se para olhá-la nos olhos. Não lembrava-se mais do que aconteceu antes, só aquele momento importava, só aquele momento que acontecia. Por isso que a amava tanto. Ela fazia parecer que não havia desgraça no mundo, de que nunca esteve doente, de que nunca mais estaria.

— Ah, eu não minto, minha querida. Quero provas.

Para não dá-la pista do que faria, fixou seu olhar no dela, descendo, de vez em quando, para seus lábios, sem tirar a máscara séria do rosto. Como em um bote, encostou seus lábios nos dela, voltando a sentar-se na água agora morna como se nada tivesse acontecido.

Taiti voltou a lavar seu cabelo sorrindo boba. Amy sempre foi assim, desde que a conheceu, mas era mais comum que fizesse aquilo para roubar comida, ou alguma tarefa que não teve tempo de copiar antes, mas para um beijo... gastava mais tempo com aquilo do que só um beijo roubado.

— Tem certeza que esse sabonete não é corrosivo?— disse pendendo a cabeça para trás. Seu cabelo, agora com cachos pesados por causa do creme, tocou o chão, esparramando-se pelos pés dela..— parece que vou ficar aqui de molho por muito tempo.

— Não estou demorando tanto assim...— Taiti tentou retomar o movimento que a viu fazer tantas vezes, deslizar os dedos do couro até as pontas, quase que como em um tear, mas estava fazendo aquilo devagar de mais, com medo de puxar seu cabelo.

— Está.— Amy levantou-se, apoiando-se na bancada de mármore. Jogou seu cabelo para frente arqueando as costas, estendeu a mão para Taiti pedindo por mais creme. Ela a deu contentada, quase que admitindo derrota.

— Mal agradecida.

— Sincera.— quando terminou de fazer aquilo, afundou-se de novo na banheira, deixando a água cor de leite. Com umas das suas cópias, mesmo que estivessem um tanto irregulares, abriu as águas para que pudesse falar.— Tai.

— Chora, coração.— ela tirava o pijama da trouxa, estendendo-o em cima da bancada.

— Obrigada.

Amy recebeu um sorriso de canto, nenhum olhar. Sabia que Taiti ficou surpresa quando não a viu na banheira, pôde ouvir seus passos vindo na sua direção e uma risada incrédula.

— Se eu estivesse com meu celular, tiraria uma foto.

Amy forçou o abdome para se levantar, ficando sentada, as pernas tendendo uma para cada lado, fazendo ondinhas cada vez maiores com as palmas das mãos. Sentia a presença de Taiti segurando a toalha, exigindo, sem abrir a boca, que saísse, mas fingia ignorá-la. Estava quentinho lá, morno, confortável, parecia estar flutuando, só com o som da água.

O fantasma, as ilusões.

Saiu da banheira, quase que com urgência, para os braços de Taiti, que a envolveram em uma toalha limpa. Tinha que seguir o que Mathias falou, acreditar que aquela coisa não voltaria, mas ela sempre foi teimosa. Por que não voltaria? Não havia tal coisa como fé. Era irracional, esperança baseada no poder do querer e nada mais.

Talvez aquilo fosse tudo que precisasse, o poder do querer.

Deixou que Taiti a secasse, escorrendo o excesso de água dos cabelos na banheira, que agora continha um líquido cor de leite. Vestiu-se rápido, passando outro creme no cabelo com pressa, fazendo com que alguns fios se desprendessem, amassou o máximo que podia de uma vez só para que não ficasse uma semana armado por causa de alguns segundos de desleixo e destrancou a porta com urgência, seus pés descalços sobre o chão de madeira frio. Precisava sair daquele cubículo, só por causa de um pensamento ruim, precisava sair de lá. Deixou Taiti arrumando as coisas no banheiro, sabia que ela não teria dificuldades em secar o chão.

Assim que chegou no corredor, sentiu o cheiro de arroz frito com porco. Seu estômago roncou, seus dedos se repousaram sobre sua barriga com a intenção de acalmá-la. Precisava comer. Há séculos que não ingeria algo decente. Era uma fome fisiológica, parecia que comia por dois.

Não esperou por Taiti, desceu as escadas como um trovão, parando no último degrau. Não para que não a vissem, mas porque não queria ter visto o que viu.

— Amy!— Tina disse escondendo algo atrás das costas.— Não sabia que acordaria com cedo.

Não adiantaria mais. Ela já sabia quem era.