O preço da Coroa Amor ,Sedução e ilusão
23 O Peso do Orgulho e o Recomeço nas Sombras
Ato I: A Assinatura e a Rendição do Plebeu
O Grande Salão do Conselho do Palácio de Hofburg vestia-se de um silêncio sepulcral e sufocante. A iluminação de inverno entrava pálida pelas vitrais, projetando sombras longas sobre a imensa mesa de carvalho.
O Chanceler Real organizava sobre a madeira os espessos pergaminhos marcados com os selos imperiais de anulação.
Acomodados ao topo da mesa, a Rainha Seyran e o Rei Kenan observavam cada detalhe em absoluto silêncio. Seus olhares atentos transitavam de Claire — ereta, rígida, com a mandíbula contraída e o olhar fixo no vazio — para Sebastian. O jovem ex-duque parecia uma sombra de si mesmo: a pele pálida, as olheiras profundas e a respiração pesada revelavam um homem que já não lutava pela própria vida.
Seyran trocou um olhar significativo com Kenan. Os reis, velhos e sábios observadores da alma humana, enxergavam claramente o cordão invisível que ainda unia aqueles dois. Havia amor, um amor doloroso, dilacerado pelo orgulho e pelo engano. Contudo, sabendo que a soberania e as escolhas de Claire como regente deviam ser respeitadas, mantiveram-se neutros, sem interferir.
Mais ao lado, Richard mantinha os braços cruzados, a postura tensa. Ele olhava para Sebastian e sentia um nó apertar-lhe a garganta. O homem diante dele não lembrava em nada o nobre altivo e astuto de Suffolk. O ex-duque estava devastado, como se a alma tivesse sido arrancada de seu peito.
— Estamos reunidos para oficializar a anulação do matrimônio entre a Princesa Claire e o Lorde Sebastian Blackwood — declarou o Chanceler, a voz ecoando solene. Ele desdobrou o documento final. — Por este ato, todos os vínculos matrimoniais, títulos concedidos por aliança e reivindicações políticas ficam permanentemente dissolvidos.
O Chanceler selecionou as páginas e indicou o local das assinaturas.
Claire aproximou-se primeiro. A mão tremia quase imperceptivelmente ao pegar a pena de ganso. Ela firmou o pulso e assinou o próprio nome com traços rápidos e agressivos. Em seguida, deu um passo para trás, recusando-se a olhar para os lados.
Sebastian deu um passo à frente. Seu braço parecia pesar toneladas. Ele pegou a pena, encarou o nome de Claire no pergaminho por alguns segundos intermináveis e, com um suspiro fraco que cortou o salão, registrou sua assinatura.
— Está consumado — anunciou o Chanceler. Ele fez um sinal para dois guardas, que se aproximaram carregando um baú de madeira de lei reforçado com ferro batido. O guardião colocou a peça sobre a mesa e abriu a trava. O brilho reluzente de centenas de moedas de ouro refletiu no teto. — Como compensação estipulada pela Coroa para que o senhor possa se estabelecer dignamente fora do domínio imperial, a Casa Mackenzie concede este baú de ouro.
Sebastian olhou para o ouro. Depois, olhou para o Chanceler.
Lentamente, estendeu a mão magra, meteu os dedos no baú e retirou uma pequena quantidade de moedas, contando-as com paciência sob o olhar perplexo do salão.
— Uma, duas... cem — murmurou ele.
Ele guardou as exatamente cem moedas de ouro em um pequeno saco de couro surrado que trazia na cintura e fechou a pesada tampa do baú com um baque seco.
— Lorde Sebastian...? — indagou o Chanceler, surpreso. — A totalidade do ouro é sua por direito.
— Não sou mais lorde — respondeu Sebastian, com a voz rouca, porém firme. — E isto é mais do que o suficiente até que eu arrume um trabalho digno. Não levarei nada que pertença à Coroa ou que possa ser usado amanhã para dizerem que vendi o meu coração por ouro.
O salão emudeceu. Richard arregalou os olhos, impressionado com a atitude.
