O preço da Coroa Amor ,Sedução e ilusão
24 O Reencontro no Vale das Carvalheiras
Ato I: A Proposta no Parlamento
A grande sala do Parlamento Imperial em Viena fervilhava com o murmurar dos nobres e diplomatas. Pela primeira vez em meses, o Conde Frederick von Berg fazia-se presente na capital. Homem prático e avesso à rotina pomposa da corte, o conde preferira cruzar as estradas para trazer pessoalmente relatórios sobre as terras do sul.
No trono central, o Rei Kenan e a Rainha Seyran presidiam a sessão com a dignidade impecável de sempre. Ao lado deles, na ala dedicada aos príncipes de sangue, a Princesa Claire mantinha a postura ereta, trajando um vestido de veludo bordô encimado por detalhes em prata. Ao seu lado, seu irmão Richard, acompanhado por sua esposa Genevieve, observava os discursos com atenção.
Quando o Conde Frederick adiantou-se até o centro do salão, fez uma profunda e respeitosa reverência diante dos soberanos.
— Majestades, Lordes do Conselho — iniciou o conde, a voz firme ressoando por entre as colunas de mármore. — Trago notícias prósperas das províncias do vale sul. Nossas primeiras lavouras experimentais de café atingiram a fase de colheita. Os grãos estão maduros, e o aroma da produção promete um novo e lucrativo capítulo para o comércio do nosso império.
Um tom de aprovação percorreu a bancada dos nobres. O Rei Kenan inclinou-se para a frente, interessado.
— Uma conquista notável, Conde Frederick — declarou Kenan. — O cultivo do café era uma aposta ousada para as nossas terras.
— Exatamente, Vossa Majestade — sorriu Frederick. — E é por isso que me atrevo a fazer um convite formal. Seria uma honra inestimável para minha família e para toda a região receber a Família Real na Fazenda das Carvalheiras. Gostaria que observassem pessoalmente a beleza e a fartura dessa colheita antes que os sacos sejam distribuídos para o mercado internacional.
Seyran olhou para Kenan, trocando um sorriso cúmplice de apreço pela proposta. A rainha então voltou-se para a filha e para o filho.
— Aceitamos com imenso prazer o seu convite, Lorde von Berg — respondeu Seyran. — Partiremos com sua comitiva assim que a sessão parlamentar for encerrada.
— Eu e minha esposa Genevieve também faremos questão de acompanhar Vossas Majestades — interveio Richard, segurando a mão da esposa com carinho. — Ouvimos falar muito da beleza do vale sul.
Claire apenas assentiu com uma leve inclinação de cabeça, mantendo a expressão serena.
— Será uma excelente oportunidade para inspecionarmos o progresso das províncias, meu pai — disse a princesa, sem ter a menor noção do destino que a aguardava no final daquela viagem.
Ato II: A Vida nas Lavouras e o Anúncio
A três dias dali, na Fazenda das Carvalheiras, o clima era de trabalho intenso e bom humor.
Sebastian e Thomas estavam no pequeno escritório anexo ao celeiro principal. A rotina do ex-duque mudara radicalmente: se pela manhã ele pegava na enxada, carregava fardos pesados e lidava diretamente com a terra, à tarde seu intelecto brilhante tornara-se indispensável. Ele documentava toda a contabilidade das safras, registrava as horas dos trabalhadores e organizava os livros de carga de forma tão impecável que o Conde Frederick lhe concedera total autonomia administrativa.
— Olhe para estas planilhas, Thomas — disse Sebastian, apontando com a pena para o caderno de capa de couro sobre a mesa de madeira rústica. — Com a eficiência que ajustamos nos turnos de colheita, a fazenda dobrará a margem de lucro em relação ao ano passado.
Thomas, que limpa os arreios de couro a um canto, sorriu com genuína satisfação ao ver o amigo.
— O senhor nasceu para liderar, seja vestindo sedas em um palácio ou camisas de linho bruto no campo — comentou Thomas. — E devo confessar... o trabalho ao ar livre fez milagres pelo seu aspecto. O senhor parece renovado.
