O preço de uma dívida
16 De volta pra casa
Notas iniciais
“Mudaram as estações, nada mudou;
Mas eu sei que alguma coisa aconteceu;
Tá tudo assim, tão diferente;
Se lembra quando a gente;
Chegou um dia a acreditar;
Que tudo era pra sempre sem saber;
Que o pra sempre, sempre acaba;
Mas nada vai conseguir mudar;
O que ficou;
Quando penso em alguém, só penso em você;
E ai, então, estamos bem....”
Por Enquanto
Cássia Eller
Starlin City (quarta, 4/8 -10:46 a.m)
Narrador
—Como não posso leva-la para casa? – Carla Snow questiona, adentrando a sala de espera acompanhando Adam Hallowey – Então minha filha fica desaparecida por todos estes dias, passando fome e sede, enfrentando toda sorte de perigos e sabe-se lá mais o quê... – deixa a insinuação no ar ao perceber a chegada do casal Merlyn, postando-se ao lado do marido — E quando penso que finalmente a terei sob meus cuidados, nega-me?? – inquire, levando as mãos a cintura, os membros do grupo de resgate, que encontravam-se sentados a conversar com Dominique Snow e outros presentes, trocando olhares em desaprovação – Dom, faça alguma coisa! Quero minha menina em casa! – reclama, batendo o pé.
—Senhor Snow....e aproveitando a chegada do senhor e senhora Merlyn – Hallowey emenda, cumprimentando o casal com um breve aceno – Explicava à senhora Snow porque, com base nas informações repassadas a mim pelos senhores Oliver e Thawne, aqui presentes, quero manter ambos os jovens sob meus cuidados pelo menos até o final deste dia – informa, prosseguindo – Como bem acaba de lembrar senhora, o jovem casal enfrentou dificuldades inúmeras. Foram obrigados a fazer uso de água e alimentos sob condições precárias de higiene e isto poderá afetar seus organismos de formas variadas. Já fui informado, inclusive, que ambos vomitaram durante o trajeto de volta, correto delegado? – volta-se para Lance.
—Sim. Duas vezes – confirma o delegado, Rebeca Merlyn apertando as mãos, nervosa – E o teriam feito mais vezes não fosse o jovem Allen aqui ter-lhes preparado uma espécie de soro o qual demo-los a beber – conta, tocando o ombro de Barry Allen, a seu lado, que enrubesce levemente – Este foi um dos motivos pelo qual não paramos nem mesmo para dormir apesar de termos feito uso de um atalho – comunica.
—Atalho? E por que não fizeram uso deste bendito atalho quando saíram em busca de minha menina? – questiona-os Carla Snow, irritando Oliver.
—Na ida, não faziam ideia qual rumo seguir – Killi adianta-se responder – Na volta, sabíamos o caminho melhor a seguir. Ganhamos tempo – elucida.
—Isso – Quentin Lance anui, voltando-se para a porta, assim como os demais, ao escutar o burburinho que precede a entrada de Thea, Olivia, Felicity e Laurel, a ultima dirigindo um olhar magoado ao guerreiro recostado no canto da sala antes de ir ao encontro do pai e da irmã, abraçando-os – Bom vê-la minha filha! – exclama o delegado, fazendo-a sentar-se entre ele e Sara.
—Thereza, acredito ter sido clara quando disse-lhe que deveriam e para casa tão logo avisassem os Merlyn, ou não? – questiona, encarando Felicity – Minha nora, por que não a conteve? Não devemos tumultuar....
—Desculpe-me minha mãe, mas igualmente o senhor e senhora Merlyn, também eu estava aflita por saber noticias de minha amiga e meu irmão. Não dava mais para esperar irem até nós com novidades – Thea declara num ímpeto, abaixando a vista ao dar-se conta do que dissera – Desculpa – pede novamente.
—Não precisa desculpar-se filha. Compreendemos sua aflição perfeitamente – é Robert Queen quem declara, quebrando o breve porém constrangedor silencio que se instalara no lugar, chamando-a para seu abraço.
—Então...Doutor Hallowey, dizia que deseja manter Thomas e a jovem senhorita sob seus cuidados até o final do dia? – Malcom retoma.
—Correto senhor Merlyn – confirma o médico.
—Há algo que não está nos contando? Acaso encontrou ferimentos graves? – Rebeca inquire, tensa.
—Nada que ponha suas vidas em perigo senhora, asseguro-lhe – responde ele, Carla Snow impedindo-o continuar.
—Então por que não deixa-me levar minha menina para casa? Acaso pensa que não a tratarei tão bem quanto o senhor e sua esposa? – questiona, Eddie e Harper mexendo-se inquietos, Robert e Quentin contendo-os com olhares de advertência.
—Jamais pensaria que uma mãe iria tratar seu filho com menos zelo do que eu, senhora – assegura o médico – Sei bem que tanto a senhorita Caitlin quanto o senhor Thomas serão imensamente bem cuidados pelas senhoras – diz, fazendo um gesto dela para Rebeca – Trata-se apenas de excesso de precaução por minha parte – afirma, não dando chance a ela contestar – Veja bem, ante o quadro que citava, vossos filhos podem necessitar de medicação especifica a qual não terão em casa. Além do que, aqui disponho de tudo que preciso se, e somente se, o estado de ambos venha a agravar-se, para prestar-lhes socorro adequado, o que não conseguiria fazer com rapidez estando eles em casa – argumenta, voltando-se para Malcom e Rebeca – Thomas e Caitlin estão fracos, ligeiramente desidratados por terem ingerido o mínimo possível de água a fim de poupar o que traziam consigo....
—Quando os encontramos estavam sem uma gota sequer. E não sabemos a quanto tempo já – Cisco lembra, interrompendo-o.
—Estavam desmaiados, como permaneceram boa parte trajeto de volta – Harper informa.
—Nos breves momentos em que acordou, o rapaz disse-me haver ficado sem nada para comerem já ao amanhecer do segundo dia após deixarem a caverna aonde abrigavam-se – Killi revela.
