O que é amar?
1 A pequena viajante do tempo
Notas iniciais

“Oh, I don't know why you're not there [...]
So what is right and what is wrong?
Gimme a sign
What is love?”
O pôr do sol se desdobrava com lentidão no horizonte. A brisa se movimentava em sintonia com o mar e trazia aos ouvidos de Silena a risada dos campistas, as conversas sem rumo e os últimos ruídos dos treinos do dia. Apesar de não ter conseguido se esgueirar para escapar das aulas de arco e flecha, Quíron a permitiu ser dispensada mais cedo após ter fracassado três vezes seguidas em posicionar o arco da maneira correta, ganhar um dolorido hematoma no peito por direcionar a alta tensão do arco em si mesma, ter uma de suas flechas há um centímetro de não atingir o pé de sua instrutora e por fim quase acertar uma ninfa duas vezes seguidas.
Ela não conseguia se manter concentrada durante aquela tarde. Havia tentado, porém a imagem da carta que encontrara mais cedo não deixava sua mente e muito menos a imagem de sua mãe. Pelo menos, a imagem que ela havia gravado dela a partir da última foto que ela havia tirado com seu pai, ainda na casa de sua avó Sally. Silena não estava ali da maneira como gostaria – apesar de ter recortado umas de suas fotos e a colado ao lado de sua mãe, nada mudaria. A barriga de sua mãe naquela fotografia a fazia sorrir suavemente, de alguma forma, porém, aquela foi a última foto em família que tiraram juntos.
A pequena criança imaginava como devia ser a voz de sua mãe. Será que ela cantaria para que Silena pudesse dormir? Como seria o toque de sua mão enquanto penteava seus cabelos? E os abraços, seriam eles quentinhos e seguros assim como os de seu pai? Talvez não sentisse o cheiro das águas do mar com ela, qual seria o perfume de sua mãe?
Silena sacudiu a cabeça, seus pés vacilando em lhe dar o equilíbrio que precisava para continuar. Não deveria pensar nisso, nada do que imaginasse faria a diferença. Nenhum dos seus sonhos a levaria para os braços que queria que a envolvessem, e que não se lembrava de um dia ter sentido. Braços que sempre estevem tão perto dela. Afinal, um dia ela descansava dentro de quem sempre sonhou; o seu berço fora perto do coração daquela que nunca a ouviu chama-la de mãe.
A constância das ondas trazia calma em meio ao tumulto de seus pensamentos. Sua respiração, porém, estava acelerada e entrecortada. Lágrimas mornas deslizavam pelas suas bochechas rosadas, coradas pela corrida que a levara até seu lugar favorito, em um ponto distante do píer, bem próximo ao mar. Provavelmente seu pai não demoraria para a encontrar, e com certeza Quíron não ficaria contente por saber que desobedeceu suas ordens de espera-lo na Casa Grande. Mas ela não estava conseguindo aguentar mais segurar tudo o que sentia e ainda não compreendia dentro de si.
Sempre soube quem era sua mãe. Conhecia cada uma das histórias que ela fez parte, e muitas mais que nunca foram contadas. Seu pai nunca deixou que Silena se sentisse abandonada por ela, um dia sequer. Ele fazia com que sua mãe estivesse presente todos os dias, mesmo que não a pudesse ver. Há noites que ela fingia dormir embalada no colo de seu pai, ouvindo sua voz serena avivar uma das memórias que mantinha de sua companheira. Logo, a voz dele se apagava como o sopro de uma vela e ela sentia o abraço de seu pai se apertar. Não demorava para que seu baixo choro chegasse aos seus ouvidos, apesar de nunca ter entendido o motivo por completo.
Sua esperança de vê-la um dia a acompanhava em todos seus passos. Sabia que ela tinha partido, contudo tinha a firme certeza de que, se esperasse o suficiente e desse seu melhor, poderia fazer ela voltar para eles. Tudo o que ela compreendia era que sua mãe partira para uma missão e não a deixaria. Afinal, ela estava a aguardando há seis anos. Todas as noites sussurrava para as estrelas deixarem sua mãe ir visita-la, pois sentia saudades dela. Pedia para o mar também, em um murmúrio delicado – sabia que seu avô podia ouvi-la; e em todas as manhãs que disparava para a praia, podia encontrar conchas estreladas semienterradas da areia fina que se escondia sob a água ondulada da beira do mar.
