O que fazer quando o céu cair

1 Confiança pode ser de mais


Que o império não leia mentes como diz que lê, que ele não saiba o que se passa dentro das casas, que ainda lhe reste o mínimo de liberdade para, pelo menos, tentar mentir. Se aquilo não for o verdade, se aquela minúscula faísca de esperança se provar um truque de fumaça e espelhos, teria que renegar seu nome, seu direito de ser chamado de humano, seu passado e tudo que um dia foi seu por… nada? Pelo privilégio de não ser como todos os outros queriam que fosse?

Aquilo não era uma vida a ser vivida.

Estava cedo. Tão cedo que Leandro precisou de uma dose extra de força de vontade para sentar-se na cama e observar o irmão do outro lado do quarto iluminado pela luz azulada da manhã. Todos falavam que eram extremamente parecidos, que os dois puxaram a mãe, mas nunca conseguiu ver essa suposta semelhança. Noah era alto, forte, o sonho de todas as garotas, tinha um cabelo preto cuidadosamente despenteado que a tempo falta aos cortes e uma barba rala que ele fazia de tudo para que crescesse e ficasse como a do pai, enquanto Leandro, coitado, parecia estar sempre doente, como se comesse pouco e quase não saísse ao sol. Fazia questão de andar sempre bem-vestido, bem penteado, com as lentes dos óculos sempre limpas na falsa esperança de chamar a mesma atenção que o irmão, mas era sempre só esperança. Antes de levantar, pegou os óculos que deixava sobre o criado mudo e ajeitou-os no rosto. Noah dormia como um bebê. Leandro sentiu falta dos escravos do imperador. Esses ainda não saíram pelas ruas do império gritando que a coroação da princesa seria em dois meses, espalhando o convite para quem tivesse alguma coisa decente para vestir, algum jeito de ir para capital e o mínimo de boas maneiras. Uma preocupação a menos, quase ninguém estaria acordado para ter a chance de ver o que faria. Mesmo assim, sabia que não podia chamar a atenção, nem mesmo do colega de quarto. Com medo que Noah acordasse, tirou os cobertores de cima de si e andou até o corredor principal do andar de cima, tentando não fazer nenhum barulho desnecessário, tinha medo até de respirar. Por sorte estava vazio e todos os moradores daquela casa ainda dormiam. Tinha que ser assim, se alguém soubesse o que faria, família não seria mais família, eles poderiam traí-lo, denunciá-lo ao império. Fariam isso, fariam isso por dinheiro.

A ideia de ser trocado por algo tão banal como notas de papel sem valor algum o enjoou, sabia que todos que conheciam uma aberração as denunciavam para o império por dinheiro, por honra. Não seria problema já que aquele não era mais seu filho, além disso, sempre dá pra repor uma prole defeituosa. Estavam fazendo um favor para si e para a sociedade. Estariam melhorando o mundo.

Leandro fechou os punhos com raiva, mas logo relaxou os músculos sabendo que aquilo era inútil. Se fosse só por ele, aquela cidade inteira estaria em chamas. Ele já teria queimado todos os vilões com suas próprias mãos, com seu talento, já teria os feito passar por um julgamento humilhante como faziam com aberrações... Ai se ele fosse mais do que só uma aberração... faria com que os engravatados passassem pelo mesmo que o faziam passar, medo de traição, de ser achado, mal-tratado, torturado, morto… talvez a última parte fosse não fosse tão ruim quanto as outras, mas os faria pagar por tudo o que fizeram com pessoas como ele, pessoas que nada mais são que pessoas.

Já que nunca teria a cidade, teve que se contentar em queimar as folhas do jardim só para lembrar-se de que não era como eles, de que não era um tirano.