Sebastian deu dois passos para trás. Ele levantou o rosto e olhou uma última vez para Claire. A princesa continuava de perfil, embora os lábios trêmulos traíssem seu esforço desumano para não desabar.
Com extrema solenidade, Sebastian dobrou os joelhos e fez uma profunda reverência diante do Rei Kenan, da Rainha Seyran, de Richard e, por fim, de Claire.
— Agradeço a hospitalidade da Casa Mackenzie durante o meu tempo sob o seu teto — disse ele, a voz embargada, despindo-se do último vestígio de nobreza. — Despeço-me agora como um simples plebeu. Que a Providência proteja este reino e a vida de Vossas Majestades.
Ele se levantou, deu meia-volta e caminhou em direção às grandes portas do salão. Thomas o aguardava do lado de fora.
Na pátio do palácio, não havia carruagens reais com brasões dourados. Havia apenas dois cavalos de carga e uma pequena charrete coberta de lona cinza. Dentro dela, Thomas havia acomodado apenas os pertences mais simples: roupas de pano grosso, tapeçarias velhas e utensilagem básica de cozinha. Todo o vestuário de veludo, as joias e os presentes luxuosos haviam sido deixados intactos nos armários dos aposentos leste.
Sebastian subiu no cavalo com dificuldade, apoiado por Thomas. Sem olhar para trás, a pequena junta partiu, sumindo pelos portões de ferro de Hofburg sob a névoa fria da manhã.
Ato II: As Relíquias de um Amor Desfeito
Horas após a partida, o Palácio de Hofburg parecia mergulhado em um silêncio lúgubre. Claire caminhou pelos corredores até a ala leste. Suas pernas pareciam pesadas, movidas por um impulso doloroso que ela não conseguia controlar.
Ela abriu a porta dos aposentos de Sebastian. O quarto estava impecavelmente arrumado. Não havia nada fora do lugar, mas o vazio era ensurdecedor. Os armários estavam abertos, exibindo trajes caríssimos, joias e insígnias que ele recusara levar.
Ao se aproximar da grande cama de dossel, o olhar de Claire pousou sobre o lençol.
Ali, dobrada de forma simples, estava a camisa de linho preta de Sebastian — a peça que ele costumava usar nos dias informais, quando ficavam a sós no jardim longe dos olhos da corte.
A armadura de orgulho de Claire despedaçou-se instantaneamente.
Ela avançou, agarrou a camisa contra o peito e caiu sobre a cama. Enfiando o rosto no tecido, ela respirou fundo, sentindo o aroma amadeirado e marcante que ainda impregnava o linho. Um choro convulsivo e rasgado escapou de sua garganta. Ela abraçou a peça com força desmesurada, soluçando contra o travesseiro, sentindo a dor da perda rasgar sua alma em mil pedaços.
A porta do quarto abriu-se suavemente. A Rainha Seyran entrou devagar, acompanhada pelo farfalhar discreto de seu vestido. Ao ver a filha naquele estado, a rainha sentou-se na beira da cama e colocou a mão carinhosa sobre a cabeça de Claire.
— Minha filha... — chamou Seyran, com a voz suave. — Conte-me o que realmente aconteceu. Sem as meias-palavras do conselho ou dos papéis oficiais.
Claire ergueu o rosto banhado em lágrimas, apertando a camisa preta contra o peito.
— A carta, mãe... — murmurou Claire, entre soluços. — A carta do pai dele, o Duque de Suffolk... Dizia que o casamento era apenas um meio para tomar o trono da Áustria, para drenar nossas riquezas e nos destruir por dentro! Ele sabia do plano desde o começo! Ele me enganou!
Seyran ouviu tudo em silêncio, o olhar sereno, mas profundo. Ela acariciou os cabelos da filha e suspirou suavemente.
— Ele sabia do plano do pai, Claire... mas ele seguiu o plano?
Claire parou de chorar por um segundo, encarando a mãe.
