O preço de uma dívida
17 Medidas desesperadas
Notas iniciais
“Simplesmente aconteceu;
Não tem mais você e eu no jardim dos sonhos;
No primeiro raio de luar;
Simplesmente amanheceu;
Tudo volta a ser só eu;
Nos espelhos, nas paredes de qualquer lugar;
Não tem segredo;
Não tenha medo de querer voltar;
A culpa é minha;
Eu tenho vício de me machucar;
De me machucar...”
Simplesmente Aconteceu
Ana Carolina
**Residência Snow (Sábado, 4/9 – 7:09 a.m)**
Caitlin
Discretamente, afasto a cortina abrindo uma pequena fresta que permite-me olhar a rua pela janela de meu quarto. Vejo-o passar, parando um segundo, dirigindo seu olhar a fachada de minha casa durante alguns minutos antes de retomar seu caminho para o armazém de Adrian Chase, cabisbaixo.
Deixo o tecido floral ceder e volto para a cama, atirando-me sobre o colchão, permitindo-me chorar silenciosamente como fazia desde que fora proibida por minha mãe a sequer dirigir-lhe a palavra.
Isto estava sendo tão doloroso quanto a iminente ameaça de um noivado com Slade Wilson ou com o novo pretendente que chegaria a cidade junto com meu pai dentro de algumas horas.
Uma semana depois de eu haver retornado para casa, papai partira em viagem atendendo o chamado da matriz do banco para o qual trabalhava....E minha vida tornar-se um inferno desde então!!....
**** Flashback On ****
Segunda semana de Agosto
—Deve estar a brincar comigo senhor meu marido – ouço mamãe dizer enquanto descia as escadas em companhia de Adissa e congelo – Não bastasse ter liberado o infeliz, contra minha vontade, devo lembrar, do acordado ante o conselho, agora cogita dar-lhe permissão para cortejar nossa filha?!? Nunca!! – declara, taxativa e sinto meu estomago revirar.
Desde que papai contara-me sobre o pedido de Thomas (no qual prometera pensar), aguardava, tensa e ansiosa, a conversa que teria com minha mãe antes de tomar uma decisão.
Evidente que não esperava dela concordância imediata de mamãe, mas mantinha uma tênue esperança de que papai conseguisse convence-la de Thomas ser sim um bom partido, mesmo sua família estando ainda a recuperar-se financeiramente. Também esperava que a demovesse da ideia de dar-me em casamento ao asqueroso senhor Wilson, que voltara a cercar-me, ou a meu novo pretendente (que sequer conhecia!), o filho do patrão de papai.
Ouvi-la pronunciar em alta voz e de forma tão enfática sua negativa, esmagara tal esperança por completo.
—Carla, o rapaz está mudado. Tem trabalhado dia e noite com o pai mesmo nos dias em que serve a Adrian. Não tem sido visto frequentando a casa de tolerância....
—O que não significa dizer que não esteja frequentando aquele antro! – mamãe rebate e sinto meu estomago revirar outra vez.
—E daí? É homem, saudável, não tem compromisso algum por hora...é mais do que esperado satisfazer seus desejos. Estranho seria se não o fizesse – papai retruca parecendo calmo – A meu ver, é tão bom quanto Wilson ou o filho de Crumble – diz, trazendo-me um curto sorriso a face.
—Pois ao meu não! – rebate mamãe – Como pode comparar aquele....pé rapado a dois homens de posses, que podem propiciar uma vida de rainha a minha princesa!? – argumenta – Que tipo de vida pode este rapaz oferecer a Caitlin? Luxo? Certamente que não, recebendo a miséria que deve recebe do pai, se receber! Isto sem mencionar a condição na qual encontra-se e vai permanecer por anos ainda – relembra, oprimindo-me o peito – Mesmo que passasse vagamente por minha mente, somente após o termino de seu período de servidão, poderia cogitar concordar com tal insanidade! Não Dom. Não, não e não! Jamais permitirei nossa filha casar-se com o filho do Merlyn! – ratifica, entristecendo-me.
—Mesmo que esteja ao lado dele a felicidade dela? – papai surpreende-me ao questiona-la.
—Não seja tolo. Felicidade nenhuma sobrevive a falta de comida na mesa, roupas rotas, uma casa insalubre e feia entre outras coisas – mamãe enumera.
—E se ela o amar? – insiste, surpreendendo-me novamente – Tenho para mim que se amam Carla – papai declara.
—Amor não enche barriga dia após dia nem alimenta os filhos quando estes chegam! – mamãe rebate mais uma vez — Caitlin aprendera a amar o homem que escolhermos para seu marido e pronto. É assim que tem sido e é assim que será. Só não insisti em que a desse em casamento ao senhor Wilson por conta do interesse que o senhor Crumble demonstrou em tê-la como mesmo tendo-a visto apenas na fotografia em sua mesa. Que mãe não ficaria satisfeita em ter sua filha casada com o futuro herdeiro de um prospero banco? – questiona, suspirando tão alto que posso ouvi-la – Ao invés de cogitar outro pretendente, ainda mais um tão ridículo, deveria preocupar-se com o fato de que Olivia sequer esteja sendo cortejada pelos solteiros da cidade – argumenta — Assim que decidirmos a quem daremos a mão de Cait, trataremos dela. Quem sabe dá-la ao pretendente que perder a disputa por ....
—Agora sou eu a dizer: deve estar brincando comigo minha esposa!! – papai a interrompe – Escute Carla, estou em cima da hora para pegar a carruagem. Quando regressar, retomamos esta discussão. Até lá, tente não passar por cima de minhas decisões. Basta-me todos os problemas a serem resolvidos no trabalho. Não preciso que torne-me motivo de chacota na cidade! – reclama, surgindo a porta do escritório, Adissa e eu fingindo, de imediato, havermos acabado de chegar – Minha pequena princesa, venha despedir-se de seu velho pai – pede e praticamente atiro-me em seu pescoço, ainda sob o efeito de suas palavras em defesa de Thomas – Tente não irritar-se nem irritar sua mãe até que eu volte – recomenda em meu ouvido, soltando-me, erguendo o olhar para o topo da escadaria – Minha outra princesa! Venha aqui Liv – chama e abro espaço para minha irmã despedir-se – Faço-lhe a mesma recomendação: tente não irritar-se nem irritar sua mãe até minha volta – repete, afastando-se – Trarei presentes para todas e para meu provável netinho que pode estar a caminho – promete, sinalizando a nosso serviçal para acompanhar-lhe com sua bagagem – Venham, mulheres de minha vida, acompanhem-me a porta ao menos – convida, fazendo minha irmã e eu rirmos – Voltarei no início do próximo mês – avisa, beijando-nos e a mamãe antes de sair.
