O preço da Coroa
21 O Rugido do Oeste
A tensão na catedral era tão espessa que parecia sufocar as chamas das velas. O Arcebispo, roxo de indignação, ergueu o crucifixo como se fosse uma arma, pronto para lançar a excomunhão final sobre o casal ajoelhado. A nobreza recuava, temendo o estigma da heresia.
Foi então que o som veio: não de dentro, mas de fora.
Um estrondo rítmico começou a vibrar no chão de pedra da catedral. Não eram cavalos de guerra, mas o bater de pés e o som de tambores de couro de cabra — o mesmo ritmo da "Dança da Terra" que Dhorwack aprendera no quarto.
As enormes portas da catedral, que os guardas reais tentavam manter fechadas para conter o escândalo, foram escancaradas. Liam entrou primeiro, vestindo suas peles de caçador e carregando um machado de lenhador no ombro. Atrás dele, centenas de homens e mulheres do vilarejo do Oeste avançaram, preenchendo o corredor central com o cheiro de fumaça, terra e liberdade.
— O QUE É ISSO? — gritou o Arcebispo, sua voz falhando. — Guardas! Expulsem esses pagãos da casa de Deus!
Os guardas reais desembainharam as espadas, mas Dhorwack ergueu a mão, um sorriso de triunfo surgindo em seus lábios enquanto ele se levantava ao lado de Malya.
— Guardas, abaixem o aço — ordenou o Rei. — Estes são os meus novos ministros. Esta é a verdadeira base do trono de Mackenzie.
Liam parou diante do altar. Ele olhou para Malya, agora com o colar de âmbar brilhando no pescoço, e depois para Dhorwack. Ele não fez uma reverência de nobre, mas bateu com o punho no peito, em um gesto de respeito rústico.
— Nós ouvimos o que o Rei fez por nossa prima — disse Liam, sua voz ecoando pelas naves sacras, silenciando os sussurros da nobreza. — Ouvimos que Mackenzie não se curva mais a Roma por medo, mas se curva ao Oeste por amor. Se este homem prefere a nossa "mulher das cinzas" a uma coroa de ouro estrangeiro, então ele é o nosso Rei. E ela... ela é a nossa Rainha.
O vilarejo inteiro explodiu em um grito de guerra e celebração. Eles não esperaram a bênção do Arcebispo. As mulheres do vilarejo correram para frente, jogando pétalas de flores silvestres sobre Malya e Dhorwack, enquanto os homens formavam um círculo de proteção ao redor do altar, dando as costas para Roma e para a Baronesa Genevieve.
Malya sentiu as lágrimas quentes escorrerem. O ódio que sentira pelo cárcere e pela humilhação derreteu ao ver seu povo ali, validando a loucura de Dhorwack. Ela apertou a mão do Rei com força.
— Parece que a sua "Igreja de Mackenzie" já tem fiéis, Majestade — sussurrou ela, com um brilho de esperança nos olhos verdes.
— Eles são a minha única proteção agora, Malya — respondeu Dhorwack, olhando para o Arcebispo, que fugia pelas portas laterais sob as vaias do povo. — Porque amanhã, o resto do mundo marchará contra nós.
A cerimônia terminou não com um hino religioso, mas com a música rústica do Oeste prechendo o lugar sagrado. A Baronesa Genevieve desapareceu nas sombras, seu rosto uma máscara de fúria silenciosa, enquanto Malya e Dhorwack cruzavam o salão, escoltados pelos "Invisíveis do Oeste".
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