O presente
1 Capítulo único
Passear no shopping nunca fora sua praia. Era notória sua impaciência e nervosismo, algo que chegava a ser incapacitante, e que tornava cada passo a uma nova loja uma tortura inenarrável. Aquele monte de gente abobalhada a olhar vitrines e andar feito zumbis desnorteados, aquela infinidade de corredores de lojas que continham tudo, menos o que ele procurava. Se comparado a qualquer inimigo que já tivesse enfrentado, com certeza seria o pior de todos eles. Em todo o caso, contra aquele monumento de concreto ele não poderia desferir golpes ou energias, como faria contra qualquer ameaça.
Bulma ficara na mansão, preparando os últimos detalhes da pomposa e cor de rosa festa de aniversário de três anos da princesinha saiyajin, e desde cedo vinha ralhando com o príncipe para que comprasse algo para dar de presente para a filha.
O que podia dizer ou fazer contra aquilo? Bulma, no final das contas, tinha razão. Ele não poderia deixar passar este momento da filha, e ela certamente aguardaria com aqueles brilhantes olhinhos azuis a vez do pai dar-lhe o esperado presente de aniversário. Podia imaginar a cena com tamanho realismo que chagava a suar frio ao cogitar a cena sem o presente.
Havia chegado àquela etapa da vida sem muito perceber. Foi ficando pela Terra depois de Freeza, e foi se vendo acomodado a ponto de estabelecer-se de vez, de considerar-se um terráqueo naturalizado. Vez ou outra aquilo o angustiava, pois parecia ter perdido completamente a identidade que seguia impregnada ao sangue puro de saiyajin. Mas era só ver o que tinha feito e plantado naquela mesma Terra e tudo mudava, e não passava de só mais uma breve e passageira nostalgia.
— Alí, pai! Alí tem uma loja de brinquedos!
A voz desafinada da puberdade de Trunks o despertara logo. Sabendo que Vegeta sozinho no shopping não representava boa coisa, Bulma escalara o reforço para a segurança das vendedoras de shopping colocando Trunks para acompanhar o pai.
— Ótimo! Escolha algo logo e vamos embora.
— Eu? Mas já comprei o presente da Bra... Mamãe disse que era para o senhor escolher algo...
— Maldição, Trunks! Sabe que não tenho paciência para isso, e se não quiser levar uma surra no próximo treinamento, acho bom tratar de escolher um presente para sua irmã!
— Mas...
— Trunks!
— Ta! Ta legal! Mas isso não vai ficar assim...
— Anda logo!
E lá foi o rapaz entrando na loja colorida e cheia de soldadinhos de chumbo como colunas de entrada para a loja. Isso soaria mais do que ridículo se fosse visto pelos colegas do colégio, ou pelo amigo Goten.
Logo foi recepcionado pela vendedora simpática e sorridente, e aos olhos de Vegeta, a missão seguia sem problemas.
De longe, sentado no banco de madeira do corredor do shopping, e que posicionava-se quase que na entrada da loja, Vegeta vigiava e cronometrava o tempo que o filho demoraria a escolher o presente. O viu gesticulando com a vendedora, como se falasse de Bra, e depois o perdeu de vista, quando entrou pelo corredor rosa das milhares de bonecas que provavelmente a vendedora apontou como dica.
Pelas vitrines de brinquedos, Vegeta podia ver uma infinidade de opções que talvez — e com boa vontade — pudesse escolher a dedo. Mas parecia humilhante demais ter que levantar e apontar para uma vendedora o que achava que a filha apreciaria. Na verdade, tinha para si que o temor maior estaria no fato de Bra não gostar do presente que ele lhe daria. Seria frustrante demais ele mesmo decepcionar a filha, e se considerasse que Trunks o faria, teria em quem depositar uma culpa. E, em todo caso, não teria qualquer paciência em lidar com vendedoras sorridentes e simpáticas a apontar presentes que ele poderia comprar.
