O confiável

Era quinta feira, o segundo dia mais chato da semana, superado apenas pela terça, que era insuportável, tudo por culpa de um professor, que dava uma aula de 1:40min, e por conta deste tempo, fazia todo o dia ser detestável. Mas hoje especificamente, o quarto dia da semana estava quase se superando, e olha que não era por causa da presença do metido a filosofo...filosofia, pior matéria já inventada, na minha humilde opinião.

Era exatamente 13:47 e estava quase na hora da aula de história, ou melhor, prova de história, para a qual eu não havia estudado.

- O que foi? – Perguntou minha amiga, Sônia, parando de andar, o que me fez parar também, já que ela estava com o braço entrelaçado ao meu.

- História, prova, 13 minutos, fudeu! – Falei rápido lhe olhando nos olhos, minha cara de pavor deveria estar ótima.

- Faça-me o favor, né? Como ousa não saber a maravilhosa história do nosso pais? É ótima – Falou com cara de apaixonada, gozando o seu nacionalismo, típico dela.

- Desculpe, mas já se esqueceu do meu anti-patriotismo ? e outra, prefiro muito mais aprender sobre a parte técnica do cinema, do que sobre pessoas que já morreram

- Como se você passar horas estudando sobre isso, lhe ajudasse a passar de ano

- Não ajuda, mas me dá algo melhor, prazer! – Exclamei sorrindo

- Que ótimo...Mas o que vai fazer? Colar?

- Prefiro zerar – Bufei a resposta na sua cara, e comecei a olhar pelos lados, tentando achar uma resposta, ou buscar no mais profundo da minha mente, qualquer informação sobre a matéria.

- Posso te falar uma coisa?

- Diga.

Ela ficou quase que na ponta do pé, por conta da nossa diferença de altura, chegou bem perto do meu ouvido, e disse suavemente.

- Consulta!

Meu coração sem dúvida alguma se tranquilizou nesse momento, abri os braços e a abracei forte

- Já falei que te amo hoje?

- Já – Respondeu rindo

- Emília, com que livro?

- Você não tem?

- Não trouxe... – disse com a voz mansa, sabia que ela estava querendo me matar.

- Você é impressionante, Ramon.

- Foi sem querer.... Na verdade, não foi, eu vi o livro lá, mas nem lembrei na hora, que hoje fosse prova, principalmente com consulta.

- Por que será, né?

- Só foram 3 semanas

- Acha pouco?

- Não...Mas é história, o professor é um mané.

- Mané é você, que vai ficar de recuperação.

- Para... – falei me fingindo de magoado.

- Vamos logo conseguir um livro para você

- Mas falta 13 minutos...10 minutos – disse após olhar o relógio no pulso direito

- Então agiliza, gato.

Ela saiu me arrastando, e não demos nem 10 passos

- O que foi?

- Ali – apontei com o queixo, e sai andando, com ela me seguindo – Oi – falei dando meu melhor sorriso para a garota a minha frente.

Semana passada havia conhecido duas garotas, Alice e Aline, irmãos gêmeos, quando desci e fui andando até a escola, para fugir do engarrafamento, e não chegar “muito” atrasado. Uma delas estava a minha frente, só não tinha ideia de qual, mas iria agir com naturalidade. No colo dela tinha um garoto deitado, que saiu em um pulo, assim que cheguei.

- Oi – Respondeu com a mesma simpatia.

- Desculpa incomodar, mas você teria um livro de história? Hoje é prova, e esqueci o meu – Disse olhando diretamente para ela, ignorando o seu amigo, contato visual era tudo.

- Vocês também vão fazer a prova hoje? – Perguntou enquanto abria a mochila

- Sim, mais especificamente agora – disse rindo – Como está?

- Uma porcaria, mesmo com consulta – Respondeu o garoto, então o encarei, não prestei muita atenção, só notei que era bem branco.

- Nossa, agora eu fiquei preocupado

- Espero que consigam ir melhor que nós

- Nós também

- Aqui está – Disse a garota, me estendendo o livro, que peguei no mesmo momento – Ele tem razão, estava um pouco complicada. Nossos livros são diferentes, o de vocês é melhor, mais completo, mas espero que esse ajude

- Que isso, ajuda bastante para quem não tem nada, muito abrigado – me despedi dos dois com um aceno de cabeça e sai andando – É, vou ter que me virar com esse

- Não é tão diferente, mesmo assim, realmente falta coisas – falou a morena folheando o objeto – Só assim você aprende a ser descuidado

Chegamos lá, e o professor ainda não estava. Me sentei na primeira cadeira da terceira fileira, Sônia logo atrás de mim, perto da Nathalia, nossa outra amiga

- Estão prontos? – Perguntou rindo

- NÃO – Respondi

Começamos a conversar entre nos três, enquanto esperávamos o professor lembrar que tinha uma sala com 24 adolescentes o aguardando, loucos para acabarem a avaliação, e irem embora logo.

