Notas iniciais
Boa leitura à todos! ;D

Então o décimo membro da família Frost nascera. Para Gary, aquele seria mais um dos filhos frustrados de seu tio Mark, que era o mais ignorante deles. Ele já tinha mais três filhos, de seu primeiro casamento, e nenhum deles era de fato “feliz”. Um estava preso, devido a um roubo qualquer, o outro morava em outro país, na tentativa de escapar do pai problemático, o mais velho era um vagabundo que não fazia absolutamente nada na vida. Gary jamais entendera seus avós, que nunca disseram nada aos tios para que estes pudessem mudar a forma de educar e criar as crianças. Seus outros dois tios, não eram muito diferentes, a não contar com seu pai, que era o mais sensato dentre os irmãos. Ele tinha mais oito primos no total.

– Venha Gary! Venha ver seu mais novo priminho! – Seu tio gritara. Ele se aproximara do bebê, mirando-o. Os cabelos eram bem clarinhos, e as bochechas rosadas e gorduchas. Estava dormindo profundamente. Para ele não passava de uma criança como qualquer outra. Não via nada de especial nele. – Chelsy não é lindo? – Perguntara Laura, a mãe do bebê e atual tia de Gary. Ele olhara de esguelha para a mulher, a história de seu tio viera como um flash em sua mente, fora com ela que ele traíra a primeira mulher, pensara o garoto de doze anos. Embora ainda fosse um pré-adolescente, Gary era o mais estudioso e reservado dos primos, apesar de não ser o mais velho deles, tinha uma idade mental bem maior que a maioria, ou até mais, com toda a certeza, de seus outros tios.

Aquele era um almoço de domingo, em que todos os irmãos se reuniram na casa da mãe, uma senhora calma, e uma ótima avó para Gary e seus outros primos. Mark morava em outro estado, mas viera somente para mostrar à família mais um filho “macho”, mais um que seria como ele, um verdadeiro “pegador” como era conhecido na adolescência. Os parentes estavam próximos à churrasqueira, onde pedaços de costela pingava gordura em meio as brasas, que queimavam à toda. Suas tias tagarelavam de um lado, e de outro seus tios falavam de futebol e reclamavam sobre o novo presidente.

Gary estava sentado na varanda dos fundos, observando os primos se divertirem na piscina.

– Lendo o último livro que lhe comprei? – Sua mãe se aproximara. Uma mulher culta e bela. De cabelos negros e olhos extremamente azuis, iguais aos do filho. Carmen, assim como Gary, jamais se encaixara em seu ciclo familiar, e muito menos com a família de seu marido, não gostava muito das esposas dos irmãos dele, ainda mais a nova cônjuge de Mark. Carmen odiava traições de todas as formas, e se doía por Rachel, a ex-mulher de Mark. Talvez a sua forma radical de pensar, a fizesse afastar-se dos demais, e via em seu filho único, um reflexo seu. Gary era praticamente a cópia de sua mãe, amava livros como o ar que respirava. Talvez herdara isso dela, pensava por vezes.

– Sim, já estou quase acabando. – Respondera sorrindo à mãe, que acariciara seus cabelos negros e curtos.

– Que bom... Eu sei que você não demora muito com um livro. – Dissera ela, vendo-o ajeitar os óculos. – Seus primos estão olhando pra cá.

– Certamente estão falando mal de mim.. “Ah! Olha lá a ovelhinha nerd da família!” – Dissera com a voz esganiçada. Sua mãe rira.

– E suas tias devem estar falando “Ah! Olha lá a ovelhona metida da família!” – Gary soltara uma gostosa gargalhada da piada da mãe, que rira com ele.

– Mãe...

– Sim?

– Você me acha um idiota? – Perguntara. Carmen o mirou por um tempo. Então passara uma das mãos nas maçãs do rosto de seu filho.

– Você não está nem perto de ser um...