Cruzou os braços. Balançou as pernas em ansiedade. Trunks demorava. Já fazia algum tempo que se embrenhara com a vendedora pelos corredores de bonecas. Pelos minutos, já deveria estar pelo menos no caixa a pagar pela mercadoria. Não era possível demorar tanto assim para escolher uma boneca.
Havia algumas crianças brincando no interior da loja, que parecia ocupar dois andares do shopping. Entre corredores com pilhas e mais pilhas de brinquedos, cama elástica, piscina de bolinhas e estampas no chão que levavam a caminhos de mais corredores, tudo parecia ter intenção de ocupar e incentivar o consumismo para as crianças enquanto os pais decidiam o pagamento das compras e embalavam no balcão para presentes.
Conseguiu avistar no meio da loja uma garotinha de cabelos cacheados pedalando um triciclo cor de rosa com traços de cor roxa. Na frente havia uma cestinha cor de rosa com uma flor sorridente que mais parecia um sol, e dentro da cesta havia uma boneca estilo bebê com os bracinhos para cima, como se aproveitasse o passeio. Parecia ter sido colocada ali pela própria garotinha, que pedalava sem jeito o veículo em que mal cabiam suas perninhas gordinhas, que insistiam em alcançar os pedais todas as vezes que investia uma nova pedalada. Embora todo o sufoco aparente da menina em dominar o brinquedo, a mesma parecia nunca desanimar, e sorria todas as vezes que tinha sucesso em mais um trajeto percorrido. Instantes depois a mãe apareceu e a ajudou, e ela já não parecia tão feliz. Queria tentar sozinha, e estava conseguindo, ao seu modo.
Vegeta viu-se hipnotizado com a cena, e imaginou como seria sua princesinha a tentar obter progresso com aquilo.
Como uma ideia devastadora a explodir na mente, levantou-se de súbito e seguiu determinado para o interior da loja, desprendendo uma coragem que apreciaria aplicar em uma batalha. Ignorou veementemente qualquer sorriso amistoso das vendedoras simpáticas, qualquer boa tarde e qualquer “posso ajudá-lo, senhor?”. Identificou o corredor de triciclos, alcançou a enorme caixa rosa que continha o produto e dirigiu-se ao caixa para pagar. Rápido, preciso, eficiente. Mirou o balcão de pagamento e depois seguiu ao de embrulho.
— É para presente, senhor?
— Ehr, sim.
— Prefere um papel de embrulho cor de rosa com florzinhas, os de ursinhos carinhosos, os de bonecas... — Ela passava a dar as opções de forma irritante, o que desafiava o humor do príncipe dos saiyajins.
— Qualquer um! — Bufou impaciente.
— Mas, é que temos temas próprios e os de demais temos que...
— Qualquer um! – Rosnou, interrompendo-a.
A vendedora arregalou os olhos e escolheu o que tinha florzinhas mesmo.
Finalmente embrulhado e sobre os ombros de Vegeta, o presente estava comprado. A missão estava cumprida, e sair daquele recinto de consumismo era sua maior meta. Quando ía saindo da loja, viu Trunks surgir com uma sacola nas mãos, indicando ter comprado algo embrulhado no maldito papel de embrulho igual ao dele.
— Por que demorou?
E o tom de irritação parecia flamejante.
— Eu estava escolhendo a boneca... havia uma infinidade de bonecas... Boneca bebê, boneca hora do banho, boneca que faz cocô, boneca hora do lanche... Mas — observou o pacote que o pai carregava -, se resolveu comprar por que me mandou ir lá?
— Ora, cale a boca!
— Mas...
— Calado! Calado! — Seguiu em passos acelerados para o estacionamento do shopping.
***
A irritante festa havia terminado, e ele podia finalmente voltar para sua pacata vida de treinos, sem ter que fingir sala à uma corja de vermes que só de existir já o irritava.