—Olivia, vá tomar seu desjejum. Vocês duas, com ela – ouço mamãe determinar tão logo papai vai-se e volto-me a tempo de ver o olhar preocupado de minha irmã e aia enquanto a obedeciam – Venha comigo Caitlin – chama antes que possa esquivar-me, dando-me as costas em direção ao escritório de papai.
Sem opção, sigo-a, resignada, meu nervosismo atingindo o ponto máximo ao escutar a porta ser fechada após entrarmos. Paro em meio a saleta apertando minhas mãos enquanto a aguardo falar.
Em silencio, mamãe passa por mim seguindo diretamente para um armário no canto, pega uma chave do bolso em seu vestido, abre a segunda porta do móvel localizado junto a janela de onde retira uma caixa que põe sobre o birô.
—O que...é isto? – não consigo evitar perguntar, encolhendo-me quando ergue seu olhar frio para mim.
Devo admitir: nunca havia reparado como mamãe pode ser intimidadora quando deseja.
—Isto, minha querida filha, é a diferença entre liberdade e cadeia para um certo jovem – afirma, fazendo-me reter o ar nos pulmões –Quando ficou interna, perguntei a bondosa senhora Hallowey se havia atirado suas veste no lixo e disse-me que iria fazê-lo, mostrando o saco no qual as pusera – conta, abrindo a caixa lentamente. Reconheço a peça lá dentro imediatamente – Tem algo a contar-me Caitlin? Algo que fez e Não deveria ter feito? Algo que envolve aquele miserável Merlyn? – questiona-me, abrindo meu vestido, uma pequena mancha de sangue sendo vista ao centro da saia, entre a sujeira acumulada.
—E-eu...não estou entendendo aonde quer chegar mãe – assumo, tensa.
—Quero chegar em você esquecendo tudo que ensinei-lhe. Quero chegar em você deixando-se seduzir e deitando-se com aquele cafajeste, é aonde quero chegar!! — exclama, seu tom baixo e forte deixando claro o quão zangada estava – Seu pai contou-me a pouco que ele teve o atrevimento de pedir para corteja-la – continua, baixando o olhar em direção a caixa enquanto alisa o tecido roto – Deixei claro minha posição, mas conheço seu pai e sei que ira ceder caso diga ser isto que deseja – ergue seu olhar para mim outra vez e ao fazê-lo temo-a como nunca a temi antes – Infelizmente Sei que deseja receber a corte daquele infeliz...ainda mais depois disto! – indica a mancha novamente.
—Mamãe...eu...eu não estou entendendo – titubeio, encolhendo-me quando circula a mesa vindo até mim.
—Então serei clara – diz, aproximando-se — Não a criei ou a suas irmãs, com tamanho zelo e devoção, para vê-las estragarem-se a desqualificados como ele, arrastando o nome de nossa família na lama, dando-se ao desfrute!! – praticamente cospe as palavras, segurando meu pulso com firmeza – Quando seu pai regressar irá dizer-lhe que não deseja ser cortejada pelo Merlyn. Que respeitara nossa decisão e irá casar-se com aquele que determinarmos – ordena, apertando-me com mais força – Caso desobedeça-me, farei com que seu pai perceba o cafajeste fingido que Thomas Merlyn é. Contarei que se aproveitou da situação para tê-la. Verá como deixará de lado toda gratidão por manter aos dois vivos esvaecera-se rapidamente. O convencerei que aproveitou-se da situação para seduzi-la, como já fez com outras. Se o infeliz der sorte, seu pai o porá apenas na cadeia – ameaça — Imagino o quanto meu marido ficara possesso ao perceber que foi enganado! – comemora, sorridente.
—Não faria isto! Poderia expor-nos também– tento chama-la a razão, o nó em minha garganta dificultando-me a fala, meu pulso ardendo com a dor.
—Não da maneira como farei — garante, tranquila, levando-me as lágrimas.
—Por que faz isso? Por que odeia tanto a Thomas? – questiono-a aos prantos.
—Não é de sua conta! Trate apenas de obedecer-me se não quiser ver aquele infeliz ser execrado em praça pública. Sabe que o farei. Faço qualquer coisa para evitar vê-la tornar-se uma Merlyn. Qualquer coisa! – reitera enfaticamente – De hoje em diante, se encontrar com ele na rua irá virar-lhe o rosto. Se o vir antes que a veja, mudara de lado. Sequer um bom dia dar-lhe-á mesmo estando em companhia de sua aia ou minha. Irá deixar claro que o que existiu entre vocês acabou! – ordena, fuzilando-me com o olhar – Faça isto e nada de mal acontecera ao rapaz. Desobedeça-me, uma única vez, e saberei e o farei pagar caro por a haver maculado — assegura, soltando-me quando anuo com um aceno, incapaz de falar – Agora suba e recomponha-se antes de tomar seu desjejum – manda, fechando a bendita caixa – Mais uma coisa – chama minha atenção quando saia e estanco, voltando-me para ela – Nem pense em contar o teor de nossa conversa a ninguém ou irá arrepender-se! – avisa.
—Sim...senhora – respondo aos soluços – Posso retirar-me? – pergunto.
—Deve – libera – E não demore-se. Não quero sua irmã enchendo-me de perguntas – avisa.
Novamente anuo, esperando sair de sua vista para correr a meu quarto, aonde dou vazão a toda dor que sentia...
**** Flashback Off ****
...Tenho seguido suas ordens à risca desde então, deixando todos, a começar por Thomas, completamente confusos.
Thea e Olivia por vezes tentaram fazer-me contar-lhes o que acontecia mas não o fiz, elas acabando por desistir. Mesmo Adissa, que persistia continuamente, não conseguira fazer-me revelar o que passava-se, porque passara, de uma hora para outra, a aceitar abertamente a corte do homem que jurava detestar enquanto repudiava aquele que havia-lhe confessado amar.
E hoje as coisas só iriam piorar posto que o tal filho do patrão de meu pai virá a cidade juntamente com seu pai a fim de conhecer-me, ou seja, terei oficialmente um novo pretendente.
—Que farei, Senhor? Como poderei escapar do destino infeliz para mim traçado por minha mãe ao lado de um homem que não amo? E como não fazer Thomas infeliz juntamente? Ou irá esquecer-me tão logo case-me? E se não amar-me da mesma forma que o amo? Se tudo não passou de entusiasmo passageiro? E se deixou-se envolver pela magia do momento e quando retornamos percebeu não ser real o que sentia? – questiono-me abraçada ao travesseiro, assustando-me ao escutar a voz de Adissa, que entrara sem que a notasse.
