O que desejaste?
1 OneShot
Notas iniciais
25 de julho de 2014. Díli, Timor Leste.
O Sol estava radiante e não havia sinais de chuva. Um dia perfeito para receber o primeiro-ministro e o presidente de Portugal.
O Timor Leste, humanamente conhecido como Aleixo Ramos Belo, estava ansioso. Não pela chegada daqueles dois, mas sim pelo próprio Portugal.
O jovem, de tonalidade morena, cabelo curto preto e olhos castanhos, ficava a imaginar como estaria o seu ex-tutor.
Os seus olhos continuavam a ser daquele verde brilhante? Ele manteve o cabelo curto como teve durante o Estado Novo? Ou deixou-o crescer como na Época em que eles se conheceram? Teria a mesma voz, cheia de melancolia, enquanto cantava o triste Fado?
Ah, queria tanto saber!
Foi uma alegria ao ver o avião, onde Afonso e os seus chefes estavam, a chegar. Aleixo e os seus chefes aproximaram da escada que ligava a porta do avião ao chão. O terceiro a sair fora Afonso. O timorense acenou freneticamente para o outro, enquanto este só sorriu e acenou com calma.
O português chegou perto do outro e despenteou o cabelo dele com a mão.
– Então, puto? Como cresceste!
– Olha quem fala. Fico feliz ao ver o teu cabelo grande de novo! Não o gostava de vê-lo curto.
– Nem eu. Mas foram ordens do meu antigo chefe.
O português tocou no seu cabelo.
– Né, enquanto os nossos chefes vão visitar as escolas que ensinam português, que tal nós passearmos e colocar a conversa em dia?- Aleixo propôs, de forma tímida.
– Hm? Claro, porque não?
Ambos avisaram os seus chefes sobre tal e saíram. Assim que estavam a uma distância razoável, Aleixo agarrou na mão do mais velho.
– Como nos velhos tempos. — informou o menor.
– A sério? Não me digas também que queres que eu cante?
– Eu não me importaria.
Ele olhou para o maior, esperançoso. Afonso entendeu o pedido silencioso de Aleixo e simplesmente sorriu.
– Queres que cante qual canção?
– Hm… Aquela que cantaste para me acalmar quando eu e a Indonésia nos separamos?
Portugal ficou a pensar, durante alguns segundos.
– Ela é antiga… Mas acho que ainda lembro-me da letra.
Aleixo abriu um grande sorriso. O português limpou a garganta e começou a cantar a bendita canção.
– Perdido lá no mar alto
Um pobre navio andava;
Já sem bolacha e sem rumo
A fome a todos matava.
O mais novo olhava com interesse para o outro, encantado com a voz madura do outro.
– Deitaram a todos as sortes
A ver qual d'eles havia
Ser pelos outros matado
P´ró jantar daquele dia
Fechou os olhos e lembrou-se no dia em que se conheceram. Aleixo era tão novo, enquanto Afonso era um adolescente que procurava por sândalos na terra do menor. Quando viu os olhos verdes e cintilantes, cheios de curiosidade e de coragem, ficara surpreso. Nunca vira tal cor de olhos em um ser humano antes. Aquela cor lhe lembrava os arbustos pequenos com orvalho, numa manhã fresca de verão.
– Caiu a sorte maldita
No melhor moço que havia;
Ai como o triste chorava
Rezando à Virgem Maria.
Aleixo sempre fora um rapaz pequeno e medroso. Quantas vezes chorara, ao ser importunado pela Indonésia? No entanto, sempre houve uma forma para ele se acalmar: ouvindo a voz com melancolia do seu ex-tutor.
Agora, chegou à última quadra do fado que o português cantava. Aleixo ainda se lembrava da letra, então também cantou essa quadra junto.
– Mas de repente o gageiro,
Vendo terra pela proa,
Grita alegre pela gávea:
Terras, terras de Lisboa!
Afonso riu.
– Afinal, sabias a letra?
– Cantaste-ma tantas vezes! Era de esperar que ainda soubesse a letra.
– Pois bem, tu sabes a letra do primeiro fado que existe.
– Isso explica porque só me cantavas essa música naquela altura. E eu a pensar que era por não saberes uma outra música. — Aleixo disse na brincadeira.
– Ha, ha. Que piada! — Afonso exclamou, irónico, e despenteou o cabelo do outro.