E Thomas não mentia. O trabalho braçal diário devolvera a Sebastian uma força física impressionante. Seus ombros haviam se alargado, a palidez doentia dera lugar a um bronzeado saudável de sol, e suas feições ganharam traços mais marcados e definidos. Com os cabelos um pouco mais longos caindo desalinhados pela testa e usando roupas simples — uma camisa de pano cru levemente entreaberta no peito e calças de couro surrado —, ele exalava uma presença magnética, selvagem e livre, longe da rigidez dos salões nobres.
Nesse momento, Julian von Berg entrou abruptamente no escritório, visivelmente animado.
— Sebastian! Thomas! Larguem tudo por um instante! — exclamou o jovem nobre, batendo palmas.
— O que houve, Julian? — perguntou Sebastian, erguendo a cabeça com um sorriso calmo.
— Meu pai acabou de mandar um mensageiro a cavalo! — anunciou Julian. — A sessão no Parlamento correu de forma magnífica. E o melhor de tudo: a Família Real aceitou o convite do meu pai! Eles chegam em três dias para inspecionar a colheita de café!
Sebastian congelou por um milésimo de segundo, o polegar parando sobre a página da planilha.
— A... Família Real? — repetiu Thomas, a voz vacilando ligeiramente enquanto olhava de relance para o senhor.
— Sim! Os Reis, os príncipes, a comitiva inteira! — celebrou Julian, sem notar a tensão súbita que arrefecera o ambiente. — Precisamos preparar tudo. Sebastian, quero você ao meu lado para apresentar os relatórios de campo quando eles chegarem. Você é o único que conhece cada detalhe numérico desta lavoura!
Sebastian engoliu em seco. Ele sabia que a monarquia agora pertencia novamente a Kenan e Seyran, mas ignorava quais membros da casa real viriam ao vale. Forçando um tom controlado, ele assentiu devagar.
— Estaremos prontos, Julian. Tudo estará em perfeita ordem para os nossos convidados.
Ato III: A Chegada da Comitiva e o Reencontro
Três dias se passaram rapidamente sob o ritmo frenético de preparativos.
Quando a tarde do terceiro dia chegou, o sol alaranjado banhava as colinas do vale. Na entrada principal da Fazenda das Carvalheiras, todos os empregados, colonos e a própria família do conde — a Condessa Mathilde e Julian — alinhavam-se formalmente em um corredor humano para recepcionar a comitiva.
Sebastian e Thomas permaneciam um pouco mais ao fundo, entre os trabalhadores encarregados da recepção.
O som distante de cascos de cavalos e o rumor de rodas de carruagem fizeram o ar congelar. Logo, a imensa carruagem real, ostentando as armas e o brasão dourado da Casa Mackenzie, despontou na alameda cercada de carvalhos.
Ao enxergar o brasão reluzente na madeira da carruagem, Sebastian fechou os olhos por um breve segundo. Ele respirou fundo, puxando todo o ar que conseguia para firmar o peito. Ao abrir os olhos, cruzou o olhar com Thomas. O fiel amigo assentiu com um aceno quase imperceptível, transmitindo-lhe silencioso apoio.
A carruagem parou suavemente no pátio. Os guardas imperiais adiantaram-se e abriram a porta de carvalho polido.
O primeiro a desembarcar foi o Rei Kenan, seguido pela Rainha Seyran. Em seguida, Richard desceu, estendendo a mão com cavalheirismo para ajudar sua esposa, Genevieve. Por fim, ostentando toda a sua elegância e soberania, a Princesa Claire pisou na terra batida da fazenda.
A família von Berg inclinou-se em profunda reverência, acompanhada por todos os trabalhadores da propriedade.
— Sejam infinitamente bem-vindos à Fazenda das Carvalheiras, Vossa Majestade! — declarou o Conde Frederick, que desembarcara da carruagem de apoio para guiar os soberanos. — Minha esposa Mathilde e meu filho Julian sentem-se honrados com vossa presença.
— A honra é nossa, Conde Frederick — respondeu o Rei Kenan com voz calorosa. — A viagem foi agradável e a paisagem deste vale é verdadeiramente deslumbrante.
Enquanto as saudações formais aconteciam, os olhos dos nobres visitantes começaram a passear pela multidão de camponeses.
Foi Richard o primeiro a paralisar. Seus olhos pousaram na figura de pé ao lado de Thomas.