- Ramon?

- Fala – Disse encarando Guto, que me olhava com sua melhor cara de vadia. Ele levantou o dedo, e apontou para a cadeira do seu lado – não – lhe respondi sem voz

- Por que, não? – Perguntou Otavio, que estava sentado à sua frente

- Estou confortável aqui – Fiz minha melhor cara de nojo, que ele odiava, revirou os olhos e voltou a conversar com o outro branquelo.

Eles eram basicamente meus dois melhores amigos, bom, nem tão melhores assim, muito menos amigos, depois dos últimos acontecimentos, mesmo assim, eram o que eu tinha de mais próximo entre os garotos.

- Pensei que você fosse – Disparou Nathalia, “simpática” como sempre

- Meu signo pode ser de trouxa, mas eu não – Falei e elas riram

Voltamos a conversar, alguns minutos depois André Luiz, o dito professor, chegou e aplicou a prova. O livro não me foi muito útil, já que nunca o havia tocado, muito menos no meu, então não sabia onde procurar as respostas, como não estava disposto a perder meu tempo, a espera de um milagre que não iria acontecer, como a maioria fazia, entreguei e fui embora.

Desci as escadas e logo avistei a garota, sua pele morena e feições indianas ajudavam bastante, fui até ela para lhe devolver o livro

- Aqui está – disse o retirando da mochila e o estendendo

- Então, como foi?

- Genial, gabaritei, sem dúvidas – falei confiante. Ela abriu a boca por um segundo, em sinal de surpresa

- Meus parabéns

- Muito obrigado, e pelo livro também. – Me despedi, novamente com um aceno de cabeça e sai andando.

Antes que eu andasse muito, seu amigo veio em nossa direção e nos cruzamos, dei um sorriso leve e ele devolveu. Sai da escola sem nem olhar para trás. O ponto do meu ônibus por sorte ficava em frente à escola, esperei alguns minutos e logo já estava dentro dele.

Por causa da minha vantagem geográfica, de morar próximo ao colégio, em questão de minutos já havia chegado. Andei um pequeno trajeto a pé e lá estava eu, já de cueca andando em direção ao banheiro.

Tranquei a porta e larguei a toalha que estava no ombro no chão, parei em frente ao espelho e fiquei me encarando por alguns momentos. Não posso dizer que fiquei insatisfeito com o que vi, tinha emagrecido bastante desde o começo do ano, e isso era ótimo, entretanto, tinha que malhar, ganhar alguns músculos e definir essa barriga, o problema, era parar de planejar e por isso em pratica. Se eu tivesse nascido com um pouco menos de auto estima e mais disposição, seria perfeito. Fiquei mais alguns segundos lá e reparei que precisava cortar o cabelo, tinha preguiça até de fazer isso, sentar em uma cadeira e sentir a máquina ser passada em volta da minha cabeça.

- Danasse – Falei saindo de frente ao espelho.

Tirei a cueca e entrei debaixo do chuveiro. Quando deslizei a válvula foi uma sensação maravilhosa, principalmente que não tinha ninguém em casa para perturbar, ficaria minutos lá, só curtindo o silencio e a agua deslizando pelo meu corpo.

Depois de alguns minutos, desliguei o chuveiro e me enrolei na tolha, andei em direção ao meu quarto molhando todo o trajeto, depois eu secava. Abri a porta e fui em direção ao meu armário, puxei a gaveta de cueca e peguei a primeira, uma boxer cinza. Me atirei na cama, e peguei o telefone, assim que liguei o wifi, as mensagens começaram a chegar.

Algumas eu li, outras fiz questão de ignorar, como a do Guto, que estava querendo comentar sobre a serie que adorávamos, mas hoje não estava afim, e Otavio, que havia me mandado um vídeo

- Sem paciência para vocês, gatinhos – disse saindo do aplicativo e abrindo o face book.

Estava vendo algumas fotos quando chegou uma notificação, fazendo o aparelho vibrar na minha mão. Era um pedido de amizade, cliquei no ícone e vi o nome, “ Leonardo Torres”, não sabia quem era, mas quando vi a foto, reconheci, era o garoto de hoje mais cedo. Aceitei o convite e voltei a ver fotos. O celular vibra mais uma vez, dessa vez, era uma mensagem dele, cliquei o dedo na sua foto para abrir.

- Boa tarde – disse ele

-Boa tarde

-Não sei se lembra de mim, sou do seu colégio

-Lembro sim, te vi hoje, faz umas 2 horas kk – disse tentando parecer divertido

-pse

E a prova?

-Fui bem, na verdade, mais que bem – menti, para caralho

-Parabéns

-Obrigado

-Posso te fazer uma pergunta?

-Pode – respondi, um pouco tenso, “posso te fazer uma pergunta? ”, é uma das frases mais alarmantes que existem.

-Sei que pode parecer estranho, mas você é bi?

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.