– Mas não sou como meus primos... – Dissera o garoto infeliz. A mãe então o fez mirar-lhe.

– É claro que não é. Enquanto eles estão falando de baladas e assuntos vazios, você conversa sobre política e economia. Enquanto eles comparam quem é o mais “garanhão”, você compara o livro X com o livro Y. Não tem como você ser como eles, e sabe porque você é tão especial? – Ele negara com um aceno de cabeça. — Porque você é meu filho! – Falara ela, bagunçando ainda mais os cabelos do garoto.

– Convencida você, hem... – Dissera ele gargalhando.

– Lógico! Se você não se der o devido valor e estima, você é derrubado pelos outros. Se ame em primeiro lugar. – Ele concordara. Ela era sua única amiga, pensava ele, que podia citar um a um dos “amigos” que o procuravam somente para conseguir maior nota na escola. Que decadente... pensara.

O fim da tarde se aproximara, mas antes de irem, Gary procurara o quarto que sua avó havia preparado para o pequeno Chelsy. Subira as escadas sorrateiramente, até encontrar o quarto de porta branca, com uma pequena plaquinha, em que havia escrito “Chelsy Donner Frost”. Gary adentrara bem devagar. O cômodo era mediano e de paredes brancas. Ele se aproximara do berço, mirando a pequena e frágil vida ali dentro. Estava acordado, e pela primeira vez, Gary pode ver os grandes e dourados olhos de Chelsy, que o mirou profundamente, antes de sorrir para ele. Seu coração pareceu se aquecer com aquilo. Instintivamente ele levara as mãos para tocar o bebê em seus dedinhos gordos e pequenos.

– Oi... – Dissera. Sentira o mesmo agarrar-lhe os dedos, ainda sorrindo, e movendo os bracinhos e as pernas freneticamente. Parecia animado. Gary sorrira para ele, debruçando o rosto na armação do berço. Uma sensação estranha de segurança o acometera ao sentir os dedinhos de Chelsy o segurarem. Era de fato, algo surreal para si.

O almoço fora para Gary o mais entediante do que os domingos costumavam ser. Estava exausto, e se jogara na cama de qualquer forma. Ele mirara a capa do livro que estava lendo, lembrando-se de seu novo priminho. Uma pontada lhe incomodara o peito, não entendera de fato o que significava aquilo, mas sentia de alguma forma: aquele garoto poderia ser diferente dos demais primos... ou talvez fosse só um desejo seu, para que esse novo membro da família, não fosse mais um idiota que seguiria os passos ignorantes do pai e do resto dos parentes.

Quatro anos depois...

Gary observava sua mãe fazer purê de batatas na cozinha, com sua tia Laura. Ele via o esforço que ela fazia para manter um diálogo no mínimo “aceitável” com aquela mulher, da qual parecia não encontrar assunto.

– Garyyyyyy! – Ele sentira duas mãozinhas lhe puxarem o casaco. Gary mirou o menininho loiro de olhos grandes em cor âmbar, o fixarem profundamente.

– O que foi Chelsy? – Perguntara ele, que tentara desvencilhar-se da criança.

– Eu quero aquilo ali! – O garotinho apontou para o violino na mesa da sala.

– Não... Você é muito pequeno!

– Não sou não! – Relutara Chelsy.

– É sim...

– Ensine ele Gary... Ele promete que não vai estragar, não é bebê? – Perguntara Laura, com a voz de taquara rachada que costumava ter. Gary revirara os olhos nas órbitas. Odiava quando encostavam em seu violino, principalmente quando se travava de um fedelho impertinente, pensara a contra gosto. A verdade é que não gostava muito de crianças. Ele pode ver o olhar de sua mãe como “Eu sei que você odeia isso Gary” em sua expressão.