Toda essa esperança se esvaiu quando descobriu por fim o motivo de nunca ter tido a chance de estar perto de sua mãe. E fora ela mesma quem terminou com a vida de quem a possibilitou viver. Sua mãe havia morrido ao dar à luz a Silena.
Por que papai nunca havia mencionado isso? Por que ela teve de ser a razão para que àquela que mais amava parar de respirar?
Afinal, o que era amar?
Nunca pressionara seu pai para lhe contar sobre o último dia que viu sua mãe. Sabia que a cicatriz deixada nele ainda doía. E naquele momento, o que mais doía na pequena criança era saber que havia sido ela quem causara essa dor.
A criança estava com medo de olhar nos olhos do pai novamente. Ele não sabia que a filha havia encontrado a carta. Ele não sabia que ela conhecia agora o que acontecera com sua mãe. Naquela manhã, seu pai saíra mais cedo para preparar os treinamentos que viria a dar. Silena fingia dormir quando, na verdade, não conseguira descansar sem ser desperta por pesadelos que a faziam suar frio. Antes de seu pai desaparecer do chalé, Silena sentiu o suave toque de seu beijo no topo de sua cabecinha e o ouviu sussurrar com carinho: “Amo você, corujinha”.
As palavras dele não se afastavam de sua mente, embora tentasse compreender e se libertar da confusão que criara raízes dentro dela. Foi por causa dela que seu pai chorava na maior parte das noites. Como ele poderia a amar?! Silena se sentia um peso, afundando em um oceano de dúvidas.
O que era amar?
Novamente se lembrou da carta que achara, de sua mãe. As letras traçadas com cuidado, as palavras que simbolizavam tanto em meio a folha esbranquiçada. Silena aprendera com facilidade ler em latim, antes mesmo de seu pai ter notado, e fora dessa forma que sua mãe escrevera, como se a conhecesse há muito tempo. A garotinha relera diversas vezes tudo o que sua mãe registrara com cautela na carta, mas nada fazia sentido para ela. Principalmente a parte em que sua mãe a contara o quanto a amava. Como ela poderia saber disso?
Silena limpou com seus dedos trêmulos as lágrimas que escorriam pelo seu rosto, a pergunta a rodeando como um cobertor. O que é amar?
Sem perceber, suas mãos se dirigiram a seu colar de contas do acampamento. Ganhara sua corrente em seu primeiro aniversário e ela sempre a acompanhava desde então. Quando se via frustrada ou imergia em seus pensamentos ao se concentrar em algo costumava enroscar seus dedos entre os pingentes, cada um esculpido com seus detalhes da maneira mais bela que Silena poderia imaginar. Havia seis contas em seu cordão, inclusive o anel de casamento de sua mãe, o qual jamais se separara desde o dia em que seu pai lhe dera. Era um lindo e delicado anel prateado e, ao invés de pérolas ou diamantes, uma pequena concha azul marinha adornava o simples anel bem manuseado. Silena nunca encontrara uma concha igual, a luz da lua refletia em sua superfície certas noites e formava um reflexo encantador nas águas do mar.
Silena gostaria que aquela paz envolvendo suas memórias pudesse voltar para dizer a ela que tudo estava bem.
Ela queria ter mais respostas. Procurara na Casa Grande por mais cartas, por alguma lembrança perdida, por qualquer coisa que pudesse a levar para mais perto de sua mãe. Porém, suas chances se extinguiam ao se deparar com Rachel a aguardando no final das escadas que a levavam para os cômodos mais profundos da Casa. A mulher de cabelos flamejantes nunca contara muito para a pequena, assim como nunca a permitiu avançar nos aposentos, contudo ela parecia abrigar segredos e histórias antigos que faziam o coração da criança esfriar.
Silena sabia que Rachel conhecia mais a respeito de sua mãe, e embora nunca tivera coragem de perguntar muito a ela, sentia um repuxão em seu peito ao saber que uma das histórias que a mulher do oráculo guardava era a de sua própria mãe. Ela a tinha visto, conversado com ela. Não podia deixar de sentir uma centelha de ciúmes.