—Sabia!! Tinha certeza de que havia algo errado e que vossa mãe estava por detrás de sua frieza com o senhor Thomas!! – comemora, contendo-se ao ver minha tristeza – Perdoe-me senhorita, mas disse tantas vezes a senhora Gertrudes e as meninas que havia-lhe acontecido algo de muito ruim para fazê-la agir como vem agindo. Já não reconheço a senhorita alegre e vibrante, apaixonada pela vida...e por certo rapaz.....
—A quem não posso almejar pertencer algum dia!! – corto-a, sentando-me – Sim, está certa. Não tenho sido eu mesma desde a partida de meu pai – confesso, suspirando.
—Que houve senhorita? Por que tem rejeitado o senhor Thomas mesmo o amando? Que vossa mãe fez-lhe? – Adissa questiona-me, afagando meu cabelo carinhosamente.
—Nada. Ainda. Não fez-me nada mas poderá fazer e não a mim mas a ele – começo dizer, olhando a porta apreensiva – Mamãe ameaçou fazê-lo ser preso ou pior caso não agisse como ordenou-me – confesso por fim.
—Mas como poderia fazer tal coisa? – questiona-me – Vossa mãe ainda dorme. Ficou acordada até tarde agilizando os preparativos para o jantar de logo mais e ordenou não ser acordada antes do almoço – informa ao ver-me olhar a porta novamente e sinto-me tão aliviada que acabo por contar-lhe tudo que sucedera, sua expressão transmutando-se de espanto para horror tão logo termino.
—Pelos céus Adissa, mamãe não pode sequer desconfiar que contei-lhe a verdade! – imploro, encarando-a aflita.
—Não saberá senhorita – assegura-me – Agora entendo sua tristeza e apatia. Sequer passa-me pela cabeça o quanto tem sido difícil a senhorita esconder tudo isto de todos – solidariza-se, sentando-se na cama.
—O pior tem sido ter que rejeitar Thomas em público – assumo – Imagino como deva estar confuso isto se não odiar-me pelo que tenho-lhe feito – suspiro, secando uma lagrima com a ponta do cobertor – Se ao menos pudesse explicar-lhe, se pudesse fazer-lhe entender o que está a se passar comigo...
—Escreva-lhe! – Adissa sugere de repente.
—Acaso pensa que já não cogitei ou mesmo tentei fazê-lo? – digo, tristemente – Mamãe controla tudo que sai de casa, especialmente de minhas mãos. Por que pensa haver sido castigada semana passada? – revelo.
—Oh!! Vossa mãe disse estar sentindo-se mal e que ela mesma cuidaria da senhorita. Até deu-me o dia de folga – relembra, mordendo o lábio, ficando pensativa um segundo – Faça senhorita. Escreva-lhe uma carta contando tudo que darei um jeito de entregar-lhe ainda hoje! – assegura.
—Não sei Adissa. Se mamãe desconfiar, terá problemas e não sei se conseguirei protege-la de sua ira – pondero.
—Não pense senhorita, apenas faça – reitera, decidida – E não preocupe-se, sei cuidar-me bem – tranquiliza-me, pondo-se de pé – Agora escreva que ficarei a porta, alerta, para o caso de alguém surgir – prontifica-se, seu entusiasmo contagiando-me.
Estico-me, alcançando o criado mudo de onde retiro meu diário e lápis. Sento-me, recostada a cabeceira, rasgando uma folha, escrevendo no ritmo que meu coração batia a mais importante carta de minha vida!
*** Adissa (8:41 a.m) ***
Deixo o quarto após ajudar a senhorita Caitlin banhar-se e vestir-se.
Apesar de ter-lhe dito que ficasse tranquila, não era assim que sentia-me. Meu coração saltava tanto no peito que se acaso abrisse a boca poderia saltar-me pela boca tamanho nervoso que sentia.
Precisava cumprir a promessa feita a senhorita. Não suportava vê-la sofrendo como estava. Mas como? Como sair sem levantar suspeitas? Como chegar até a carta sob sua janela sem ser vista?
—Pense Adissa, pense!! – estimulo-me mentalmente enquanto sigo para a cozinha, a solução vindo-me da senhora Gertrudes.
—Nora, vá a mercearia e traga-me estas compras o mais rápido possível! – ouço-a ordenar e praticamente corro, adentrando a cozinha de supetão, recuando ao ver a senhora sentada a mesa.
—Algo errado senhorita Slone? – questiona-me, entrelaçando os dedos.
—Nada senhora. Apenas vim... vim... – atrapalho-me, o que não é nada bom para mim.
—Estou esperando senhorita – diz, olhando-me de alto a baixo – Acaso tencionava sair? – pergunta, deixando-me ainda mais tensa.
—Pedi a Adissa que fosse a confeitaria para mim, minha mãe. Acordei com desejo de comer as tortinhas de limão feitas pela senhora Lacrosse – escuto a senhorita Caitlin dizer e retenho o ar. Estava provocando a mãe propositadamente e isto poderia não ser nada bom para ela. Nem para mim
Durantes tensos minutos o silencio impera no ambiente. De repente, a senhora levanta-se e, sem nada dizer, desfere uma sonora bofetada no rosto da senhorita Caitlin fazendo-me estremecer. Por certo receberia o mesmo tratamento.
Preparo-me mentalmente para tal quando volta-se para mim, porém nada acontece a princípio.
—Erga os braços – ordena repentinamente tocando-me no ombro e obedeço mais do que depressa. Suas mãos apalpam-me agressivamente mal o faço, tateando-me inclusive dentro do corpete de meu vestido. Por um segundo, quando abaixa-se a meu lado, penso que iria ergue minha saia mas não o faz, limitando-se desamarrar minhas botas verificando seu interior – Ajude Nora com as compras. Na volta, compre as tortinhas – libera, indo sentar-se depois de haver-se certificado não estar escondendo nada – Quanto a você, sente-se e tome seu desjejum. Quando terminar, volte para seu quarto. Descera somente quando mandar chama-la – determina, a senhorita Caitlin obedecendo em silencio, indo sentar-se junto a mãe, o rosto ainda vermelho – Apressem-se. Meu marido chegara em breve e provavelmente teremos convidados para o almoço – anuncia – Nada de tagarelar com outros criados. Façam o que devem e regressem. Há muito a ser feito – completa.
—Sim senhora – anuo, fazendo-lhe uma reverencia antes de pegar uma cesta, Nora fazendo o mesmo, a senhora Gertrudes entregando-lhe a lista de compras.
—Adissa, traga-me tortinhas também – a senhorita Olivia pede-me, a voz embargada denunciando-a.
—Trarei senhorita – digo, dirigindo um olhar solidário a minha senhora antes de sair com Nora.
