Notas iniciais
Thomas

—Não! Eu disse para colocar nozes e não avelãs. –Meu pai diz, arrancando o recheio da torta das minhas mãos. –E essa massa? Por que está tão macia? Isso é uma torta e não um pão. Eu disse para você não sovar a massa.

—Ela parece boa para mim. –Digo, tentando arrumar a massa na forma enquanto ouvia as suas críticas.

—Não interessa se está boa para você, ela tem que estar perfeita. E agora? O que você vai fazer? Se assar isso ela não vai ficar crocante e vai estufar.

—Posso usar em uma outra receita, isso não vai ser desperdiçado.

—Não interessa! Você acabou de perder um tempo precioso e agora vai perder mais tempo fazendo outra massa e mais recheio.

—Tudo bem, eu dou conta disso.

—Você não pode ficar se dando ao luxo de errar quantas vezes quiser.

Meu pai não estava irritado, pelo menos ainda não. Eu sabia quando ele estava preste a explodir de raiva quando ele ficava ofegante e seu rosto ficava vermelho, e, quando estava preste a chegar esse ponto, ele se arqueou e começou a massagear o ferimento da perna. No mesmo segundo, minha mãe entrou pela porta e ao ver o marido se encolhendo de dor, jogou o cesto de roupas limpas em cima da mesa e veio acudi-lo.

—Quantas vezes eu tenho que te dizer que não pode ficar muito tempo de pé? –Ela diz, num tom de repreensão como se estivesse falando com uma criança pequena.

—Preciso dar um jeito no Thomas logo. –Ele diz, enquanto é puxado pelo braço e forçado a se sentar na cadeira da mesa de jantar.

—Sua voz é alta o bastante, tenho certeza que ele pode te ouvir daí.

—Ele não está fazendo as coisas do jeito certo. Preciso ficar em cima dele. –Resmunga, enquanto coloca a perna ferida em outra cadeira e aliviando a expressão de dor ao sentir um alivio quase instantâneo.

—Pare de ser tão mandão. Tenho certeza que ele está dado o seu melhor.

—É, mas o melhor dele não vai ser o bastante para o palácio.

E essa discussão voltou a se repetir, como já havia acontecido por várias noites seguidas, e eu não me importava mais. Já estava mais do que acostumado com o temperamento do meu pai e as constantes discórdias entre os dois de como ele achava que eu não poderia melhorar enquanto minha mãe tinha certeza que eu já tinha alcançado a perfeição. Era interessante como suas personalidades se chocavam, mas que ao mesmo tempo era exatamente isso que fazia os dois se darem bem depois de tanto tempo, mas toda essa discussão me esgotava e era exatamente isso que me fazia cometer esses erros bobos.

Meu pai estava me treinando, ou pelo menos tentando, para substitui-lo no castelo. Ele era o confeiteiro real, ou seja, era o principal responsável pelas sobremesas e qualquer outro doce para as festas e para a própria família real. Isso tinha um peso muito grande e era uma grande honra e privilegio ter esse emprego, mas, agora que tinha se ferido gravemente em um acidente na cozinha, ele tinha que colocar alguém de confiança para substitui-lo, mas como não conseguiu encontrar alguém, então começou a me treinar já que eu mesmo conhecia boa parte de suas receitas e de suas técnicas. Mas não importa o que eu fazia, eu não conseguia alcançar as suas expectativas, por mais que tentasse, mas já estava conformado que não era ele quem eu deveria agradar.

Claro, a opinião dele era importante já que ele servia a família real a tantos anos e sabe exatamente o que fazer, mas por mais que eu tente, não conseguia nem chegar aos seus pés, então decidi que só poderia me aperfeiçoar quando enfim começasse a trabalhar no palácio. Não parecia ser um bom plano, mas teria que servir, já que eu começaria logo na manhã seguinte.

Infelizmente, o acidente era muito recente, e tudo tinha sido um caos desde então, desde cuidar de meu pai, conseguir os remédios certos, e até mesmo conseguir manter o único meio de sustento de nossa família. E agora, muita coisa estava em minhas mãos, e isso me deixava muito apreensivo.