— O pai dele assinou a confissão de traição, mas... mas Sebastian jurava que tinha mudado! Ele dizia que renegou a família por mim!
— E você não acreditou? — perguntou Seyran, encarando os olhos da filha. — Claire, um homem que deseja um golpe não recusa um baú inteiro de ouro. Um traidor não deixa para trás seus títulos, suas roupas luxuosas e suas joias para ir embora apenas com cem moedas e a roupa do corpo. Um ganancioso não aceitaria trabalhar como plebeu se o objetivo dele fosse a riqueza da Coroa.
Claire engoliu em seco, sentindo as palavras da mãe caírem como um peso insuportável sobre seu peito.
— Minha querida... o ser humano erra, mas também é capaz de mudar por amor — continuou Seyran, com a voz grave. — Talvez ele tenha chegado a este palácio com segundas intenções, mas o amor que ele desenvolveu por você o transformou. E você, cega pela mágoa e pelo orgulho, pode ter acabado de expulsar da sua vida o homem que realmente a amava mais do que a própria vida.
Seyran levantou-se devagar, ajustando o manto sobre os ombros.
— Pense nisso, Claire. Mas pense com o coração, não com a Coroa.
A rainha saiu do quarto, deixando a porta encostada. Claire permaneceu deitada, encarando o teto com a camisa preta apertada contra o peito. A dúvida começou a corroer suas certezas, mas a muralha do seu orgulho ferido ainda erguia-se alta e rígida.
— Não... — murmurou para si mesma, tentando convencer a própria alma. — Eu fiz o certo. A Coroa vem em primeiro lugar. Ele me enganou... ele tinha que pagar.
Ato III: O Povoado do Vale e a Fazenda do Conde
Três dias de viagem sob o vento gélido do inverno levaram Sebastian e Thomas a um pequeno e isolado povoado cravado entre as colinas do vale sul, distante de qualquer agitação política.
Com parte das moedas de ouro, Sebastian comprou uma pequena e modesta cabana de madeira e pedra na entrada da vila. O lugar era simples, mas aconchegante. Ele e Thomas passaram o primeiro dia ajeitando o espaço: posicionaram os móveis usados que compraram no mercado local, arrumaram as poucas tapeçarias para isolar o frio das paredes e distribuíram os utensílios de cozinha pela bancada.
Na manhã seguinte, vestindo roupas simples de camponeses — calças de tecido cru e camisas de lã grossa —, os dois saíram em busca de trabalho braçal.
— Tem certeza disso, milorde? — perguntou Thomas enquanto caminhavam pela estrada de terra. — O senhor nunca pegou em uma enxada ou carregou fardos de feno. O seu corpo ainda está fraco.
— Não me chame de milorde, Thomas — pediu Sebastian, a voz calma, embora seus olhos continuassem carregados de uma melancolia profunda. — Sou apenas Sebastian agora. E o trabalho braçal fará bem à minha cabeça. Preciso cansar o meu corpo para conseguir dormir à noite sem ver o rosto de Claire.
Eles chegaram à propriedade da Fazenda das Carvalheiras, uma vasta e próspera extensão de terra pertencente ao Conde Frederick von Berg, um nobre respeitado que preferia a vida do campo às intrigas da corte.
Ao chegarem ao pátio principal, foram recebidos pelo próprio conde, um homem de meia-idade de barba grisalha e expressão austera, acompanhado de sua esposa, a Condessa Mathilde, uma mulher de semblante bondoso. Ao lado deles estava o filho do casal, Julian von Berg, um jovem alto, de ombros largos e olhar vivaz, cerca de dois anos mais novo que Sebastian.
— Bom dia — cumprimentou o Conde Frederick, avaliando os dois homens. — Estão procurando trabalho?
— Sim, senhor — respondeu Thomas com presteza. — Somos trabalhadores vindos do norte. Meu amigo Sebastian e eu entendemos de manejo de animais, carga e manutenção. Estamos dispostos a aceitar qualquer serviço.
Frederick olhou para Sebastian. Apesar das roupas simples, a postura ereta do jovem e suas mãos sem calos evidentes chamaram a atenção do conde.