—Pobre senhorita Caitlin. A senhora não dá-lhe trégua! – exclama minha amiga, enrugando o cenho quando vê-me ir até o jardim sob a janela dos quartos – Que está fazendo Adissa? – pergunta e volto-me com o dedo nos lábios pedindo-lhe silencio.
Olho para o lados certificando-me que ninguém observava-nos antes de catar o envelope cinza, dobrando-o e pondo-o cuidadosamente entre meu vestido e a faixa em minha cintura.
—Adissa, que está aprontando? – questiona-me quando seguro-a pela mão, praticamente arrastando-a rua afora.
—Ajudando a senhorita a lutar por sua felicidade! – respondo, já buscando em minha mente uma forma de entregar a carta ao senhor Thomas sem chamar atenção.
*** Thomas (11:24 a.m) ***
—Snow! – ouço o chamado e paro o que fazia, voltando-me a tempo de ver o pai de Caitlin parado em meio a rua alguns metros de onde encontro-me, Adrian Chase indo encontra-lo.
Durante um breve segundo dirige-me um olhar estranho, como a pedir-me desculpas, logo voltando sua atenção a meu...senhor.
Retomo meus afazeres, dando-lhes as costas, porém não consigo desligar-me da conversa, que migrara para o trecho final da varanda na mercearia, a sombra. Os dois conversam em tom moderado, uma ou outra palavra chegando a meus ouvidos.
—Merlyn, que está fazendo? – Chase praticamente berra e estanco, tenso, olhando o caixote em minhas mãos – Estes caixotes, os três, devem ser levados para o estoque – alerta e dou-me conta que carregava o objeto para uma carroça próxima – Preste atenção ao serviço estupido! – xinga e respiro fundo, engolindo a raiva, dirigindo-me a lateral do armazém por onde poderia acessar o estoque mais fácil e rápido.
Lá dentro, ponho o caixote em seu lugar, parando um segundo a fim de recobrar a calma. Respirando lenta e profundamente.
Desde que retomei minhas obrigações perante ele (Snow cumprira o que prometera, liberando-me), Chase estava ainda mais implicante, para dizer o mínimo. Não dava-me sossego durante todo o tempo. Mal deixava-me comer. Havia sempre algo a ser limpo, mudado de lugar, entregue e agora, além de servi-lo no armazém, também mandava-me a sua residência realizar pequenos trabalhos, (sempre sob vigilância, infelizmente), o que dificultava-me manter a promessa feita ao senhor Snow de esforçar-me em dobro a fim de mostra-me digno de sua filha ainda que a esperança em dar-me sua permissão para corteja-la fosse mínima (para não dizer ínfima!).
—Jovem Merlyn — escuto chamarem e volto-me, deparando-me com o dito – Não tomarei seu tempo posto que conheço bem o mau humor de Chase – começa, erguendo a mão quando vou protestar – Deixe-me falar por favor – pede-me, fazendo meu coração disparar. Será que havia-me enganado? – Prometi-lhe pensar acerca do pedido que fez-me e o fiz – garante, limpando a garganta, aumentando minha expectativa – Assim como fez o que disse-me iria fazer mesmo com dificuldades – diz, puxando ar de uma forma que faz, antecipadamente, minha esperança definhar – Quero que saiba o quanto admiro sua tenacidade e força de vontade. Tem demonstrado ser um rapaz trabalhador, respeitoso e isto certamente lhe trará bons frutos em breve e uma boa esposa...Mas não minha filha – declara por fim – Sinto muito meu rapaz, mas minha esposa está irredutível. Chegamos a discutir pouco antes de viajar quando toquei neste assunto e honestamente não creio que tenha mudado de ideia nestes poucos dias em que estive ausente – declara — Não quero problemas em meu casamento. Por essa razão, não dar-lhe-ei lhe permissão para que faça a corte a Caitlin – reforça – Ser-lhe-ei eternamente gato por a ter mantido segura e viva até serem resgatados e honestamente espero que supere o que diz sentir por ela, encontre uma boa jovem e seja feliz – deseja, tocando meu ombro antes de retirar-se deixando-me sozinho...pelo menos assim julgava estar, o riso sarcástico de Adrian Chase ecoando pelo galpão.
—Ahhh, Thomas, Thomas – recita, aproximando-se – Achou mesmo que Carla Snow lhe permitiria cortejar a filha? Justo ela, que está sendo pretendida por duas grandes fortunas? – interroga, recostando-se a parede defronte a mim, encarando-me de braços cruzados – Ainda que tivesse tomado a menina para si quando estavam longe, não dar-lhe-ia permissão. Antes a faria casar-se tão rápido que sequer teria chance tentar impedir acontecer – assegura, rindo-se mais — Dar-lhe-ei lhe um conselho: esqueça-a. A jovem Caitlin está fora de seu alcance. Teve sua chance. Deveria ter-se aproveitado estarem longe do controle materno, em especial, e sumir mundo afora levando-a consigo, se realmente a queria. Agora, de volta e tendo a mãe a influenciá-la com acenos de uma vida farta, repleta de mordomias, por certo irá render-se, se já não o fez – insinua – Diga-me: acaso o procurou após regressarem? Têm mantido contato? Suas famílias tornaram-se amigas depois de a ter salvo da morte? – interroga, ele próprio dando a resposta – Não. E não irá fazê-lo. Além de obediente, como toda boa filha o é, sabe que não tem nada a ganhar estando a seu lado. Porque para elite como vocês, isto é tudo que importa: dinheiro, pode, posição! – cospe as palavras em minha cara — Resta-lhe aceitar... ou roubá-la no meio da noite – sugere, rindo de viés — Do contrário, irá vê-la ser entregue a outro, Wilson talvez, casar-se, ter filhos e esquece-lo tão logo passe a desfrutar do que não pode oferecer-lhe– discursa, saindo da posição que encontrava-se – Agora volte a suas tarefas. Quero fechar o armazém cedo pois, ao contrário de você, fui convidado a jantar na casa dos Snow logo mais à noite, quando o novo pretendente a mão de Sua amada, irá conhece-la e muito provavelmente pedir e receber permissão para fazer-lhe a corte ...ou quem sabe já firmem compromisso, afinal, os comentários e maledicências acerca do tempo em que esteve a sós com a menina já começaram. As pessoas estão a questionarem se permanece de fato pura! – provoca-me – Ande, volte a lida. Não quero atrasar-me – ordena, dando-me as costas, subindo a seu escritório ainda rindo-se – Ah, uma coisa devo agradecer-lhe: há tempos não divertia-me tanto! – exclama, olhando-me do alto da escada, dirigindo-me um sorriso cínico antes de entrar, batendo a porta, suas palavras reverberando em minha mente.
—Não será de mais ninguém Caitlin. Não permitirei. Nunca! – rosno baixinho, cerrando meus punhos – Será minha e somente minha! Dou-lhe minha palavra. Mesmo que para isto precise...
