O que Ecoa Depois do Portal
2 Capítulo 1 — O Eco do Portal
✦ ☾ ✦
O ar cheirava a ozônio e desespero.
O portal pulsava atrás de Luke, uma ferida aberta no espaço-tempo, cuspindo luz dourada e sombras antigas. Cada batida era como um aviso: não há volta. Percy sentia isso no fundo do peito, no mesmo lugar onde o mar costumava acalmá-lo — agora, só havia tempestade.
— Você não precisa fazer isso — Percy disse, a voz falhando. — Ainda dá tempo.
Luke riu. Um riso curto, quebrado, que não combinava com o sorriso torto que Percy aprendera a conhecer tão bem.
— Sempre diz isso — respondeu. — E sempre chega um segundo tarde demais.
Percy deu um passo à frente. O chão tremeu sob seus pés, reagindo ao caos dentro dele.
— Eu fico — insistiu. — A gente enfrenta isso juntos. Como sempre.
Luke virou o rosto por um instante, como se não suportasse encarar aquele juntos. Quando voltou a olhar, seus olhos estavam vermelhos, não de raiva, mas de algo muito pior.
— Não diz isso — pediu, quase num sussurro. — Não agora.
O silêncio entre eles era pesado, cheio de palavras não ditas, de noites divididas em silêncio, de batalhas vencidas lado a lado. Percy percebeu, tarde demais, que Luke já tinha tomado sua decisão muito antes daquele momento.
— Percy… — Luke começou, e parou. Respirou fundo, como quem se prepara para saltar de um penhasco. — Tem coisas que eu nunca devia ter guardado.
O coração de Percy acelerou. O mar dentro dele se agitou, pressentindo a perda.
— Luke, não—
— Eu te amei — ele disse de uma vez, como se cuspisse uma verdade venenosa. — Não como um irmão. Nunca como um irmão.
O mundo pareceu inclinar.
Percy sentiu as pernas fraquejarem, mas não desviou o olhar. Aquilo doía mais do que qualquer lâmina.
— Desde quando? — conseguiu perguntar.
Luke sorriu, triste.
— Desde sempre. Desde a primeira vez que você me olhou como se eu ainda pudesse ser salvo.
Percy deu outro passo, ignorando o calor do portal queimando sua pele.
— Então fica — implorou. — Se isso é verdade, fica.
Luke fechou os olhos. Uma lágrima escapou, rápida, indesejada.
— Justamente por isso eu não posso.
Quando os abriu de novo, havia neles uma decisão fria, cruel, ensaiada.
— Cronos me deu um propósito — disse. — Algo maior que essa… fraqueza.
A palavra atingiu Percy como um soco.
— Me amar não é fraqueza — ele rebateu, a voz quebrando de vez.
Luke se aproximou antes que Percy pudesse reagir. Segurou seu rosto com as duas mãos, como se quisesse memorizar cada traço.
— Pra mim é — murmurou. — Porque se eu ficar… eu desisto de tudo. Até da vingança. Até da guerra. Até de mim.
E então, antes que Percy pudesse responder, Luke o beijou.
Foi curto. Desesperado. Um adeus disfarçado de toque.
Quando Luke se afastou, Percy caiu de joelhos.
— Me odeia — Luke pediu. — Vai ser mais fácil assim.
— Eu não sei como — Percy respondeu, a voz afogada. — Eu não sei te odiar.
Luke deu um passo para trás. Depois outro.
O portal rugiu, exigente.
— Adeus, Percy.
— Luke, por favor—
Mas ele já atravessava.
A luz engoliu seu corpo, e o portal se fechou com um estrondo final, deixando apenas silêncio… e um herói quebrado no chão.
Percy permaneceu ali.
As mãos cravadas na terra. A respiração irregular. O mar dentro dele recuando, como se até as águas tivessem desistido.
Ele não chorou alto.
Só respirou fundo.
E, pela primeira vez, percebeu que algumas guerras são perdidas antes mesmo de começarem.
— Percy…
A voz veio cautelosa, como quem se aproxima de algo prestes a se estilhaçar.
Annabeth estava alguns metros atrás, a espada ainda em punho, os olhos cinzentos presos no espaço vazio onde o portal havia estado. Ela entendeu tudo sem precisar perguntar. Sempre entendia.
Percy não se virou.
— Ele foi — disse, baixo. Não havia raiva. Nem choque. Só um vazio pesado demais para ser nomeado.
Annabeth se aproximou devagar e se ajoelhou ao lado dele. Não tocou de imediato. Aprendera, ao longo dos anos, que Percy precisava de espaço para não se afogar em si mesmo.
— Eu vi — respondeu. — A escolha dele.
Percy riu sem humor.
— Não. Você viu o final. A escolha… — engoliu em seco — …foi feita muito antes.
Annabeth apertou os lábios, sentindo o peso daquilo que não foi dito. Do que não podia ser dito.
— Isso não é culpa sua.
Percy fechou os olhos.
— Eu sei. — Uma pausa. — Mas não muda nada.
O vento passou entre eles, levando o último resquício de luz dourada. Annabeth finalmente pousou a mão sobre o ombro dele, firme, real.
— O eco disso vai nos seguir — ela disse. — Quer a gente queira ou não.
Percy assentiu lentamente.
Ele ainda sentia o beijo.
Ainda sentia Luke.
E sabia, com uma certeza amarga, que aquela não tinha sido apenas a despedida de um amigo…
Mas o começo de uma guerra que ele não queria lutar — e que, mesmo assim, não poderia evitar.
Fale com o autor