—O que significa dizer que passaram fome por dois dias e meio e sede por meio, no mínimo, até os encontrarmos – Lance conclui, encarando a senhora Snow – Não sou médico, mas diria que é tempo suficiente para dois jovens bem nascidos sentirem os efeitos de tal carência – comenta fazendo-a retrair-se.
—Disse que estavam em uma caverna? – Dominique pergunta, encarando o guerreiro, este confirmando com um meneio de cabeça, incomodado por ter a atenção de Laurel sobe si – Por que saíram dela? Por que expuseram-se as intempéries? – questiona.
—Por certo aquele inconsequente julgava poder trazer-lhes de volta a cidade sem ajuda – Carla Snow declara, voltando-se para o casal Merlyn – Ou talvez estivesse tentando livrar-se de nossa filha. Sabe-se lá de forma foram parar ...
—Agora já chega!! – Oliver irrita-se, pondo-se de pé – Tentei manter-me calmo mas passou dos limites senhora – esbraveja, dando um passo em direção a mulher, que recua, surpresa – Thomas fez o correto. Se tivessem permanecido na caverna Jamais os teríamos encontrado antes que fosse tarde demais. Estavam, e muito, fora de rotas e caminhos usuais. Nós mesmos seguimos naquela direção apenas após avistarmos os abutres, que sobrevoavam um corpo sobre a caverna onde abrigavam-se, o que representava perigo a mais posto que atrairia animais selvagens e se fomos em direção a planície em primeiro lugar ,deveu-se ao fato de seguirmos os instintos de Eddie, do contrário pegaríamos o mesmo caminho das buscas feitas anteriormente – conta, os olhos verdes brilhando de raiva.
—E saiba que Tommy Jamais machucaria Cait ou qualquer outra pessoa. Meu irmão é bom e honesto e gentil! Foi tão vitima quanto minha amiga e esteja certa de que o delegado irá descobrir quem foi o crápula responsável, pô-lo atrás das grades e atirar a chave fora! – Thea discursa, exaltada, fazendo quase todos os presentes espremerem os lábios a fim de conter o riso.
—São por fatos como estes, a mim informados pelo grupo de resgate, que desejo mantê-los aqui, em meu consultório – Hallowey argumenta mais uma vez e como para reforçar ser a decisão acertada, ainda mais, sua esposa surge a porta da enfermaria.
—Adam, venha rápido. Estão a vomitar – pede, retornando ao interior sem espera-lo.
—Precisa de ajudar Hallowey? – Henry Allen pergunta, pondo-se de pé num salto.
—Certamente – aceita o médico, abrindo as mãos em direção aos dois casais, que tencionavam segui-lo – Por favor senhor e senhora Merlyn , senhor e senhora Snow, peço-lhes que aguardem aqui. Sua presença, neste momento, iria mais atrapalhar do que ajudar – diz, voltando-se para Allen – Henry, se seu filho puder ajudar-nos também, agradeço-lhe – pede, encarando os casais outra vez – Por favor, sentem-se. Assim que puder, chamo-os para verem vossos filhos – avisa, seguindo em companhia dos Allen para o interior da enfermaria, fechando a porta atrás de si.
—Eles ficarão bem não é meu pai? – Olivia pergunta, aproximando-se do pai, que a abraça carinhosamente.
—Por certo que sim meu bem. Hallowey é o melhor médico das redondezas – tranquiliza-a.
—Vosso pai está certo senhorita. Vossa irmã e meu filho não poderiam estar em melhores mãos – Malcom garante, segurando as mãos da esposa, fazendo-a sentar-se – Acalme-se Beca. Ainda está recuperando-se. Não pode agitar-se desta forma – pede.
—Não peça-me que fique calma pois isto somente ocorrera quando vir e puder abraçar meu filho – responde ela, alisando o colo, agoniada – Seria possível arranjarem-me um copo com água? – solicita, fechando os olhos.
—Irei providenciar senhora Merlyn – Thea prontifica-se, afastando-se em direção uma mesa aonde via-se uma pequena moringa e copos.
—Sugiro que deixemos os familiares no aguardo e nos reunamos na prefeitura após, evidente, os membros do grupo de resgate refrescarem-se e tomarem uma refeição posto que, suponho, não o tenham feito ainda – o prefeito Darhk sugere, levantando-se – Se bem que antes devo comparecer a recepção do casamento de vossa filha mais velha Snow, que a esta altura já deve estar acontecendo – lembra, segurando as abas do fraque.
—Por Deus, esqueci-me completamente da recepção! – Dominique Snow admite, massageando a fronte – Sequer acompanhei minha filha e os convidados a nossa casa. Que falta terrível – diz, preocupado.
—As pessoas entenderam senhor meu pai – Olivia adianta-se acalma-lo – Fiz as vezes de anfitriã com ajuda do casal West, da senhora Allen, de Thea e da família Danvers. Eles socorrem-me. Nossos criados também estavam a postos para receber a todos. Apenas quando estavam sendo servidos retirei-me e vim em busca de notícias, encontrando com a senhora Felicity, a senhorita Laurel e Thereza no caminho – conta, acenando a amiga, que regressava trazendo a água pedida.
—Fez bem minha filha. Estou orgulhoso – afirma, beijando-lhe a face – Ainda assim, trata-se de uma falta os pais da noiva não estarem presentes portanto – levanta-se, estendendo a mão a esposa – Iremos ter com nossa filha e seu marido e voltaremos o mais rápido possível.
—Não está pensando que irei embora está? – questiona a mulher, abismada.
—Não penso. Iremos – afirma, arqueando a sobrancelha ao vê-la abrir a boca – Iremos diante dos convidados e depois retornamos. Olivia ficara nos representando – determina, emitindo um suspiro impaciente quando a esposa não move-se, inclinando-se sobre ela – Acaso tenciona questionar-me em frente a todos mulher? – interroga em seu ouvido, fazendo-a levantar – Voltaremos o mais rápido possível – reitera, sinalizando a filha, que inclina a cabeça em obediência, segurando e puxando Malcom a um canto quando passava por ele – Merlyn, desejo lhe falar em particular tão logo acalmemos nossos corações. Se possível, ainda hoje – murmura-lhe, recebendo um aceno afirmativo deste.
