Por um segundo quando acordou, podia jurar que estava de volta em casa, que se olhasse para o lado veria a cama bagunçada do irmão vazia e a prateleira perto da janela, mas, pela primeira vez na vida, tinha um quarto particular. Quando morava com seus pais, sempre implorou para que pudesse usar o sótão, esses sempre recusavam e ele nunca soube por que, mas agora, que finalmente tinha esse privilégio, sentiu-se sozinho. Olhou em volta para ver o quarto iluminado pela tímida luz azul do sol na manhã. Fazia um dia... um dia que desceu as escadas cedo de mais. Parecia anos. Quase não se lembrava mais de como era antes, mesmo que esse antes fosse tudo o que tivesse. Então não era como se não tivesse nada? Se não tinha nem mesmo memórias, teria o que então? Uma muda de roupa?

Não quis sair da cama. O mundo lá fora nunca pareceu tão hostil. Teria que arriscar a sua vida para não deixar o irmão sozinho, teria que deixar até mesmo as roupas para trás porque não eram "apropriadas" para os padrões das aberrações. O que seus pais diriam se soubessem que seu filho, Noah, aquele que só dava problemas de vez em quando no trabalho, estaria se rebaixando ao nível de uma aberração? Não diriam, o expulsariam de casa.

Puxou os cobertores para si, tentando fugir para seu pequeno mundinho privado. Sabia que era a Amy que o daria um talento. Seu visto para o novo mundo, aquela coisa linda, mas, mesmo se fosse com ela, mesmo se tivesse a chance de lhe dirigir a palavra, aquilo não era incentivo o suficiente para que saísse no frio. Virou o corpo para a janela. Nevava. O bosque estava branco como açúcar. Era o que pensava quando era criança, que neve era açúcar, então era o que trazia do mercado nos invernos. Quando sua mãe explicou que neve era, na verdade, água, Noah podia jurar que bebia açúcar e que quase todo seu corpo era açúcar.

Daria de tudo por um rocambole de amora quente, polvilhado com uma boa camada do pó. A única receita mais típica que aquela era batata com molho de batata, recheada com batata, cozida e frita na batata, temperada com cascas de batatas, fritas em óleo de batata, servida, é claro, com pão de batata. Isso sim era o verdadeiro Hessen.

Cresceu ouvindo que Hessen era tudo o que sobrou, todos os humanos que existiam, mas nunca soube o porquê de dar nome a algo único. Se houvesse uma pessoa só no mundo, ela seria um ninguém, um sem nome. Mas agora, talvez fosse para ter um nome imponente sobre eles, Hessen, onde os humanos que se recusaram a morrer.

Um grito cortou o ar, um grito forte, alto o bastante para que o Estado inteiro o ouvisse. Era de um homem.

Seu sangue gelou, não teve tempo nem mesmo de trocar as roupas de dormir antes de irromper para fora do quarto, dobrando logo o corredor para o quarto do irmão sem ver nem mesmo que os outros estavam no corredor.

Deu de cara com Leandro quando ele abriu a porta. Já estava com a camisa branca de manga longa abotoada no corpo, seus ombros relaxaram quando viu que Noah estava bem, depois saiu do quarto, olhando confuso para Tina. Logo teve que sair do corredor para abrir espaço para um Mathias esportista, cansado por não ter uma folga dos plantões matinais, que corria para o quarto de Nicolas.

— O que está acontecendo?— Leandro perguntou olhando para Tina.

Taiti saiu, ainda de pijamas, do quarto, com o que era antes uma pinça, esticada como um fio de cabelos frente do rosto. Estava em guarda, alerta.

— Taiti, guarda isso. É alguma coisa com o Nícolas, não um invasor.

— Então me explica por que, em nome de Deus, ele está gritando tanto?

Outro grito cortou o ar, Noah não aguentou, teve que ir ver o que era.

O chão do quarto ao lado do de Tina estava manchado de sangue e vômito. Duas grandes asas que já foram brancas escondiam um corpo que tremia, não de frio, mas de espasmos causados pela falta da droga, jogado no canto do quarto. Não sabia nem mesmo que tinha alguém com ele, que Alex tirava o sangue das suas asas com um pano úmido, rezando para que ele não se virasse.

— Já passou oito horas, já passou oito horas, já passou oito horas.— Nícolas murmurava aquilo sem intenção nenhuma de parar.

