O preço da Coroa

5 A Sombra e a Chama




​A Ala Leste do Castelo Mackenzie era silenciosa, quase sepulcral. Hadassa fora instalada em aposentos que, embora luxuosos, pareciam uma gaiola dourada. O vestido de seda azul fora substituído por uma camisola de dormir de linho fino e uma capa de lã escura para se proteger do frio da montanha.

​Ela não conseguia dormir. As palavras de Dhorwack no salão, a raiva contida de Urtred, a expressão dividida de seu pai... tudo girava em sua mente. Mas o que mais a perturbava era a lembrança do quase beijo no jardim.

​— Ele não fez isso apenas por política — sussurrou para si mesma, olhando para a porta dos seus aposentos. — Ele usou uma lei antiga... por mim.

​Tomada por uma coragem impulsiva, Hadassa abriu a porta. Não havia guardas do lado de fora; Dhorwack confiara na sua palavra de que ela não tentaria fugir com Urtred. Mas ela não estava fugindo dele. Ela estava indo ao encontro dele.

​Ela conhecia o caminho para o escritório do Rei. Atravessou corredores de pedra, iluminados apenas por archotes distantes, sentindo o coração bater forte contra as costelas. Quando chegou à porta de carvalho maciço do escritório, viu um fio de luz dourada escapando pela fresta.

​Ele estava acordado.

​Hadassa bateu de leve.

​— Entre — a voz de Dhorwack saiu grave, cansada.

​Ela empurrou a porta. O escritório era vasto, repleto de mapas, livros e relatórios de guerra. Dhorwack estava sentado atrás de uma mesa imensa, sem o manto real, apenas com uma camisa de linho preta com os primeiros botões abertos. Ele parecia... humano. Não a estátua de ferro que ela vira no salão.

​Ele levantou o olhar e seus olhos se estreitaram ao vê-la.

​— Lady Hadassa — ele se levantou lentamente. — O que faz aqui a esta hora? Se Urtred descobrir...

​— Urtred está ocupado demais espumando de raiva na torre dos visitantes — disse ela, fechando a porta atrás de si e aproximando-se da mesa. — Eu vim... eu vim agradecer.

​Dhorwack contornou a mesa. O cheiro de papel antigo e sândalo que emanava dele era inebriante.

​— Agradecer? — ele soltou uma risada curta, sem humor. — Eu a transformei em minha prisioneira, Hadassa. Usei uma lei que não era invocada há um século. O Sul pode nos declarar guerra por isso.

​— Você me salvou de um homem que me vê como uma propriedade — ela olhou nos olhos dele, a vulnerabilidade dando lugar a uma determinação feroz. — E você sabe disso.

​Ele parou a poucos centímetros dela. A luz da lareira dançava em seu rosto, acentuando as linhas de expressão e a cicatriz antiga em seu maxilar. Ele parecia perigoso, sim, mas também terrivelmente solitário.

​— Você não sabe nada sobre mim, Hadassa — ele sussurrou, a voz rouca. — Você vê o Rei, vê o poder. Mas não vê o homem que teve que sacrificar tudo para manter esta coroa. Não vê as escolhas que me assombram.

​— Então me mostre — ela estendeu a mão e, num ato de audácia pura, tocou o peito dele, sentindo o bater acelerado do seu coração. — Mostre-me o homem que se importa o suficiente para arriscar uma guerra por uma "hesitação" de uma convidada.

​O toque dela foi como um rastilho de pólvora. Dhorwack segurou a mão dela, não para afastá-la, mas para prendê-la contra o seu peito. Seus olhos loiros e os olhos escuros dele travaram uma batalha silenciosa de desejo e dever.

​— Eu não deveria querer você — ele disse, a respiração pesada. — Você é a filha do meu melhor amigo. Você é noiva de um Duque poderoso. E eu sou um Rei que não pode se dar ao luxo de ter sentimentos.

​— Mas você quer — ela afirmou, inclinando a cabeça para cima. — E eu também quero.

​A resistência de Dhorwack quebrou. Ele a puxou para si com uma força avassaladora, e seus lábios se encontraram num beijo que não era doce, mas desesperado. Era um beijo de fogo e gelo, de perigo e libertação. As mãos dele se enredaram no cabelo loiro dela, enquanto ela se agarrava aos ombros dele como se ele fosse a única coisa sólida num mundo que desabava.

​Eles estavam emaranhados, esquecendo o mundo exterior, as leis e os noivos, quando um som seco de algo quebrando ecoou do lado de fora da porta, seguido por um xingamento abafado.

​Eles se separaram, a respiração ofegante, os lábios vermelhos. Alguém os vira.