O que eu não disse naquelas vezes
1 Capítulo Único
Notas iniciais
Primeira fic no site, então vamos pegar leve com a novata e curtir!
- Ryuuji-chan, preciso que você venha aqui agora...
Eu tinha acabado de sair do banho quando o meu celular tocou. Antes de atender, dei uma rápida olhada no relógio: eram 1:30 da madrugada, o que me fez ficar um pouco preocupado quando a voz que escutei do celular era da Yasuko, minha mãe.
- O que está acontecendo? –perguntei intrigado.
Yasuko ainda continuava trabalhando no clube, embora o meu emprego podia lhe sustentar sem as menores preocupações. Eu temia que estivesse acontecido algo com ela, mas a julgar pelo tom da sua voz, que nunca mudava o jeito macio, sonhadora e infantil, parecia que nada estava de errado com ela. Apenas tirando o fato que ela estava bêbada.
- É uma das convidadas da festa. Parece que a pobrezinha não está acostumada com as bebidas daqui...
Bom, o fato de ter gente que suporta as bebidas onde Yasuko trabalha é um mistério para mim. Mas isso é o de menos. O que diabos tinha de estranho em alguém cair de bêbado nas festas do clube? Era o que mais acontecia naquele lugar e eu não tinha nada a haver com isso.
- Tá, e daí? Deite ela num canto, não dê mais nada para ela beber a não ser água e chame um táxi para ela!
Eu estava bastante cansado. Trabalhei no restaurante o dia inteiro e o meu chefe veio com a proposta de me promover a chef numa filial no outro lado da cidade. A proposta era ótima e alguns amigos me levaram para comemorar. Acabei de chegar em casa há poucos minutos, tomei um banho refrescante a havia vestido meu pijama confortável. O que eu planejava para o resto da noite era ligar para minha noiva, Taiga, que estava viajando a trabalho, e depois dormir. Ajudar uma pessoa bêbada era a última coisa que eu queria fazer no momento, droga!
- Mas ela está muito agitada, sabe? Não quer ir de táxi, eu até me ofereci para chamar um, mas quando me viu, começou a gritar por você!
Hã?! Como assim?! Por que alguém iria gritar por mim dentro do clube onde minha mãe trabalha no meio da noite?!
- É uma daquelas amigas do colegial... uma bem bonita, trabalha como modelo... como é mesmo o nome dela? Ah, lembrei! É a Ami-chan!!
Kawashima?! No clube?!
Céus, qual foi à última vez que a vi? Acho que foi na formatura do colegial! Desde então, só tinha notícias dela quando Taiga folheava algumas revistas de moda e víamos algumas fotos da Ami. Soube que ela havia engatado na carreira de atriz, embora eu me lembre que era algo que ela não almejava. Alguns dias atrás eu havia visto na banca de jornal uma revista cuja foto da capa mostrava a Kawashima de mãos dadas com um ator boa-pinta que segundo a reportagem, era namorado dela. Mas isso tudo era o que eu sabia através da mídia. Da Kawashima mesmo, a garota com jeito arrogante, mas que tinha um bom coração, que se tornou amiga minha e da Taiga, eu não sabia nada.
- O que diabos a Kawashima está fazendo aí?!
- Ah, hoje é aniversário de um produtor famoso, eu acho... tem muitos atores famosos aqui... ela está chamando por você, Ryuuji-chan!
- Não tem ninguém que possa ajudá-la aí? O namorado dela, talvez?
- O namorado dela está ocupado... está dançando com uma garrafa de champanhe na mão! –e riu, como se um cara que larga a namorada pra encher a cara fosse engraçado.
Consultei o relógio novamente. Poderia chegar ao clube em alguns minutos e levar a Kawashima em segurança para casa. Mas acho pouco provável que ela more no mesmo lugar da época da escola. Soltei um suspiro cansado. Já era uma boa noite de sono. E eu ainda não havia ligado para minha noiva. Estava com muita saudade dela e queria ouvir sua voz, saber quando ela voltava, se estava tudo bem com a minha Taiga...
Mas eu não podia deixar a Kawashima na mão. Ela havia me ajudado algumas vezes no colegial e eu devia isso a ela.
- Tudo bem, tou indo pra aí. Chego em alguns minutos.
- Obrigada, Ryuuji-chan! Você é o melhor!