— Faz alguma coisa, Mathias, você é médico!— Alex torceu o pano ensopado de sangue sobre um balde, depois molhou-o em outro para que pudesse continuar a limpá-lo.

— Não sei se posso, isso me parece muito com uma crise.— com passos de algodão, agachou-se na frente do anjo, tocando seus braços que ele usava para esconder o rosto. Estavam cobertos em uma pluma irregular de penas cinzas, as unhas das mãos e dos pés como garras de gavião.— Nícolas-

— Me dá!— gritou cortando o ar e a bochecha de Mathias, com as unhas afiadas.

— O que ele quer?— Alex perguntou com os braços ardendo por causa do esforço.

— Droga.

Amy materializou-se atras de Noah, pálida como um fantasma. Olhava para Nícolas com a boca aberta e um pé para trás, seu peito subia e descia em um ritmo alarmante.

— Como você sabe?

— Ele estava assim na prisão.— ela fez o possível para ajeitar a postura, beliscou as bochechas para trazer um pouco de cor, mas todo seu sangue estava nas pernas para que pudesse correr de lá, para que não a olhassem como se fosse a próxima.

— Mathias!— Alex chamou desistindo dos panos.

— Eu não posso fazer nada.

Quase ninguém o ouviu. Seu peito estava pesado de culpa, mas não podia mesmo fazer coisa alguma. Não tinha droga alguma para dá-lo para que não passasse por essas crises antes de largar o vício. Era o único que poderia fazer alguma coisa, mas mesmo assim não tinha poder algum.

— Ele precisa de ajuda!

— Acha que não sei?!— Mathias deixou as mãos sobre onde Nicolas o cortou, iluminando-a como uma lanterna barata, muito menos brilhante do que ele usou com Amy.— Mas eu não posso fazer nada. Amy, você sabe o que ele estava tomando?

— Heroína com alguma outra droga moribunda.— ela ainda estava pálida, mas seu corpo estava flácido agora, como se ficar de pé fosse um grande esforço.

— Como você sabe de tudo isso se não te deram nada?— Tina perguntou, não só por perguntar, mas por ter a chance de provar que a tão perfeita Amy não nem mesmo boa, pela chance de provar que ela mentia para a própria esposa.

— Tentaram me recrutar como fizeram com Antonie.— como Noah, até muito pouco tempo Amy não acreditava no poder das sinapses.— falaram que era isso o que me dariam se discordasse.

— E você escolheu nos trair?

— Eu escolhi viver!— gritou, olhando para Tina quase que com fogo nos olhos.— Você não precisava estar aqui, não precisava ter vindo no mesmo grupo que eu para poder saber quem era a tal espelho que tanto falam.

— Quem disse que eu queria te ver? Eu preferia nem ter te conhecido.

—Sabe o que eu acho? Que você só está com inveja de mim porque é um Dynamo.— Amy deu um passo na direção de Tina, não estava mais fraca, estava pronta para calar a boca de quem quer que ousasse falar a verdade

— Amy, chega.— Taiti segurou os braços dela por trás, como um policial, mas anos de treino não foram inúteis. Amy livrou-se deles rápido, nem se dando conta que suas mãos bateram com força no rosto da esposa.

Taiti cambaleou para o lado com as mãos na face. Fez o que conseguia para ficar de pé e olhou para Amy. Demorou muito para ela entender o olhar que recebia porque não queria acreditar, mas era desgosto, um dos mais puros. Uma única frase se repetia pela sua cabeça: como ela pôde? Como ela pôde fazer aquilo?

Ficou parada lá, esfregando o rosto como uma criança enquanto se mandava não se intrometer. Podia falar que tentou. Que tentou parar aquela briga, mas que não foi ouvida.

— Sim, Amy, eu sou só um Dynamo.— Tina fez o possível para ignorar que todos, até mesmo Alex, pararam para ver.— Mas não trouxe desgraça nenhuma para os meus pais com isso, não me casei só para ser diferente.— olhou para os meninos como se os poupasse de algo.— E se quiser mais, não preciso do Alexandre para não soltar meu demônio.