—Olha, ele não vai conseguir fazer as coisas do jeito certo se você continuar aqui gritando com ele. Vamos, vai tomar um banho para eu poder trocar seus curativos para começar o jantar logo.

Meu pai estava claramente frustrado com aquilo tudo, mas parecia que sua dor falava mais alto, então apenas bufou e obedeceu a esposa. Um banho aliviaria um pouco a dor, e com sorte a agua quente o faria relaxar, então subiu e não trocou mais nenhuma palavra com nenhum de nós.

Quando ele não estava mais em nossa vista, vi minha mãe dando um longo suspiro e indo pegar o cesto de cima da mesa com uma expressão clara de cansaço e preocupação. Meu pai ficaria bem, isso não tínhamos duvidas, mas sua recuperação estava sendo mais lenta do que esperávamos e isso deixava todo nós preocupados.

Mas eu conseguir ficar no lugar de meu pai na cozinha do palácio foi uma sorte e tanta, e isso trazia um grande alivio para todos nós. Antes, eu até conseguia alguns serviços aqui e ali, mas nada que pudesse me dar dinheiro o suficiente para sustentar todos nós, então eu precisava dar o meu melhor para não estragar tudo.

—Mãe. -Digo por fim. –Pode deixar que eu faço o jantar. Tenta descansar um pouco, ok?

Ela pareceu querer negar o meu convite, mas o cansaço falava mais alto, então deu um leve sorriso e me beijou no rosto, então subiu para poder cuidar do meu pai. Agora sozinho e livre para terminar minhas preparações, terminei de assar as tortas que já estavam montadas e comecei a preparar o jantar.

Comemos em silencio. Por algum motivo, meus pais não estavam bem o bastante para conversar ou estavam cansados demais para isso, eu pelo menos me sentia assim. Porém, era inegável que todos nós estávamos preocupados com o dia de amanhã.

Ao longo dos últimos dias, tudo o que eu sentia era um senso de dever, que precisava cumprir com as minhas obrigações e dar o melhor de mim. Porém, por algum motivo, na minha última noite antes de começar a trabalhar no castelo, todos esses sentimentos se intensificaram e foram somados com preocupação e o peso de que todo o sustento e a segurança de minha família agora estava inteiramente em minhas mãos.

Claro que não dormi direito naquela noite. Rolei por horas até me dar por vencido e então me levantei e voltei para a cozinha. Testei mais algumas receitas para aperfeiçoa-las, e isso ajudou a me distrair por um momento.

A melhor parte era ver o sol nascendo pela janela da sala que eu conseguia ver da cozinha, já que a casa era menor que todos nós. O cheiro de massa fermentada e recheio de amoras já tinha impregnado o ar da casa toda, e misturado com o calor do forno, tudo isso trazia um certo conforto em meio a aquilo tudo.

Eu sabia que em poucos minutos meus pais se levantariam, então aqueci um pouco de agua para fazer um chá e comecei a arrumar a mesa, colocando todos as minhas preparações da noite anterior juntamente com frutas, queijo e um pouco de mel que restou.

Quando eles se levantaram, os olhos da minha mãe se encheram ao ver aquela mesa posta cheia de comida, e foi muito gratificante ver o sorriso em seu rosto.

—Querido. –Ela diz, ainda um pouco sonolenta. –Você fez tudo isso? Era para você estar descansando!

—Eu levantei um pouco mais cedo. –Minto, tentando não preocupa-la. –Pensei em testar mais algumas receitas para o café-da-manhã. –Ela então veio até mim e me beijou na testa.

—Você não deveria ter se dado tanto trabalho, deveria estar dormindo um pouco mais isso sim. Aliás, acho que se convidássemos o reino inteiro para comer ainda sobraria comida.

—Não vamos alimentar ninguém fora dessa casa. –Diz meu pai, descendo as escadas com dificuldade, e vou até ele para ajudá-lo a descer. –Não preciso da sua ajuda! –Ele diz, agarrando firmemente em meu braço ao descer o degrau seguinte.