O timorense olhou para céu e reparou que o Sol já estava no topo. Era, com toda a certeza, hora de almoço.
– Estás com fome? — perguntou Aleixo.
– Hm… Agora que falas nisso…
– Queres comer em minha casa? Ou preferes ir a um restaurante?
– Prefiro boa comida caseira. Agora, és bom cozinheiro?
– É claro que sou… Bom, pelo menos, não expludo a cozinha ao estrelar um ovo como um certo amigo teu.
– Bom argumento. Mas, mesmo que não soubesses cozinhar, eu não importaria de ser eu a preparar o almoço.
Com tal frase, os olhos castanhos do maubere fitavam o outro, com esperança. O lusitano sorriu com um suspiro. Sinceramente, os olhos do outro, que lembrava a caramelo derretido, sempre conseguiram convencer Afonso a fazer algo.
– Certo, certo.
Aleixo exclamou em contentamento. Apertou a mão do mais velho e o arrastou até ao mercado mais próximo.
– Vamos comprar as coisas que irás precisar! — anunciou o menor.
– Falando dessa forma, até parece que não tens nada em casa. — o português brincou.
– Só tenho o básico, buh. — bufou Aleixo.- O que pensas fazer?
– Apetece-me mariscos. Hm, tens arroz em casa?
– Claro! Só não sei se chega. Planeias fazer Arroz com Marisco, é?
– Sim. Não te chega?
– Podia ter mais algo.~
– Que tal Sopa da Pedra? Eu lembro-me que gostavas imenso.
Com tal comentário, Aleixo corou. Oh, ele se lembra disso?, perguntou a si mesmo. Era surpreendente ver que o lusitano ainda se lembrara de coisas simples como os gostos do outro. Comparativo com as outras ex-colónias, o timorense não tinha passado muito tempo com a sua ex-metrópole. No entanto, nos momentos mais difíceis, Afonso esteve lá, para o ajudar, psicologicamente. Não estava lá como país, mas sim como amigo.
– Claro que gosto.
Após de terem tudo comprado, foram para a casa do maubere. Portugal notou que as avenidas e ruas ainda tinham os mesmos nomes, o que lhe deu certa saudade do tempo em que eram irmãos.
– Por que não mudaste os nomes?
– Preferi deixá-los estar, afinal queria algo que me lembrasse de ti.
– Assim, deixas-me sem graça.
Aleixo conseguiu ver que as bochechas do mais velho tinham ficado avermelhadas, o que fê-lo ficar satisfeito.
Chegou à sua casa. Casa esta que não era pequena e não era grande. Era média, mas confortável. Tinha somente um andar e um sótão, era caiada a branco e tinha um jardim. Um belo jardim com cravos vermelhos, rosas de várias cores, orquídeas diuris e, bem escondidas, umas lavandas recém-plantadas.
O português ficara surpreso pela beleza do jardim. Pensara que haveria mais plantas nativas do país, mas somente aquelas orquídeas amarelas é que fazia parte da flora. Então, porque flores estrangeiras estariam lá? Ele se interrogou, mas nada verbalizou. Ficou na mente.
– Que lindo jardim. — comentou o visitante, ao entrar na casa.
– Obrigado.
Aleixo indicou onde era a cozinha, mas a atenção do português fora para um quadro. Era um quadro antigo, ainda fora na Época do império. Nele, estavam todas as colónias que Portugal tivera. Tinha sido um presente da Aveiro, distrito e filha de Portugal, para Aleixo.
– Foi a Antónia que desenhou isso, não foi?
– Sim.
– Lembro-me de quando ela nos obrigou a pousar para o desenho. Ficamos muitas horas parados, não foi?
– Bem dita seja a verdade. — Riu Aleixo, mas depois apontou para a cozinha. — Vai para a cozinha, que o meu estômago precisa de comida!
– Ui, que mandão tu me saíste.
Ambos gargalharam e foram em direção da cozinha. Afonso começara a preparar tudo, mas fora no momento em que iniciou a preparar a sopa da pedra, que Aleixo recordou da primeira vez que ouvira a lenda por detrás da sopa.
Enquanto as outras colónias brincavam no pátio do castelo, o pequeno timorense estava na cozinha, a ver as mulheres a cozinhar. Preferia estar ali, do que na rua. Afinal, assim poderia aprender alguns truques, para impressionar Afonso.
Ele queria chamar a sua atenção e pensou que, talvez, mas só talvez, se soubesse cozinhar, poderia impressionar e muito o português!