Como eu previra, a viagem de carro até o clube só demorou uns vinte minutos. Apesar da hora tão tardia, as luzes do clube ainda estavam acessas e a música continuava alta, como se não houvesse amanhã. Estacionei o carro e entrei pela porta dos fundos. Sendo filho da Yasuko, uma das anfitriãs mais populares do clube, os seguranças me conheciam e me deixaram entrar sem problemas. Perguntei onde estava a minha mãe e um segurança me indicou o vestiário dos funcionários. Mal abri a porta, fui recebido com um abraço de urso. E não era a Yasuko...
- RYUUJI!!
- A... Ami! Me solta! Ei, tá me sufocando!
Segurei-a pelos ombros e a afastei. Para alguém que estava caindo de bêbada, Kawashima parecia bem agitada. Quase não mudara desde o colégio. Havia ficado um pouco mais alta e seu rosto estava mais maduro e usava uma maquiagem mais pesada. Podia sentir o cheiro de álcool que o perfume de marca não conseguia mascarar.
- Olá, Kawashima.
Ela jogou os braços para o alto e bufou:
- Tanto tempo se passou desde o colegial e você ainda me chama pelo sobrenome! Sou a Ami-chan! AMI-CHAN! A-M-I-CHAN! –disse balançado o dedo na frente da minha cara.
- Bom, você sempre me chamava pelo sobrenome também...
- Aff, continua um reclamão chato! Se é para aturar suas reclamações, só mesmo bebendo! Ei, Ya-chan! Quero mais um shot de sakê, por favor!
- Você não vai mais beber, Kawashima! Olha só o seu estado! Vem, vou te levar para casa!
- Oh... me levar pra casa, eh? Na minha ou na sua?
- Hã?! –essa menina enlouqueceu de vez?!
- Como você ficou ousado... hi... –disse se atirando em mim novamente.
- Kawashima! Pare! Você não está bem!
- Hic! Eu estou ótima! Anda, quero dançar! Vamos dançar, Ryuuji!
- Não, não vamos dançar! Mãe, me ajude aqui!
- Ami-chan, a festa está muito divertida, mas você não está acostumada com essas coisas, sabe? Deixe o Ryuuji-chan te levar para casa que eu prometo que te levo a outras festas iguais a esta, está bem?
Era só o que faltava! Tinha que tirar a Kawashima daqui antes que ela virasse uma frequentadora assídua das noitadas da minha mãe!
- Não, não, não! Eu quero dançar com o Ryuuji agora! Ryuuj, deixe de ser careta, vamos tomar um drink e depois dançar! Dançar a noite toda, U-HUUU!!
Kawashima puxava o meu braço, tentando me arrastar para a pista de dança. Mas eu nem precisava fazer força para resistir, pois o aperto dela estava fraco. Sua voz estava cada vez mais arrastada e seus olhos estavam girando nas orbitas. Não demorou muito e seu corpo pendeu violentamente para o lado.
- KAWASHIMA! –berrei ao me apresar em ampará-la antes que batesse no chão.
- Nossa, isso foi perigoso... –disse Yasuko tocando os lábios com os dedos.
- É óbvio que foi perigoso! Ela vai piorar se continuar nesse estado! Anda, Kawashima, vamos embora!
- NÃO! Eu quero ficar...
Eu não ia aturar mais tanta teimosia. Passei o braço em torno da cintura da Kawashima e a levantei até o ombro. Ela se debatia e protestava, mas apenas a segurei firme, enquanto ia me dirigindo para a saída.
- Já vai embora, Ryuuji-chan? Tem certeza que não ficar um pouquinho e curtir a festa com a Ami-chan?
Dei um suspiro longo e cansado.
- Não, mãe. Tenho que levar a Kawashima para casa e preciso voltar para o nosso apartamento para tentar dormir um pouco. Estou cansado!
- E a Taiga-chan? Telefonou para ela?
- Eu ia, mas tive que vir aqui ajudar essa encrenqueira! Ligo quando chegar em casa.
- Tudo bem. Manda um beijo para ela! Ah, e diga também que quero ir com ela quando for experimentar o vestido!
- Pode deixar. Não exagere mais por hoje você também!
- Ok... –disse Yasuko acenando e voltando para a pista, ignorando completamente a minha recomendação...