Ela queria poder ver sua mãe, conversar com ela, ouvir sua voz. Nem que o fosse por apenas alguns minutos.
Assim que se deu conta de onde seus pensamentos a estavam carregando, a criança balançou a cabeça e se repreendeu. Não podia se conceder a liberdade para imaginar algo impossível, algo que somente a machucaria ainda mais. Algo que nem mesmo seus sonhos eram fortes o suficiente para alcançar.
―O que você pensa que está fazendo, criança? ―a voz a princípio desconhecida sobressalta a pequena criança, um soluço escapando de sua garganta enquanto se vira com o calcanhar escorregando nas tábuas úmidas do píer.
—Apolo?! —a surpresa de Silena a faz se esquecer por um instante gratificante aquilo que a perseguia a perturbar. Ela se lembra da última vez que vira o deus do sol e não fora uma visita agradável. Ele sempre possuía uma intenção para seus encontros; Silena nunca pedira por um deles, e essa era a última coisa que desejaria na situação que enfrentava. Não achava que estava em condição de ajuda-lo a seduzir mulheres mortais se encenando como seu tio protetor.
—O quê?! Por que parece tão perplexa? —ele pergunta presunçosamente, ajeitando-se no frágil parapeito que se acomodava nas extremidades do corredor de madeira. O sorriso maroto do homem ao seu lado refletia o perpétuo ar jocoso de seu olhar.
A pequena garota suspirou, piscando repetidamente para expulsar as lágrimas restantes.
—O que você quer? —retruca, fitando o horizonte se tingindo de um violeta alaranjado, as nuvens cobrindo as margens entre o mar e o céu. Conseguia ouvir a respiração tranquila de Apolo, atenta a cada movimento do deus, em busca de respostas que ele não estaria disposto a dar.
Apolo observa-a sem se desfazer sua expressão divertida, levando as mãos para a nuca em uma posição relaxada. Podia sentir a tensão que rodeava a filha do semideus do mar, sabia que ela estava em conflito. E sabia que o conflito que ela deveria lidar não acabaria por ali.
—Eu vim ver você, criança.
O homem de cabelos dourados que cintilavam com os parcos raios do sol poente desvia o olhar, enquanto a garotinha o analisava de esguelha. A pequena não queria mais correr, não tinha para onde ir; e não podia voltar para onde todos estavam, para onde seu pai a esperava. Não conseguia mais se mover. Por que Apolo a procuraria daquele jeito?
—Por quê? Acho que não posso fazer nada por você agora, tio.
O deus bufa com descrença e lhe lança um sorriso plácido, uma leve gargalhada escapando. Ele empertiga-se, se aproximando da garotinha que já alcançara a altura de sua cintura.
—Você acha que eu não saberia se você não estivesse preparada? Bem, peixinho... Não se preocupe com isso agora. —uma das largas mãos calorosas pousou na cabeça de Silena, em um gesto de reconforto, dando-lhe um leve afago. A garota voltou seu corpinho em direção ao deus, receosa. Uma brisa suave trilhou seu caminho a atravessando por completo, contudo ela não sentiu sequer um calafrio. O toque morno de Apolo no topo de sua cabeça a fazia se sentir aquecida por dentro, revestida da mais pura luz. Silena franziu suas sobrancelhas, erguendo o olhar para fixa-lo nos de Apolo, cujo sorriso a motivava a se encorajar. —Eu vim para lhe dar uma bênção.
—Uma bênção? —a pequena podia sentir uma mudança sutil no deus das profecias. Apesar de ainda se manter confusa a respeito de muitos aspectos, ela não duvidava de que havia algo diferente na atitude e nas motivações de Apolo. Um mistério por trás de sua presença a intrigava. —Por que você vai dar uma bênção a mim?
—Não faça tantas perguntas! Você sabe que nós, deuses, somos meio impulsivos. Nem todas as perguntas precisam de respostas, não é mesmo? —Apolo piscou com um sorriso travesso emoldurando seu rosto. Antes que Silena pudesse formular uma frase, o deus depositou sua outra mão sobre sua cabeça, fechou os olhos lentamente e proferiu palavras entoadas em latim, que a pequena não pôde memorizar.
