​Ato I: O Banquete dos Rústicos e dos Nobres

​O Salão de Festas da Fazenda das Carvalheiras não possuía a imponência de mármore de Viena, mas exalava uma riqueza calorosa e acolhedora. Grandes lustres de ferro forjado sustentavam dezenas de velas de cera de abelha, iluminando a imensa mesa de madeira de lei. Pratos de assados suculentos, pães artesanais, queijos curados e travessas transbordando com os primeiros grãos de café torrados decoravam o centro do banquete.

​O Conde Frederick, em um gesto de extrema consideração pelo trabalho impecável da safra, fizera questão de assentar Sebastian e Thomas à mesa principal, um pouco mais afastados da ala real, mas integrados à celebração.

​— Hoje não celebramos apenas a colheita, mas o suor de quem faz esta terra pulsar! — proclamou o Conde Frederick, erguendo sua taça de prata. — À Saúde de Vossas Majestades e ao futuro do nosso império!

​— À saúde! — bradou o salão em coro.

​A atmosfera do jantar era viva e intensa. Músicos locais tocavam violas e flautas a um canto, criando um ritmo festivo. Contudo, na cabeceira real, a tensão cortava o ar como uma lâmina de gelo.

​Claire mal tocara na comida. Seus olhos, travados sob cílios compridos, buscavam involuntariamente a figura de Sebastian a todo instante.

​O ex-marido conversava calmamente com Julian von Berg. Ele sorria de forma espontânea — um sorriso verdadeiro e leve que Claire raramente testemunhara nos últimos meses de palácio. Ele segurava a taça de vinho com firmeza, brincava com o jovem herdeiro da fazenda e demonstrava uma vivacidade magnética.

​Nenhum dos nobres da região ou membros da servidão desconfiava da verdadeira identidade de Sebastian. Para todos, ele era apenas o talentoso e misterioso administrador de campo do Conde.

​A Rainha Seyran observava a filha de relance, notando como o olhar de Claire queimava de um misto de ciúme, saudade e humilhação. A cada risada baixa que Sebastian dava do outro lado da mesa, o peito da princesa contraía-se em um aperto sufocante. Ela percebia, com dolorosa clareza, que ele parecia infinitamente mais feliz como um plebeu naquelas colinas do que jamais fora como Rei Consorte em Viena.

​Ato II: A Visita na Ala dos Servos

​A celebração estendeu-se até o início da madrugada. Assim que o jantar encerrou-se formalmente, Sebastian despediu-se do Conde com uma breve reverência e recolheu-se para a ala leste da propriedade, onde ficavam os alojamentos mais reservados dos funcionários de confiança.

​No quarto destinado a ele — um cômodo simples, iluminado por uma única arandela e aquecido por uma modesta lareira de pedra —, Sebastian vestia uma camisa de linho leve. Ele estava sentado diante de uma pequena escrivaninha de carvalho, compenetrado na revisão dos relatórios de contabilidade da semana.

​Três batidas tímidas na porta de madeira quebraram o silêncio do corredor.

​Sebastian franziu o sobrolho, imaginando ser Thomas. Ele levantou-se, caminhou até a porta e a puxou devagar.

​Ao abrir, seu corpo paralisou por uma fração de segundo.

​Claire estava de pé no corredor escuro. Ela não vestia os pesados mantos de estado; usava um vestido mais simples de lã verde-esmeralda, com os cabelos parcialmente soltos caindo sobre os ombros. Seus olhos azuis brilhavam com uma névoa de incerteza e mágoa.

​Sebastian soltou um suspiro longo e contido — um arfar pesado que denunciou o impacto daquela presença —, mas logo recuperou a compostura. Ele deu um passo para o lado, deixando a passagem aberta sem proferir uma única palavra.

​Claire entrou devagar, olhando ao redor. O quarto era pequeno: uma cama estreita com cobertores grossos, um armário rústico e a mesa de trabalho repleta de papéis.

​— Não sabia se o encontraria acordado... — começou Claire, a voz vacilante, quebrando o silêncio carregado.

​Sebastian não a encarou diretamente. Ele caminhou de volta para a escrivaninha, sentou-se na cadeira de madeira e pegou a pena de ganso, voltando a focar os olhos sobre as colunas de números do relatório.

​— A noite já vai avançada, Vossa Alteza — disse ele, a voz num tom terrivelmente calmo e impessoal. — A ala dos empregados não é um lugar adequado para a Princesa Herdeira da Áustria.

​Claire deu dois passos à frente, sentindo a frieza daquele tom cortá-la por dentro.

​— Sebastian, por favor... olhe para mim — pediu ela, aproximando-se da mesa. — Nós precisamos conversar sobre como as coisas terminaram em Hofburg. Sobre tudo o que aconteceu...

​— Não há nada sobre o que conversar, Alteza — respondeu ele de forma mecânica, sem levantar os olhos do pergaminho, mergulhando a ponta da pena no tinteiro. — Os papéis foram assinados. O Chanceler selou o decreto. A senhora tem o seu reino de volta e eu tenho a minha vida.

​Desesperada por atenção, Claire deu um passo mais rápido e colocou a mão espalmada sobre o pergaminho que ele analisava, cobrindo os números.

​— Pare de olhar para esses papéis! — exigiu ela, a voz embargada pelo orgulho ferido e pelo desespero. — Eu estou aqui! Estou na sua frente! Você realmente vai me ignorar como se eu fosse uma estranha qualquer?! Como se os anos que passamos juntos nunca tivessem existido?!

