O pulso ainda pulsa

6 Capitulo 6 - Justiça


Notas iniciais
Conrad e Palacios descobrem toda a verdade sobre as mortes dos funcionários no Hospital São Rafael. Surpresas...

O Dr. Botelho fez sinal para que ele continuasse. A Madre transpirava mesmo a sala sendo climatizada. – Quando vocês me contrataram, eu imaginava que o trabalho não seria muito fácil. Afinal de contas, estamos em um hospital. Depois que tive acesso às gravações do circuito interno, pude comprovar muitas das afirmações feitas pelas pessoas que disseram ter visto o fantasma, a assombração ou coisas que indicassem a presença de espíritos caminhando no corredor 03. Avaliando esses vídeos constatei algumas coisas interessantes. A primeira é que as aparições ocorriam sempre na mesma faixa de horário, entre 20:20 e 20:30. A segunda é que os espíritos não eram detectados pelas câmeras, por isso chamei Palacios.

– Ela é clarividente...- A Madre falou mesmo sem que alguém a perguntasse.

– Sim, exatamente. Palacios viu quem estava nos corredores. Eram dois espíritos, um era o do Rubens e outro era o de Davi. Ela também notou que Rubens não passava de uma assombração residual.

– Como assim? Residual? – O Dr. Botelho não entendia nada de sobrenatural. Apenas de sorrisos e cirurgias.

– Residual significa dizer que é uma assombração sem inteligência. Que repete os atos que fazia em vida. Nada mais. Assim, quem atacou os dois enfermeiros foi o espírito do Davi, esse sim, possuidor de inteligência e instinto. É estranho falar isso para um médico, mas quando me contratou já sabia que muitas coisas cristalizadas em sua mente mudariam. – O Dr. Julio Botelho confirmou acenando com a cabeça. – Pois bem, procuramos um elo entre os ataques e as mortes de Rubens e Davi. Mas só fizemos isso depois de descartar a possibilidade de invocação de ambos os espíritos, assim poderíamos tentar indagá-los sobre as razões dos ataques.

– Isso seria perigoso, estamos em um hospital. Poderíamos atrair outras energias indesejadas. – Palacios disse enquanto alisava seu cabelo.

– Analisando os papeis e documentos que tinha em mãos e os que a Madre Catarina providenciou posteriormente, achamos um elo sólido que nos leva a uma palavra: justiça.

– Justiça? – A Madre se assustou com o termo. – Como assim justiça?

– Três pessoas morreram em um acidente naquele corredor...

– Disse bem...acidente. – O Dr. Botelho estava mais sério, era tudo muito novo para ele assimilar.

– Sim, morreram em um acidente. Na mesma noite, dois deles, o Rubens e o Davi, entraram na sala 09 do corredor 03 para uma cirurgia de transplante de órgãos. Davi, entre outros órgãos, teve suas córneas transplantadas. Rubens teve transplantada a medula óssea, além do rim, fígado e coração. Wendel foi solicitado para fazer parte da enorme junta que fez as cirurgias naquela sala. Apesar de três funcionários terem sido vitimados naquele corredor, no mesmo dia, juntos. Não surge o espírito do terceiro, justamente este não estava na mesa de cirurgias por não ser doador de órgãos. Nosso primeiro elo é este: a cirurgia para transplantes de órgãos. Agora surgiu uma dúvida no meio de nossas análises: por que Wendel e Silvano foram atacados pelo espírito violento do Davi...

– Violento...sedento... e sem olhos. – Palacios não podia deixar de lembrar aquele detalhe.

– Ah sim... sem olhos...verdade. Revendo as gravações, minutos após o fim dos transplantes, Wendel sai da sala 09 com os órgãos nos recipientes, não todos, evidentemente. Mas alguns, que seriam levados para o heliporto do São Rafael e de lá seriam enviados para outros hospitais.

– É o de praxe, detetive... – A Madre fizera questão de pontuar.

– Ah sim, é. Mas não é de praxe ele sair da sala de vistos de transportes com um recipiente a menos. Assim como não é de praxe o enfermeiro responsável pelo visto sair de sua sala carregando um recipiente de transportes de córneas e ele mesmo transportar o órgão até a clínica de destino dirigindo a ambulância.

– O senhor deve ter cometido algum engano, não transportamos órgãos para clínicas. – O Dr. Botelho fora direto em seu corte.

– Na verdade ele está correto, Dr. Botelho. – Clodoaldo estava lá, trajado em seu uniforme e ostentando o distintivo de Chefe de Segurança. – Também havia achado essa atitude estranha, os dados do GPS da ambulância usada por Silvano mostram que ele chegou a esse endereço, passou cerca de 30 minutos lá e retornou.

– Reconhece o endereço? – Conrad perguntou mas não obtiver respostas. – É sua clínica particular, sua e de seu irmão. Ele deu o visto de recebimento das córneas de Davi...mas o visto e o carimbo são do Hospital Lourdes Souza. E lá não é o Lourdes Souza. Aliás... esse hospital fica cerca de quatro horas distantes daqui. Dr. Botelho, traficar órgãos é crime.

O silêncio na sala era absoluto, as risadas do Dr. Botelho foram silenciadas.

– Por isso Davi clamava por justiça mesmo depois da morte. O senhor imaginava isso, a prova é que evitou o corredor 03, evitou até mesmo a nossa reunião lá, em sua antiga sala. Há mais evidências que nos levam na rota de seus crimes, a polícia ainda não foi chamada para apurar o caso porque com certeza você silenciou as famílias do Wendel e do Silvano com boas propostas de dinheiro e sobretudo, de empregos. Dever ter dito para elas que tudo não passou de um acidente, ou que esperassem ao menos a recuperação deles. Não sei como fez para evitar a polícia, mas fez algo. Mas saiba que tudo o que foi dito aqui e um mini-dossiê foi enviado para o email da Madre Catarina. Lá tem um roteiro que mostra por onde seguir com as investigações. Vejo que perdeu o sorriso... Perderá o cargo também.

– E os espíritos? – A Madre Catarina mesmo abalada não perdia a suavidade no falar.

– Serão saciados, Palacios falará com eles, dirá tudo o que sabemos e o que descobrimos. Que a justiça será feita. Ela não pode ouvi-los, mas eles podem ouvi-la. Com o tempo a assombração residual de Rubens desaparecerá, ele não é ofensivo. Deve ter sido arrastado pela energia do espírito do Davi. Bem, meu trabalho...ou melhor, nosso trabalho acaba aqui. – Palacios foi para o corredor 03 e fez o que Conrad dissera. Davi se acalmou. Se foi... saciado pela justiça que pedia. O Dr. Botelho estava mudo. Conrad apenas se despediu da Madre e a agradeceu pela ajuda dada a ele quando pediu. Ela o abençoou e disse que o pagamento estaria na conta dele naquela mesma noite.

Conrad e Palacios voltaram para o hotel, o investigador precisava pegar suas coisas que estavam guardadas no quarto. A viagem de volta seria longa.

– Ainda bem que tenho você aqui. – Disse Conrad sorrindo.

– Ainda bem que temos um ao outro. – Sorriu de volta.

Ainda bem...– pensou Alexis Conrad. — ... Ainda bem.

Notas finais
Gostaram da história? Era o que esperavam? Não tive tempo de fazer as correções pq estou usando só o tablet aqui na praia... Abraços, obrigado pela companhia
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!