Quando a chaleira apita, minha mãe se coloca para finalizar o chá enquanto levo meu pai até sua cadeira de sempre. Ele não agradece, apenas dá um meio sorriso e dá algumas batidinhas em meu ombro, esse era o jeito dele de dizer “muito obrigado”.

Tomamos o café da manhã enquanto meu pai me lança alguns pequenos desafios, como quais os ingredientes da torta de peras, pede para eu recitar todas as etapas da receita de uma massa folhada, como concertar um bolo talhado e entre outras coisas. Não tinha certeza se ele estava procurando por alguma falha no meu modo de cozinhar ou se estava testando minha memória, mas a cada receita que eu recitava ele acrescentava uma dica como “acrescente um pouco de canela para dar mais sabor”, “coloque um pouco de limão para deixar a massa mais leve” e entre outros.

Era desafiador, porem, me manteve distraído dos meus pensamentos, e quando me dei conta, estava na hora de ir e começar meu primeiro dia no palácio.

Pouco antes de sair, com aquele frio na barriga já se espalhando pelo meu corpo, minha mãe me deu um beijo de despedida e me desejou uma “boa sorte”. Meu pai porem, me acompanhou até a porta e disse:

—Um concelho: faça tudo o que o chefe da cozinha te pedir. Ele quem manda lá e pode se livrar de você sem muito esforço. Faça TUDO o que ele pedir, e se não tiver nada para fazer, arranja alguma tarefa! Se você se mostrar proativo, ele vai te encarregar com tarefas especiais e vai pegar menos no seu pé.

Fique um pouco apreensivo quando ele enfatizou a palavra “tudo”, mas procurei deixar isso de lado para não me preocupar mais do que o necessário.

—E mais uma coisa. –Ele diz por último. –Ele provavelmente vai pedir para você dobrar o turno. Eu sei que você vai estar exausto no final do dia, mas faça isso! Nos primeiros dias ele vai querer testar sua resistência, então mostre que você é forte e que aguenta qualquer coisa até mesmo um evento que dura a noite toda!

Fiquei impressionado com aquele conselho, se é que eu poderia chamar de um, e desejei no meu intimo ter aproveitado a noite e ter descansado mais, mas não podia voltar atrás e desfazer esse meu erro ingênuo, então desejei recuperar essas forças desperdiçadas de alguma forma.

Fui orientado pelo meu pai a entrar no castelo pela porta da cozinha que dava para o jardim, então eu teria que atravessar a muralha do palácio e dar a volta no castelo até chegar do outro lado onde o jardim se encontrava.

Todos sabiam quem eu era, não era a minha primeira vez ali no castelo. Tinha vindo várias vezes com o meu pai principalmente quando era mais novo, inclusive conhecia vários funcionários e tinha amizade com alguns deles. Porém, estando ali como um deles, alguém que estaria responsável pela alimentação da corte e incluindo a sua segurança, me causava calafrios.

Até o momento não havia pensado em como eu poderia acidentalmente adoecer alguém com a minha comida ou fazer alguém se engasgar com algo que não preparei direito, então essas paranoias começaram a se intensificar em minha mente, e sentia que todos que eu cruzava, desde o jardineiro, os criados e principalmente os guardas, estavam me analisando e procurando algum traço de maldade em mim. Procurei me manter mais cauteloso do que já era, inclusive calculava cada passo que eu dava.

Depois de caminhar um pouco cheguei ao jardim, e já dava para avistar a porta que dava para os fundos da cozinha.

A entrada possuía cinco degraus, e a porta era emoldurada com trepadeiras floridas que davam um contorno mais chamativo a aquela porta discreta. Se não fosse pelas flores amarelas vivas, aquela porta passaria despercebido pelos distraídos.

Quando entra nos fundos da cozinha, a primeira coisa que você vê é uma versão bem menor da cozinha principal, com fogão, mesa e tudo mais, mas que serve mais para armazém de farináceos e temperos. A porta da frente dava direto para os corredores do castelo, e a porta a direita dava para a cozinha principal, onde era muito maior, mais cheia, mais bem equipada e com muito mais comida e atividade. Todos os cozinheiros e funcionários da cozinha estavam lá, correndo de um lado para o outro para garantir que o café da manhã fosse servido na hora certa. Quando entrei na cozinha, um homem de uns trinta anos, gritando e dando ordem para todos me viu e reconheceu quem eu era.