– Ah!, Aleixo, aqui estás tu! — exclamou a voz lusitana.
– A-Andavas à minha procura? — perguntou Aleixo, de forma tímida. Naquela altura, era bem tímido, o que o deixava bem adorável.
– Sim. Fiquei preocupado, como não estavas lá fora, pensei que talvez aqueles dois tarados tinham-te apanhado! — informou Afonso, falando do França e do Espanha. — O que tu andas aqui a fazer, a ver as senhoras a cozinhar Sopa da Pedra?
– Sopa da…Pedra? Tem pedras, a sopa?
– Não, claro que não! É somente uma lenda. Queres que ta conte?
– Sim, por favor!
– Vamos lá para fora, os outros também devem querer saber.
Ele estendeu a mão para o pequenote, que ficou a olhar para ela, a pensar. Ele queria que Afonso só conta-se a ele a tal lenda, mas gostava de andar de mãos dadas com ele… Agarrou a mão e foram até ao pátio, onde Afonso, prontamente, chamou os outros para se juntarem.
Quando a acriançada estava toda reunida, por baixo de uma oliveira grande, o ibérico começou a contar a lenda.
– Reza assim esta lenda: um frade esfomeado andava no seu peditório e foi bater à porta de um lavrador. Pediu-lhe por comida, mas o lavrador avarento negou. Foi aí que o frade teve uma ideia. Comentou algo assim “então, irei ver se consigo fazer um caldinho de pedra” e começou a procurar uma pedra no chão, até encontrar a ideal. O lavrador e a sua mulher observaram com atenção o frade, mas começaram a rir. — Afonso parou, com um sorriso traquinas, observando as caras das crianças, curiosas para saber o resto. — O frade perguntou se eles já tinham comido o tal caldinho e comentara que era delicioso. Com tais palavras, os lavradores ficaram curiosos e dispuseram-se a provar. Foi então que o frade lhes pediu emprestado uma panela de barro, encheu de água e colocou lá a pedra bem lavada. Colocou a cozer e quando a panela começou a chiar, ele comentou “Com um pedacinho de unto, ficava um primor!”. Entregaram-no o unto. Depois, pediu sal para matar o ensosso.
Nessa altura, Lisboa e Aveiro aproximaram, abismadas pela quietude das crianças. A aveirense fez um sinal para os outros distritos e pediu algo.
– O frade volta a comentar “Com um nadinha de chouriço, é que isto ganhava graças!” e recebeu o tal chouriço. E depois, com outros comentários semelhantes, foi pedindo feijão-encarnado, umas batatinhas, e tudo ia para a panela, de onde saía um cheiro tão bom! Os lavradores, aparvalhados, apreciavam o cozinhado, e o frade já lambia os beiços. “Ficará bom?” perguntou o lavrador e a resposta do frade foi “Não se nota pelo cheiro?”. A mulher anotava tudo, pois não conhecia a receita. Assim, o frade tirou a panela do lume e serviu-se. O casal foi espreitar a panela, agora vazia, e viram a pedra no fundo. Perguntaram sobre a pedra e ele respondeu “Irei-a lavar e vai no alforge para servir outra vez…!”. Pronto, é essa a lenda por detrás da Sopa da Pedra.
–Nossa! Mas como eles não desconfiaram, Fonfon? — Perguntou Brasil. Devido à alcunha, Aleixo sentiu um certo ciúme.
– Como saberei eu? Há gente menos esperta e outras muito espertalhonas!
Portugal se levantou, esfregando as mãos.
– Agora, quem quer comer um pouco da sopa da lenda?
– Eu! Eu!- exclamaram todos, em coro. Estavam bem animados.
– Ahh! Terminei!
Todos olharam para trás e viram os distritos a encarar para tela. As colónias –menos Timor– foram a correr até lá para ver a pintura da Aveiro e ficaram encantadas.
– Somos nós! — exclamou a pequena Angola.
– Oh, pois somos. — Portugal finalmente viu, com Aleixo ao colo. — Bom trabalho, Antónia.
– Hehe! — riu ela.
Timor olhava com curiosidade para a pintura. Era bonita, ainda mais com o seu tutor ali no meio, a contar a lenda. Mais tarde, iria pedir para Antónia desenhasse para ele.
– Oh!, eu também quero o colo do Portugal! — exclamou Moçambique.