Saiu para o gramado e ficou lá por um tempo, só olhando as plantas que, de vez em quando precisavam de cuidados e as folhas do carvalho que estava dentro da cerca. Com um pouco de dificuldade, subiu em seus galhos e tirou um tufo de folhas mortas de um "V" feito pela árvore, secando o orvalho matinal nas calças do pijama. Vestia uma camisa azul clara de manga longa por causa do inverno, junto com uma calça preta de algodão e meias que um dia foram brancas. Só por precaução olhou em volta novamente, mesmo que a planta o fornecesse um bom esconderijo, não queria arriscar ser visto por nenhum par de olhos alheio. Devia fazer aquilo? Devia por todos em risco? Não daria em nada, pelo menos não depois de tudo o que fez para prevenir-se de bisbilhoteiros. Com um aperto no perto, Leandro fechou as mãos, sentindo as folhas quebrarem com sua força, aquecerem-se com seu talento até o ponto de combustão, mas aquilo não era um incomodo, pelo contrário, era um prazer. Quando aquela sensação passou, abriu as mãos para ver uma chama vermelha cintilando sobre sua pele. Parecia inacreditável que aquilo fosse possível, mas lá estava esse aquilo, provando que o mundo estava errado. Como? Ninguém sabe direito, mas ninguém nem precisa saber. Aquele filhote de fogo passeou pelos seus braços enquanto seu dono tomava cuidado para que a árvore não se queimasse, depois voltou para suas mãos. Ele ficou lá, passando o fogo de um lado para o outro, fazendo formas estranhas com ele, divertindo-se com aquilo como se fosse a coisa mais besta do mundo. Quando suas pernas se cansaram de sustentar seu peso sob galhos do carvalho, Leandro desceu sem dar-se ao trabalho de apagar o fogo, não era sua intenção de qualquer jeito. Ele deixou que aquela chama crescesse, tomando conta dos seus braços causando um calor como o de quem toma sol para esquentar-se. Queria que aquele momento não acabasse nunca, mas sabia que tempo, na situação que ele estava, era a única constante universal.

Mas pareceu tão maleável alguns segundos depois…

— O que você está fazendo?

— Noah!?— Leandro fechou as mãos assim que ouviu aquela maldita voz, puxando todo seu talento para dentro. Sentiu que ia desmaiar de nervoso, mas forçou-se a manter a consciência para que, quem quer que o levasse para o corredor da morte, se desse ao trabalho de olhá-lo nos olhos.— não é o que você está pensando, eu juro que não é, eu estava só…— não havia desculpas, nenhuma se quer.

—O que é você?

—Seu irmão, pelo amor de deus!— ele não teria coragem, não conseguiria contar para quem quer que fosse que seu irmão devia ser morto, ele não conseguiria.— eu juro que não machuquei ninguém, juro que nem vou fazer isso, eu não quero, eu também não conseguiria. Por favor, faço tudo o que quiser, só não me venda!

Noah nunca acreditou na velocidade das sinapses até aquele momento.

—Não assim, seu idiota, que classe?

—Pyro, por quê?— Leandro não sabia que a classe de uma aberração modificaria seu julgamento de algum jeito, mas estava um degrau a cima de um refém.

—Somos dois.—Noah estendeu a mão fechada para ele, mas seu irmão não conseguiu mexer-se para retribuir o gesto, então relaxou o braço como se nada tivesse acontecido.

—Os pais sabem?

—Não, você sabe que não, se soubessem, nós não estaríamos aqui.

—Eles teriam coragem de…

—Não, mandariam alguém fazer isso por eles.— ele não queria ouvir o final da frase do irmão, sabia como iria acabar, se eles teriam coragem de matá-los.

Fazia tão pouco tempo que Noah o viu, talvez se visualizasse a cena anterior à que ele entrou no jardim, conseguiria voltar lá, como se nada tivesse acontecido.

— E agora?

—E agora o que?—aquilo foi muito mais agressivo do que devia. Noah só queria esquecer que aquilo aconteceu e achar que, de algum jeito, ainda estava dormindo e que não teria que se preocupar em guardar um segredo que podia ser trocado por uma vida.

— A gente fica aqui?

—Você tem outro lugar para ir? Faça como eu, entre mudo e saia calado. Se não estiver chamando atenção está fazendo certo.

— Mas aqui não é seguro.

—Eu vou cuidar do meu mini mim.

Os dois ficaram lá, Leandro descalço sobre o gramado molhado e frio e Noah apoiado no parapeito da porta, ainda dormindo. Só o mais novo queria falar algo, mas nada parecia pertinente, as palavras voavam como mosquitos na sua cabeça, ele não conseguia pegá-los para formar frases. Mas não fazia sentido Noah ter demorado tanto para contá-lo sobre algo tão importante, só não fazia e aquele pensamento o atormentava.

— Por que você não me falou nada sobre isso?