Um calor acolhedor a acobertou, um torpor tomando conta de sua mente, seu corpo formigou e o estômago se revirou, porém tão repentino quanto começou, seus sentidos voltaram ao normal. Um brilho reluziu acima de sua cabeça e dissolveu-se assim como o fulgor do sol ao longe.
Apolo afastou-se, aguardando uma reação. A criança inclinou a cabeça, tentando processar aquelas novas sensações que passaram por ela.
—Obrigada... eu acho. —sua voz saía baixa, porém clara. Ao focar no deus a sua frente mais uma vez, vislumbrou um misto de temor sombrear sua expressão sempre radiante. Ele desviou seu olhar e mirou no céu, com suas primeiras estrelas reluzindo em uma vigorosa dança.
—Preciso ir agora. —a voz grave de Apolo despertou a atenção de Silena, um sentimento de alerta vibrando dentro de si. Ele só foi ali para lhe dar sua bênção e ir embora? Em um impulso a garotinha agarrou a barra da camiseta alaranjada que o deus trajava. Um sorriso indecifrável formou-se no canto dos lábios dele. —Não se preocupe, Silena. Vai dar tudo certo.
Um redemoinho de luz rompeu onde segundos antes Apolo estava, e ofuscou a visão da criança por breves segundos. O que Silena deveria mesmo se preocupar? Mesmo após minutos terem transcorrido desde que Apolo partira, ela continuou ali, estática, encarando o vazio.
Estava sozinha de novo.
Seus dedos correm para seu pescoço e roçam o colar de contas, e por fim se detêm no anel de casamento de sua mãe. A menina suspira, consternada. Queria poder ter sua mãe naquele instante, para a ajudar e orientar. Ela não sabia mais o que fazer, e ela faria qualquer coisa a fim de poder ter o conselho de quem lhe dera a vida, para poder vê-la pessoalmente ou mesmo poder apenas ouvir o sussurro de sua voz.
Queria escutá-la dizer aquelas palavras que a haviam deixado tão confusa. “Eu te amo”. Gostaria de lhe perguntar o que isso significava de verdade. Como se ama alguém? Como se aprende a amar? Como sua mãe sabia se a amava, se ela nem mesmo a conhecia? Sua mãe nunca a conheceu. Nunca.
Ela nunca tivera a chance. Assim como a pequena garota, que se sentia roubada, vivendo lembranças da mãe através de histórias, fotografias e objetos que seu pai lhe dera e esteve em contato desde sua primeira recordação de vida. Mas não era a mesma coisa de poder tê-la por perto.
Queria muito poder conhecê-la de verdade. Sabia como sua mãe era uma brava guerreira.
—Silena! —a garota reconheceu a voz estridente e vibrante que alcançou seus ouvidos. Um fraco sorriso se formou em seu rosto.
—Oliver...
Oliver esteve sempre ao seu lado. Ele era seu melhor amigo e companheiro e não ficavam muito tempo separados. Seus pais se reuniam com frequência, mesmo que tivessem uma ligação única que os conectavam independentemente de onde estivessem.
Quando o aniversário de sua mãe chegava, tio Grover e Oliver estavam lá e por isso ela sempre conseguia sorrir mesmo ao ver seu pai chorar. Oliver não era exatamente humano, porém não havia mais nenhuma raça como ele. Apesar de seus irmãos sátiros e irmãs ninfas, ele estava estagnado em uma mistura de ambos. Se pudesse haver uma explicação, Silena diria que ele era uma espécie masculina de ninfa, e o próprio Oliver gostava de se autodenominar de elfo. Silena achava bem irônico considerando que elfos não estavam catalogados na mitologia que nasceram.
De qualquer forma, sua pele verde distinta e seu longo cabelo alvo destacavam-se sobre a paisagem. Por isso, ao visualizar seu grande amigo à distância, no cais que antecedia o píer, um alívio percorreu seu corpo e atravessou sua espinha. Não precisava voltar sozinha. Não precisava mais encarar seu pai sozinha.