—Você é o Thomas? –Ele grita do outro lado da cozinha.

—Sim! –Digo, alto o bastante para ele me ouvir mesmo sem gritar.

Então ele pegou um avental branco que estava em uma bancada e jogou para mim e disse:

—Eu sou Mario, o chefe da cozinha. Pode começar colocando as comidas nas bandejas e leve para os garçons servirem lá dentro. –Ele diz, apontando com a cabeça para uma porta que dava para o salão de jantar. -Quando terminar, pode começar a fazer os pães e tortas para o almoço e o chá da tarde.

Antes que ele pudesse terminar a frase eu já estava amarrando o avental na cintura e me pondo para trabalhar. Era uma correria a todo minuto, com vários riscos de pessoas trombando umas nas outras e vários quase acidentes envolvendo derrubar a comida no chão ou derramar um ingrediente no lugar errado.

Assim que comecei a trabalhar, me mantive ocupado a todo momento, sempre repassando os concelhos e as receitas de meu pai na cabeça. Tive menos de cinco minutos de almoço e nenhuma parada para descansar. Mesmo tendo um bom intervalo em cada refeição, o trabalho era grande e intenso, ninguém tinha tempo para respirar e muito menos errar, e por fim, agradeci no íntimo pelos treinos severos de meu pai.

Entre o chá da tarde e o jantar, tivemos um pedido da rainha para que lhe servisse chá e biscoitos, e fui encarregado de preparar e montar a bandeja que seria levada para vossa majestade. Quando entreguei para o criado que levaria até ela, Marco a pegou para analisar cada centímetro dela, e como ele não disse nada, apenas deu um sinal para que ela fosse levada dali, conclui que tinha feito um bom trabalho.

No final do dia, quando o jantar já tinha se encerrado, o chá servido e a cozinha sendo limpa, pude ver pela primeira vez uma esperança de que eu finalmente poderia ter meu merecido descaço. Já que não havia mais nada para fazer além de esperar que os demais funcionários terminassem de limpar sua área de trabalho e guardar algumas coisas, puxei a cadeira mais próxima e me sentei pela primeira vez no dia.

Quando me viu sentado e descansando, Mario veio até mim, tirando o avental que um dia foi branco e enxugando o suor de sua testa nele, um habito repugnante que não consegui ignorar. Ele se acostou na beirada da mesa a minha frente e disse com a voz cansada.

—Você deu um duro danado hoje, não é mesmo garoto?

Não sabia se encarava aquilo como um elogio, então apenas lhe dei sorriso cansado.

—Achei que você não ia dar conta, que ia implorar por um minuto de descanso ou que iria acabar chorando no final do dia.

—Acho que estou tão cansado que nem tenho forças para chorar, mesmo se eu quisesse. –Digo, lhe tirando uma curta risada.

—Você se deu bem hoje, estou impressionado. Você é mesmo filho do seu pai.

Eu não tinha forças para agradecer, então lhe retornei um sorriso e nós ficamos em silencio por um momento para recuperar um pouco das forças.

—Olha. –Ele voltou a dizer. –Preciso de um favor seu.

Aquilo me trouxe na mente o ultimo conselho do meu pai, então imaginei o que estava por vir.

—O cara que fica aqui a noite não pôde vir, então preciso que cubra o turno dele.

Me segurei ao máximo para não me render ao cansaço e negar sua proposta, mas imaginei que recusar aquele “favor” me custaria o emprego, então suspirei e disse.

—Claro, sem problema.

Ele me analisou e procurou saber se eu estava brincando ou se eu estava delirando de cansaço, então voltou a falar.

—Você não precisa fazer muita coisa, apenas termina de arrumar o que falta e fique à disposição caso alguém precise de alguma coisa. –Ele diz, se referindo ao rei e a rainha ou a princesa.