Abri a porta traseira do carro e joguei a Kawashima no banco de trás. Não gosto de bancar o rude, mas ela não parava de se debater. Ao se deitar no banco, começou a relaxar. Fechei a porta com cuidado para não bater em suas pernas e fui para o banco do motorista. Fiquei sentado por uns minutos sem ligar o carro, esperando a Kawashima se recompor o suficiente para me informar o seu endereço.
- E então, onde você mora?
Kawashima resmungou algo que não consegui entender e jogou na minha cabeça uma bolsa pequena. Bufei um pouco irritado e vasculhei a bolsa até achar um papel com o endereço. Felizmente, eu conhecia o lugar: era um bairro com apartamentos de luxo, onde Taiga havia me levado uma vez. Ela estava interessada em procurar uma casa por ali, embora a ideia de morar em lugar como aquele não me agradasse muito.
- Anda logo, chofer! –provocou Kawashima.
- Sim, senhora. –respondi no mesmo tom.
- É senhorita! Não me chame de velha! –disse me dando um tapinha na nuca.
- Ok, ok...
Dei a partida no carro e seguimos andando. O bairro era um lugar um pouco distante e meus olhos pesavam com o sono. Parei rapidamente em uma máquina de bebidas e comprei duas latas de café. Entrei novamente no carro e joguei uma das latas para a Kawashima, que não deu muita bola. Abri a minha lata e sorvei um longo gole de café, já me sentindo um pouco mais acordado.
- Sabe. –disse ligando e saindo com o carro novamente. – Você deveria tomar esse café. Vai quebrar um pouco essa bebedeira.
- Não quero essa coisa preta e amarga... não gosto... –resmungou.
- Não é para você gostar. É para te curar.
- Não quero!
- Aff, que seja! Só não reclame se passar mal depois!
Kawashima deu gemido, que indica que ela não estava nada bem. Deitou-se de barriga pra cima no banco de trás e suas longas pernas ficaram encolhidas perto da porta. Para alguém alta como ela, aquela posição ficaria logo desconfortável, mas ela estava tão chapada que acho que nem se importaria com isso. Ficamos num silencio tão longo que quando a Kawashima resolveu falar alguma coisa, me sobressaltei:
- E aí, como é que vai aquele povo?
- Que povo?
- Da escola, besta. Você sabe, a Kushieda, o Maruo...
- Você não tem contato com o Kitamura? Ele é seu amigo de infância.
- Falava com ele durante um tempo, depois que ele se mudou para os EUA. Mas como ele ficava sempre correndo atrás da Kano, não tinha mais tempo para conversar com ele...
- Vez ou outra, o Kitamura volta para casa para passar uns tempos. Ele e a Kano-senpai estão namorando.
- Finalmente! Agora só falta chover do chão. Aliás, você ainda continua chamando a Kano de senpai...
- Costume...
- Hunf. E a Kushieda? Acho que a vi um dia desses, no caderno de esporte.
- Ah, sim. Ela conseguiu uma bolsa para a faculdade graças ao softbol. Está jogando no time da universidade, que está numa boa fase no campeonato. Ela já jogou até nos EUA!
- É, ainda continua ligando mais para um bastão e uma bola do que para coisas mais importantes...
- Que?
- Deixa pra lá... e a baixinha? Vocês ainda estão juntos...?
- Estamos noivos.
- Oh...
E se calou. Podia sentir um clima estranho e pesado pairando no carro. Kawashima ficou absolutamente em silêncio, só som da sua respiração era escutado. Mas percebi que ela não havia caído no sono. Parecia estar bem acordada, olhando para o teto.
Finalmente, chegamos. Estacionei o carro em frente ao prédio e joguei de volta a bolsa dela.
- Tá entregue.
- Ainda estou meio grogue. Me leva lá pra cima.
Essa garota havia tirado a noite para me dar trabalho. Saí do carro e abri a porta traseira, escorando Kawashima. Quando fiz menção de guia-la até a portaria, ela me deteve.
- Vamos para portas dos fundos.
- Por que?
- Paparazzi.
Entendi. Não seria nada bom se Ami Kawashima fosse vista trôpega de bêbada, escorada por um cara desconhecido na mídia. Isso seria um desastre e iria por nós dois em más lençóis. Já me basta de problemas por hoje. Puxei o capuz do meu casaco para esconder o meu rosto e guiei a encrenqueira até o elevador. Quando a porta se abriu, entramos e Kawashima apertou um botão que nos levaria até a cobertura. Dei um suspiro pesado. Já não bastava ela ter me arrastado até aqui, Kawashima tinha que morar no andar mais alto? Essa noite estava sendo longa demais...