—Os acompanharei – Damien Darhk avisa – Senhores, tão logo estejam dispostos mandem-me avisar na residência de Snow ou na minha, a depender do horário, e faremos a reunião. Caso não seja demasiado tarde, é claro – condiciona, cumprimentando a todos com um meneio de cabeça antes de retirar-se em companhia do casal Snow.
—Sugiro que façamos o mesmo – Lance reitera, levantando-se – Meu caro Thawne, acredito que seus amigos permanecerão na cidade até a reunião e um pouco mais, correto? – questiona-o.
—Por certo que sim delegado – confirma após uma rápida troca de olhares com Killi e Cisco – Ficarão comigo na pensão – informa.
—Thawne, sintam-se convidado a ir até minha casa tão logo refresquem-se. Podem tomar a refeição conosco e aproveitamos para conversarmos – Robert Queen convida, voltando-se para a filha – Thereza, deseja ficar e fazer companhia a sua amiga até os pais desta regressarem ou virá conosco? – pergunta.
—Ficarei – responde rápido – Caso não veja problemas senhor meu pai – acresce, dirigindo um olhar pidão a mãe, que sorri-lhe afavelmente.
—Não vejo – Robert libera – Malcom, senhora Merlyn, estimo as melhoras a vosso filho. Nos vemos na reunião do conselho – diz, oferecendo o braço a esposa, dirigindo-se a saída.
—Voltaremos tão logo tomemos a refeição – Oliver avisa, olhando diretamente a Malcom – Thea, comporte-se – recomenda, imitando o gesto do pai com a esposa.
—Nos vamos também – Lance anuncia, oferecendo ambos braços as filhas.
—O mesmo para nós – Thawne avisa, tocando o ombro de Ray, que cochilava – Harper, poderia ajudar nosso amigo sonolento a chegar em casa inteiro? – brinca, Roy anuindo com um sorriso.
—Por certo que sim – prontifica-se, ajudando o amigo erguer-se, amparando-o.
—Voltamos em breve – Thawne avisa, cumprimentando o casal Merlyn e as duas senhoritas antes de se retirar juntamente com Killi e Cisco, Harper, Ray e os Lance seguindo-os.
—Ficamos apenas nós – Olivia comenta após um breve silencio, sentando-se lado a lado com Thea, o casal Merlyn pouco mis distante, também sentados lado a lado, os quatro voltando a silenciar, aguardando o médico e sua esposa virem liberar-lhes a visita.
**** Tommy (13:20 p.m) *****
O já familiar som de seu riso desperta-me, porém mantenho os olhos fechados. Além do riso havia algo mais. Outros risos, outros cheiros que não o seu a invadir-me as narinas.
Obrigo-me buscar as lembranças de antes de desmaiarmos (este era o termo correto, sem sombra de dúvidas), os rostos de Oliver e Eddie vindo-me a mente. Teria sonhado ou de fato havíamos sido encontrados?
A resposta vem-me com som de outra voz familiar que não ouvia haviam vários dias...
—Mãe?! – chamo, abrindo os olhos, seu rosto sendo a primeira visão que tenho.
—Estou aqui meu bem – responde-me, afagando meu cabelo, dando-me certeza de não estar sonhando...ou estaria?? – Cuidado meu querido. Está ferido e fraco. Melhor permanecer deitado – recomenda quando tento sentar-me.
—Onde estou? Cai...a senhorita Snow, onde está? Como está? – pergunto, aflito.
—Aqui – ouço e volto minha cabeça para a direita, deparando-me com um biombo – Estou bem Thomas – tranquiliza-me por detrás do mesmo – Como está? – pergunta.
—Bem – respondo, olhando a volta – Onde estamos? – quero saber.
—No consultório do doutor Hallowey – é meu pai a responder, surgindo por detrás de minha mãe – O grupo de buscas encontrou-os bem a tempo – relata, postando-se a cabeceira da cama que ocupava – Não lembra de terem sido resgatados filho? – questiona-me.
— Vagamente – confesso, juntando os fragmentos de memoria que me veem – Lembro de nossa água acabar...de sentarmos a sombra de uma ponta de rochedo ou algo parecido...de desmaiar pouco depois de Caitlin o fazer...de escutar Eddie e Oliver chamarem...- enumero, erguendo-me o suficiente para recostar-me ao travesseiro a cabeceira.
—Oliver e o senhor Thawne adiantaram-se e organizaram, com nossa ajuda evidente, o próprio grupo de buscas – ouço Thea dizer mas não a vejo – E...Ahhh, dane-se!! – xinga de repente, arrastar do biombo fazendo-me olhar naquela direção mais uma vez – E teria ido com eles, como Sara fez, se tivessem-me dado a chance...ou fosse mais ousada! – lamenta-se, aproximando-se hesitante e rio minimamente, notando, além dela, uma irmã de Caitlin, sua dama, a dama de Cait e a própria, evidente. Também noto o quanto estão arrumadas.
—Tudo isto é para mim? – brinco, estendo-lhe a mão.
—Não seja convencido Thomas Merlyn! Por mais que o ame, não iria enfeitar-me toda apenas para você – revida, rindo pequeno, ficando séria novamente – Mentira. Enfeitar-me-ia sim. Especialmente depois de pensar haver....haverem morrido! – exclama, abraçando-me, as lágrimas molhando-me o peito.
—Mas não aconteceu – digo, beijando-lhe o topo da cabeça, dirigindo meu olhar a Caitlin, que sentava-se a cama de forma a ficar de frente para mim, sorrindo docemente.
Suspiro, franzindo o cenho ao escutar choro de bebê.
—Temos uma novidade para contar-lhe filho – meu anuncia, Thea afastando-se com um sorriso largo adornando-lhe o rosto – No dia em que ...sumiram – diz, com certa dificuldade – Sua mãe entrou em trabalho de parto – prossegue, afastando-se juntamente com ela, retornando um segundo depois – Thomas, conheça suas irmãs, Patrícia e Pérola – apresenta, exibindo a bebê em seus braços, minha mãe imitando-o, a seu lado.