—Como um copo de agua?

—É mais como um lanche de madrugada. Você também terá que fazer alguma coisa para o café da manhã, mas pode levar o tempo que quiser, contanto que esteja tudo pronto e limpo até amanhã de manhã. Certo?

Fique relembrando quando ele disse que eu não faria muita coisa e logo em seguida ele se contradiz, mas ignorei aquilo.

—Mais alguma coisa? –Digo, torcendo para que seja tudo.

Ele fingiu estar pensando em alguma coisa, mas parecia ter algo na ponta da língua.

—Sim, mais uma coisa: preciso que você arrume a mesa da dispensa exatamente as duas da manhã. Coloque doces, chá, qualquer coisa. Arrume como se fosse servir um café da tarde para alguém.

—Devo esperar alguém em especial? –Digo, não disfarçando a minha desconfiança diante da situação.

—Apenas... faça o que eu te mandei. Amanhã de manhã eu irei conversar com você de novo.

Então jogou o avental no ombro esquerdo e se levantou, saindo com as poucas pessoas que ainda estavam ali, me deixando sozinho naquela imensa cozinha vazia, mas ela não ficou vazia por muito tempo.

Logo em seguida aparece na porta uma jovem, pouco mais velha que eu, de beleza simples e com o cabelo perfeitamente arrumado e um vestido discreto e feito especialmente para ela. Quando ela me viu, ela parou na porta e deu um sorriso brincalhão.

—Achei que a cozinha ia pegar fogo hoje, mas parece que você se comportou bem.

Ela riu da sua própria piada sem graça, então vou até ela e a abraço e ela me beija no rosto, tendo que ficar nas pontas dos pés para me alcançar, então se afasta e me analisa dos pés à cabeça.

—Não me tinha reparado que não nos víamos a tanto tempo. Você está bem mais alto do que eu! –Ela diz, com ternura e impressionada.

—Que eu me lembre, você era um pouco mais alta. Eu acho que não cresci, você que encolheu.

Ela me dá um leve soco em meu braço, e finjo que me machucou apenas para deixa-la feliz, mas ela notou o meu fingimento e revirou os olhos.

Lucy era uma amiga de longa data da família. Nossos pais eram muito amigos e crescemos juntos, na verdade, por causa da diferença de idade, muitas vezes ela acabou cuidando de mim. Ela era pequena e delicada, mas não deixava ninguém tirar vantagem de cima dela.

Lucy era criada pessoal da princesa e estava noiva de um dos guardas do castelo chamado Patrick. Ela era muito querida no reino e tinha uma ótima reputação no castelo, claramente era boa em seu trabalho e era reconhecida pela princesa. Ela estava se saindo muito bem no castelo, e eu não poderia estar mais feliz por ela.

—Vem, senta aí. –Ela diz, apontando para a cadeira na minha frente. –Vou preparar alguma coisa para nós. –Então começa a abrir os armários e pagar algumas coisas como xicaras e frutas.

—Você não deveria estar cuidando da princesa? –Digo, pegando algumas coisas também.

—Já a arrumei para dormir, mas a essa hora ela deve estar estudando, então não precisa mais de mim por hoje.

—Ela está estudando a essa hora?

—Sim. Ela prefere estudar antes de dormir. Acho que ela se concentra melhor a essa hora.

Então nós sentamos e nos deliciamos com alguns restos do almoço e do jantar, tudo ainda muito fresco, acompanhados com uma bebida doce e escura que não conseguia distinguir o que era. Estávamos cansados demais para conversar, então apenas aproveitamos a companhia um do outro.

Sentia falta da companhia de Lucy. Desde que crescemos e passamos a ajudar as nossas próprias famílias, nos afastamos cada vez mais, apenas nos vendo para dar uma grande notícia, seja ela boa ou ruim. Não nos víamos desde o acidente de meu pai, e não falamos nada além disso naquele dia.