— Como ousa?— ela cravou os dedos na parede, iluminando as correntes que mantinham seu demônio preso. Ele, como um cão treinado, ficou estático, olhando para a Dynamo com seus olhinhos brilhantes flutuando nas orbitas vazias.— é com isso que você está fazendo piadas. É com isso que eu acordo todo santo dia enquanto você acorda sozinha porque seu marido te deixou quando ficou grávida. E só me explica porque eu me casaria para ser diferente, se teria que ouvir coisas assim até mesmo do meu pai?— ela olhou para Noah que estava como um poste na frente do quarto de Nícolas, tocou seu braço de leve, sem olhá-lo e continuou.— Não sou obrigada a ouvir mais nada. Vamos.

Assim que desceram as escadas, Tina voltou-se para Taiti, que estava esfregando o rosto. A vermelhidão da batida contrastava com sua pele clara, seus olhos estavam marejados e dava para ver que ela fazia o possível para reter a água lá, em uma tentativa válida de manter a postura.

— Ela está mentindo para você, eu sei que não quer acreditar, mas...

— Chega. Leandro, desce.— expor-se para os irmãos seria contra as regras e a punição por isso seria pior do que uma briga. Mathias fechou a porta do quarto de Nícolas atrás de si, quando viu-se sozinha no corredor, suspirou e tirou a mão da face, expondo uma grande mancha vermelha. Cansou-se de segurar as lágrimas, por mais ridículo que fosse chorar na frente dela.— É sério isso? Que eu me casei para ser diferente?

— Você sabe que isso não foi para você.

— Você sabe que chega dos mesmo jeito.

— Ela te bateu!

— Foi um acidente, em você seria de propósito.

— Taitiana, ela não te ama.

— Você não é ninguém para falar isso! É muito fácil falar que ela saiu da linha depois de tudo o que você falou. Você não sabe como é ter uma coisa daquelas te seguindo por todo lugar, você não sabe o que ela viu naquela prisão e pior ainda, não sabe o que eu e ela ouvimos depois do nosso casamento e não espero que saiba. Você é mesmo só um Dynamo.

Talvez tivesse feito a mesma coisa que Tina fez, mas era tarde demais. Não havia nem mesmo a esperança de que uma mutação ocorresse e Taiti ganhasse o Talento de voltar no tempo porque esse não existia. O que foi feito estaria para sempre feito.

— Não, tudo bem. Eu sou mesmo só um Dynamo. Do mesmo jeito que você é só uma Elementar e a Amy é só um espelho. Não espero que entenda, não depois de nascer com todos venerando seu Talento por você ser aqueles poucos que têm alguma coisa útil de nascença. Não espero que entenda como é ter que ralar para alguma coisa.— deu para ouvir alguém subindo a escada. Tinham que terminar logo com aquilo.— qualquer coisa, estarei na Biblioteca da Cidade, ou no que sobrou dela.

Tina virou-se para voltar ao seu quarto, logo colocando a roupa moribunda que o Reformatório a dava e demorou-se ao arrumar a bolsa, esperando tempo suficiente para ter certeza que alma nenhuma estaria no corredor.

Taiti soltou as mãos ao lado do corpo e olhou para trás, para a escada. Não poderia descer e falar para Amy o que aconteceu, ela era, bem, um grude quando se dava conta que fez algo errado e os irmãos estavam no andar de baixo. Quis matar o Alexandre naquele momento. Foi um parto conseguirem ir no mesmo grupo para o bolsão em Hessen, e, mesmo quando conseguiram, ele orientou que não poderiam usar as alianças, qualquer demonstração de afeto perto de quem foi resgatado, qualquer menção, comentário, eram proibidos até que os novatos passassem por algumas semanas de reabilitação no reformatório. Nem mesmo um pedido de desculpas. Perguntou-se, com raiva, se não teria que esconder seu sobrenome também, já que nunca, em mil anos, seriam tachadas como irmãs.

Alguém tocou de leve no seu ombro, ela suspirou antes de se virar para ver quem era.

— Você está bem?— Noah perguntou antes de entrar no quarto para se trocar.

— Sim, obrigada.— Fez o possível para secar o rosto com a manga longa do seu pijama, esperando que seu rosto não denunciasse sua alma.

— Não, me parece muito feio ...— Noah analisou o rosto dela, estava sim um pouco vermelho, a marca de um braço carimbada na sua bochecha. Não tinha sido nem um tapa. Amy tinha batido nela com o osso do braço.

— Claro que não está. Já apanhei o suficiente para essa vida e outras.— riu sem jeito.

— Mas vocês parecem mesmo se gostar...

— Não é nada.— respondeu antes mesmo de ele terminar a frase.

