O preço da Coroa Amor ,Sedução e ilusão
1 O Leve Amanhecer e o Peso do Vento
O aroma de pães doces recém-assados, geleia de frutas vermelhas e café fresco preenchia a sala de jantar do palácio com um calor acolhedor que parecia afastar qualquer formalidade real. À mesa, a risada da rainha Seyran ressoava leve, acompanhada pelo olhar divertido de seu marido, o rei Kenan.
— Richard, se continuar encarando a torrada com essa cara de sono, vou começar a achar que a rainha da Suécia está cansando você mais do que os deveres de estado — provocou Seyran, ajeitando o guardanapo de linho sobre o colo.
— Mãe, por favor — Richard resmungou, embora um sorriso apaixonado denunciasse sua cumplicidade. — Genevieve exige atenção, é verdade, mas tenho certeza de que meu desempenho como príncipe e marido continua impecável.
— Impecável até o momento em que você esquece de passar o açúcar para sua irmã — interveio Claire, dando uma piscadela para o pai enquanto estendia a pequena colher de prata. — Bom dia para você também, meu caro futuro governante da Suécia por osmose.
Kenan soltou uma gargalhada grave, pousando a xícara de porcelana no pires com um estalido suave.
— Deixe seu irmão em paz, Claire. Ele ainda está se adaptando à ideia de que agora precisa responder a uma rainha dentro e fora do quarto. Mas falemos de coisas sérias: o regente cuidará de tudo durante nossa ausência. Quero que você observe como as coisas funcionam por aqui enquanto estivermos fora, minha filha. É um ótimo treino.
— Treino para quê, pai? — Claire sorriu, descontraída. — Vocês voltam em duas semanas. A única coisa que vou treinar é como evitar as reuniões chatas do conselho sem que o regente perceba.
— Nem pense nisso, mocinha — Seyran arqueou a sobrancelha, encarando a filha com um afeto transbordante. — Quando voltarmos com essas novas alianças seladas, faremos um baile inesquecível. Prometo que até deixarei você escolher a orquestra.
O café da manhã seguiu entre piadas internas, provocações leves de Richard e planos para o futuro da dinastia. Naquela manhã, a coroa parecia leve, quase como um adorno esquecível diante da felicidade de uma família unida.
Horas mais tarde, o pátio central do palácio estava em alvoroço. Carruagens alinhadas, guardas a posto e a brisa da tarde começando a esfriar o ar. Seyran envolveu Claire em um abraço demorado, cheirando os cabelos da filha com um carinho maternal quase solene.
— Se cuide, meu amor — murmurou Seyran, segurando o rosto de Claire entre as mãos. — Seja gentil com os servos, mas firme com os conselheiros.
— Eu vou, mãe. Prometo. Voltem logo — respondeu Claire, retribuindo o abraço com força.
Kenan aproximou-se, pousando a mão pesada e protetora no ombro de Claire antes de abraçá-la.
— Estamos orgulhosos de você, Claire. Fique bem.
Após as despedidas finais e um aperto de mão caloroso entre Kenan e Richard, os reis subiram na carruagem que os levaria até o porto. Claire acenou até que o veículo dobrasse a curva dos portões de ferro, sentindo um pequeno aperto no peito, mas atribuindo a sensação apenas à saudade precoce.
A noite caiu densa e sem estrelas. O oceano, a milhas dali, transformara-se em um cenário de caos. Ondas gigantescas atingiam o navio real com a força de martelos de ferro. O mestre da embarcação gritava ordens cobertas pelo som dos trovões, mas a madeira rangia sob a pressão impiedosa da tempestade.
No interior da cabine, Kenan mantinha Seyran firme contra seu peito.
— Fique comigo — disse ele, a voz firme apesar da escuridão e do tremor constante do cascos.
— Sempre — sussurrou Seyran, segurando a mão do marido no instante exato em que a grande onda atingiu o mastro principal, partindo a estrutura ao meio e tragando a embarcação para as profundezas frias do mar.
No palácio, distante de qualquer barulho de tempestade, o silêncio era absoluto.
Claire estava de pé diante da grande janela de seu quarto, vestindo uma camisola de seda branca. O palácio dormia, mas o sono a recusava. Repentinamente, um vento frio invadiu o cômodo, fazendo as cortinas de veludo pesado se agitarem com violência. Claire deu um passo para trás, levando a mão ao peito.
Uma sensação estranha, um vazio derretido e gélido, espalhou-se por suas entranhas. O ar pareceu faltar por um segundo, e o silêncio da noite soou, de repente, dolorosamente definitivo. Ela olhou para a escuridão lá fora, sem compreender a razão, mas com a certeza inabalável de que algo no mundo havia mudado para sempre.
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