—Ou Patti e Pearl – Thea diz, brincando com a que está nos braços de minha mãe.
—Dois bebês!? Teve dois bebês mãe – espanto-me, ela sorrindo-me complacente – Tenho duas irmãzinhas – digo, imitando Thea com a bebê nos braços de meu pai, escutando o raspar de garganta nada discreto – Digo, três – corrijo-me rápido – São lindas! – elogio, olhando-as encantado.
—Nem tanto agora, mas por certo ficarão quando perderem essa carinha de joelho! – Thea comenta, enrugando o nariz numa careta graciosa que provoca risos em todos – Desculpa a sinceridade senhora Merlyn – pede, sem graça.
—Nada a desculpar minha querida. Todos concordamos que bebês tem carinha de joelho quando nascem– mamãe brinca, sorrindo gentil – Bom que muda e tornam-se moças e rapazes belos e saudáveis!.
—De fato – Thea concorda, pensativa – Pensar assim não me desqualifica ser mãe no futuro, não é? – preocupa-se.
—Não minha cara, de forma alguma – mamãe a tranquiliza – Poucas coisas desqualificam qualquer ser boa mãe. Poucas temos a sorte em receber orientação de nossas mães. No geral aprendemos na pratica mesmo – conta, embalando minha irmãzinha – Dê-me licença que preciso amamentar estas mocinhas. Volto já filho – pede, saindo da enfermaria juntamente com meu pai.
—São tão fofas! – ouço o suspirar e volto minha atenção a Caitlin e sua irmã outra vez.
—Parabéns Thomas – Caitlin diz, parecendo desconfortável.
—Sente-se bem senhorita? – questiono-a, preocupado. Todos estes dias permitiram-me conhece-la um pouco melhor, suas expressões e até alguns tiques. E aquela dizia-me que sentia dor – Caitlin, que há? – a tensão fazendo-me não trata-la de maneira informal, sua irmã e Thea não parecendo notar.
—Eu...não sei bem – admite, abraçando a si mesma, Thea unindo-se a senhorita Olivia junto a ela– Sinto um desconforto e um pouco de dor em meu ventre...um pouco abaixo na verdade – conta, a senhora Hallowey surgindo no exato momento em que levantava-me.
—Que pensa estar fazendo? Volte para cama agora mesmo – ralha, pondo a bandeja que trazia sobre uma mesinha no canto.
—A senhorita sente-se mal e...
—Está sangrando!! – o alerta de Olivia Snow faz-me ficar de pé num salto, alcançando-a antes que a senhora Hallowey ou qualquer outro presente pudesse impedir-me, amparando-a.
—Thomas, estou bem – garante-me, sorrindo-me torpemente.
—Esta certa disto senhorita? – questiono-a, as gotas de sangue no chão sob seus pés deixando-me tenso – E este sangue?
—Eu...não sei... Mas sinto-me bem – insiste, Julie Hallowey obrigando-me soltá-la e me afastar – Sinto apenas um incomodo, um desconforto na região do baixo ventre – relata novamente.
—Sente-se minha querida, vou examina-la embora já desconfie do que se trata – a esposa do doutro garante, voltando-se para mim após Cait obedece-la – Volte para seu leito senhor Thomas, sua febre estava bastante alta até a pouco e não acredito ter diminuído ainda – lembra.
Obedeço-a hesitante, o biombo sendo imposto entre nós novamente.
—Thomas, o que há? Sente algo? – meu pai pergunta, retornando sozinho.
—Cai...a senhorita Snow sangrou – respondo, apontando as gotas no chão – A senhora Hallowey está examinando-a – informo – Mamãe?
—Terminando de amamentar – responde, limpando o chão com papel e álcool – Ajudo-a embalando uma enquanto a outra come para não haver enganos – conta, atirando o papel no lixo justo quando a esposa do doutor surge – A jovem senhorita Snow está bem? – papai adianta-se.
—Sim, podem acalmar-se – diz, abrindo algumas gavetas – Trata-se apenas das regras da menina que desceram – revela, retornando para detrás do bendito biombo sem maiores explicações.
—Regras?? – questiono, arqueando a sobrancelha, encarando meu pai, vendo-o, pela primeira vez na vida (ao menos que tenha lembrança) ficar sem graça.
—É... Trata-se...É ...- balbucia, respirando aliviado quando minha mãe surge a porta – Beca, poderia explicar a nosso filho o que são regras para as mulheres? — pede, explicando-se rápido – A jovem Snow teve as suas...elas...- enrola-se novamente, mamãe rindo-se divertida.
—Entendi – diz ela, vindo até mim – Bem meu querido, regras para nós mulheres nada mais é do que o sinal de nosso corpo de que tudo está bem conosco, que estamos prontas para sermos mães – explica, assustando-me.
—C-como assim ser mãe? – questiono, inquieto.
—Nosso corpo funciona diferente do vosso, meu filho. À partir de certa idade, geralmente antes dos quinze, começamos a ter sangramentos mensais. É fato normal para nós – prossegue, puxando uma cadeira e sentando-se – Hã...Com os meninos, os pais sabem que a hora de iniciar os filhos homens chegou quando estes apresentam pelos no queixo, geralmente, e suas vozes começam a engrossar, sinal característico de estarem tornando-se adultos. Ao perceberem estes sinais, levam-nos para serem iniciados nas artes do...hã... os pais levam-nos para aprenderem o que se deve fazer quando casarem...com profissionais...Certo senhor meu marido? – tenta ajuda de meu pai, este limitando-se concordar com um aceno, mamãe suspirando profundamente, alisando o vestido como para ganhar tempo – Com as meninas é diferente – faz uma breve pausa para deixar-me assimilar a informação recebida – Meninas Não devem deitar-se com outro homem que não o escolhido para ser seu marido. Então, como a natureza é sabia, o sinal de que a menina está pronta para contrair núpcias, deitar-se com seu marido e dar-lhe filhos, dá-se através das regras, o sangramento do qual falei. Depois que descem a primeira vez, já podemos casar – conclui, olhando-me carinhosamente.