- Toma. –disse empurrando a bolsa para mim.
- O que?
- Estou tonta demais para achar a chave.
- Aff, como você dá trabalho!
Consegui achar a chave no momento em que o elevador chegara no andar. Kawashima me indicou a direção e escorei ela até a porta de sua casa. Ao abrir a porta, andou trôpega até o sofá da sala e se jogou nele. Entrei no apartamento e examinei o ambiente. Lembrava muito o antigo apartamento de Taiga, na época do colegial: era grande e luxuoso, mas espaçoso demais para uma pessoa só. Tinha um ar de solidão...
- Você vive sozinha aqui?
- É... –respondeu vagamente.
- E seu namorado?
- Que namorado?
- Ora, aquele ator famoso! Apareceu nas revistas...
- Ah... ele não é meu namorado...
- Sério?!
- É claro! Você acredita em tudo que está nos tabloides?
- Mas por que vocês fingiriam um namoro?
- Manter as aparências, ué...
- Aparências?
- Digamos que ele joga no meu time e não no seu...
- Eita, o cara é gay... bem que eu desconfiava...
Kawashima deu uma risada.
- É um pobre idiota que depende mais da aparência do que de talento, o que ele não tem. Ele tem que manter a imagem de “gostosão da mulherada” se ainda quiser manter o posto de galã das novelas.
Realmente, o mundo das celebridades é mais cruel do que aparenta.
- Por que você virou atriz? Eu me lembro que não era bem o que você queria quando estávamos no colégio.
Kawashima deu um longo suspiro cansado.
- Porque eu já estava velha demais para ser modelo. E eu também não estava aguentando mais toda aquela coisa de desfiles, flash, estilistas neuróticos e modelos cabeças de bagre. Não, já tava um saco. Mas eu gosto de trabalhar com mídia, estudei fotografia por um bom tempo...
- Que legal!
- Mas minha mãe já estava se aposentando da TV. Seu último papel foi em uma novela em que se passava em dois momentos, passado e presente. Precisavam de uma atriz jovem que fosse a cara da atriz principal e...
- Aí chamaram você. –completei.
- Isso aí. Eu não me animei muito, mas como era o último grande papel da minha mãe na TV, não pude recusar. Ela estava tão entusiasmada... bom, aí não teve jeito, me puxaram para esse mundo.
- Hum. –disse sem saber o que falar.
Ficamos em silêncio. Era uma boa deixa para ir embora, mas a Kawashima estava mal. Para não ficar com peso na consciência, decidi ir até a cozinha preparar um chá que a revigorasse. Diferente do apartamento da Taiga, a cozinha da Kawashima estava bem limpa e quase não havia nenhuma porcaria, como salgadinhos e doces de lojas de conveniência. Tinha frutas e legumes, o que animou um pouco, sinal em que ela estava se alimentando bem. Encontrei o pote onde estavam folhas para chá e um bule para ferver água. Separei duas canecas, porque eu também estava precisando de um bom chá.
- O que tá fazendo aí? –gritou Kawashima lá do seu sofá.
- Estou preparando um chá para curar sua bebedeira!
- Entrando na minha cozinha assim...
- Bom, você me arrastou até aqui, né? Vá tomar um banho em quanto termino aqui.
- É isso mesmo o que vou fazer... –resmungou se levantando do sofá.
Em quanto colocava o chá em fusão na água, senti o meu celular vibrar no meu bolso. Era uma mensagem da Taiga:
“Ryuuji, liguei duas vezes para casa e ninguém atendeu! Aconteceu algo?”
Putz, eu ainda não tinha ligado para Taiga! Claro que ela ficaria preocupada!
“Yasuko me chamou para resolver uns problemas no clube. Uma amiga passou mal, mas nada sério. Está tudo bem comigo e com Yasuko. Mas tarde te ligo e explico tudo melhor! Estou morrendo de saudades sua! Beijos!”