Noah olhou-a sem ter ideia do que falar, lembrando-se de como Amy tinha ficado quando desceu para comer alguma coisa de café, quase o mesmo rosto que o de Taiti.

— A Amy está meio mal lá embaixo...

— Eu vou ficar meio mal aqui em cima, obrigada.— sem esperar respostas, virou-se e andou até seu quarto. Trancou a porta e se jogou na cama, fazendo que conseguia dormir.

— Certo, Noah.— Amy estava se segurando a horas para não fumar, estava se corroendo por dentro. O enjoo daquele querer doentio já começava, mas ela teria que aguentar pelo menos alguns minutinhos a mais antes de pegar aquela maldita sacola. Parecia uma tortura.— você terá que fazer exatamente o que eu mandar, entendeu?

— Sim.— Noah fez o possível para soar confiante, afinal, Amy não estava nada alem de calma, mas ele estava com medo. Se perguntava se doeria como doeu no complexo, se tinha alguma chance de morrer.

— Melhor eu te contar o que eu vou fazer.— ela devia vir de algum lugar além do norte de Hessen para aguentar a neve com duas camadas de casaco. Passo por passo o conduzia para a clareira onde teria espaço o suficiente para desenhar um círculo e testar se estava mesmo no nível dos Grandes Magos.— vou usar uma coisa que se chama magia arcana, rezemos para que dê certo.

Noah sentiu uma tentação muito forte de falar que eles não rezavam e que o proibiam de fazer aquilo, mas se conteve. O ódio dela era a ultima coisa que precisava.

— Certo.— os passos dele quebravam alguns galhos que não estavam enterrados na neve, enquanto Amy andava como se nem tocasse no chão.— desculpa a pergunta, mas quantos talentos você tem?

— Só um, por quê?

— Porque o Alex me disse que aquilo só podia usar os talentos que você o deu, e não me pareceram poucos. Aquilo criou colunas de fogo como meu irmão faria, você fez alguma coisa no chão que começou a brilhar, achei que tivesse só um.

— Eu tenho só um.— riu um pouco irritada, mas ainda grata por Noah comentar sobre seu maior orgulho.— eu sou o espelho que te falei antes. Um elementar, um amorfo defeituoso e um espelho.

— Mas um espelho não reflete só o que está na frente dele?

— Porque o seu irmão é elementar isso quer dizer que ele é um elemento? É só o nome que me dão, mas devo o registro das cópias para o meu pai.— ela puxou o casaco para baixo para mostrar um pouco da tinta que cobria quase toda suas costas.

— Você tem tatuagens?!— não havia nada mais indecente do que uma mulher com tatuagens, isso que ela usava muito pouca roupa dentro de casa e andava de cabelo solto.

— Cortesia do meu pai.— Amy fez o possível para não dar uma resposta cortada, mas já estava sendo ousada de mais ao não tirar a aliança.

— Entendi...— não queria falar sobre aquilo, queria falar sobre aquela troca de olhares na noite anterior, no modo como ela respondeu, mas nem teve a chance de começar a falar antes que Amy levantasse os braços para prender o cabelo. A pouca luz que chegava no chão da floresta foi refletida bem nos seus olhos por um anel de ouro, quase como se quisesse cegá-lo.

Uma aliança.

Quem quer que fosse aquele homem...

Não poderia fazer nada. Duvidava que Amy fosse largar quem quer que fosse seu cônjuge para ficar com um estranho. Não teria nem mesmo a chance de desafiá-lo se conseguisse convencê-la a fazer qualquer coisa com ele, já que Noah seria massacrado sem piedade alguma. Caso inventasse fazer uma barbaridade como aquelas, Amy tiraria o talento que estava prestes a dá-lo, depois faria com que fosse jogado de volta no bolsão, deixado para apodrecer em um mundo que sabia que não era o verdadeiro. Teria que se contentar em admirá-la à distancia, sonhar com ela como fez naquela noite, mas aquele olhar que recebeu...

Devia ser um hábito dela, uma mulher tão bonita quanto Amy teria todos os recursos para brincar com garotos como ele.

— Noah, temos que fazer um acordo.— ela parou de andar quando as árvores abriram-se em uma clareira ampla, do tamanho da sua casa.— mas você tem que concordar antes de eu falar o que é.

Ele não estava em posição de negar.

— Concordo.