—Ah – sussurro, refletindo um segundo, uma dúvida formando-se em minha mente.
Sabia bem do que falava quando referiu-se a iniciação a qual éramos conduzidos e onde é feita. Meu pai o fizera quando atingi meus quinze anos. Um ano antes havia-me levado até o bordel em Central City (Mama Smoak ainda não chegara a Starling na época), apresentando-me ao ambiente e o que lá acontecia a fim de não chocar-me quando fosse minha vez. Naquela noite, mesmo sendo ainda relativamente um pirralho, dei meu primeiro beijo em uma das “meninas” mais novas do local. Gostei tanto que não queria parar de beijá-la!
Quando deitei-me a primeira vez com uma mulher não foi uma experiência lá muito agradável. Estava atrapalhado e inseguro. Tudo que queria fazer (já que havia praticado e sabia fazer bem) era beijar. Quando a mulher, bem mais velha que eu, começou a despir-se em minha frente, paralisei. À principio admirado posto que era bela e nunca havia visto nada além de pernas quando as damas erguiam suas saias ao atravessarem um poça ou subirem escadas, um ou outro joelho muito raramente, um pouco mais dos braços e colo (mais raros ainda!) de algumas meninas as quais permitiam-me beija-las. Todas filhas de servas de nossa casa ou de amigos, como Oliver e Ray. Um corpo feminino inteiramente nu a minha frente fora uma grande e bem vinda novidade!
Mas quando ela veio até mim e começou a despir-me, confesso ter ficado apavorado. Quando tocou-me embaixo então...!!! Só não corri por saber que meu encontrava-se do lado de fora da porta, aguardando-me terminar, e temia tanto a decepção que fatalmente veria em seu rosto...quanto a surra que tomaria por tê-lo feito pagar (e caro!) pelos serviços da mulher, logo, permaneci firme (mais ou menos posto que tremia) e deixei-a fazer seu trabalho.
É isso mesmo: Ela fez todo o serviço. Nada fiz aquela noite. Ou na seguinte, dois dias depois, quando pedi a meu pai que levasse-me lá outra vez. Apenas na quinta ida ao lugar comecei a tomar o controle da situação. Todas as outras vezes, e mesmo nesta, seguia as instruções da mulheres com as quais deitava, sempre entre dez a vinte anos mais velhas do que eu. Aos poucos fui ganhando segurança e tornei-me ativo. Ainda assim, gosto de ouvir o que dizem as mulheres com quem me deito. Gosto que me digam o que querem, como sentem-se e se estão satisfeitas. Sem falsa modéstia, tenho recebido mais elogios do que reclamações.
—Thomas, algo errado? – a pergunta tira-me do devaneio porem não tenho tempo responde-la pois o casal Snow retorna neste exato momento trazendo sua filha mais velha e o marido, doutor Hallowey seguindo-os de perto – Thomas? – mamãe chama novamente, tocando-me o braço.
—Hã...não. Nada errado minha mãe – minto.
Na verdade, o que queria saber era se as meninas recebiam a mesma explicação que acabara de dar-me. Meu instinto dizia-me que não, porém precisava confirmar. E rápido. Essa informação poderia ser-me útil de alguma forma no futuro caso o senhor Snow negasse-me o pedido que pretendia fazer-lhe tão logo pudesse: desejava cortejar Caitlin!
**** Caitlin *****
Após ter-me limpo e trocado com ajuda da senhora Hallowey, que também pusera a devida proteção em meus trajes íntimos a fim de evitar minhas regras sujarem novamente a roupa limpa que dera-me e os lençóis, sentei-me em uma cadeira junto a cama enquanto ela trocava os lençóis. Porém minha atenção estava do outro lado do biombo, onde a senhora Merlyn explicava a Thomas o que eram as regras para nós mulheres.
Havia ficado bastante sem graça quando a senhora Hallowey revelara ter sido este o motivo de meu sangramento recente. Este assunto é deveras vergonhoso de tratar, mesmo com minha mãe. Lembro de ter ficado apavorada quando notei, enquanto brincava com uma prima e Liv, o sangue entre minhas pernas e a sujar minhas vestes. Gritei assustada e assustando-as, a exceção de Yvie, que ria-se alto, divertindo-se com minha agonia, não calando-se nem mesmo ante as ameaças feitas por nossa mãe.
Fora preciso nossa avó paterna, que visitava-nos aquele dia, intervir para fazê-la parar. Fora ela também a explicar-me, pacientemente, enquanto nossa governanta na época banhava-me, o significado do que acontecera e que dali em diante isto iria repetir-se mensalmente até que atingisse a maturidade, quando cessaria de vez.
Explicou-me ser natural, que não deveria assustar-me pois não duraria mais que quatro dias, que era a natureza avisando que estava pronta para casar-me e dar filhos a meu marido (fato que amedrontou-me por demais posto que tinha pouco mais de onze anos!). Ensinou-me a forma correta de proteger minhas roupas, evitando vexames como o de minutos antes. Alertou-me sobre as dores, as cólicas, que poderiam ou não virem antes. Ensinou-me a reconhecer alguns dos sinais para não ser pega desprevenida (o que não adiantou muito até hoje, admito).
Igualmente alertou-me que o atraso ou ausência das regras após haver-me deitado com um homem (meu marido evidente) era sinal de estar esperando um filho....E fora exatamente esta parte a deixar-me agoniada durante tempo em que estivemos sozinhos, Thomas e eu. Especialmente após o banho no lago!
Temia tanto a possibilidade de minhas regras descerem (não havia com o que proteger-me e a já maltratada veste que usava) quanto não descerem, recordo, atentando-me a voz da senhora Merlyn novamente.
Apesar de ela usar um tom baixo, era-nos possível, a Liv, Thea e eu, ouvir o que dizia ao filho. Cada palavra. O mesmo para a senhora Hallowey, a quem flagrei sorrindo, parecendo satisfeita com o que ouvia.
—Nunca, até hoje, escutei explicação melhor e mais bem dada acerca deste assunto! – Liv exclama, corando levemente – Nem mesmo nossa mãe o fez desta forma – revela, deixando-me surpresa – Nem todas tivemos a sorte de ser nossa avó a explicar-nos sobre as regras Cait. Mamãe pôs-me tanto medo no começo que adoecia todos os meses!
