O preço da Coroa Amor ,Sedução e ilusão

13 O Sabor do Veneno e o Peso do Orgulho



​A manhã seguinte começou com a luz fria do outono invadindo o Salão do Conselho, onde a reunião sobre a expansão das plantações e o abastecimento de grãos para o inverno estava prestes a começar. No entanto, o foco de Claire passava longe dos números e dos relatórios agrícolas sobre a mesa.

​Sentada no trono da cabeceira, a jovem rainha passava os olhos por cada cadeira ocupada pelos parlamentares. Ela procurava discretamente por um par de olhos castanhos e provocantes, mas a cadeira reservada ao Duque de Suffolk permanecia vazia. A ausência dele a perturbava. Como o homem que tivera a audácia de invadir seus aposentos e roubar-lhe um beijo avassalador na noite anterior simplesmente não aparecia para trabalhar?

​Assim que o Conde von Wertheim encerrou a sessão, Claire levantou-se bruscamente. Ela chamou um dos guardas da corte pelo canto do olho e entregou-lhe uma ordem direta.

​— Vá até os aposentos de Lorde Suffolk. Diga-lhe que a rainha exige a presença dele no gabinete real imediatamente.

​As horas se arrastaram pesadas. O sol fez seu trajeto pelo céu de Viena até começar a se pôr no horizonte, tingindo o gabinete de tons alaranjados e sombras longas.

​Sebastian passara o dia inteiro isolado em seu quarto. Pela primeira vez em toda a sua vida de libertino inveterado, o Duque de Suffolk sentia uma profunda e incômoda vergonha. A lembrança de ter agido por puro impulso, movido pelo ciúme descontrolado e pela paixão, o deixara vulnerável — uma sensação que seu orgulho inglês detestava.

​Apenas ao entardecer, sabendo que não poderia evitar a soberana para sempre, Sebastian finalmente caminhou pelos corredores até o gabinete. Ele vestia uma casaca escura elegante, mas seus passos eram hesitantes. Ao passar pela porta, encontrou Claire de pé perto da lareira, a silhueta emoldurada pelo fogo.

​— Vossa Majestade mandou me chamar... — disse ele, mantendo a voz contida e o olhar ligeiramente baixo.

​Claire virou-se devagar. Os olhos verdes faiscavam com uma determinação perigosa.

​— Tranque a porta, Sebastian. E aproxime-se.

​Sebastian franziu o cenho, surpreso com o tom imperioso, mas obedeceu. Girou a chave de ferro na fechadura com um clique seco e deu passos lentos até ficar a meio metro dela.

​— Claire, sobre a noite passada... eu devo me desculpar pela minha conduta intempestiva... — começou ele, tentando demonstrar a compostura diplomática.

​— Cale a boca — interrompeu ela num tom aveludado e firme.

​Claire deu um passo rápido à frente, encurtando o espaço. Ela ergueu o rosto, encarando-o bem no fundo dos olhos, a respiração acelerando.

​— Eu não quero as suas desculpas, Lorde Suffolk. Eu quero mais do que fizemos ontem.

​Sebastian piscou, momentaneamente desarmado pela audácia direta da rainha.

​— O... o quê? — murmurou ele, sem entender.

​Antes que ele pudesse raciocinar, Claire o segurou pela lapela do casaco com força e o empurrou para trás. Sebastian, pego de surpresa, tropeçou levemente e caiu sentado sobre o estofado de veludo do grande sofá do gabinete. Sem dar margem para hesitação, Claire subiu em seu colo, engrenando as pernas ao redor da cintura dele e selando seus lábios nos dele com uma urgência incandescente.

​O mundo ao redor pareceu explodir. O choque inicial de Sebastian dissolveu-se em um segundo. Suas mãos espalharam-se pelas costas dela, apertando a cintura fina sobre o tecido do vestido, enquanto retribuía o beijo com uma paixão avassaladora. Claire puxou os cabelos escuros da nuca dele, aprofundando o contato da língua, soltando um gemido abafado contra a boca do duque. O clima no gabinete esquentou rapidamente; a respiração dos dois tornou-se arfante, as mãos de Sebastian subindo pela coxa dela sob as saias, o desejo queimando sem controle.

​Contudo, quando a mão dele roçou a renda de sua roupa íntima e o calor da pele se fez mais intenso, um estalo de lucidez atingiu a mente de Claire. O choque da realidade a puxou de volta. Ela não podia entregar sua inocência ali, naquele sofá, daquela forma descontrolada.

​Claire interrompeu o beijo bruscamente, apoiando as mãos no peito largo de Sebastian e empurrando-o levemente para trás para recuperar o ar.