Após dessa exclamação, todas as colónias pediram o colo.
– Tão popular, papá! — Comentou Lisboa, que subiu às costas do país.
– H-Hey! Ainda caio!
As colónias, após tal movimento, fizeram o mesmo. E adivinhem? Portugal caiu ao chão, levando todos atrás. Lisboa tinha saído antes e agora ria da figura do pai.
Com tais lembranças, Aleixo sorriu.
– Hey, a comida está pronta! — Afonso avisara, pondo tudo na mesa.
– Eh? Já?
– Sim. Ficaste aí a sonhar.
Aleixo sentou-se, meio culpado por não ter ajudado a colocar a mesa. Começaram pela sopa e, Deus, à quanto tempo não comia tal sopa?! Aleixo estava maravilhado com o sabor que à anos não saboreava!
– Está tão bom!
– Alegro-me ouvir isso.
Continuaram a comer e, do nada, Timor se lembrara de uma música que um português tinha escrito para ele. Ah, naquela época, fora difícil para ele.
Não conseguiu evitar e voltou a recordar.
Por um partido de tendências marxista ter proclamado independência de Portugal, Indonésia invadiu Timor em 1975. Durante anos, ocorreram muitas, mas mesmo muitas mortes de timorenses. Por bombeamentos ou massacrados pelos militares indonésios durante manifestações pela independência.
Aleixo crescera, agora era um rapaz jovem. Mas, tinha tantas feridas e estava cansado. Cansado dos massacres sem razão alguma por parte da Indonésia. O seu povo estava a morrer! Cada dia, morria dezenas de pessoas! Era frustrante não conseguir fazer nada.
Queria chorar e muito. Era 1990 e continuavam a morrer pessoas…
Pegou no seu telefone e ligou para Afonso. A quanto tempo não falava com ele?
– Estou sim?
– Afonso…?
– Aleixo?! Estás bem?!
– Podes cantar-me para mim…?
– Eh?
– Canta-me uma música qualquer… Eu preciso de algo para me animar…-murmurou, fraco.
Afonso ficou em silêncio, a pensar no que fazer.
– Certo.
Aleixo sorriu. O sorriso foi fraco, mas era ainda um sorriso.
– Lavam-se os olhos nega-se o beijo
do labirinto escolhe-se o mar
no cais deserto fica o desejo
da terra quente por conquistar
Aleixo não estava a reconhecer a música, mas tinha a sensação que já a tinha ouvido.
– Nobre soldado que vens senhor
por sobre as asas do teu dragão
beijas os corpos no chão queimado
nunca serás o nosso perdão
As lágrimas começaram a sair, pois eram teimosas como o português.
– Ai Timor
calam-se as vozes
dos teus avós
Ai Timor
se outros calam
cantemos nós
Ficou surpreso, claro. Então, a música era sobre ele? O sorriso voltou, desta vez era um sorriso de felicidade, mas fora fraco.
– Salgas de ventres que não tiveste
ceifando os filhos que não são teus
nobre soldado nunca sonhaste
ver uma espada na mão de Deus
A música falava mesmo de sua situação. Argh, situação essa que era odiada pelo Aleixo. Porquê?! Por que Indonésia o invadiu, exatamente? Qual era o problema com o marxismo? Para quê tanto massacre?
– Da cruz se faz uma lança em chamas
que sangra o céu no sol do meio dia
do meio dos corpos a mesma lama
leito final onde o amor nascia
Ah, amor. Uma palavra simples que significava muito para si. Ele já descobrira que estava apaixonado pelo português desde… Olha, desde que olhou para aqueles olhos verdes brilhantes, jamais vistos antes por ele. Aquele verde, tão olival, tão belo! E quis ser independente, para, talvez, Afonso o visse de outros olhos. Não como seu irmão ou filho, mas sim como homem. Mas, em vez de homem, havia-lhe mostrado o seu lado fraco, que todos sabiam que ele tinha. Ele era fraco e sabia disso. Mas, tentar não custa, pois não?
– Ai Timor
calam-se as vozes
dos teus avós
Ai Timor
se outros calam
cantemos nós!
Um silêncio permaneceu, até ser cortado pela voz chorona do maubere. Ele tinha que ser corajoso… Ele iria revelar os seus sentimentos! É, é isso!
– Hey, Afonso?
– Sim?
– Eu gost…- perdeu a coragem. — Gostei da música. Obrigado.
E desligou. Tão fraco, tão medroso que ele era.