—Ai está você! – a observação tira-me monologo e volto-me, deparando com Louis, um dos atendentes do balcão — Thomas, estamos precisando de ajuda na frente. O movimento aumentou de um salto – informa – Poderia vir?
—Sim – limito-me responder, engolindo a raiva momentaneamente, seguindo-o para a frente do armazém, que encontrava-se apipado de gente.
Distraio-me ajudando nas compras de algumas freguesas, esquecendo o tal jantar em casa dos Snow logo mais por um curto período, o mesmo voltando-me a memoria quando ouço uma voz familiar.
—Oh, como sou desastrada!! – exclama a jovem aia de Caitlin, Adissa, se não engano-me – Perdão – pede, abaixando-se para limpar o estrago que fizera ao quebrar um pote de biscoitos.
—Deixe senhorita, limparei tudo – apresso-me, indo até ela, abaixando-me – Pare. Meu patrão irá irritar-se se a vir fazendo meu serviço – peço, segurando-lhe uma mão, surpreendendo-me quando segura-me com a outra, pondo algo contra a mão que apertava.
—Da senhorita – sussurra, erguendo-se rápido, deixando o armazém antes que pudesse entender o que se passava.
Olho o envelope cinza cuidadosamente dobrado que entregara-me discretamente, confuso.
—Merlyn, que faz parado? – Adrian Chase surge – Há entregas a fazer. Mexa-se! – ordena, batendo sobre o balcão.
—Sim senhor – respondo, guardando o envelope em minha cintura de forma que não pudesse ser visto, recolhendo os cacos rapidamente, erguendo-me, seguindo meus afazeres, deixando a leitura para o final do dia.
**** Narrador (19:37 p.m)****
A noite cai sobre a cidade de Starling e seus moradores.
Na residência dos Snow, os serviçais correm, finalizando os preparativos para o jantar enquanto os anfitriões arrumavam-se, nem todos animadamente.
—Thomas já terá lido a carta? Dar-me-á credito? Irá entender e perdoar-me? Quem sabe pensara numa forma de resolver esta situação. Já contei-lhe o quanto é engenhoso?– Caitlin pergunta, ansiosa, andando pelo quarto, inquieta.
—Apenas uma dezena de vezes senhorita – responde-lhe a aia, sorrindo amável – Não saberia responder-lhe, mas se o fez por certo dará um jeito de falar-lhe. Agora é melhor que sente-se, senhorita. Precisa terminar de arrumar-se para o jantar – recomenda, fazendo a jovem sentar-se defronte a penteadeira.
—Este jantar será um verdadeiro tormento para mim Adissa – suspira, mirando-se no espelho – Além de aturar o detestável senhor Wilson e o tal filho do patrão de meu pai, terei de fingir todo o tempo. Ser educada, dar atenção aos dois, sorri-lhes mesmo não sentindo-me feliz – declara, enxugando uma lágrima que teimava cair.
—Posso imaginar senhorita, mas precisa ou vossa mãe irá cumprir as ameaças feitas ao senhor Thomas – lembra a aia, penteando o cabelo de sua senhora – Devo prender seu cabelo senhorita? – questiona.
—De qualquer jeito está bom Adissa, pouco importa-me – responde a jovem, dando de ombros, deixando outro suspiro escapar por seus lábios.
—Prenderei um lado com presilhas e deixarei o resto solto. Ficara linda — decide, pegando a caixa de joias da jovem – Estas combinam com seus olhos – diz, exibindo um par de presilhas com pequenas pedras em tons esverdeado – Gosta?
—Já disse, por mim tanto faz. Thomas não estará aqui para ver-me – diz, tristonha, a batida leve na porta antecedendo a entrada de sua mãe.
—Está pronta? O senhor Wilson acaba de chegar e o senhor Crumble e o filho não tardam. Não desejo que atrase-se, mesmo sendo interessante causar ansiedade em seus pretendentes – declara, examinando as presilhas – Deixe parte do cabelo solto. Dar-lhe-á um ar mais elegante – recomenda, aproximando-se da filha, segurando-lhe o queixo de forma que pudesse olhar em seus olhos – Trate de pôr um sorriso radiante no rosto – ordena.
—Como posso sorrir se meu coração está pesado?– rebate a moça, sentindo os dedos apertarem-lhe mais intensamente, causando dor.
—Finja! – ordena, soltando-a sem gentileza – E nem pense em fazer qualquer de suas brincadeiras de mal gosto ou irá arrepender-se– alerta, saindo sem esperar resposta.
—Acalme-se senhorita. Tudo há de ficar bem – declara a jovem aia.
—Será que ficara Adissa? E se Thomas não leu a carta? Ou se leu e não deu-lhe crédito? E se já esqueceu-me nos braços de outra? – conjectura, aflita, a batida leve evitando a resposta da aia.
—Cait? – Olivia chama, adentrando o quarto, indo sentar-se ao lado da irmã – Como está linda minha irmã! – exclama, sorrindo sincera – Sei bem que gostaria de estar-se arrumando para receber outra pessoa e se estivesse ao meu alcance, seu desejo seria atendido – garante, encarando-a através do espelho – Está tão linda....e tão triste – comenta.
—Mas devo sorrir ou mamãe cumprira....- cala-se de repente ao dar-se conta do que estava prestes dizer – Ou mamãe ficara furiosa – corrige-se.
—E por certo cumprira as ameaças que fez ao senhor Thomas não é? – surpreende-a Olivia, rindo pequeno ao ver a expressão nos rostos da irmã e de sua aia – Não sou cega e surda menos ainda. Ouvi mamãe recomendando-a comporta-se caso quisesse manter o senhor Thomas a salvo. Só não entendo como de forma ela pode ameaça-lo – comenta, levando um dedo ao queixo, pensativa.
—Acredite, ela pode Liv – Caitlin garante – Quando esta maldita noite passar, contar-te-ei tudo mas terá de prometer-me não deixa-la notar que sabe ou dará no mesmo que desafia-la indo vê-lo – implora, empertigando-se – Adissa, termine logo este cabelo. Quanto mais cedo este jantar começar, mais cedo findara e estarei livre. Ao menos por hora. Hei de conseguir libertar-me algum dia! – diz, suspirando, fazendo as duas jovens trocarem um olhar preocupado.
—Pois não senhorita – responde a aia, dedicando-se a finalizar o penteado, Olivia aguardando-as.
As três jovens descem as escadas juntas, Adissa sempre dois passos atrás de sua senhora, atraindo atenção dos presentes ao chegarem no topo da escadaria, um jovem que não conheciam antecipando-me aos mais velhos, recebendo-as uma a uma educadamente, beijando-lhes a mão, inclusive da aia, surpreendendo-a.