Quando nos demos por satisfeito, ela me ajudou a desfazer a nossa mesa de jantar enquanto eu lavava a nossa louça, como um casal de velhinhos. Ficamos em silencio, apenas aproveitando a companhia um do outro, mas sabia que ela estava me analisando, talvez procurando por algo novo em mim depois de todos esses anos.

—Obrigado pelo jantar. –Digo, guardando o ultimo prato.

—Achei que você merecia uma festa de boas-vindas. –Ela diz de forma sarcástica.

—Acho melhor você ir indo. Já está bem tarde. –Digo.

—Não deve ter mais ninguém nas ruas a essa hora. –Diz, rindo e soltando os longos cabelos negros iguais aos meus para ficar mais confortável depois de um longo dia de trabalho.

—Mesmo assim. Essa é a hora favorita dos pervertidos e dos ladrões. Você deveria tomar mais cuidado.

—Patrick vai me acompanhar até em casa. Mas, só para você saber: sei me virar muito bem.

—Eu não seria louco de cruzar com você a essa hora.

—Muito sábio da sua parte.

No mesmo instante, Patrick entra pela porta da cozinha, nos flagrando em um último abraço de despedida.

—Thomas, é você. –Ele diz, fingindo surpresa. –Achei que era outra pessoa. Sabe? Um homem talvez.

Lucy o repreendeu dando um leve tapa no seu peito, e eu não pude segurar uma risada diante da cena.

Patrick era um cara legal e ele era ótimo para Lucy, a tratava como se fosse a própria princesa, e Lucy o olhava como se fosse o cavaleiro de todos os seus sonhos. Eles eram ótimos juntos, eram tudo aquilo que eu gostaria de ter algum dia.

—Você está atrasado. –Digo, o cumprimentando. –Mais um minuto e outro cara iria leva-la para casa no seu lugar.

—Tenho certeza que outra pessoa não ia aguentar andar nem dois paços com ela.

Nós dois rimos, e nós dois levamos um soco no braço. Lucy estava claramente cansada e aquela brincadeira toda a estava deixando irritada, então saiu pela porta e disse:

—Enquanto vocês terminam, eu vou para casa dormir. -E então saiu sem se despedir.

—Acho melhor você ir atrás dela se quiser continuar noivo. –Digo.

—Acho melhor mesmo. –Ele diz, com um leve tom de medo e saindo atrás dela.

Quando os dois saíram, senti meu corpo relaxar e todo o peso da falta de sono e do dia todo de trabalho caindo em cima de mim. Não tinha notado o quão cansado eu estava, e sabia que se sentasse nem que fosse por um segundo, iria cair no sono ali mesmo, então procurei me ocupar com algumas preparações para o café da manhã, tudo na intenção de me distrair do meu cansaço.

**

Por volta da meia-noite, o palácio ficou quase em total silencio, só dava para ouvir os passos cautelosos dos guardas do lado de fora e o vento soprando no jardim.

Eu tinha alcançado meu limite já tinha quase uma hora, e minha velocidade havia diminuído drasticamente. Era fácil se manter atento enquanto tinha alguém aqui na cozinha me vigiando ou me dando ordens, mas agora, com tudo em silencio e as preparações quase prontas, estava enfim sentindo o peso de todas daquelas horas trabalhadas. Comecei a respirar pesado e não conseguia manter meus olhos abertos, então me sentei por um segundo para conseguir recuperar o ar.

Quando me dei conta, umas duas horas já tinham se passado. Levantei num pulo quando ouvi alguns passos vindo do lado de fora, mas sabia que ainda era dos guardas, então me forcei a relaxar um pouco, mas meu coração estava disparado, então decidi voltar a fazer meus afazeres na esperança de que isso me mantivesse ocupado o bastante para me manter acordado.

Por fim, me lembrei do que Mario havia me dito, sobre montar uma mesa com chá e doces as duas da manhã, e como já estava bem perto do horário, me coloquei a fazer isso.

Ainda não tinha ideia para que aquilo seria. Se fosse para a para a princesa ou para o próprio rei e a rainha, eu teria que no mínimo montar na grande mesa no salão ou em uma bandeja que seria levada por um dos seus criados, mas tinha certeza de que não era para eles. Ainda sim, não conseguia pensar em quem poderia vir aqui a essa hora para se deliciar desse chá noturno.