— Eu... menti para Taiti. Me deram drogas. Me deram drogas que eu não consigo largar. Não sei se sabe o que é uma clinica de reabilitação, é um lugar horrível, meus pais me levaram lá quando eu era menor para ter um choque de realidade, mas eu não sou como aquelas pessoas. Eu não tive escolha.— ela relaxou os ombros, incapaz de olhar para ele.— para conseguir fazer isso estou a quase oito horas sem tomar nada e, como você ouviu o Nicolas, já sabe que era nesse intervalo que nos davam novas doses. Você não vai poder falar isso para ninguém.

— O seu marido não sabe?

— Não.— era estranho não poder corrigi-lo.— conta para ele que você está morto.

— Eles podem te ajudar, eu também ouvi a Tina, ela podia chamar um tal de Alexandre e...

—Você tem alguma coisa com tatuagens?— interrompeu-o com a esperança de que ele só se calasse.

— Eles podem te ajudar...

— Você tem?

— Um pouco, por quê?

— Joga fora agora.— sorriu travessa.— que tal ter algumas como as minhas?

— Você não vai me marcar!— ele deu um passo para trás, perguntando-se se ela não tinha perdido a cabeça de vez.

— Vou deixar em tinta branca atrás do umbigo, ninguém que você não queria que veja vai ver.

— Mas eu vou saber disso.

— Noah, por favor. Depois te mostro as minhas, estão em tinta preta nas costas inteiras, ninguém vai falar nada.

— Por que eu precisaria de uma tatuagem para ter um talento?

— Porque sem você não tem. É a representação em um desenho da magia, se não for como uma tatuagem, vai ter que ser como uma cicatriz.

Noah suspirou olhando para baixo, depois bateu com as mãos nas calças e sorriu para ela.

— O que eu faço?

— Vai lá para frente e não se mexa de jeito nenhum, pode estar caindo o mundo, mas não se mexe.

— Por que não?

— Uma tatuagem defeituosa é o primeiro passo para desencadear um defeito como o meu, mesmo que o seu seja mas "light" porque é de uma classe menor, nunca é uma boa ideia adotar um desses.

— O que é Light?

— Talvez doa, mas passa depois de um tempo.— ela limpou a neve do lugar que se sentaria com a cópia do seu talento de água, caindo de pernas cruzadas logo depois.— mas não se mexa. Sente-se, fique confortável.

Amy tocou o chão com a palma das mãos e puxou uma linha extremamente clara com cada de algum lugar não mundano. Juntou-as e abriu-as sobre Noah, formando um círculo em sua volta. Lembrou-se de todos os livros de magia arcana que já tinha lido, de todos os símbolos que decorou e nunca achou que algum dia fossem ser úteis. Sabia o que fazer não só pelas infinitas horas de estudo, mas pelas incontáveis vezes que esteve ela mesma no centro daquele circulo. Piscou com força para que pudesse ver sua aura. O mundo tingiu-se de preto, as linhas brancas brilhavam como o próprio sol e Noah estava sentado no meio daquele círculo, respirando forte ao ver aquelas serpentes de luz subirem pelo seu corpo. Fazia de tudo para não se mexer enquanto aquele círculo tomava forma, enchia-se de detalhes e runas que nunca viu antes. Olhou para Amy buscando alguma coisa humana, mas essa era a última coisa que ela era.

O que deviam ser as veias nas suas mãos e no seu rosto não levavam mais sangue, mas sim, essas linhas que corriam por ela fazendo com que brilhasse.

Seu corpo já mandava que fugisse, que saísse dali, mas as linhas de magia já estavam nas suas costas, já estava acontecendo. Ficou ainda mais difícil ficar parado quando Amy abriu os olhos. Estavam brancos, tomados por aquele liquido que corria por suas veias, tirava toda sua humanidade, a evidencia da magia arcana que tanto odiava.

Mostrou para o círculo o que fazer com movimentos leves nos dedos. Fez com que os feixes se aglomerassem nas costas do suposto moribundo, que formassem o desenho das runas de fogo, um circulo com uma chama dentro, algumas escrituras de ignição e imunidade a chamas. Pessoas como ele não se queimariam com fogo, mas com o calor de coisas aquecidas por ele, como vapor, vidro quente e roupas que tinham pouca afinidade em chamas. Já ouviu que aquilo era inútil, mas não tinha nada melhor do que falar para alguém que era uma arcana e meter a mão no fogo, gritando de dor depois rindo às gargalhadas.