Digitei a mensagem e enviei. Alguns minutos depois ela tornou a responder:
“Ok, se você e a Ya-chan estão bem, fico mais tranquila, mas quero que me explique direitinho essa história mais tarde! Também estou morrendo de saudade, quero te ver logo, seu bobo! Beijos!”
Suspirei cansado. Como se não bastasse, ainda teria que dar explicações para minha noiva! Que noite cansativa. Assim que a Kawashima sair do banho, vou me embora.
De repente, sinto braços envolverem minha cintura.
- Ryuuji...
- Kawashima?!
Eu podia sentir seu rosto pressionando minhas costas, assim como a pele úmida de seus braços. Para meu espanto, percebi que ela estava apenas de toalha.
- Que diabos você pensa que está fazendo?!
- Fique comigo, Ryuuji...
- Me solte!
- Não vou te soltar! Olhe para mim, Ryuuji!
Kawashima me agarrou pelos ombros e obrigou a me virar para ela. Imediatamente, obriguei-me a fechar os olhos, mas era quase impossível. Ela estava apenas de toalha e seu corpo e cabelos estavam úmidos e ela cheirava a shampoo e sabonete. Pelo amor de Deus, sou um homem comprometido, mas não sou de ferro!
- Kawa... Ami, preciso que você me solte agora! Isso não tem graça!
- Eu não estou brincando, Ryuuji.
- Pois parece! Eu tenho noiva, me solte agora!
- Não. Não até você me escutar.
- Olhe, posso até escutar, mas me solte!
Kawashima afrouxou o aperto e se afastou um pouco, mas ainda me segurava pelos braços. Fiz um esforço enorme para manter meus olhos em seu rosto e não na sua parte de baixo.
- Escute, Kawashima...
- Ami!
- Tudo bem! Ami, me escuta. Eu estou noivo. Vou me casar com a Taiga. Pare já com isso!
- Não até VOCÊ escutar o que eu tenho a dizer Ryuuji! Eu te amo! Sempre te amei! Desde daquela época do colegial, sempre amei você! Durante todos esses malditos anos!
Parei de resistir quando escutei aquilo. Fiquei completamente chocado. Aquilo só podia ser brincadeira, não tinha como a Ami estar apaixonada por mim desde o colegial. O choque foi tanto que eu mal reparei quando ela encostou a cabeça no meu peito.
- Ami... você não está falando sério, está...?
Para meu desespero, Kawashima começou a chorar abraçada mim, me deixando sem reação. Ela sempre fora uma garota forte e vê-la daquele jeito me partia o coração.
- Eu estou falando sério, seu idiota! Como você acha que uma mulher pode brincar com uma coisa dessas?! Eu te amo muito! Você está noivo, eu sei, mas não posso mais guardar isso dentro de mim!
- Mas você tinha que me contar justo agora?! Quando estou prestes a me casar com a Taiga?!
Ami me empurrou contra a bancada da cozinha com raiva. Seus olhos estavam inchados e vermelhos e seu rosto tinha uma expressão que misturava rancor e tristeza, o que fez meu peito se apertar de angustia.
- E tem hora melhor para dizer isso, Ryuuji?! No colegial, você só tinha olhos para a maluca sem graça da Kushieda! Depois, você descobriu que era apaixonado pela aquela baixinha endiabrada da Taiga! Você nunca olhava a sua volta, nunca percebia que tinha outras pessoas na fila! Sempre dei mole para você! Enquanto você ficava naquelas “crises amorosas” eu ficava do seu lado, tentando fazer você enxergar que havia outra possibilidade, que eu estava ali o tempo todo! Mas, nããããããão! Sempre era a Kushieda! Sempre era a Taiga! E você só me enxergava como amiga! Droga!
Ami voltou a chorar e eu, o idiota, ficava ali olhando, embasbacado e sem reação. Eu não sabia o que fazer, o que falar. Nunca imaginei que Ami Kawashima, uma modelo famosa, gostava de mim. Eu sempre a vi como amiga porque pensava que ela me via como um amigo. Respirando fundo, Ami tentou se recompor e voltou a desabafar:
- Eu ficava me perguntando o que diabos eu via em você. Era uma modelo famosa, reconhecida, muitas garotas queriam ser como eu e muitos rapazes me queriam como namorada. Todos se esforçavam para me agradar para que eu os notasse. Só me conheciam superficialmente e logo me tornei uma pessoa superficial. O único que me via como eu sou era o Maruo, mas ele não contava, porque éramos amigos de infância. Mas quando conheci você, Ryuuji, foi diferente.