— Você não tem cara de quem nasceu atrás de um arado, rapaz — comentou o Conde Frederick, franzindo o sobrolho. — De onde vem esse porte?
— De uma vida que deixei para trás, Senhor Conde — respondeu Sebastian com serenidade e respeito. — Hoje, só o que procuro é um trabalho honesto e o pão de cada dia. Se me der uma oportunidade, provarei que não tenho medo do trabalho pesado.
Julian, o filho do conde, deu um passo à frente com um sorriso amigável, observando a determinação no olhar de Sebastian.
— Pai, precisamos de ajuda no celeiro leste e na preparação dos cavalos para o inverno — disse Julian. — Se eles têm disposição, acho que devemos dar uma chance.
O Conde Frederick assentiu devagar.
— Pois bem. Estão contratados. O pagamento será semanal, com direito a uma refeição ao meio-dia na cozinha da fazenda. Julian cuidará de supervisionar vocês.
— Agradeço a oportunidade, Senhor Conde, Condessa Mathilde — disse Sebastian, fazendo uma breve e cortês inclinação de cabeça.
Ato IV: Uma Nova Amizade no Celeiro
Nas semanas seguintes, a rotina de trabalho pesado começou a transformar Sebastian. Suas mãos ganharam calos, seus ombros fortaleceram-se com o peso dos fardos de feno e a convivência diária com a terra parecia curar, aos poucos, a ferida mortal de sua alma.
Julian von Berg não demorou a notar que Sebastian era diferente de qualquer outro camponês. Sua dicção era perfeita, sua inteligência para resolver problemas de logística na fazenda era brilhante e sua postura demonstrava uma educação refinada.
Em uma tarde fria, enquanto limpavam as baias dos cavalos de raça da fazenda, Julian jogou uma enxada de lado e sentou-se sobre um fardo de palha, oferecendo uma caneca de sidra quente a Sebastian.
— Beba um pouco — disse Julian. — Você trabalhou como um condenado hoje.
Sebastian aceitou a caneca e sentou-se ao lado dele, limpando o suor da testa com o antebraço.
— Obrigado, Julian.
— Você vai me contar um dia qual é a sua verdadeira história, Sebastian? — perguntou Julian com curiosidade genuína, encarando o amigo. — Você fala como um acadêmico, monta a cavalo melhor do que os guardas do meu pai e tem um olhar de quem já carregou o peso de um mundo nas costas.
Sebastian deu um gole na sidra e encarou a fumaça que saía da caneca.
— A minha história é apenas uma sucessão de erros, Julian — respondeu ele, com um sorriso fraco e melancólico. — Fui criado para ser algo que não queria, cometi o erro de me apaixonar pela pessoa errada e paguei o preço perdendo tudo o que eu tinha.
— Ela era nobre? — indagou Julian, perspicaz.
— Ela era... tudo — confessou Sebastian, a voz baixinha. — Mas o orgulho dela e o meu passado destruíram qualquer chance de darmos certo. Hoje, estar aqui, limpando celeiros e sentindo o cheiro da terra, é a única coisa que mantém a minha mente em paz.
Julian deu um tapa amigável no ombro de Sebastian.
— Pois saiba que, seja lá quem você foi no passado, aqui você ganhou um amigo. Você é o cara mais honesto e leal que já trabalhou nesta fazenda. E meu pai já está comentando que quer promovê-lo a administrador das baias.
Sebastian olhou para Julian e sentiu, pela primeira vez em meses, um calor sincero no peito.
— Obrigado, Julian. A sua amizade vale mais do que você imagina.
Enquanto a noite caía no tranquilo vale e Sebastian encontrava um novo propósito na simplicidade da vida no campo, a três dias dali, no frio e suntuoso Palácio de Hofburg, Claire permanecia acordada em seu quarto. Ela abraçava a camisa preta de linho, tentando em vão preencher o vazio avassalador que o seu próprio orgulho deixara em seu coração.
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