Fechou os punhos com força para que as linhas que se comportavam como serpentes parassem de se mexer. Estavam dispostas nas costas de Noah em um circulo pequeno, formando um desenho não muito diferente do que estava no chão. Abriu os dedos e bateu as mãos com força. A tinta nas linhas de magia penetrou na pele dele, deixando a marca permanente do Talento de fogo.

Sabia o que aconteceria depois. Esse era o porquê de não ter copiado seu pai assim que teve a chance, mas não podia deixar aquele círculo ativo para sempre. Desceu as mãos devagar até que encostassem no chão como em uma aterrisagem suave, depois puxou-as para cima com força, balançando-as no ar como se quisesse se livrar de formigas.

Toda a magia no chão voltou para dentro dela como em uma trena, produzindo o mesmo efeito chicote. Deixou-se cair na grama molhada pela neve sem resistência alguma, não tinha mais como resistir.

Seu mundo girava e não tinha como saber se o chão estava parado ou não, ou se havia chão algum. Era como se estivesse caindo até o fim do mundo até que a voz de Noah a trouxesse de volta à realidade.

Ele segurava seus ombros e sua cabeça pra cima enquanto a chamava, incerto se conseguiria levá-la de volta para Mathias sozinho. Ela ouviu a própria voz pedir para que ele parasse de chacoalhá-la com tanta força, mas não parecia ser sua. Noah a chamava insistente, seu rosto girava com o céu azul no fundo. Ela o segurou para que parasse. Já estava enjoada pela falta das drogas e pelo esforço de ativar um círculo arcano. A última coisa que precisava era de um idiota girando.

Noah congelou com seu toque, mesmo que ela estivesse com as mãos na neve, seus dedos estavam quentes como uma máquina superaquecida. Sua respiração criava nuvens sobre seu rosto, tinha que admitir que seu hálito não estava dos melhores, mas não conseguiu coragem o suficiente para sair de perto dela. Fixou seu olhar no seu rosto e foi difícil imaginar que já tinha a visto presa, com a face da desesperança.

— Você está vivo, bonitão?— foi tudo o que conseguiu falar.

— Estou.

— Que bom, porque eu não.— Amy riu deixando que as mãos dele segurassem sua cabeça para cima da neve. Fechou os olhos com um sorriso frouxo nos lábios.— funcionou?

— Não sei.

— Tenta acender um cigarro para mim. Estão debaixo daquela pilha.

Noah já tinha concordado que a ajudaria com aquilo, mas aquela ter sido a primeira coisa que pediu depois de um esforço tão grande foi inesperado. Esperava que ela descansasse um pouco, que pedisse por seu casaco para que pudesse se deitar na neve, mas não deu-se tempo nem mesmo para isso. Queria drogas e aquilo era tudo o que queria. Sentiu suas mãos se corromperem ao tocar na bolsa e entendeu por que ignorância era uma dadiva. Se não tivesse ideia do que estava na mala, nunca teria se sentido tão sujo. Abriu o fecho de elástico para que pudesse olhar o que estava dentro, assim que o fez quis jogar aquilo para longe, salvá-la daquilo. Amy não estava brincando, eram mesmo drogas. Seringas, cigarros amarrados em elásticos precários, um cheiro forte de fumaça.

— Anda logo, eu não tenho o dia inteiro!

Ele não podia dizer não. Olhou-a com pena, como se não acreditasse que Amy não tinha escolha. Ela podia contar para Mathias, mas isso significaria jogar fora tudo o que Alexandre fez para ela, toda sua imagem, tudo que lhe restou.

— O que você prefere?

— Um cigarro.— só tinha usado as agulhas na noite anterior por desespero. Odiava agulhas, odiava quando colocavam nela, mais ainda ter que arranjar coragem para furar sua pele e apertar o êmbolo.— acende para mim, já corri uma maratona hoje.

— Como eu faço isso?

— Vou te treinar depois, mas me dá isso logo!

— Como eu faço isso?

— Se vira! Vem de dentro ou alguma coisa assim. Eu sei lá.— Amy usou as poucas forças que tinha para se levantar e tomar a bolsa das mãos dele, metendo a mão dentro dela para pegar um cigarro. Colocou-o entre os lábios e segurou a ponta fazendo pouca pressão. Seus dedos se aqueceram até que queimassem com o calor da queima. Abriu as mãos fingindo surpresas, olhando para Noah com mais desdém do que quando olhou para Taiti mais cedo naquele dia.— simples assim.