Ami engoliu em seco e continuou:
- Você não me via como uma modelo famosa. Você viu como eu era: uma garota mimada e fútil. Podia muito bem ter me dado as costas, mas você não o fez. Pelo contrário, você se aproximou de mim e se tornou meu amigo. E só assim eu consegui me aproximar das pessoas. Fazer amigos. Você, Taiga, Kushieda, Maruo, o pessoal da turma... vocês eram preciosos demais para mim. Mas Ryuuji, você era o especial. As pessoas me viam como alguém forte e madura, que podia se cuidar sozinha. Eu nunca consegui fingir isso na sua frente. Só você enxergava aquela Ami imatura, que vez ou outra precisava de um ombro. Quando eu percebi, já estava apaixonada por você.
- Ami...
- Eu tentei ignorar esse sentimento, dizer que era loucura, mas não consegui. Pensei em me afastar, voltar para a casa de minha mãe e mergulhar no trabalho, mas eu não queria sair daquela escola. Finalmente eu podia me sentir como uma colegial comum, que faz amigos, que participa de festivais escolares, que viajava em excursões com os colegas de escola, que se apaixona por um cara comum... eu achava que eu acabaria me desencanando de você se deixasse as coisas como estavam. Aí você e Taiga finalmente haviam percebido que se gostavam e mesmo com um aperto no peito, eu dei toda a força para vocês. Eu não queria cometer um erro e deixar que todos ficassem com raiva de mim e me virassem as costas. Era tudo tão frágil... mesmo quando o colegial acabou e cada um seguiu a vida, eu ainda pensava em você
Soluçando, Ami voltou se sentar no sofá. Sem saber o que fazer, puxei uma cadeira e me sentei a sua frente. Engolindo a seco, continuou:
- Foi tudo tão difícil... voltar e perceber como aquele mundo é falso e fútil. Eu sentia tanta falta do colégio, de você. Mas ninguém consegue nada de lamentando, então eu segui em frente. Aceitei a proposta de trabalhar como atriz, cheguei a namorar alguns rapazes. Tudo só para manter as aparências, ok, mas era uma forma de me relacionar. E eu estava conseguindo. Estava conseguindo mesmo te esquecer. Mas aí veio essa festa, no lugar onde sua mãe trabalha, tão perto de você e daquela vida boa de colegial que não aguentei mais. Achei que beber fosse me fazer esquecer, mas como pode ver, não foi bem isso que rolou, né...?
As lágrimas voltaram a cair no rosto de Ami de forma copiosa. Eu queria poder consolá-la, mas não sabia o que dizer. Por mais que essa confissão desesperada tivesse mexido comigo, eu continuava amando a Taiga. Queria que ela estivesse ali, queria estar no nosso apartamento. Deuses, nem quero pensar o que minha noiva faria se souber que estou num apartamento de outra mulher, ouvindo confissões amorosas.
- Ami... –comecei. – Olha, eu não quero magoar você, mas eu amo a Taiga. Sempre a amei, desde que começamos a andar juntos no colegial. É com ela que vou me casar. Eu... eu não sabia que você gostava de mim desde daquela época. Realmente, eu sou um cego para essas coisas...
Ami fungou e deu uma risada triste.
- Vocês homens são as criaturas mais estúpidas da face da Terra... incapazes de enxergarem a um palmo na frente do nariz.
- Desculpe, Ami. Realmente, eu sinto muito. –disse sem conseguir olhar para seu rosto choroso.
- Está se desculpando porque, seu idiota?
- Eu te magoei. Não posso te corresponder.
- Idiota. –tornou a me xingar dando um suspiro pesado. – Eu já sabia que ia entrar nessa para perder.
O efeito da bebedeira já devia estar passando, porque Ami enxugou as lágrimas e começara a ser recompor, embora ainda podia perceber a enorme tristeza marcada em seu rosto.
- De algum jeito, acho que estou me sentindo mais leve agora. Parece que tirei uma rocha imensa dos meus ombros.
- Isso é... bom?
Lembrei que eu tinha lido em algum lugar que a álcool deixava as pessoas complemente desinibidas, levando-as a fazerem coisas que geralmente não fariam quando estivessem sóbrias. Deve ter sido exatamente isso que havia acontecido com Ami.
