O preço da Coroa Amor ,Sedução e ilusão
3 O Grito no Altar e os Olhos na Multidão
Dois dias haviam se passado, mas o céu sobre Viena parecia congelado em um luto perpétuo. Nuvens pesadas, num tom cinzento e plúmbeo, cobriam a capital como um manto de veludo escuro, deixando cair uma garoa fina que banhava os paralelepípedos da praça central. Como os corpos do Rei Kenan e da Rainha Seyran jamais foram resgatados das profundezas implacáveis do oceano, a corte organizara um memorial solene diante da monumental Catedral da cidade.
Milhares de súditos austríacos lotavam o espaço até onde a vista alcançava. Um mar de roupas pretas, véus escuros e cabeças baixas criava uma atmosfera de silêncio quase sagrado, cortado apenas pelo soar espaçado e grave dos sinos de bronze da torre real. No altar elevado, construído no topo da grande escadaria, dois caixões simbólicos de carvalho negro repousavam sob o olhar consternado do povo. Sobre eles, repousavam apenas as coroas douradas, cobertas de rubis, e as espadas cerimoniais dos falecidos monarcas.
Claire estava de pé no centro do palanque. Usava um vestido de veludo negro como a noite mais densa, de mangas longas e gola alta bordada com vidrilhos escuros. O corte sóbrio do traje só fazia destacar a palidez dolorosa de sua pele e a chama intensa de seus cabelos ruivos, que caíam em ondas pesadas pelas suas costas. A dor que carregava no peito era uma ferida aberta, latejante, mas ela sabia que não tinha o luxo de se desfazer ali. Sob o olhar atento de todo o reino, a jovem de apenas dezoito anos precisava encontrar forças onde só havia ruínas.
Aproximando-se devagar do púlpito de madeira esculpida, ela apoiou as mãos trêmulas na borda de pedra e olhou para a multidão silenciosa. O vento frio da tarde soprou, erguendo algumas mechas de seu cabelo ruivo.
— Povo da Áustria... — a voz de Claire começou trêmula, pequena, quase engolida pelo eco da praça. Ela engoliu em seco, fechou os olhos por um breve segundo e buscou o ar que parecia faltar em seus pulmões, permitindo que a firmeza nascesse da pura necessidade de honrar a memória de seus pais. — Hoje, esta terra não chora apenas a perda de dois soberanos. Choramos a perda de dois corações que bateram, até o último segundo, pela prosperidade, pela paz e por cada um de vocês.
Ela fez uma pausa, os olhos verdes marejados brilhando contra a garoa.
— Meu pai ensinou-me a ter força diante da tempestade; minha mãe ensinou-me a ter compaixão e a ouvir a alma deste povo. Sem eles... meu peito hoje é um deserto de cinzas e saudade. Mas eu prometo, diante do céu, diante da memória de Kenan e Seyran, e diante de cada homem e mulher aqui presente: eu não deixarei a Áustria ruir. Eu honrarei o sangue dos Mackenzie até o meu último suspirar!
Um silêncio profundamente emocionado pairou sobre a praça. Soluços contidos podiam ser ouvidos entre os cidadãos.
Richard deu um passo à frente, saindo da sombra do pedestal real. Com os olhos vermelhos do luto que carregara em silêncio durante os últimos dois dias, mas com o queixo erguido e a postura endurecida pela responsabilidade de irmão mais velho e protetor, ele levou a mão ao punho de sua espada ornamental. Com um estalido metálico e solene, ele desembainhou a lâmina reluzente, ergueu-a em direção ao céu cinzento e gritou com toda a força de seus pulmões, a voz ecoando pelas paredes da catedral:
— Vida longa à Rainha Claire!
Ao seu lado, Genevieve uniu as mãos em frente ao corpo, a cabeça erguida em sinal de absoluto respeito e cumplicidade com a cunhada.
A resposta da multidão foi imediata, explosiva e retumbante. O mar de súditos ergueu os braços, e milhares de vozes se uniram em um único brado que fez a própria terra sob a praça tremelar:
— VIDA LONGA À RAINHA CLAIRE! VIDA LONGA À RAINHA DA ÁUSTRIA!
No meio daquela multidão clamorosa e tomada pela emoção, porém, um homem permanecia imóvel.
Afastado sob a sombra da marquise de uma tenda de mercadores de tecidos, Stefan Blackwood, o Duque de Suffolk, observava a cerimônia. Usando um sobretudo de lã escura com gola de pele e mantendo o chapéu abaixado para ocultar parcialmente o rosto, ele não juntou as mãos para aplaudir e tampouco abriu a boca para se juntar ao coro.
Um sorriso frio, fino e terrivelmente calculista curvou os lábios do duque. Ele ajustou as luvas de couro negro com calma, os olhos fixos na figura ruiva e franzina no topo do altar.
Uma menina chorosa e inexperiente no trono... — pensou Stefan, os olhos brilhando com uma ambição predatória. — Devastada pela dor, cercada por conselheiros ávidos por influência e sem o escudo dos pais. Uma joia perfeita esperando para ser colhida pelo caçador certo.
Ele deu um passo para trás, camuflando-se ainda mais nas sombras dos becos adjacentes à praça. Sem dizer uma única palavra a ninguém, o Duque de Suffolk deu meia-volta, caminhou até a estreita rua lateral onde seu cavalo negro o aguardava amarrado a um poste de madeira, montou com agilidade e partiu em disparada rumo à sua propriedade, pronto para colocar em marcha a teia que mudaria o destino daquela jovem rainha.
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