— Você não pode me culpar!

— Eu culpo se eu quiser. Ter um talento e não saber usar. Não me atrapalhe.— Amy puxou uma boa tragada para si, jogando-se perto de uma árvore antes de começar a rir com a tranco que a droga lhe deu, como uma descida em uma montanha russa, fazendo com que se sentisse sem peso e com o coração acelerado. Jogou um maço para Noah, fazendo o possível para olhar para ele.— pega um. Se não quiser mais foi só um.

— Eu passo, obrigado.— virou o rosto do mesmo jeito que se virava para mendigos enquanto deixava o maço que Amy o jogou de volta na bolsa. Aquela não era uma cena bela. Por mais que ela fosse, o que fazia tirava toda beleza que um dia pôde ter. Aquelas risadas histéricas o dariam combustível de pesadelo por décadas.

Noah olhou para o bosque polvilhado de neve de braços cruzados. Não nevava mais, não caía mais açúcar do céu para deixar os invernos árduos um pouco mais doces. Será que onde eles moravam existia inverno? Tinha que ter, se não Amy não estaria sem casaco algum sobre a neve de Hessen. Aquilo seria suicídio.

Noah tocou suas costas procurando alguma saliência atrás do umbigo, o alto-relevo das tatuagens, mas sua pele continuava lisa como vidro. Ele relaxou os ombros, tomando coragem para olhar para Amy de novo. Ela não fez aquilo de graça, não podia ter feito. Tê-lo tratado como amigo, mesmo que não o conhecesse, tê-lo dado um talento sabendo que sofreria depois...

Pelo menos ela tinha drogas para entorpecer sua dor.

Em um intervalo de lucidez, Noah não conseguiu se conter. Seus lábios se mexeram antes que pudesse fazer algo.

— Um é suficiente?

— Para eu começar a ver duendes?— Amy não ria mais, seu corpo estava pesado por causa de uma tristeza repentina, como se nunca mais pudesse ser feliz.— já foi. Agora eu preciso de no mínimo três. Posso ver como ficou?

— Não!— Noah segurou as próprias costas dando um passo para trás. Amy deu de ombros, abrindo a sacola para pegar uma seringa, mas ele segurou seu braço no lugar, surpreendendo-se com o calor da pele dela. Mesmo que estivesse na neve, estava quente. Ele engoliu a própria saliva antes de falar.— preciso te perguntar uma coisa enquanto está lúcida.

— O que é?

— Você não está fazendo isso de graça não é?

— O que você quer dizer?— Amy sabia muito bem o que ele queria dizer, mas o daria mais uma chance de pensar se era realmente prudente perguntá-la aquilo.

— Ter falado onde fica a cabana, me dar um talento, me tratar como amigo, mesmo que eu não te conheça. Por quê?

— É o meu trabalho.

— Não, não é. Pelo que entendi, vocês só têm que fazer missões de resgate. Não precisava ajudar um moribundo, muito menos dar um talento para ele.

— Você não entenderia.— ela esticou o braço, mas Noah bloqueou o caminho entre a agulha e sua veia.

— Custa explicar?

— A pouca inocência que você ainda tem.

— É fama?

— Já sou famosa sem ter esses ataques de herói. Nada é tão simples como fama.

— Não vai me falar que é para conseguir drogas.

Noah não achava que era possível ter tanta raiva concentrada em um olhar. Amy tirou as mãos dele do seu braço, puxando-o com um tranco para baixo enquanto se levantou em um pulo.

— Quanto você gosta dessas roupas?

— Bastante?

Ele só teve tempo de fechar os olhos e proteger o rosto com os braços antes que Amy jogasse uma grande bola de fogo na sua direção. A força da combustão o jogou para trás, fazendo com que batesse em uma árvore. Noah achou que doeria como nunca sentiu nenhuma dor antes, mas foi tomado por um calor que beirava a queimadura, mas não chegava a tanto. Mesmo assim seu coração parou e sentiu seu café da manha voltar por causa do medo.

—Vai para o inferno!—ela gritou, suas mãos cortando o ar para que esse entrasse em ignição.

— Qual é o seu problema?— com o pequeno intervalo que teve antes de ser cegado novamente, conseguiu gravar a imagem dela nos seus olhos. Estava descabelada, corcunda como seu fantasma, seu rosto molhado de lágrimas.

