O preço da Coroa
25 O Fantasma do Passado
A atmosfera festiva do banquete, com os tambores do vilarejo e as risadas dos soldados de Henrique Tudor, parecia abafar o mundo lá fora. Mas, no canto do salão, o silêncio de Dhorwack ao ler o pergaminho negro era mais barulhento que qualquer música.
Dhorwack estava pálido. A caligrafia trêmula de Hadassa saltava do papel: "Fui enganada. Urtred me mantém em uma torre de pedra, longe de Norfolk. Meu casamento foi um contrato de sangue e medo. Por tudo o que fomos, não me deixe morrer nesta escuridão."
Malya, que observava cada gesto do marido, aproximou-se silenciosamente. O brilho da coroa de âmbar em sua cabeça contrastava com a sombra que baixara no rosto do Rei. Sem pedir permissão, ela arrancou o papel das mãos dele.
— O que é tão importante que faz o Grande Lobo de Mackenzie esquecer que sua Rainha está ao seu lado? — perguntou ela, os olhos verdes percorrendo as linhas rapidamente.
Dhorwack tentou recuperar a carta, mas Malya recuou, terminando a leitura. O silêncio entre eles tornou-se gélido.
— Ela está pedindo socorro — disse Dhorwack, a voz baixa, mas carregada de uma culpa antiga. — Ela diz que foi sequestrada, Malya. Que o casamento foi uma farsa de Urtred para tomar as terras dela e nos destruir.
Malya amassou o pergaminho na mão, a raiva subindo por seu pescoço como um incêndio.
— E o que você vai fazer? Vai convocar os exércitos de Henrique? Vai atravessar a fronteira por uma mulher que escolheu ir embora quando você mais precisava de lealdade?
— Eu não posso deixá-la sofrer nas mãos daquele animal — Dhorwack deu um passo à frente, tentando segurar as mãos de Malya. — É uma questão de honra, não de amor. Eu devo isso ao que a família dela fez pelo meu pai. Eu vou ajudá-la, Malya. Vou trazê-la para um lugar seguro.
Malya soltou uma risada amarga, soltando-se do toque dele. Ela olhou para o salão, onde seu povo, o povo do Oeste, celebrava a união que eles acreditavam ser inquebrável.
— Honra? — ela sibilou. — Você acabou de desafiar Roma por mim! Você colocou uma coroa de carvalho na minha cabeça e disse que eu era a sua única verdade! Mas, ao primeiro sussurro da "Dama de Porcelana", você já está preparando os cavalos?
— Malya, entenda...
— Não! — ela o interrompeu, a voz cortante como uma lâmina. — Entenda você, Majestade. Se você cruzar os portões deste castelo para ir atrás daquela mulher, não se dê ao trabalho de voltar para este quarto. Se você for salvar a sua "honra" com Hadassa, pode esquecer que eu existo. Eu não serei a Rainha que espera na janela enquanto o Rei busca o fantasma da ex-amante.
Ela arrancou a coroa de âmbar e carvalho da cabeça e a bateu contra o peito dele.
— Escolha agora, Mackenzie. O solo que te sustenta ou o passado que te assombra. Se você for, eu volto para o meu vilarejo antes do amanhecer, e o seu pacto com o Oeste morre comigo.
Dhorwack olhou para a coroa em suas mãos e depois para os olhos marejados de fúria da mulher que ele amava. No fundo do salão, Henrique VIII observava a cena com um sorriso cínico, sabendo que o maior inimigo de um rei não é o Papa, mas o seu próprio coração.
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