Mesmo assim, queria fazer tudo certo até nos mínimos detalhes, então não negligenciaria nem mesmo esse pedido estranho, então montei a mesa da cozinha pequena com as melhores coisas que encontrei na cozinha e aproveitei algumas mini tortas de figo que haviam sobrado do almoço e as coloquei em um prato decorado que achei em um dos armários.

Tudo parecia bem apresentado e até mesmo fiz questão de deixar tudo em perfeita simetria. No fundo até mesmo senti uma pequena pontada de orgulho de mim mesmo, mas abandonei esse meu lado infantil e voltei aos meus afazeres, esperando por sabe-se lá quem aparecer.

Depois de uns quinze minutos, não tinha mais nada para fazer, tudo estava pronto e limpo, e aparentemente meu turno tinha acabado mais cedo do que eu esperava, então podia enfim descansar sem peso na consciência, porém, me obriguei a ficar em vigia para caso alguém aparecesse ou algum serviço me fosse solicitado.

Agora que eu podia enfim respirar e relaxar um pouco, reparei o quão completo e organizado a cozinha era, e que ao mesmo tempo era bem pequena comparado com a outra cozinha do palácio. O que me tirou desse transe foram os passos que ecoavam pelos corredores.

Apesar de serem baixos e cautelosos, o que era de se esperar a hora da noite, eles eram ligeiramente diferentes das dos guardas, mais leves, porém mais desajeitados, claramente vindo de alguém que não teve todo aquele treinamento de cautela que os guardas costumam ter.

Então, por detrás da porta, apareceu uma cabeça com cabelos castanhos e um roupão florido por cima do pijama entrando de costa para a cozinha, abrindo e então fechando a porta cuidadosamente para não fazer nenhum barulho desnecessário. E antes dela se virar para mim, começou a falar, com uma voz levemente rouca que deveria ser natural dela.

—Por favor, me diz que sobrou um pouco daquelas tortinhas de figo. Passei a tarde toda pensando nelas!

Quando ela enfim se virou e me viu, recuou em um reflexo por não estar vendo quem ela esperava ver.

—Oh. –Disse, um tom de surpresa em sua voz, mas não pareceu decepcionada ou constrangida, aliás, podia jurar que vi um leve rubor surgindo em seu rosto. –Você não é o Jorge. –Disse, com um leve e simpático sorriso.

Nesse momento eu podia sentir meu rosto queimar e ficando vermelho. Eu não conhecia a família real de imediato, porém, ali estava ela, a princesa em carne e osso, parada bem na minha frente. Apesar de já ter a visto antes quando eu era bem pequeno, ainda me lembrava dela em todos os detalhes, desde seus cabelos ondulados até seus olhos cor de mel que tinha um constante brilho que somente ela conseguia ter.

Não tive reação, não conseguia pensar em nada, me sentia encurralado e com uma estranha sensação de que estava fazendo algo de errado, então me lembrei:

—Majestade! -Digo, me curvando em uma velocidade nada natural, sentindo meu rosto queimar mais ainda e meu estomago se revirando. –Me... me desculpa, eu não... -Não conseguia formular uma frase completa, não conseguia pensar direito e nem como eu podia concertar a situação, e ela com certeza notou meu constrangimento.

—Me desculpa. –Ela disse, me pegando de surpresa. –Eu não queria te assustar. Eu achei que iria encontrar o Jorge aqui hoje.

Eu ainda estava curvado diante dela, e quando olhei para seu rosto, ela estava mesmo corada, provavelmente por causa de todo esse cenário constrangedor que eu impus entre nós.

—Me desculpa. –Volto a dizer. –Ele não vem hoje.

—Sabe quando ele vai voltar? –Ela diz, preocupada.

—Sinto muito, majestade, mas ele não vai mais voltar. Por isso que eu estou aqui. Vim para substitui-lo!

—Você pode se levantar agora. Se você quiser.