​Sebastian, totalmente entregue à intensidade do momento, manteve as mãos acariciando a cintura dela. Seu olhar, antes cínico, estava agora inundado por uma doçura e uma vulnerabilidade inéditas. Ele ajeitou uma mecha dos cabelos ruivos dela atrás da orelha, com um carinho de uma delicadeza profunda.

​— Claire... — sussurrou ele, a voz rouca e carregada de uma emoção genuína. — Eu não posso mais fingir que isto é apenas um jogo. Eu estou completamente rendido a você. Por favor... case-se comigo. Seja minha esposa.

​A palavra casamento ecoou nas paredes do gabinete como um balde de água gelada.

​Claire foi arrancada do transe apaixonado instantaneamente. A imagem das conversas sobre a reputação dele, os avisos de Richard e a lembrança da fama de libertino de Sebastian invadiram sua mente. Ela piscou, o encanto quebrando-se em mil pedaços.

​— O quê?! — exclamou ela, a voz subindo de tom enquanto se levantava bruscamente do colo dele.

​Sebastian a encarou, confuso com a reação repentina, e também se levantou do sofá.

​— Claire, eu estou falando sério! Esquecemos as intrigas e o parlamento. Eu amo você!

​— Não! — esbravejou Claire, dando passos para trás e cruzando os braços, os olhos verdes transbordando raiva e desconfiança. — Você acha que eu sou ingênua, Sebastian?! Acha que pode me seduzir neste sofá e depois usar um pedido de casamento impulsivo para abocanhar a coroa da Áustria?!

​— Do que você está falando?! — retrucou ele, surpreso e magoado pela acusação. — Isso não tem nada a ver com a coroa!

​— Tem tudo a ver com a coroa! — disparou a rainha, o queixo erguido com todo o seu orgulho soberano. — Você pensou que eu cairia no seu charme barato! Mas saiba que eu nunca cairei nas suas garras! Eu sei exatamente o que você é, Lorde Suffolk... Você é apenas um canalha manipulador que troca de sentimentos como quem troca de roupa!

​As palavras de Claire atingiram Sebastian como um golpe físico direto no peito. O brilho de afeição nos olhos dele apagou-se instantaneamente, dando lugar a uma rigidez fria e profundamente ofendida. Ele deu um passo à frente, a mandíbula travada.

​— Canalha? — a voz dele saiu baixa, mas carregada de uma fúria contida. — É assim que você enxerga tudo o que aconteceu entre nós? Como uma grande manipulação?

​— É a única explicação para a sua audácia! — sustentou ela, recusando-se a dar o braço a torcer.

​Sebastian soltou uma risada amarga e sem humor, ajeitando a casaca com um gesto brusco e formal.

​— Se essa é a sua visão sobre mim, Vossa Majestade... então eu não tenho mais nada a fazer nesta corte.

​Ele virou-se sobre os calcanhares, caminhou até a porta, destrancou a fechadura com violência e saiu pisando fundo, batendo a madeira pesada com um estrondo que ecoou por todo o corredor.

​No quarto de Sebastian, a cena era de puro caos. O jovem duque entrou fuzilando tudo com o olhar, arrancando a casaca e jogando-a sobre a cama com fúria.

​Thomas, que polia um par de botas, deu um salto pelo susto.

​— Meu lorde! O que aconteceu?!

​— Arrume as malas, Thomas! — ordenou Sebastian, a voz trêmula de indignação enquanto caminhava de um lado para o outro. — Arrume tudo agora mesmo! Nós vamos embora da Áustria hoje à noite!

​— Ir embora?! Mas e a reunião de amanhã? E o parlamento? E a rainha?! — perguntou o criado, atônito.

​— A rainha me considera um canalha que só quer o trono dela! — bradou Sebastian, despejando a raiva acumulada. — Eu abri o meu coração, Thomas! Eu me inclinei diante dela como nunca me inclinei diante de mulher alguma na minha vida, e ela cuspiu no meu rosto com o orgulho cego daquela coroa! Não fico mais um segundo neste palácio para ser tratado como um usurpador fútil!

​Enquanto Thomas começava a dobrar as roupas com pressa diante do acesso de raiva do patrão, no outro lado do castelo, Claire permanecia encostada na mesa do gabinete. A raiva inicial começava a dar lugar a um aperto sufocante no peito. Ela olhou para o sofá vazio e levou a mão ao peito, dividida entre a certeza de ter protegido seu reino e o medo aterrorizante de ter destruído a única coisa real que sentira desde a morte de seus pais.