—Não cheguei a tanto...mas escondia-me em meu quarto até terminarem os dias! Nem mesmo as refeições tomava com minha família temendo sujar as vestes e meu irmão ver – Thea revela, escondendo o riso com as mãos – Mamãe e vovó, que Deus a tenha, ficavam loucas porque bagunçava meu quarto inteiro. Mas também aliviadas por não terem de preocuparem-se comigo a correr pela cidade em brincadeiras de crianças, que segundo elas não me pertenciam mais – relata – E você Cait, como enfrentou os primeiros meses? – quer saber.
—Um misto das duas! – assumo, apontando-as, nós três tapando nossas bocas, abafando o riso.
—Espero no futuro este assunto deixar de ser um tabu tão grande e parar de causar sofrimentos e dúvidas as meninas – ouvimos a senhora Hallowey desejar num suspiro, a chegada de meus pais, irmã e marido dando o assunto por encerrado.
—Cait!!! – Yvie exclama de forma dramática vindo abraçar-me – Que bom ter retornado sã e salva. Não imagina o quanto sentimos sua falta irmãzinha!!! – diz, sem soltar-me.
—Também senti – digo, tocando-lhe as costas, vendo, pelo canto do olho, doutor Hallowey indo ter com os pais de Thomas – E parabéns. Liv e Thea contaram-me sobre o casamento. Espero que seja imensamente feliz – desejo, ela soltando-me (finalmente), olhando em meu olhos.
—Obrigada meu bem. Entende por que não pude esperar seu regresso não é? – questiona, completando em tom baixo de forma a apenas eu ouvi-la – Meu noivo andava a sentir-se mal e poderia falecer antes de termos contraído núpcias e não é o que desejo de forma alguma! – sussurra, piscando, um sorriso estranho na face – E não vim junto com nossos pais por termos convidados a receber. Ainda agora tivemos que pedir licença para ausentar-nos e vir vê-la – anuncia, somente então dando atenção a Liv e Thea – Creio que nossa irmã e a senhorita Queen já a tenham posto a par de tudo, não é mesmo? – indaga.
—Conversamos um pouco depois que acordei e me contaram as novidades – confirmo, a aparição do doutor Hallowey encurtando nossa conversa.
—E a senhorita, como está? – pergunta diretamente a esposa.
—Bem melhor mas ainda febril. E também não quis comer nada do que trouxe-lhe – reclama, olhando-me severamente.
—Não tenho fome – digo, abaixando a vista, sem graça, o que era verdade — Não sento fome. Apenas sede. Muita sede – conto.
—É por conta da desidratação e dos vômitos, mas logo passara – tranquiliza-me o doutor.
—E podemos leva-la para casa Adam? – papai quer saber, encarando-o.
—Ainda não – responde, prosseguindo antes que mamãe pudesse protestar – Quero que ambos pernoitem, para observa-los mais um pouco bem como dar-lhes medicação extra. Amanhã pela manhã os liberarei com certeza – garante.
—Se acha melhor, então assim será – papai concorda.
—Mas ela não ficara aqui, ficara?? – minha mãe pergunta, apontando em direção ao biombo – Ou ele saíra por certo! – exclama.
—Senhora Snow, essa é a Única enfermaria que disponho, portanto sim, ambos ficarão aqui sob Nossos cuidados – ressalta, parecendo irritado – Se preocupa-se de fato com a saúde de vossa filha, por certo não irá opor-se. E se deseja certificar-se de estar sendo bem tratada, pode dormir aqui, ao lado dela, sem qualquer problema – libera e por um breve momento alegro-me.
—Eu dormir aqui? Em uma destas camas desconfortáveis e minúsculas? Nem pensar! – descarta mamãe e baixo a vista novamente.
—Eu posso dormir com Cait – Liv se oferece – E Adissa também, caso não seja incomodo logico – acresce.
—De forma alguma. Darei um jeito de acomodá-las – garante a senhora Hallowey calmamente.
—Então assim será – meu pai determina, voltando-se ao notar algo – Merlyn? Está de saída? – questiona fazendo-me perceber o casal as suas costas.
—Sim. Nossas filhas não podem ficar muito tempo fora de casa – responde – Levarei Beca e irei ter com o conselho. Lance avisou-me quando regressava acerca da reunião – conta e sinto um frio no estomago ao lembrar a condição de Thomas perante minha família.
—Então façamos o seguinte: encontro-o a caminho. Ainda quero falar-lhe antes da reunião, pode ser?– papai pergunta fazendo a sensação aumentar.
—Certamente. Até mais ver – confirma o pai de Thomas, retirando-se juntamente com a esposa.
—Dom, pensem bem no que irá fazer – mamãe aconselha e enrugo o cenho percebendo a tensão entre eles.
—Meu sogro está correto em seu pensar. A bem do mais, para nossas pretensões futuras politicas não fica nada bem manter as atuais condições – o marido de Yvie diz, disfarçando a tosse com a mão.
—Já tomei minha decisão e não irei muda-la. Aliás, meu bom doutor, poderia ter um segundo de prosa com o rapaz? – papai questiona de repente deixando-me tensa a ponto de a dor em meu abdômen aumentar consideravelmente.
—Por certo que sim – libera doutor Hallowey, indicando a lateral do bendito biombo, papai sumindo por detrás do mesmo.
—Filha, que há? Ficou pálida de repente? – mamãe pergunta, preocupada.
—Deve ser fraqueza porque além de todo estresse desnecessário, suas regras desceram – a senhora Hallowey diz aproveitando para alfinetar minha mãe – Irei preparar-lhes logo a primeira refeição da noite – anuncia, precipitando-se em direção a porta.
—Neste caso irei ajuda-la. Tem um caldo especial que irá ajuda-la recuperar-se mais rapidamente. Assim poderá ir para casa logo – mamãe diz, acompanhando-a mesmo não tendo sido convidada.