– Venha. – Disse o adolescente secamente. Chelsy porém o seguiu com toda a alegria infantil. Ele levou o priminho até seu quarto, onde guardava os violinos menores. O cômodo nada havia mudado desde sua infância. Seu guarda roupa branco, ainda no mesmo lado esquerdo do local, a cama impecável de cerejeira, as cortinas claras da janela, e as paredes brancas e limpas. Nelas haviam prateleiras em madeira branca, que sustentavam muitos livros de diversos tamanhos e cores, organizados por títulos em ordem alfabética. Gary sempre fora organizado demais, e carregara isso desde que se entendia por gente. Chelsy, apesar de bem pequeno, sabia do jeito áspero e frio do primo. Observou o quarto sem mexer em absolutamente nada. – Acho que este servirá. – Disse, apanhando o 1/4, para crianças do tamanho dele, de uma das portas do guarda roupa. Gary se lembrara de sempre amar violinos, não se recordava que aquela paixão tenha vindo de algum familiar seu, até porque ele era o único a gostar de música clássica na família, nem mesmo sua mãe curtia esse estilo.

– Mas e aquele maior da sala? – Perguntara Chelsy, claramente desapontado.

– Aquele é muito grande pra você. Chelsy, isso é um instrumento musical, não um brinquedo. – O menino olhou de Gary para o pequeno violino em suas mãos. – Por isso quero que tome muito cuidado. Está bem?

– Tá bem. – Disse o menino. Seus olhos grandes e amarelados, o miravam com total profundidade. Toda criança tem esse olhar, não é? Pensava Gary, que chegava a se sentir intimidado, e não gostava nada disso.

– Certo, isso é um violino. Ele tem quatro cordas, cada uma com um som diferente... – Ele parou por um segundo. – Espere aqui. – Disse, indo até a sala apanhar o seu maior. Ao voltar, viu que Chelsy não tocara até agora no violino pequeno, apenas olhava com uma curiosidade contida. Gary por um segundo, achara graça daquilo. – Bom, vamos lá. – Disse após voltar, os olhos do menino brilharam quando viram o violino maior nas mãos do primo. – Pegue-o desta forma. – Ele fez uma demonstração de como apoiá-lo nos ombros e na queixeira. Chelsy se enrolara no começo, mas com a ajuda do primo, pode finalmente conseguir “equilibrar”, mesmo que de uma forma desajeitada, o violino sobre os ombros. Depois o ensinou sobre as cordas, o arco, a posição nas mãos, até finalmente fazê-lo arranhar uma nota no pequeno violino, que Gary precisou afinar rapidamente. Chelsy parecia se divertir muito, e Gary não se lembrava de algum dia ter estado tão próximo de uma criança na vida. E muito menos ter lhes deixado encostar em um de seus amados violinos.

– Pode tocar uma música pra mim? – Pedira o garotinho, após ter se cansado de tanto tentar tocar algo.

– Ok. – Dissera Gary, que ficara satisfeito com o esforço e desempenho do garotinho. Ele tentou se lembrar de uma música que costumava tocar quando criança, até que “Gavotte” de François J. Gossec, lhe viera à mente. Ele respirara fundo, tentando se lembrar das notas em sua mente. Havia muito tempo que não tocava aquela música. Posicionou-se e começou a tocar enfim. Embora aquela fosse uma melodia clássica, tinha um “quê” que só as mãos leves de Gary poderiam dar-lhe. O som saía de maneira suave e calma, um pouco diferente de “Gavotte” tradicional. Chelsy que falara demais durante a “aula de violino”, calou-se ao ouvir a bela melodia que saltava das cordas daquele instrumento marrom e brilhante. Encantou-se, e pela primeira vez, vira Gary de outra forma. Admiração talvez, mas uma coisa era certa, em sua mente de quatro anos, jamais se esqueceria daquele dia.

Notas finais
Bom, neste primeiro capítulo poucas coisas acontecem, é mais para apresentação dos personagens em narrativa ao longo do tempo... Mas enfim, aos poucos o desenrolar acontece, e os anos se passam... ^^ Em breve postarei o próximo capítulo!