— Você não perguntou.— Noah soltou a moldura da porta e já voltava para cozinha quando Leandro voltou a falar.

— Não conta para ninguém.— ele queria ter insistido muito mais, mas tinha medo que, se o fizesse, seu irmão se irritaria e sairia pelas ruas gritando que Leandro era uma aberração.

—Relaxa.— Noah cruzou os dedos na frente dos lábios.— seu segredo está seguro comigo.

Logo depois de falar aquilo, ele foi embora, deixando Leandro jogado no gramado.

Nem se esse quisesse, não conseguiria voltar a fazer o que estava fazendo, o susto que seu irmão o deu o paralisou, mas sabia que se ficasse lá por muito tempo, levantaria suspeitas, então fez o possível para levantar suas pernas de macarrão e andar para qualquer lugar que não fosse aquele. Noah não o mostrou o próprio talento. Tudo o que ele falou era mentira, ele não tinha nada, não era uma aberração. Ele sempre foi um bom mentiroso, sempre mentiu e dessa vez tinha um incentivo e tanto para fazê-lo, a recompensa que o império dava para quem quer que denunciasse uma aberração. Leandro gostava de pensar que ele não faria aquilo, mas o irmão já fez tantas coisas que mais aquilo não seria nada. Parecia que a qualquer momento um médico do império chegaria arrombando as portas exigindo que todos ficassem parados para passarem pelo teste. Ele estava condenado. Seria o único que reagiria ao veneno, seria o único que seria levado, seu julgamento seria divulgado para todos que quisessem ver e só deus sabia como o matariam.

E se fugisse da cidade? Ninguém nunca mencionou nada além do Estado, mas conseguiria sobreviver na selva, o fogo já estava do seu lado, o único problema seriam as outras aberrações que seguiriam seu exemplo, eventualmente uma sociedade se criaria e geraria tensões com o império. Suicídio talvez…? Ele não queria aquilo, queria viver, mas parecia muito mais digno morrer seguindo as próprias regras do que passar por todo desespero que ser capturado implicava. Não, queria viver, ainda aguentaria por mais um dia, depois, quando aquele chegasse, mais outro, até que não conseguisse mais, de jeito nenhum, viver como um ser humano, depois disso… que o amor de deus estivesse com ele.

O único jeito que parecia ter o mínimo de chance de continuar vivo até o fim do mês seria com a cooperação de Noah, mas ele… ele sabia que não tinha valor nenhum, que era um mentiroso, nasceu assim, morreria assim, mas agora sabia que não era mais só sua vida que estava dentro de seu controle, a de seu irmão também estava. Não, essa seria um péssima ideia, um laço genético foi confirmado com os talentos, se um pai ou mãe tinha um, toda sua prole tinha que ter também, então era a sua vida, a de um de seus pais e a do irmão, na melhor da hipóteses, todos eles seriam entrevistados e dois seriam liberados, já que o talento de Leandro tinha que ter vindo de algum lugar.

Não! Noah culpou-se imediatamente por um pensamento tão egoísta, não denunciaria a própria família porque era a coisa certa a se fazer, o império ainda não dissolveu esses laços, não faria isso porque não aguentaria a culpa, não ficaria quieto por medo de ser pego, aquilo parecia tão… passivo. Queria pensar que era como os grandes heróis dos livros, que sempre fazem as coisas certas e são aplaudidos por todos por terem ajudado quem precisava e por terem se sacrificado por uma causa nobre. Ele julgava-se muito perto daquilo, mas logo pensou:

A quem queria enganar?

Se se julgasse naquele nível, estaria mentindo para si mesmo com o mero objetivo de sentir-se melhor, ele não era herói nenhum, sabia que nem tinha aquele destino, a grandeza estava reservada somente para os grandes, não para pessoas como ele, que só sonhavam em ser um.

Sabia que não devia fazer aquilo, mas as prisões do império não deviam ser tão ruins assim, talvez fossem até melhores, lá talvez não houvesse fome, talvez a vida lá fosse melhor do que a vida que eles estavam vivendo em casa… talvez… não fosse tão ruim ir para lá.

Já que não devia explicações para ninguém a muito tempo, Noah vestiu-se com um terno, calça para inverno, e um sobretudo de lã. Suspirou antes de sair de casa com um único objetivo que amaldiçoava com toda sua alma, o covil dos leões, a todo pano para o complexo real.