—Senhor Crumble, estas são minhas filhas, Olivia e Caitlin – Dominique Snow apresenta, indicando-as com um gesto de mão, o homem alto, tão parecido com o jovem que as recebera no sopé da escada, que mesmo negando não deixaria dúvidas acerca da identidade do referido rapaz.
—Senhoritas, é uma honra conhece-las. Vosso pai não estava a exagerar quando falava-nos de sua beleza, se permitem-me o atrevimento – elogia, repetindo o gesto que o filho fizera – Deixe-me apresenta-las o jovem apressado, e atrevido – pisca o olho fazendo-as corar – Que adiantou-se recebe-las. Stephen Crumble, meu filho do meio – apresenta, o rapaz fazendo-lhes uma reverência, seu olhar detendo-se um segundo a mais sobre Adissa, que cora violentamente, apressando-se em deixar a sala rumo a cozinha aonde ajudaria no serviço.
—Gratas pelos elogios senhor Crumble – Olivia agradece, segurando a saia, erguendo-a minimamente, inclinando a cabeça, Caitlin a seu lado imitando-a, correndo o olhar pelo ambiente ao erguer-se novamente, reconhecendo o prefeito Darhk, o delegado e sua filha mais velha, Laurel, Monsenhor Robinson, Robert e Moira Queen com a filha Thereza, sua irmã mais velha, Evelyne, acompanhada do marido, o senhor e a senhora Danvers, a filha destes, Kara, Adrian Chase, Salde Wilson além de outros amigos da família e membros da sociedade de Starling e da vizinha Central City.
—Agora que todos estamos reunidos, passemos a antessala aonde serão servidas bebidas e petiscos antes do jantar – convida Dominique, dando o braço a esposa, sinalizando as filhas seguirem adiante deles, sendo prontamente obedecido.
—Não foram convidados – Olivia cochicha ao ouvido de Cait – Os Merlyn. Eles não foram convidados – reforça.
—Imaginei – responde a jovem, baixando a vista a fim de disfarçar a lagrima que teimava cair, o toque em seu braço fazendo-a olhar seu lado esquerdo deparando-se com o sorriso simples e sincero de Thea Queen.
—Estamos aqui pra você – avisa, Kara inclinando a cabeça a fim de ser vista também, a jovem retribuindo-lhes, tomando forte respiração ao adentrar a antessala da residência dos pais, preparada para o que quer que tivesse pela frente.... Ao menos assim julgava.
**** Saloon (20:20 p.m)***
Thomas sinaliza ao atendente para que trouxesse-lhe outra jarra de bebida, depositando a caneca vazia sobre a mesa, olhando o nada a sua frente, distraído.
Após deixar o armazém, decidira ir até a casa de Mama Smoak e deitar-se com sua favorita, Camile, a fim de esquecer-se de Caitlin e do jantar, porém isto mostrou-se um erro.
Primeiro, chocara-se com o novo corte e cor de cabelo da jovem, não desistindo por pouco. Quando no quarto, sequer despira-se por completo posto que entre uma caricia e outra, um beijo e outro, trocara o nome da jovem, irritando-a. Não era a primeira vez que o fazia no decorrer do mês e a garota não apenas jogara-lhe o fato na cara como também revelara ter sido este o motivo de haver cortado e pintado o cabelo, irritando-o. Acabaram por discutir feio, ele retirando-se, indo direto ao bar, onde permanecia, bebendo, sozinho, em um canto.
—Ai está você! – a voz jovial de Barry Allen exclama, o rapaz sentando-se a mesa sem convite prévio – Estava a procura-lo e....
—Encontrou. Já pode ir-se – corta-o Thomas, mal humorado, enchendo a caneca tão logo o garçom deposita a jarra sobre a mesa.
—Assim? A seco? Não oferece-me sequer uma caneca de cerveja!? – interroga o rapaz, sinalizando ao atendente – Eddie, Ollie...- começa dizer, o som de uma bandeja indo ao chão seguido do pedido de desculpas fazendo-o fechar os olhos apertado – Ray, como deve ter notado, estávamos a procura-lo justamente para um drink – conta, o jovem Palmer parando junto a mesa onde encontravam-se, limpando-se, a face ainda rubra pela vergonha.
—Thomas, que coincidência! – exclama, sentando-se, fazendo Barry rolar os olhos – O que? Acaso disse algo errado? – questiona, abrindo as mãos.
—Uma dica: combinem o discurso antes para não darem mancada – resmunga Thomas, sorvendo o restante da bebida de um gole só, enchendo sua caneca novamente.
—Hã...Tommy, não acha que está exagerando? Está já é....- Ray interroga, contando as jarras vazias sobre a mesa, espantando-se – A quinta? Bebeu tudo isto sozinho? Sério? – questiona-o, pasmo.
—Assim acabara por embriagar-se pra valer e terá uma bela duma ressaca amanhã – Barry alerta, fazendo uma careta ao engolir o liquido frio do qual servira-se.
—E daí? Não tenho obrigações muito menos uma esposa chata a controlar-me...Ops, nisto enganei-me, parece-me que tenho sim e não apenas uma. Duas encontraram-me – ironiza o rapaz, apontando-os, tomando outro gole, fazendo uma careta ao ver Harper aproximando-se – Contei errado. Tenho cinco esposas e agora três encontraram-me– corrige-se, o jovem empregado de seu pai enrugando o cenho ao parar junto a mesa, confuso– Nenhuma é a que desejo!! – lamenta-se, seus três acompanhantes trocando olhares complacentes – Parem de olhar-me com pena!! E não digam nada. Não quero palavras de conforto. Menos ainda piedade!! – rosna, fuzilando-os com o olhar.
—Não trata-se de pena Tommy. Apenas... estamos solidários ...entendemos sua situação – Raymond atrapalha-se, ganhando novo olhar furioso que o faz encolher-se.
—O que Raymond quis dizer, é que estamos aqui para o caso de querer desabafar – Roy tentar concertar, encarando-o, sério.
—Isso – Barry corrobora.
—Não quero desabafar, quero impedi-la ser dada em casamento a outro homem -Thomas declara, batendo a caneca com força sobre a mesa, atraindo alguns olhares curiosos – Quero e vou!! – decide, pondo-se de pé tropegamente.
—Vai ? Como assim vai? Tommy, que cogita fazer? – Barry questiona, preocupado, levantando juntamente com Ray.
—O que já deveria ter feito desde que voltamos – declara, empurrando Harper, que barrava-lhe a passagem – Sai da frente – ordena, empurrando-o novamente.