Não tinha notado que ainda estava curvado, então me levantei rapidamente de novo, me sentido tolo diante dela.

—Mas... –Ela voltou a dizer, olhando para os lados tentando encontrar as palavras certas. –Ele está bem?

—Sim, majestade. –Digo, tentando ao máximo não deixar transparecer todo o meu constrangimento. — Ele está bem, apenas recebeu uma aposentadoria prematura.

—Alteza. –Ela diz, com um sorriso constrangedor.

—O que?

—Alteza. Eu não sou a rainha, ainda! Então, pode me chamar de alteza.

Dessa vez eu quem comecei a olhar para os lados para disfarçar o meu constrangimento. Eu estava cometendo um erro atrás do outro e senti uma estranha sensação de querer fugir dali e ir para o mais longe possível.

—Me... me desculpe. –Digo, gaguejando.

—Está tudo bem. –Ela diz, de forma simpática e descontraída. –É um erro bem comum, todo mundo faz isso, principalmente as crianças. -Então ela olha para mim, com uma expressão de pânico e com o rosto corado e tenta corrigir o seu erro, mesmo que eu mesmo não tenha notado de imediato. –Não que você seja uma criança, quero dizer, todo mundo fala isso sabe? Já chamaram minha mãe de princesa, acho que é por que eles a conheceram como uma princesa e então continuam vendo ela desse jeito.

Ela dizia de forma rápida, e no final da frase, ela se obrigou a diminuir o ritmo e acabou diminuído o volume da sua voz, provavelmente por estar tão deslocada quanto eu. Eu a deixava assim, e me sentia péssimo por causa disso, então ela olhou para a mesa atrás de mim, e então esboçou um enorme sorriso e se colocou a sentar.

—Você por acaso é o filho do Jorge? –Ela diz, enquanto se acostava a mesa.

—Sim. Como você sabe?

—Suas receitas são bem parecidas. Ele falava muito sobre você, sabia?

Aquilo me pegou de surpresa. Meu pai sempre foi muito discreto em relação ao trabalho. Ele nunca falava das coisas que fazia ou que aconteciam dentro do castelo, e por algum motivo, eu imaginava que ele agia assim quando estava trabalhando, deixando sua vida pessoal totalmente de lado e focando no que tinha que fazer.

—Quando eu comi aquela torta, podia jurar que foi o seu pai quem a fez. –Ela voltou a dizer, pegando um prato e se servindo com os doces que estavam na mesa, e me pus a servir o chá. –Vocês possuem a mesma medida e o mesmo gosto para os temperos. É incrível!

—Meu pai se empenhou muito para me ensinar as suas receitas e técnicas, mas ele é bem perfeccionista. Como ele sempre aponta um defeito nelas, eu achava que elas sempre estavam bem diferentes das dele.

—Bom. –Ela diz, analisando a tortinha de perto e dando uma grande mordida, mastigando cuidadosamente e absorvendo cada sabor. -Agora que eu sei que esses doces não são os deles, acho até que dá para sentir uma pequena diferença no sabor, mas bem de leve. Qualquer um que não conhece tão bem o trabalho dele se confundiria facilmente.

—E isso é uma coisa boa, alteza?

—Depende. Se você está querendo ser exatamente como o seu pai, então está fazendo um ótimo trabalho. Mas, se você pensa em fazer diferente e deixar a sua marca aqui, então você está indo para o caminho errado.

Não tinha pensando em fazer algo diferente do que ele costumava fazer aqui antes. Pensava que como a família real já estava acostumada com a sua forma de cozinhar, eu me empenhei para fazer como ele, já que não queria desaponta-los e nem mesmo desagrada-los com a minha escolha de sabores. Mas, pensando no que a princesa disse, será que seria tão ruim assim fazer algo do meu jeito? Deixar a minha marca, como ela havia dito?

—Mas, devo dizer que você fez um ótimo trabalho.

Notas finais
Uma nota do autor: Os capítulos mais de um narrador, mas para facilitar a compreensão de todos, colocarei o nome do narrador no começo de cada capitulo. Agradeço pela sua atenção e tenha uma boa leitura.