O preço da Coroa
29 A Ruptura do Trono
O silêncio que se seguiu à sugestão de Dhorwack foi mais destrutivo do que a explosão do arsenal em Norfolk. Ele olhou para as duas mulheres — uma que representava a paz nostálgica de sua juventude e outra que era a força bruta que o mantinha no trono — e cometeu o erro fatal de tentar conciliar o inconciliável.
— Malya, escute a razão — disse Dhorwack, a voz vacilante pela primeira vez. — Hadassa conhece a etiqueta das cortes do Sul. Ela conhece os informantes de Roma. Se ela ficar como minha conselheira, poderemos antecipar os movimentos de Urtred. É uma estratégia política, nada mais!
Hadassa, escondida atrás de uma máscara de falsa modéstia, baixou os olhos e deu um passo para trás, como se fosse uma vítima da fúria de Malya.
Malya soltou uma risada seca, que cortou o ar como um estilete. Ela olhou para Dhorwack não com raiva, mas com uma decepção profunda, daquelas que não têm volta.
— Estratégia política? — ela repetiu, a voz perigosamente baixa. — Você quer manter a mulher que te abandonou e que tentou te seduzir há cinco minutos sob o mesmo teto que a sua esposa? Você quer que eu coma à mesa com a serpente que quer o meu lugar?
— Não é isso, eu apenas...
— CALADO! — o grito de Malya ecoou pela biblioteca, fazendo Hadassa estremecer. — Você provou o que eu temia. Você é um Rei que precisa de muletas de seda para caminhar. Você não confia no povo que te deu a vitória, você ainda anseia pelo cheiro de perfume caro e pelas palavras mansas da nobreza que te traiu.
Malya caminhou até a mesa real, pegou a adaga que usara no resgate e a cravou no mapa de Mackenzie, bem em cima da capital.
— O pacto acabou, Mackenzie. Você fica com a sua "conselheira" e com o seu castelo de pedras frias. Eu volto para o Oeste. E fique sabendo: os homens que incendiaram Norfolk por mim não lutarão por um Rei que não sabe honrar a própria cama.
O Êxodo do Oeste
Antes que Dhorwack pudesse impedi-la, Malya saiu da biblioteca. Em menos de uma hora, o boato se espalhou. Liam e os batedores do Oeste, que ainda comemoravam a vitória, montaram em seus cavalos em silêncio absoluto. Eles não precisavam de ordens; a lealdade deles era com a Rainha de Âmbar, não com o trono de Mackenzie.
Dhorwack correu para o pátio, encontrando Malya já montada, sem coroa, vestindo novamente seu traje de batedora.
— Malya, não faça isso! Henrique Tudor não entenderá uma divisão no comando agora! — implorou Dhorwack, segurando as rédeas do cavalo dela.
— Henrique Tudor entende de divórcios e traições melhor do que ninguém — respondeu Malya, olhando-o de cima. — Diga a ele que a Rainha do Oeste foi buscar a única coisa que um trono não pode comprar: o seu respeito.
Com um comando curto, ela partiu. Atrás dela, quase um terço das forças de defesa do castelo — a infantaria rústica e os arqueiros das montanhas — deixaram o pátio. O castelo, antes vibrante, mergulhou em um silêncio fúnebre.
Fale com o autor