Um quarto praticamente vazio, com somente um espelho a minha frente e uma porta um pouco mais ao lado. Se havia mais alguma coisa não se sabe, somente digo os elementos mais importantes desta cena.

Duas pessoas estavam ali, digo “pessoas” na verdade porque não são aquelas que se vê pelo mundo, povoando com mais do mesmo. Mas bem, por se parecem com pessoas as descrevo assim. Uma se observava pelo espelho, analisando cada mínimo detalhe de si. A outra caminhava pelo quarto, mas nunca aparecia em meu campo de visão, já que por algum motivo eu não conseguia tirar os olhos do homem de frente ao espelho. Após um longo olhar para si este abriu a boca.

- Então é assim que eu vou te rever. – Virou-se para a outra pessoa, esta que, mesmo sem a vê-la, pude deduzir que confirmara a fala do homem. Novamente ele voltou a se analisar, começando a descrever o que via no espelho.

- Não me parece ser um reencontro doloroso, mas vai demorar. Pareço ter... – Fixou o olhar em seu rosto, depois em seu próprio olho. – Não, não sei dizer. Pode ser que eu tenha tido uma vida cansativa que me roubou a juventude. Estou certo? – Virou-se para a outra pessoa, que riu, pelo menos deduzi pela risada que o homem começou, que parecia reflexo da outra.

- É, por esta pergunta idiota já posso dizer um traço de minha personalidade: a tolice. – Fitou-se novamente no espelho, ficando de lado para observar suas costas. – Se estou vendo direito parece ter alguma sujeira de chão aqui. – Voltou a ficar de frente e fitar o rosto, dessa vez chegando mais próximo do espelho para isto. – E por esta minha face pálida devo deduzir um fim pelo coração. – Distancia-se do espelho, ficando em pé de forma ereta. – Nada mal, bem que podia ser pior.

- O que mais posso saber sem sua ajuda? Pijamas de tecido confortável, cor neutra e com uma estampa pequena neste bolso aqui. – Pára de se encarar pelo espelho e observa em si o bolso que citara. – Bem prático, por sinal. Gosto de bolsos assim. – De novo seus olhos se encontram com os orbes dentro do espelho. – Um homem preparado, eu pareço ser. Talvez com filhos... Soube que filhos nos deixam mais pragmáticos. – Uma risada povoa novamente a boca do homem, dessa vez solitária. A outra pessoa continua caminhando pelo cômodo, agora no outro lado deste, meus ouvidos diziam.

- E este vocabulário rebuscado! Devo ser estudado, com certeza fiz faculdade. – O homem suspira, fitando seu reflexo com um pouco um ar triste. – Que pena não conseguir interpretar mais nada de si, é este o auge do meu ser! – Os passos da outra pessoa param, chamando atenção do homem para ela. Esta deve ter questionando com o olhar a fala do homem, já que este respondeu a pergunta silenciosa. – Pense só, este é o momento que eu não vou mais mudar de opinião, nem de aparência, é quando todas as transformações possíveis em mim já aconteceram e eu serei assim para sempre. Não estou falando do meu corpo aqui, e sim de quem eu sou. – Após explicado, o homem deixou de encarar a outra pessoa e voltou a se fitar, fazendo mais alguns segundos de análise de sua aparência. Mais um suspiro.

- Não sei se vou ficar feliz com o reencontro, contudo não tenho escolha, não é verdade? – Virou-se para a pessoa, que pareceu concordar. O último olhar para o espelho foi dado, mas dessa vez ele parecia me encarar por aquele reflexo. De alguma forma me senti notado pela primeira vez, mas seu olhar dizia que ele sempre soube que eu estava ali. Era confuso. – Mas antes disso tudo preciso existir e eu não faço isso continuando aqui. – Suas sobrancelhas arqueadas como se perguntasse a mim se eu concordava e em seguida o homem virou-se para e saiu pela porta.

Fim da história. Nada mais vi.

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