Em 1999, Portugal e Indonésia negociam entre si sobre a independência do maubere.
No final mesmo ano, a ONU envia soldados australianos, mas ao chegar à capital, encontram o país destruído e incendiado.
Mas os seus esforços e os do seu povo mostraram resultados. Em 20 de maio de 2002, Timor Leste era independente de Indonésia.
Terminou a sopa e ficou a encarar a tigela vazia. Bom, já não era uma criança. Era crescido e atraente. Várias raparigas da vizinhança suspiravam de amores por ele.
– O que andas aí a pensar? — Afonso perguntou, colocando um prato de arroz com marisco à frente do moreno.
– E-Em nada em especial!
Por sua vez, Afonso não acreditou, mas também não falou nada. No final do almoço, Aleixo anunciou que era a hora da sobremesa.
– Hm? Há sobremesa?
– Claro!
– E o que é?
– Surpresa! Vou lá buscar.~
Aleixo foi buscar ao frigorífico uma caixa branca de cartão. Tirou da caixa um bolo de chocolate com fios de ovos e colocou duas velas brancas de aniversário sem números. Ele tivera essa ideia, pois foi decidido fazer uma surpresa ao primeiro-ministro de Portugal, que tinha feito anos no dia anterior. Sem falar que Aleixo não tinha estado com o português no seu aniversário e quis lhe oferecer algo. Acendeu as velas e pegou no tabuleiro onde o bolo estava. Entrou na sala e começou a cantar.
– Parabéns a você,
nesta data querida,
muita felicidade,
muitos anos de vida
Afonso surpreendeu-se e simplesmente sorriu. Então, o menor estava a preparar uma surpresa?
– Hoje é dia de festa
vivam as nossas almas
para o menino Afonso...
uma salva de palmas!
Aleixo pousou o tabuleiro à frente de Afonso, com um sorriso bobo e meio tímido.
– Tenha tudo de bom
do que a vida contém,
tenha muita saúde
e os amigos também.
O português soprou as velas e começou a rir.
– Mas hoje não é o meu aniversário!
– E depois? O meu povo fez um bolo para o teu chefe, pois fez anos ontem, e eu quis também fazer o mesmo.
– Ai fizeram? Muito simpático por vossa parte.
– B-Bom, morde a vela e pede um desejo!
– Certo, certo.
O lusitano tirou uma vela e a mordeu, pedindo então um desejo. Pegou na outra vela e a entregou ao outro, para também morder. O maubere assim o fez. Quero ter a coragem para me declarar para o Afonso!, pediu ele.
– O que desejaste? – perguntou o mais velho.
– Desejei ter coragem para me declarar a ti…- disse, sem pensar, o timorense.
– Hã?
Aleixo ficou calado, surpreso consigo mesmo. Depois, corou imenso. Até as orelhas estavam coradas!
– Q-Quero dizer… Er… N-Não me interpretes mal! E-Esquece o que eu disse!
– Porque haveria de esquecer?
Timor olhou para ele, confuso de mais de entender. Afonso, por sua vez, sorriu e agarrou a mão morena do outro, massajando-a.
– Não vejo o mal de gostares de uma pessoa. Não vejo o mal de gostares de mim.
– Ai não?- perguntou Aleixo, com vontade de chorar.
– Não. Aliás, vou dar-te uma chance.
Afinal, Afonso já amara alguém e perdera contra a morte. Lendas rezam que aquela pessoa voltará, em seu cavalo branco, entre a névoa pesada, para ajudar Portugal em situação complicadas.
– S-Sério?!
– Sim… Hey, não chores!
O maubere começara a chorar de alegria. Se isto fosse um sonho, ele não quereria acordar.
– O que faço contigo?- questionou o lusitano, que limpava as lágrimas ao outro.
– He he… Não sei.
– Vamos comer o bolo?
– Oh, sim!
Sentou-se na sua cadeira, a balançar as suas pernas.
– Hm? Aleixo?
– Sim?
– Esqueceste dos pratos e dos talheres.
– Oh… Pois esqueci…
Começaram a rir e o português levantou-se, para ir buscar os pratos.
Aleixo estava bem feliz! Parecia que aquela alegria nunca iria acabar. Mas algo que Aleixo não sabia, era que o desejo do lusitano era aquele.
Que Aleixo tenha um futuro feliz e pacifico, sem mais guerras ou desgraças.
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