—Desculpe-me, mas não posso. Não deixarei que faça algo do qual irá arrepender-se amanhã – argumenta o rapaz – Não posso deixa-lo ir até lá no estado que encontra-se senhor Thomas. Quando sóbrio, poderá ir ter com Snow e argumentar....
—Não entendem!? – interrompe-o, a voz levemente embragada pela emoção — Argumento nenhum fara aquela mulher aceitar-me como genro!! Odeia-me e nem ao menos sei o porquê!! – desabafa, recuando um passo, as lembranças do que Chase e Camile disseram-lhe vindo à mente – A não ser que...- silencia, baixando a vista um segundo.
—A não ser....- Barry instiga-o prosseguir, seus sentidos alertando-o de algo.
—Nada – responde Thomas após um segundo – Bobagem – diz, erguendo o olhar, fazendo menção mover-se, Roy impedindo-o – Banheiro. Posso? – interroga, recebendo passagem após breve hesitação por parte do rapaz.
—Que ele nutria sentimentos pela senhorita estava claro. Mas não imaginei serem tão profundos e fortes – Raymond comenta, fazendo Harper encara-lo – Sinto por meu amigo – declara, acenando ao ver Eddie e Oliver adentrando o recinto.
—Encontraram-no? – Eddie questiona, direto, estancando junto ao grupo, Oliver a seu lado.
—Sim. Estava a beber – Barry responde, indicando a mesa – Há um bom tempo ao que parece.
—Deve ter vindo direto para cá após deixar a casa de minha sogra – Oliver comenta, esfregando o queixo, tenso – Não devia tê-lo deixado sozinho hoje. Sabia que este jantar o afetaria – culpa-se, olhando em volta – Onde está? – questiona.
—Foi ao banheiro. Toda esta cerveja pediu passagem, suponho – Ray diz, fazendo uma careta.
—Quanto a deixa-lo só, não havia como evitar Oliver. Todos, inclusive Tommy, temos nossas obrigações. Mesmo que quiséssemos, não daria para tê-lo sob nossa vista o dia inteiro – Barry argumenta – Além disto, quando o vimos adentrar a casa de Mama Smoak, relaxamos posto que julgamos iria ficar com Camile a noite toda– argumenta.
—Só não contávamos que justamente hoje fossem brigar – Ray diz, abrindo as mãos, por pouco não acertando o atendente que viera limpar a mesa.
—Matando a saudade do antigo emprego senhor ajudante do xerife? – o rapaz provoca Eddie, rindo torto.
—Por que limpa a mesa? – devolve o loiro, ignorando-o, arqueando a sobrancelha.
—Porque seu ocupante não retornara. Saiu pela porta dos fundos há uns...
—Merda!! – xingam em uníssono, dirigindo-se a saída antes mesmo que terminasse a frase.
—Enganou-me direitinho!! – Roy lamenta-se, descendo o pequeno lance de escadas a frente do grupo – Sinto-me um idiota! – exclama.
—Não sinta-se. Qualquer um cairia no truque – Oliver minimiza, caminhando a passos firmes, estancando, assustado, ao deparar-se com Sara e Íris West – Diabos senhoritas, que fazem na rua a estas horas? – interroga-as, irritado.
—Ainda mais desacompanhadas!! – Barry exclama, olhando-as preocupado.
—Meu pai foi ao bendito jantar em casa dos Snow juntamente com Laurel e Íris foi fazer-me companhia – começa a loira, continuando sem dar-lhes chance dizer algo – Estávamos a varanda tomando uma fresca quando duas coisas chamaram-nos atenção: uivos de lobos e Thomas Merlyn passando feito um raio em direção a dita casa. Não iriam distrai-lo por conta do bendito jantar? – reclama, levando as mãos a cintura ao encarar Raymond, este abrindo e fechando a boca, desistindo de contestar.
—Tommy é bem grandinho, caso não tenha percebido ainda senhorita Sara, e escolhe suas próprias distrações – Eddie retruca, retomando a caminhada seguido de perto pelos demais.
—Então...??? – Íris questiona, quase correndo para acompanha-los.
—Então que a rameira com a qual costuma deitar-se resolveu bancar a esposa ciumenta ou algo do gênero e o espantou – responde, irritado.
—Estavam na casa de Smoak?? – Sara inquire, olhando-os desconfiada.
—Fomos certificar-nos de que estaria lá e uma das meninas avisou-nos que saíra após discutir com a tal garota e antes que indignem-se, devo lembra-las que lá também é a residência de minha sogra – Oliver adianta-se, o grupo estancando ao escutar uivos – Eddie...
—Sigam para a casa de Snow e tentem impedir nosso amigo fazer uma bobagem. Verei se tratam-se dos filhotes – sugere, separando-se sem esperar resposta.
—Vamos -Oliver chama, retomando a caminhada – Espero não seja tarde demais.
*** Residência Snow (22:46 p.m) ***
Reunidos na sala, convidados e anfitriões acompanhavam, encantados, Olivia Snow tocar ao piano diversas obras clássicas com precisão e elegância.
Recolhida em canto mais discreto, Thea e Kara faziam companhia a Caitlin, que brincava com a pequena taça de licor, vazia, em suas mãos, mirando um ponto qualquer do outro lado do ambiente, o olhar a denunciar-lhe a tristeza.
—Cait, tente sorrir, sua mãe está a observar-nos – Thea alerta – E o jovem Crumble aproxima-se – acresce, sorrindo, a jovem soltando um rápido suspiro antes de empertigar-se, imitando-a.
—Não precisa sorrir se não o deseja fazer senhorita – surpreendem-se ao escuta-lo dizer tão logo as cumprimenta – Não entendo o porque de sua tristeza, mas espero sinceramente não ser eu – declara, sorrindo tão sinceramente que a garota sente-se mal.
—Perdoe-me senhor Stephen, minha tristeza nada tem a ver com sua presença – assegura-lhe, sorrindo fraco.
—Folgo em saber pois mesmo que não firmemos compromisso, o que, honestamente, espero não aconteça, ao menos não hoje – surpreende-as outra vez – Gostaria de ser seu amigo, e das senhoritas também – declara, dando atenção a Thea e Kara – Meu pai pretende que fixe residência em Starling e cuide desta filial de nosso banco e admito que estava incomodado – revela, sentando-se na cadeira defronte as jovens – Ouvi muitas coisas a respeito de vossa cidade. A maioria um pouco assustadoras – confidencia – Mas, o que mais apavorava-me era não encontrar companhia decente para conversar, trocar ideias sobre livros e outras novidades, e pelo pouco que pude perceber enganei-me, graças aos céus! – exclama, unindo as mãos, arrancando-lhes sorrisos, aprumando-se a fim de dar espaço Adissa, que chegava com uma bandeja.