​Sebastian finalmente parou. Ele soltou a pena sobre a mesa.

​Lentamente, ergueu o rosto e fixou seus olhos escuros nos dela. Não havia ódio em seu olhar. Não havia raiva. Havia apenas uma distância vasta, fria e intransponível — o olhar de um homem que já havia chorado tudo o que tinha para chorar e cujos sentimentos haviam finalmente se transformado em pedra.

​— A senhora escolheu me tratar como um traidor e um estranho no momento em que rasgou a minha dignidade no Salão do Conselho, Princesa — disse ele com extrema serenidade. — Eu apenas aprendi a aceitar o papel que me foi dado.

​ele levantou-se devagar, organizando as folhas de papel com gestos precisos e metódicos, ignorando a mão dela que tremia sobre a madeira.

​— Agora, se me dá licença, preciso me recolher — declarou Sebastian, fazendo uma breve e impecável inclinação de cabeça. — Diferente dos nobres da corte, amanhã não poderei dormir até mais tarde. Tenho que me levantar ao alvorecer para cuidar dos animais e supervisionar os colonos no campo. Tenha uma boa noite, Alteza.

​Claire paralisou. Sentiu a garganta dar um nó cego, e um calor escaldante de humilhação subiu por seu rosto. Ele a estava dispensando de forma cortês, tratando-a com a mesma indiferença profissional com que tratava qualquer estranho na fazenda.

​Sem conseguir emitir mais nenhuma palavra, com os lábios trêmulos e os olhos marejados, Claire virou as costas e saiu do quarto, ouvindo o som suave da porta caindo de volta no trincado atrás de si.

​Ato III: O Choque da Verdade

​Caminhando a passos rápidos pelo corredor com o peito arfando, Claire retornou à ala nobre da propriedade. Ao entrar na antessala de seus aposentos, encontrou seu irmão Richard e sua cunhada Genevieve à sua espera.

​Richard estava encostado na lareira com os braços cruzados, enquanto Genevieve acomodava-se em uma poltrona de veludo. Ao verem a expressão devastada e o rosto corado de Claire, os dois entenderam imediatamente de onde ela vinha.

​— Você foi até o quarto dele, não foi? — perguntou Richard, a voz grave, mas sem severidade.

​Claire levou a mão à testa, tentando conter um soluço, e deixou-se cair sobre o sofá.

​— Ele me tratou como se eu não fosse nada... — sussurrou ela, as lágrimas finalmente transbordando. — Como se eu fosse uma intrusa! Ele sequer olhava para mim! Ficou checando a droga de relatórios da fazenda enquanto eu falava com ele!

​Genevieve, que até então sempre se mantivera quieta e reservada em relação às decisões da família real, ergueu a cabeça. Ela olhou diretamente para Claire, e pela primeira vez, sua expressão trazia uma firmeza cortante.

​— E o que você esperava, Claire? — perguntou Genevieve, a voz ressoando com uma candura dolorosa.

​Claire piscou, surpresa com o tom da cunhada.

​— Como assim, Genevieve? Ele era meu marido!

​— Não, ele era seu marido até você expulsá-lo como um cão de caça! — disparou Genevieve, sem rodeios. — Você o destruiu, Claire. Nós assistimos a tudo no palácio. Ele definhou dia após dia, implorou pelo seu perdão, abriu mão de títulos, de ouro, de herança e de tudo o que tinha por amor a você! E você pisou no peito dele até não restar mais nada.

​— Ele escondeu a carta do pai dele! — defendeu-se Claire, a voz trêmula. — Ele errou!

​— O pai dele errou! — corrigiu Genevieve, levantando-se da poltrona e dando dois passos à frente. — Sebastian errou ao se calar por medo de te perder, mas ele nunca executou plano algum contra a Áustria! Ele te amava! E hoje, quando você olha para ele, vê um homem que finalmente encontrou paz e saúde longe do seu desprezo. Você achou mesmo que bastaria estalar os dedos e ele cairia de joelhos aos seus pés de novo? O orgulho cega você, Claire. Mas a verdade é que você colheu exatamente o que plantou.

​As palavras de Genevieve caíram sobre o peito de Claire como uma sucessão de golpes devastadores. A princesa encarou a cunhada, chocada pela dureza das palavras, e em seguida buscou o apoio do irmão.

​— Richard... você vai deixar ela me falar essas coisas?

​Richard olhou para a irmã com um suspiro profundo e melancólico. Ele aproximou-se de Genevieve e colocou a mão sobre o ombro da esposa, demonstrando total apoio.

​— Pela primeira vez, Claire... a Genevieve está absolutamente certa — disse Richard com a voz suave, mas firme. — Nós te amamos, você é minha irmã e a Princesa deste império. Mas você destruiu o homem que te dava a vida. Agora não adianta chorar porque ele aprendeu a viver sem você.

​Richard pegou a mão de Genevieve, e os dois caminharam em direção à porta da antessala. Antes de sair, o príncipe parou e olhou uma última vez para a irmã.

​— Descanse, Claire. Amanhã a visita às lavouras continua.

​A porta se fechou com um som suave, deixando o ambiente mergulhado no silêncio.

​Claire permaneceu sentada no sofá, sozinha no meio da antessala iluminada apenas pelo fogo fraco da lareira. As palavras de Genevieve ecoavam em sua mente como um martelo, desmontando cada uma de suas antigas certezas. Ela abraçou os próprios joelhos, encolhendo-se no estofado, enquanto as lágrimas corriam frias por seu rosto, perdida em um mar de arrependimento e solidão.