O confronto final entre o dever de um rei e o desejo de uma mulher aconteceu sob as sombras das tapeçarias seculares do gabinete real. Hadassa entrou como um furacão, as lágrimas secas dando lugar a uma urgência desesperada.

​— Dhorwack, meu pai vai destruir tudo! — ela exclamou, aproximando-se dele e segurando suas mãos frias. — Ele vai entregar as passagens secretas para Urtred. Eles vão reduzir este castelo a cinzas por minha causa. Por favor... deixe a coroa. Fuja comigo para as terras do oeste, onde ninguém nos conhece. Podemos ser apenas nós dois.

​Dhorwack a olhou por um longo tempo. O silêncio que se seguiu foi mais cortante que qualquer espada. Lentamente, ele soltou as mãos dela e se afastou, voltando-se para o mapa do seu reino estendido sobre a mesa.

​— Você enlouqueceu, Hadassa? — a voz dele era um chicote de autoridade. — Fugir? Como um covarde ou um camponês sem terra?

​— Pelo nosso amor, Dhorwack! — ela suplicou.

​Ele soltou uma risada amarga, voltando os olhos gélidos para ela.

— Amor? Você é uma criança deslumbrada. Eu sou o Rei Mackenzie. Este trono, estas pedras e este povo são a minha existência. Eu sacrifiquei minha juventude, minha paz e meus amigos por este reino. Você realmente achou que eu jogaria séculos de linhagem no lixo por uma paixão de poucos dias? O trono é mais importante do que qualquer mulher, do que qualquer sentimento. O trono é tudo.

​Hadassa recuou como se tivesse levado um tapa físico. A imagem do homem heróico que a salvara no salão desintegrou-se diante de seus olhos, revelando apenas um tirano obcecado pelo poder.

​— Então é isso? — ela disse, a voz subindo de tom, carregada de um desprezo que o fez estremecer por dentro. — Você é apenas um prisioneiro de ouro, Dhorwack. Um homem pequeno sentado em uma cadeira grande demais para o seu coração. Você fala de honra e linhagem, mas vai morrer cercado por paredes frias, sem ninguém que o ame de verdade. Você não é um rei... você é apenas um guarda-costas de um pedaço de metal e pedra.

​Dhorwack endureceu a mandíbula, os olhos brilhando de fúria, mas ela não parou.

​— Fique com o seu trono. Fique com a sua solidão. Eu prefiro o inferno ao lado de Urtred do que passar mais um segundo olhando para um homem que é tão covarde a ponto de ter medo de ser feliz. Adeus, "Majestade". Que a sua coroa o aqueça nas noites frias que virão.

​Ela virou as costas e saiu batendo a porta, o som ecoando como o fechamento de um túmulo.

​Minutos depois, as carruagens de Suffolk e Norfolk cruzavam o portão principal. Hadassa subiu sem olhar para trás, sentando-se ao lado de um Carlos vitorioso e de um Urtred que sorria com o triunfo de quem retomara sua posse.

​Do alto da torre mais alta, Dhorwack Mackenzie observava a poeira subir na estrada. Ele estava sozinho. Ele tinha o trono. Mas, pela primeira vez na vida, o peso da coroa parecia capaz de esmagar o seu peito.