Bra, a aniversariante que parecia entediada com a festa e muito ansiosa para abrir os presentes, atividade que fora proibida por Bulma durante a festa para que desse atenção aos convidados, brilhava os olhos para o canto onde os presentes estavam empilhados para o grande momento de abertura. Queria deliciar-se em chacoalhar cada embrulho para adivinhar o que tinha dentro, e passar pela emoção de vorazmente arrancar cada papel e descobrir o tesouro empacotado, para então julgar sua satisfação com cada um.
Essa a era a cena, a esperada cena que Vegeta queria, aquela que lhe causou o sentimento paternal na loja, aquela que imaginou sua princesinha encenar como ele mesmo presenciara. Ele podia sentir o sangue aquecer, os músculos enrijecerem, a ansiedade de sua escolha ser apreciada pela pequena de cabelos azuis.
Esse sentimento. Perguntava-se como sobrevivera sem aquilo por tanto tempo.
— Este, este é do papai! – Vibrou ela ao chegar o grande momento.
Um misto de emoções para o pai, um sentimento de contentamento para Bulma. Ah, sim, ela obtivera êxito ao mandar Vegeta escolher o presente, e mesmo que ele tenha feito Trunks o fazer por ele, no final de tudo o príncipe lançara mão de seu orgulho e enfrentara a batalha do quase pater famílias que se desenhava aos poucos no fundo do seu coração.
As mãos dele suavam. Havia chegado na caixa, a grande caixa embrulhada, cor de rosa em papel de florzinhas, com fitilhos cor de rosa, fazendo jus a toda sua representação festiva. Era hora da revelação. Não era inédito ou especial o tal brinquedo, Bra já tinha tudo o que ganhara ali na festa e tudo apenas se repetia. Mas o sentido, ah, sim, o sentido é que era outro. Aquele presente havia sido escolhido por Vegeta, e a menina podia sentir isso.
Com as pequenas mãozinhas e com a ajuda de Bulma, diante dos olhares apenas deles, Bra sentou-se no triciclo com um sorriso murcho. Passou as mãozinhas pelo guidão, admirou, mas não esboçou muito ânimo.
Vegeta percebeu. Havia algo errado. O presente não agradara. Por alguns segundos sentiu a facada em seu peito em forma de descontentamento da filha. Não teria valido de nada tudo o que ele passou? Sua expressão desenhava-se de forma lenta e desoladora. Bulma notara o marido a se desapontar e passou a torcer internamente para que aquela cena mudasse.
Foi então que Bra voltou seus olhinhos azuis para a caixa. Sim, a grande caixa na qual viera o triciclo, aquela destinada ao lixo no final de tudo. Aos olhos da pequena, era perfeita. Grande o suficiente para atender ao que sua cabecinha planejava e não poderia executar devido o tamanho do triciclo, que, de fato, era o presente. Saltou para dentro da caixa e sorriu largamente. Olhou para o pai e estendeu uma das mãozinhas:
— Vem, papai!!!
A voz ressoava para Vegeta como uma onda de arco íris a explodir em forma de flores, balões e unicórnios. Seus olhos ascenderam e um pequeno risco desenhou-se em seus lábios, formando o que chamamos de sorriso. Caminhou até a caixa para empurrar a filha, imaginando ser esse o plano dela, ao que ela o puxou para dentro da caixa.
— Aqui, papai! Passear!!! – Vibrou ela, fingindo apertar uma buzina e dirigir o objeto de papelão. – Para onde quer ir, papai?
A cena fora das mais inebriantes para Bulma. O Pai e a filha, a simplicidade de uma relação de amor. Cabiam perfeitamente na caixa, a pequena a dirigir, o pai atras dela, sentado e de carona, e sorrindo.
Para Vegeta, a certeza de que aquilo era impossível de se comprar, pagar ou sequer imaginar. Apenas se perguntava como a filha conseguia arrancar aquilo dele, aquilo que nem ele sabia que tinha dentro dele.
Qualquer um chamaria de amor, mas aquilo para ele não o era em si, posto que a cada dia o tal amor se revelava apenas no fato de sua família existir. E o que ele pretendia que fosse para a filha, acabou virando mesmo foi para ele.
Fim
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