A coragem que lhe faltava veio em lentas proporções. Seu calcanhar girou e seu corpinho apontou em direção ao acampamento. Contudo, assim que seus pés tocaram nas tábuas a frente, um repuxão em seu estômago a impediu de avançar. Algo se remexia em seu peito, sua visão perdia o foco rapidamente e uma tontura avassaladora a fez cair. Tentou apertar sua barriga para estancar a sensação nauseante que despencava sobre seus sentidos, entretanto não podia mais sentir seu toque.
Contorcida sobre si mesma, ela acompanhou o mundo que conhecia se transformar em uma infinita e escura paisagem. E então a gravidade deixou de existir, junto com ela mesma.
❀❀❀
Silena despertou, e tudo não era mais o mesmo.
Era dia novamente, o sol planando no alto do céu. Havia desmaiado? O que acontecera?
Suas pernas estavam enrodilhadas por plantas e flores delicadas que se entrelaçavam em seus dedos. Atordoada, ela desvencilhou-se e se sentou, segurando sua cabeça. Sentia seu corpo pesado e letárgico. Embora tentasse reconhecer o lugar onde estava, nada lhe vinha em mente. Não estava mais no Acampamento. Então onde estava? Como parara ali?
Estava assustada, sua concentração dispersando-se, freneticamente buscando um caminho que a levaria de volta para casa. A preocupação de se encontrar com seu pai mais uma vez desvanecia, pois tudo o que ela queria naquele instante era poder estar ao lado dele. Sempre quis e tinha medo de ele não a aceitar ou não a querer mais. E se ele nunca a quis?!
A pequena balançou a cabeça, empurrando o pensamento para um canto longínquo onde não a incomodaria. Firmando as pernas bambas, levantou-se. Desorientada, explorou o local com cautela. Era um grande jardim, um parque. Havia famílias por toda parte, a cada canto que seus olhos pousavam. Antes de ter chegado àquele local, lembrava-se do ardente desejo de ter sua família completa, embora soubesse ser impossível da maneira como ela gostaria.
Avançou pelo amplo espaço preenchido de risadas e conversas. Uma brisa suave ricocheteava seus cabelos loiros levemente ondulados. Adentrou uma trilha fechada e aconchegante, árvores sem fim a cercando, guiando seu caminho. Por um minuto, se permitiu parar e fechar aos olhos após se certificar que não havia ninguém, nem qualquer perigo, por perto. Ainda conseguia entreouvir conversas baixas de pessoas que caminhavam na trilha ao lado, do outro lado da parede verde das árvores.
E subitamente, ela identificou uma voz. Era familiar, reconfortante e lhe trazia toda esperança que achara ter perdido. Seu rosto esquentou e sentiu lágrimas mornas se formando em seus olhos. Ao abri-los, correu em direção a voz, atravessando o gramado e se apoiando nos troncos das gigantescas árvores que lhe forneciam sombras e ar fresco. Sabia que, com ele, ela estaria segura mais uma vez. Sabia que quando estivesse em seus braços, tudo ficaria bem. Seu pai... não conseguia pensar em sua vida sem ele.
Seus passos foram ficando mais lentos ao perceber que aquela voz, na verdade, não era a mesma que sempre ouvia. Apesar de saber que era a de seu pai, parecia ligeiramente diferente. Assim que parou, escondida entre as folhas das moitas e das rochas dispostas ao seu redor, descobriu que havia algo extremamente errado — apesar de aquela visão estar sempre em seus sonhos e almejar com todas suas forças que fosse real.
Percy Jackson, seu pai, parecia tão mais novo. E ele não estava sozinho.
O coração da garota ribombava frenético em seu peito, transbordando com uma sensação cheia e calorosa que tornava difícil de seus pulmões funcionarem como deveriam. Ela a havia finalmente encontrado, quem sempre esperara, quem sempre tentara alcançar.
Com os cabelos longos e loiros, como os dela própria, imersos em cachos, ela era mais alta do que imaginara. Seus olhos cinzentos vívidos fixavam-se onde ela havia permanecido em meio as folhagens, paralisada. Mas nada disso importava mais. Ali ela estava... sua mãe. Annabeth Chase Jackson.
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