—Minha querida, devemos nos retirar para que vossa irmã possa descansar – o marido de Yvie, o senhor MacKinney, diz, estendendo-lhe a mão – Venha, ainda teremos nossa lua de mel mesmo sem viajar – declara, segurando-lhe a mão – Estimo sua melhora querida cunhada. Senhoritas – despede-se, Yvie acenando-me discretamente antes de sair com seu marido.
—Cait, está tudo bem? Você ficou estranha de repente – Thea pergunta, tocando minha mão, fazendo-me voltar para ela – Algo a incomoda? Além da dor de cólica, logico – lembra e sorrio minimamente.
—Não, nada – minto, pensamentos confusos, inseguranças e medos assolando-me, todos tendo meu pai e Thomas no centro deles.
*** Dominique Snow ****
Aguardo minha esposa e a senhora Hallowey saírem, peço ao doutor fazer o mesmo para somente então dar atenção ao rapaz deitado no leito perto ao de minha filha. Este olhava-me tenso. Com certa razão, devo reconhecer. Por anos alimentei um ódio que não me pertence de sua família, e por conseguinte dele.
Quando conheci e apaixonei-me por Carla ela já trazia consigo este rancor, este ódio contra a família Merlyn. Tomei-o para mim por julgar, naquele tempo, ser o correto a fazer. Apenas quando travei conhecimento com Malcom descobri que na verdade o sentimento também não era dela. Não diretamente. Uma outra pessoa, a qual desconheço até hoje, implantara nela da mesma forma ela o fizera comigo. Ao menos é o que penso ter acontecido posto que jamais consegui convence-la contar-me a verdade.
Por isto, após casarmos, quando soube que o banco pretendia instalar-se na nova colônia na América, pedi para ser transferido. Graças a amizade com Benedict Curmble, o filho, que hoje é o dono do banco após a morte do pai, fui prontamente atendido, cortando o mal pela raiz já que Carla insistia em que usasse minha posição no banco para prejudicar os Merlyn. A distância deu-me trégua por anos mesmo minha esposa tendo ficado revoltada por saímos de Londres.
Infelizmente, alguns anos depois, Malcom fez a mesma escolha que eu. E por uma dessas coincidências da vida, veio justamente para Starling.
—Senhor Snow, eu... – Thomas Merlyn começa dizer mas o silencio com um ergue de mãos.
—Meu rapaz, deixe-me falar – peço, aproximando-me o máximo possível, verificando se minhas filhas e sua amiga estavam distraídas antes de falar. Ainda assim, baixo o tom de voz para evitar se ouvido. Mesmo não tratando-se de segredo, queria formalizar com Malcom e o conselho antes de tornar pública minha decisão – Primeiramente, quero agradecer-lhe por cumprir sua palavra e trazer minha filha de volta sã e salva – digo.
—Na verdade, apenas mantive-nos sãs e salvos até a chegada do resgate – corrige-me de forma humilde, me deixando surpreso.
—Ainda assim. Se não o tivesse feito, não haveria quem trazer de volta – ratifico, prosseguindo – Em segundo lugar, quero que saiba de algo. Irei liberta-lo do compromisso junto a mim. Não terá mais de servir-me. Buscarei, em acordo com vosso pai e o conselho, outra forma de Malcom pagar-me o que deve descontando o tempo que já serviu-me – declaro, a surpresa em seu rosto dando lugar a outra coisa que não pude identificar.
—Eu...fico-lhe agradecido. Mas preciso dizer-lhe algo que pode fazê-lo mudar de ideia – diz, por fim, suspirando, deixando-me em alerta – Eu....Durante o tempo em que o servi, descobri ter sentimentos por vossa filha – revela, hesitante – Julguei, no começo, ser apenas gratidão pela maneira como tratava-me. Mas todos estes dias juntos fizeram-me ver que trata-se de outro sentimento, maior e mais forte. Estou apaixonado por ela senhor Snow, e desejo pedir-lhe a permissão para fazer-lhe a corte. Sei que no momento não disponho de renda e nada tenho a oferecer, mas pretendo trabalhar no tempo em que deveria estar a servi-lo, caso mantenha sua decisão, com meu pai ou em outro local. Terei salario e poderei sustentar-me e no futuro a minha esposa – discursa, calando-se repentinamente e entendo o porque ao escutar a voz de minha esposa – Sei que vossa esposa não tolera-me, mas peço-lhe que considere meu pedido – acresce em tom quase inaudível.
—Considerarei – garanto-lhe, afastando-me, indo para junto de minha esposa e filhas.
Deixamos o consultório de Hallowey quando a tarde ia-se e a noite chegava. Mesmo indo contra a vontade de minha esposa, não permito a nossa filha do meio, Olivia, dormir na enfermaria com a irmã, encarregando a aia de Caitlin tal missão.
Após o jantar, dirijo-me primeiramente a residência dos Merlyn, repetindo a ele o que dissera ao filho, revelando-lhe também a intenção do rapaz em cortejar minha filha. Ao contrário do que esperava, nem ele nem a esposa opõe-se ao desejo do filho, Malcom assegurando-me que faria o jovem cumprir o que dissera-me no que referia-se a trabalhar no tempo em que não mais servir-me-ia.
—Veja, não prometo que darei a permissão. Assim com parece-me fazer, tenho por habito consultar minha esposa nestes assuntos. Mas irei considerar o pedido com a mesma atenção que daria a outro jovem que o fizesse – aviso, selando nosso acordo com um aperto de mãos.
Despedimo-nos de sua esposa seguindo lado a lado para a reunião do conselho.
*** Conselho (20:33 p.m) ***
Narrador
—Declaro aberta a reunião deste conselho tendo, além de seus membros fixos, a excepcional participação do doutor Adam Hallowye, dos jovens Oliver Queen, Eddie Thawne, Raymond Palmer, Roy Harper, Bartholomeu Allen e dois representantes da tribo local, os senhores Cisco e Killigam – Damien Darhk declara – Em discursão, os fatos que levaram ao desaparecimento do jovem Thomas Merlyn e da senhorita Catilin Snow, o subsequente resgate de ambos com vida, para alivio e felicidade de familiares e amigos bem como a sequencia do tempo de servidão imposto ao referido rapaz anteriormente – conclui.