Kawashima se levantou do sofá e por um momento, temi que ela pulasse em mim de novo, mas em vez disso se dirigiu para a cozinha, pegando uma xícara do chá que eu havia preparado. Aquilo devia ser a deixa para ir embora, mas antes que eu pudesse pegar o meu casaco, Ami me perguntou:
- Ryuuji, se eu tivesse lhe confessado meus sentimentos no colegial, você... –ela hesitou por um instante, mas continuou firme. – você teria ficado comigo? Ou pelo menos, reconsiderado?
Fiquei mudo enquanto pensava profundamente no assunto. Ami era e continuava bonita desde aquela época. Sua personalidade podia até ser um pouco questionável, mas ela não é uma pessoa ruim. Conseguia ser mais madura do que as demais garotas da escola. No colegial, eu só tinha olhos para a Kushieda, uma paixão infantil. Eu descobri que amava mesmo era a Taiga, a linda, baixinha e nervosinha Taiga que havia conquistado meu coração tão sutilmente que demorei a perceber e quase a perdi por causa disso. A Ami... bom, uma garota atraente, sem sombra de dúvida. Mas eu só a via como amiga. Se ela tivesse se confessado a mim no colegial...
- Acho... acho que eu teria ficado do mesmo jeito que estou agora. Chocado. Mas não mudaria em nada. Eu continuaria a amar a Taiga.
Eu tinha que ser sincero, por mais que eu magoasse a Ami. Mas mentir não era justo com ela e também não seria justo comigo mesmo. Ergui os olhos para Kawashima e vi que ela estava de costas para mim. Levantei e estendi minha mão para tocar em seu ombro, tentar consolá-la, mas algo em mim me deteve. Melhor não. Eu não podia amar essa mulher, quanto mais tocá-la.
- Bom, acho melhor eu ir embora.
Vesti meu casaco e tirei as chaves do bolso, me dirigindo a porta. Ao tocar na maçaneta, hesitei. Eu não podia ir embora e deixar Ami nesse clima ruim.
- Ami... vê se não some, ok?
Ela se voltou para mim, surpresa:
- O que disse?
- Escute, você disse que todos os amigos que fez no colegial eram importantes, não é? Todos sentem sua falta e eles a aceitam como é. A Kihara e a Kashii, por exemplo, sempre perguntam sobre você. Somos seus amigos, Ami.
Kawashima deu uma risada triste.
- Você acaba de me dar um fora e ainda quer se aproximar? Acha que poderá seu meu amigo agora?
- Eu sei que as coisas vão ficar, hã, desconfortáveis entre nós. Mas eu não sou o seu único amigo. Você não precisa ficar sozinha.
Ami remexia o conteúdo da sua xícara enquanto refletia. Sorveu um longo gole e me lançou um olhar de malícia.
- Se eu voltar para a turma, é bem capaz de eu tentar agarrar você me todas as oportunidades que tiver, viu?
Apesar de sentir um rubor subir pelo meu rosto, dei uma gargalhada:
- Eu prometo não baixar minha guarda. Além do mais, se fizer isso, terá que se entender com a Taiga!
- Hunf, não tenho medo daquela anã de jardim raivosa!
Rimos e pude sentir a tensão abaixar um pouco. Conferi meu relógio. Já havia passado muito da hora de ir embora.
- Então, vou me embora. Tenho que trabalhar daqui a algumas horas.
- Já tomei seu tempo o bastante. Agora, vaza. Preciso dormir e tentar dar um jeito nesses inchaços no meu rosto!
- Vê se não some, viu?
- Vaza, seu mala!
- Tchau.
Quando a porta do elevador enfim fechou, soltei o ar preso nos meus pulmões e senti minhas pernas bambearem. Cara, isso foi perigoso! Mas no fundo do meu coração, torço para que Ami encontre uma pessoa especial para ela. Ninguém merece ficar sozinho, ainda mais ela. Vou rezar pela sua felicidade, é o que resta. O amor tem dessas coisas. Enquanto uns ganham, outros perdem e seguem em frente. No fim, só podemos escolher uma pessoa e eu já havia feito a minha, Taiga. Cheguei em casa exausto e me atirei na minha cama, sem trocar de roupa. Num último esforço, tirei o celular do bolso e liguei para minha noiva. Ela atendeu no terceiro toque:
- Ryuuji? Até que enfim!