Genevieve segurou o braço do marido, soltando um suspiro abafado de surpresa. Seyran e Kenan olharam na mesma direção, mantendo a serenidade, mas revelando no olhar a constatação da transformação daquele homem.
Sebastian já não parecia de forma alguma o nobre pálido e definhado que assinara os papéis de anulação em Viena. Ele estava visivelmente mais forte, a musculatura firme desenhada sob a camisa simples de linho, o semblante marcado por uma beleza selvagem, máscula e intimidadora, mantendo uma altivez natural que nem as roupas de camponês conseguiam ocultar.
Então, os olhos de Claire cruzaram-se com os dele.
A Princesa parou no meio do caminho. O ar faltou-lhe completamente nos pulmões. Seu coração deu um baque tão violento contra as costelas que ela sentiu o mundo ao redor girar por um segundo. A imagem de Sebastian — radiante de saúde, com uma aura de liberdade viva e perigosamente atraente — atingiu-a como um choque elétrico. O impacto de vê-lo ali, naquelas circunstâncias, deixou-a em estado de transe.
Percebendo a atenção voltada para o grupo de trabalhadores, o Conde Frederick adiantou-se orgulhoso para fazer as apresentações dos membros chave da fazenda.
— Majestades, permitam-me apresentar aqueles que tornaram este milagre agrícola possível — disse o conde, fazendo um gesto para que Julian e Sebastian se aproximassem. — Este é meu filho Julian. E este ao seu lado é Sebastian.
O Conde Frederick sorriu, dando um tapa amigável nas costas de Sebastian.
— Embora tenha chegado há pouco tempo como um simples camponês, Sebastian revelou-se um homem de capacidade extraordinária. É ele quem administra nossas planilhas de colheita e organiza a logística dos nossos grãos.
Com perfeita compostura diplomática, a Família Real entendeu o protocolo tácito do momento. Para evitar um escândalo diante dos proprietários e dos colonos, agiram como se fosse a primeiríssima vez que viam aquele homem.
O Rei Kenan deu um passo à frente, estendendo a mão para Sebastian com um olhar carregado de significado velado.
— É um prazer conhecê-lo, jovem Sebastian — disse Kenan com firmeza. — O trabalho de homens dedicados como você é o pilar que sustenta o nosso império.
Sebastian segurou a mão do rei, curvando a cabeça em uma reverência impecável e profissional.
— A honra é inteiramente minha, Vossa Majestade — respondeu Sebastian, a voz grave e ressonante fazendo o peito de Claire estremecer. — Faremos o possível para que a estada da Família Real seja impecável.
A Rainha Seyran aproximou-se em seguida, dedicando a Sebastian um olhar profundamente acolhedor.
— Vejo que o ar do vale lhe fez muito bem, rapaz — comentou Seyran suavemente. — O trabalho honesto traz um brilho único ao rosto de um homem.
— Assim o é, Majestade — assentiu Sebastian, mantendo a postura serena.
Richard e Genevieve cumprimentaram-no com breves acenos de cabeça, os olhos de Richard revelando um misto de respeito e espanto com a reviravolta do destino.
Por fim, Sebastian voltou o olhar para Claire.
A princesa permanecia imóvel, a boca levemente entreaberta, o peito arfando sob a seda do vestido. A distância entre os dois parecia preenchida por uma tensão eletrizante, carregada de memórias, saudades e mágoas não ditas.
Sebastian sustentou o olhar denso de Claire por alguns segundos intermináveis. Em seguida, baixou os olhos e fez uma reverência rústica, porém elegante, dirigindo-se à mulher que um dia fora sua esposa e sua rainha.
— Seja bem-vinda à Fazenda das Carvalheiras, Vossa Alteza — disse ele com extrema cortesia, mantendo a voz impassível, como se ela fosse apenas mais uma nobre de passagem.
Claire engoliu em seco, sentindo as mãos tremerem por dentro das luvas de veludo. Ela tentou pronunciar uma palavra, mas sua voz simplesmente recusou-se a sair. Apenas um leve aceno de cabeça foi capaz de escapar da Princesa da Áustria, que assistia, em choque absoluto, ao renascimento do homem que o seu próprio orgulho expulsara de sua vida.
Fale com o autor