—Antes de prosseguirmos, peço a palavra – Dominique Snow levanta-se, recebendo autorização para falar – Senhor prefeito, demais membros, venho informa-lhes que não mais pretendo manter o acordado anteriormente. Estou, a partir de amanhã, liberando o jovem Thomas Merlyn de servir-me pelo restante do tempo determinado.
—Como?? – Adrian Chase pergunta, tão surpreso quanto os demais.
—No dia seguinte ao desaparecimento de minha filha, fiz uma promessa, Monsenhor Robinson é testemunha, que liberaria o rapaz e buscaria outra forma de receber o que Malcom Merlyn ainda deve-me caso tivesse minha menina de volta sã e salva e irei mante-la – prossegue o bancário, inabalável – Já comuniquei ambos, pai e filho, que o faria nesta reunião. Peço ao conselho que recalcule a divida descontando o tempo que o rapaz serviu-me para que possamos escolher nova forma de pagamento – conclui, recebendo o olhar feroz de Chase ao sentar-se – Sinto muito, mas não havia como manter o acordado ante os acontecimentos – justifica-se com o “amigo”, que sorri-lhe amarelo.
—Bem, isto altera tudo no...
—Perdoe-me interromper senhor prefeito, mas no que refere-se a minha parte da dívida, nada mudou – avisa Chase, Oliver e Eddie cerrando os punhos – Assim que o rapaz tiver condições, devera voltar a servir-me. Não irei levar em conta os dias perdidos posto que estava fora do controle de qualquer um. No demais, tudo continua igual – reforça, encarando o prefeito Darhk.
—Imaginei que não mudaria sua posição Chase – afirma o prefeito – Mas este assunto será o ultimo a ser tratado. Neste momento, queremos ouvir o relato do grupo de buscas – determina, voltando-se para o delegado Lance – Quentin, tem a palavra.
—Sendo franco, não temos muito a relatar além dos fatos já de conhecimento de todos presentes – diz – O jovem Thomas não encontrava-se em condições de contar-nos nada e ainda não foi liberado pelo doutor Hallowey aqui presente. Apenas quando tivermos a chance de conversar com o rapaz saberemos o que se passou no dia em que sumiram – constata, passando a relatar os acontecimentos desde sua saída, ao encontro com o grupo formado por Thawne até o encontro dos jovens e o subsequente retorno a cidade, sendo solicitado a Oliver e Eddie relatarem sua parte na busca e resgate.
A seguir, Adam Hallowey dá seu parecer acerca do estado de saúde dos jovens bem como de estarem em estado mental considerado bom.
Suspeitas e suposições acerca dos responsáveis pelo sequestro e abandono dos do jovem casal são evitadas seguindo o acordado entre Damien Darhk, Joe West, Quentin Lance e Roger Palmer antes de a reunião ter início, a pedido de Robert Queen, que temia a ameaça velada feita por Chase a Thomas antes do ocorrido. Mesmo contra a vontade, os jovens envolvidos no grupo de buscas concordaram posto que não havia provas para acusações.
—O momento certo há de chegar e estaremos atentos para não perde-lo – Darhk assegurara-lhes.
Três horas e meia depois, a reunião é dado por encerrada, tendo ficado determinado que Thomas retomaria seus deveres para com Chase tão logo fosse liberado pelo médico e nada seria acrescido aos dias pré-determinados enquanto Malcom e Snow acordaram o pagamento de quantia fixa mensal a qual, caso não fosse entregue seria, seria remanejada e acrescida de multa para o mês seguinte.
A maior novidade resultante da reunião fora o convite feito pelo delegado a Eddie Thawne para o mesmo tornar-se um de seus ajudantes, o qual o rapaz prometera pensar.
Ao deixarem o prédio da prefeitura, onde a reunião realizou-se, Oliver, Eddie e os demais jovens dirigem-se ao consultório de Hallowey a fim de visitar o amigo, surpreendendo-se ao encontrarem Thea, Sara, Felicity e Laurel fazendo o mesmo a ele e Caitlin.
Apesar do clima tenso entre Laurel e Killi ser evidente, ninguém pergunta nada, o grupo deixando o local apenas quando a noite já adiantava-se.
Killi e Cisco seguem com Eddie para a pensão enquanto Thea, sua aia e Felicity seguem para a residência dos Queen tendo Sara e Laurel a seu lado. Barry, Roy e Ronnie Palmer, que chegara no consultório um tempo depois, decidem ir beber no bar aonde Eddie trabalhava, deixando o local algumas horas depois, cada um indo para sua casa.
No consultório, o casal Hallowey dedica-se a cuidar dos jovens pacientes, medicando-os, recolhendo-se ao quarto anexo a enfermaria quando passava da meia noite.
Durante a madrugada, Caitlin desperta, inquieta, indo deitar-se junto com Thomas mesmo este protestando a princípio, ambos adormecendo após alguns minutos de conversa, não percebendo, segundos depois, a chegada sorrateira de três pequenas figuras peludas, que deitam-se, um sobre a cama, aos pés do casal, outro sob a janela por onde haviam adentrado e o terceiro entre a porta e a cama aonde dormiam, permanecendo no lugar até quase o raiar do dia, saindo, tão discretamente quanto haviam entrado, logo que os primeiros raios de sol pintavam o horizonte de dourado, atendendo ao assobio do guerreiro moreno e seu acompanhante, seguindo-os para fora da cidade, em direção a tribo.
Quando o casal Hallowey adentra a enfermaria, Caitlin já retornara a sua própria cama, saudando-os com um sorriso tímido.
Após examinar e medicar ambos, Adam Hallowey libera-os para retornarem a suas casas, Thomas sendo o primeiro a ir-se, despedindo-se de Caitlin com um aceno e um sorriso luminoso que a faz corar, levando no peito a esperança de uma resposta positiva do pedido feito ao pai da jovem.
“...Mesmo com tantos motivos;
Pra deixar tudo como está;
Nem desistir, nem tentar;
Agora tanto faz;
Estamos indo de volta pra casa”

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