— Você acha que eu quero isso? Cigarro tem um gosto horrível e...— ela fechou os olhos e os punhos com força, depois seus músculos agiram sozinhos, socaram o ar com toda força que tinham, empurrando Noah para uma árvore que teve seu tronco queimado. Nada mais o surpreenderia de qualquer jeito.— e eu tenho que mentir para a minha mulher!

— É só parar.

— Você viu o que vai acontecer comigo se eu parar, vou ficar que nem o Nícolas. Você nunca passou por nada assim não é? Nem sei porque estou perguntando. Você é boa pinta de mais para isso.— Amy o olhava como que se pedisse por pena, mas ao mesmo tempo planejava seu assassinato.— Tão melhor que eu por não ter chegado onde eu cheguei.

Ela repetiu o que fez. Jogou mais fogo na sua direção até que seus braços doessem, depois continuou, ignorando a dor.

— As árvores não são a prova de fogo.

— Problema delas!

— Amy!— ele gritou na falha tentativa de trazê-lo de volta para realidade, mas ela não pareceu ouvir.

— Tão melhor que eu!— repetiu, seu peito doendo com a confissão.

Quando o fogo parou de ofuscar sua visão, Noah pôde ver que ela chorava como se nunca fosse parar. Seus joelhos estavam cravados na neve, os braços pendendo sem vida ao seu lado. Sua cabeça estava erguida e ela o olhava nos olhos tentando manter acesa a última brasa de orgulho que tinha, mas não demorou muito para sua postura ruir e suas costas arquearem.

As pernas de Noah fizeram com que se levantassem e se ajoelhasse ao seu lado. Tocou as costas dela de leve, só para mostrar que estava lá. Amy levantou a cabeça quando ouvi-o se aproximar, surpresa por ele não ter corrido para a cabana como deveria ter feito.

— Não fique assim...

— Você acha mesmo que eu queria isso para mim? Eu não tive escolha...— seus olhos vermelhos pela droga e pelo choro encontraram os dele. Suas pupilas estavam minúsculas, quase inexistentes. Amy o examinou, procurando por algo de errado que podia ter feito, mas ele estava inteiro e segurava seu ombro para que ela não tendesse para frente.— me perdoa eu... eu nunca teria feitio isso.

— Está tudo bem.

— Ainda não tomei o suficiente.— disse com um peso no peito.

— Não se preocupe. Não vou mais te atrapalhar.

Ela cambaleou para pegar uma seringa, sentando-se na mesma posição que na noite anterior. Fez de uma vez, ignorando que Noah sentou-se perto o suficiente para que pudesse alcançá-la se esticasse o braço.

E aquela felicidade.

As oito horas de abstinência fizeram com que aquela dose fosse o caminho para o paraíso. Como se estivesse ela mesma ao lado dos anjos, como se nunca mais fosse ser triste.

— Amy, você está bem?

— Também te amo.— riu segurando a gola do casaco dele, trazendo seu rosto para perto. Olhava-o sem vê-lo, admirando sua beleza sem nem ao menos entendê-la.—Noah.— chamou de volta.— eu vi como me olhou ontem à noite.

— Amy, por favor!— ele segurou os pulsos dela tentando se livrar das suas mãos, mas elas estavam firmes no tecido da sua camisa. Não sairiam fácil.

— Eu vi.— repetiu sem pensar.— eu vi como me olhou. Eu vi.— riu na cara dele com um hálito forte de cigarro.— não pense que eu não sei porque eu sei e sei muito bem.

— Amy, para com isso.— por mais que Noah a quisesse perto dele mais cedo, seus músculos estavam tensos, prontos para fugir dela.

— Eu vi!

— Sai de perto de mim!— Noah gritou dando um longo passo para trás.— você está drogada, não sabe o que está falando!

O toque dela estava marcado na sua camisa, como se fosse lama seca, deixando-o sujo.

— Estou e você também devia estar.— riu deitando-se na neve.

Naquele momento não pensou que tinha pouco da sua droga, muito menos no que aconteceria quando parasse de tomar-la. Só não queria se ver sozinha no fundo do poço e Taiti tinha uma corda forte de mais prendendo-a a superfície para que Amy a arrastasse, mas aquela era sua casa. Estava acostumada com a humidade do solo debaixo dos seus pés e com o cheiro de mofo.