- Oi, amor.
- Você parece cansado. O que aconteceu, afinal?
- Não adivinha quem eu encontrei hoje.
- Quem?
- A Ami Kawashima. Lembra dela?
- A Baka-Chi? Claro que me lembro! Foi ela que você ajudou?
- Isso. Estava bêbada.
- Baka-Chi trebêda? Rá, essa eu queria ter visto! Está tudo bem com ela?
- Vai acordar com uma baita ressaca. Mas vai ficar tudo bem com ela.
- Sei.
- Taiga, quando você vai voltar? Estou morrendo de saudades!
- Tão manhoso! Depois de amanhã.
- Mal posso esperar. Vou te buscar no aeroporto.
- Eu quero te ver logo, meu bobinho... você não sobrevive muito tempo sem mim!
- Tou começando a desconfiar que é verdade. –rimos – Vou desligar. Eu te amo, baixinha.
- Também te amo, cãozinho! Beijos!
Suspirando de cansaço e de saudades, desliguei o celular e simplesmente apaguei no sono.
Dois dias depois:
Conferi o relógio impaciente, já começando a me preocupar. Será que tinha dado algum problema no voo? Será que ela havia se irritado com alguma aeromoça? Havia prendido um pedaço da roupa na mala e agora estaria rodando pela esteira? Já havia acontecido certa vez, longa história...
- Ryuuji!
Taiga se aproximava arrastando sua pesada mala de viagem. Desde o colegial, ela havia crescido alguns centímetros, mas ainda continuava bem baixinha. Apesar do cabelo cor de caramelo preso num coque no alto da cabeça, do elegante terninho branco que vestia e da maquiagem pesada, continuava sendo a minha travessa Taiga, a mulher que eu tanto amo e que mal me aguentava de tantas saudades dela. Sorri e abri bem os meus braços, para que ela se atirasse neles. Nos abraçamos apertado e eu a ergui do chão, coisa que a deixou surpresa e constrangida ao mesmo tempo, mas sem dar tempo para reclamar, beijei seus lábios com intensidade. Deuses, como eu precisava daquele beijo e sentir o perfume dela novamente...
- Uau, isso tudo é saudade...? –disse ainda abraçada a mim.
- Você demorou, ué...
- Se for para ter essa recepção, vou viajar mais vezes a trabalho! –riu.
- Assim você acaba comigo, Tampinha.
Nos beijamos mais algumas vezes, até escutamos os pigarros irritados das pessoas a nossa volta. Estávamos atrapalhando a passagem. Trocamos olhares divertidos e peguei sua bagagem, enquanto segurava sua mão em direção ao carro. Taiga começou a contar sobre sua viagem e confesso não ter prestado muito atenção no que dizia, estava apenas satisfeito por ouvir sua voz. No carro, conversamos sobre o meu trabalho, o trabalho dela, sobre Yasuko e claro, sobre o nosso casamento. O clima estava agradável, Taiga estava animada e no rádio tocava Lucky, cantada pela Colbie Caillat e Jason Mraz, que era a nossa música. Eu tinha certeza em uma coisa: continuava amando Taiga intensamente. A confissão de Ami não havia mudado nada do que eu sentia pela minha noiva e isso me deixava bastante feliz.
Mesmo assim, ainda me sentia mal por Kawashima. Mas tinha certeza que ela iria sair dessa. Logo, aparecerá alguém certo para ela, que a fará feliz, como Taiga me faz feliz. Torço para que seja logo. Ami Kawashima merece ser feliz como qualquer outra pessoa no planeta. Talvez eu conte para Taiga sobre o atrapalhado episódio da confissão algum dia. Ou talvez, fosse melhor deixar para lá...
- Olha, Ryuui! Essa é a melhor parte!
Sorri, enquanto me juntava a Taiga para cantar o refrão:
Lucky I'm in love with my best friend
Lucky to have been where I have been
Lucky to be coming home again...
Notas finais
Quero ver como me saio para ver posto mais coisas. Espero realmente que vocês tenham gostado, comentem (sempre com educação!)e se realmente gostaram compartilhem, recomendem e deem like! (tem isso aqui? não faço ideia! rsrsrsrs) Quero muito saber o que vocês acharam, o feedback é muito importante pra mim!
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