—Mais doces senhoritas? – pergunta a aia, fazendo menção sair quando estas rejeitam.
—Eu gostaria senhorita...- impede-a o rapaz, segurando-lhe discretamente o antebraço, a jovem servindo-o, fingindo não entender a indireta dada.
—Adissa – Caitlin responde por ela, sorrindo com vontade pela primeira vez em toda a noite – Adissa Slone, minha aia e amiga – apresenta-a.
—Adissa...diferente, porem um belo nome.... Para uma bela jovem – elogia ele, fazendo-a corar – Conhece o significado? – questiona, de repente, a jovem negando com um aceno – É de origem Grega. Significa limpa, brilhante – diz – Há também quem diga tratar-se de uma variação de Hadassa, nome Hebraico da rainha Ester. Conhece a historia da rainha que salvou seu povo da morte certa? – questiona, mas antes que possa seguir, a atenção de todos é chamada pelas palmas ao final do recital de Olivia.
—Bravo senhorita! Toca divinamente bem – elogia o senhor Crumble, beijando-lhe a mão – Estou encantado – declara, fazendo a jovem corar – Vejo, Snow, que vossas filhas são pequenas joias. Ficaria por demais satisfeito em tê-las como noras – acresce, Carla Snow sorrindo entusiasmada.
—A mim também seria um imenso prazer ter vosso filho como genro – declara Dominique, sinalizando a Caitlin e o rapaz aproximarem-se, estes obedecendo sem contestar.
—Devo lembra-lo meu caro Snow, que igualmente alegrar-me-ia tornar-me vosso genro – Slade Wilson declara, tomando a mão de Caitlin, beijando-a acintosamente – Não é segredo que desejo fazer a corte a senhorita há bastante tempo. Não entenda-me a mal meu caro Crumble – pede, não permitindo a jovem desvencilhar-se – Apenas estou deixando claro estar disposto a disputa-la, se for o caso – diz, provocando alguns risos.
—Não chegaremos a tanto meu caro – Dominique Snow declara.
—Não mesmo – a voz trôpega faz-se ouvir pelo ambiente, fazendo os presentes voltarem-se em sua direção.
—Thomas – Caitlin sopra, tensa, encarando o jovem.
—Senhor Dornelli, como permitiu este... senhor adentrar? – Carla Snow esbraveja, dando dois passos em direção ao rapaz – Retire-se! Não foi convidado a minha casa muito menos a este jantar – ordena.
—Sim senhora – Thomas responde com fingida obediência, fazendo que sairia, estancando e encarando a mulher – Mas espere...Não devo-lhe obediência. Não mais! – declara, dirigindo sua atenção a Dominique Snow – Não haverá nenhuma disputa pois não há o que disputar – afirma , apoiando-se ao piano – Não pode dá-la a ninguém pois....
—Quem pensa ser para dizer-me o que posso ou não fazer em minha casa? -Dominique Snow interrompe-o, irritado – Ponha-se para fora antes que faça algo que arrependa-se ou faça-me arrepender da decisão tomada no que refere-se ao débito de vosso pai – ameaça, indicando-lhe a porta, Quentin Lance adiantando-se, segurando-o pelo braço.
—Venha meu rapaz. Melhor que saia pacificamente – sugere, tentando conduzi-lo para fora.
—Não vou a lugar nenhum!! – esbraveja o jovem, libertando o braço com força demasiada, perdendo minimamente o equilíbrio.
—Está bêbado!! – Wilson exclama, olhando-o com desprezo.
—Tommy, vá embora por favor – Thea implora, aproximando-se do irmão – Não faça isto a você . Terá chance ....
—Conte a eles Cait!! – ignora-a, caminhando em direção a jovem, Dominique barrando-lhe o caminho – Conte-lhes que não pode casar-se com estes dois ou com qualquer outro – pede, encarando-a, fazendo-a reter o ar nos pulmões.
—Que está querendo insinuar?? – Dominique encara-o com olhos faiscantes.
—Merlyn, cuidado com o que dirá a seguir – adverte-o Lance, tenso.
—Tommy, por favor – Thea implora novamente, segurando-lhe o braço, fazendo com que olhasse em seus olhos – Que pensa estar fazendo? – questiona.
—O que é preciso – responde, desviando o olhar – Senhor Snow, faltei-lhe com a palavra dada – recomeça – Trouxe-a para casa ....mas não ...somos os mesmos de antes – titubeia, olhando a jovem por sobre a cabeça do pai – Sinto não ter-lhe dito antes...na verdade, esperava poder corrigir-me, fazer as coisas da forma correta, entende? Por isto pedi-lhe permissão para corteja-la. Queria...quero agir certo desta vez....
—Pare de enrolar! Diga o que tem a dizer e saia! – alguém exclama por detrás da parede, desviando atenção do rapaz um segundo.
—Thomas??? – Caitlin chama, encarando-o entre surpresa e confusa.
—Não posso permitir que se vá, nem continuar a enganar vossos pais – diz ele, sustentando seu olhar – Perdoe-me – pede, num meio sussurro, voltando a encarar o pai da jovem – Não pode dá-la em casamento a outro homem porque a fiz minha! – revela, causando alvoroço nos presentes — Nos deitamos enquanto estávamos perdidos. Mais de uma vez. Pertencemos um ao outro...- o soco desferido por Snow cotando-lhe a fala, fazendo-o desequilibrar-se e cair ao solo.
—MENTIRA!! – Carla Snow grita, voltando-se para a filha – Diga-lhes que é mentira – ordena, encarando-a, esta encontrando-se em choque – Caitlin, diga-lhes que ele mente. Desmascare este cafajeste diante de todos – reitera, assustando a jovem ao segurar-lhe o braço com força, puxando-a para frente com certa violência – Fale – ordena, alterando a voz, tirando-a do torpor, fazendo-a olhar primeiramente o rosto lívido de sua mãe. Em seguida, o pai ofegante e tenso, punho ainda cerrado. A seguir, visualiza os rostos dos presentes a observa-la. Por fim, atem-se a Thomas, ainda caído, seus olhares encontrando-se brevemente – Caitlin!! – a mãe sacudindo-a para que falasse.
—Eu...eu.... – balbucia, dirigindo um olhar de suplica ao pai, as lágrimas umedecendo lhe o olhar – Sinto muito....
—Caitlin...- o tom de advertência usado por sua mãe não surtindo o efeito esperado.
—Não posso fazer o que pede-me, minha mãe, porque é verdade. Deitei-me com Thomas – confirma, encarnado o rapaz mais uma vez, causando, além do imenso burburinho, o desmaio de sua mãe...
Continua...
“...Simplesmente aconteceu;
Quem ganhou e quem perdeu;
Não importa agora;
Não importa..”

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