O preço da Coroa Amor ,Sedução e ilusão
2 O Eco das Ondas na Sala do Trono
O sol da manhã invadia as altas janelas arqueadas da Sala do Trono em Viena, projetando feixes dourados e poeira cintilante sobre a monumental mesa de carvalho escuro. Sobre a madeira nobre, enormes mapas de pergaminho estalavam sob a pressão dos pesos de bronze, desenhando com precisão milimétrica as fronteiras da Áustria e as rotas comerciais que cortavam a Europa central.
Claire apoiava as duas mãos sobre o pergaminho, franzindo o cenho em profunda concentração. Vestindo um vestido de veludo azul-claro com bordados minuciosos em fio de prata, a jovem de apenas dezoito anos recém-completados parecia quase frágil diante da grandiosidade secular daquela sala. Contudo, a postura ereta e o brilho analítico em seus olhos verdes revelavam uma mente aguçada, pronta para os deveres do reino.
— Se abrirmos esta passagem lateral pelas montanhas do sul... — começou Claire, o indicador deslizando pela linha traçada a nanquim —, conseguiremos reduzir o tempo de transporte dos suprimentos agrícolas praticamente pela metade. O problema, Richard, são as tempestades de neve de fim de estação. Se as carroças atolarem lá em cima, perderemos a carga inteira.
Richard, encostado na lateral da mesa enquanto ajustava as abotoaduras de ouro dos punhos de sua túnica real, soltou uma risada baixa e calorosa.
— Olhe para você, Claire. Fala com a propriedade de quem exerceu a regência por vinte anos. Nosso pai encheria o peito de orgulho se a visse estudando a topografia do reino com tanto fervor. Mas faça o favor de não se inclinar tanto sobre o mapa, ou o punho da sua manga vai virar um tordilho manchado de tinta fresca.
— Alguém nesta família precisa manter a mente afiada nos negócios do Estado enquanto nossos pais estão no mar — brincou ela, voltando o rosto para o irmão e dando-lhe um leve empurrãozinho de ombro. — Você só está com essa expressão descontraída porque tem a rainha da Suécia cuidando de toda a sua diplomacia.
Antes que Richard pudesse rebater a provocação, as pesadas portas duplas de madeira folheada a ouro rangeram, abrindo-se devagar. Genevieve Lioncourt passou pelo umbral com a elegância natural de quem nasceu para carregar coroas. Usando um trajo de corte impecável e trazendo um pequeno caderno encadernado em couro sob o braço, a rainha da Suécia trazia um sorriso sereno e acolhedor nos lábios.
— Alguém mencionou meu nome ou foi apenas a brisa da manhã trazendo intrigas diplomáticas? — perguntou Genevieve, aproximando-se da mesa com passos leves e ritmados.
— Falávamos justamente de como a Suécia teve uma sorte formidável ao colocar você no comando — respondeu Claire, a expressão suavizando-se em um afeto genuíno. — Estávamos tentando resolver o gargalo dos suprimentos para os vilarejos mais distantes antes que o frio aperte.
— Nesse caso, cheguei no momento exato — disse Genevieve, abrindo o caderno e deslizando o dedo por uma lista de números anotados. — Terminei a reunião com os meus embaixadores agrícolas há menos de uma hora. As colheitas deste ano nas províncias do sul da Suécia foram excepcionais, quase o dobro do previsto. Já assinei o decreto autorizando a remessa de três comboios de grãos e mantimentos direto para os armazéns austríacos. Chegarão muito antes que o gelo feche as estradas.
Os olhos de Claire se arregalaram. Uma onda de alívio e surpresa cobriu seu rosto, fazendo-a contornar a mesa a passos rápidos para envolver a cunhada em um abraço apertado.
— Genevieve! Isso é maravilhoso! Você não tem ideia do peso que tira dos meus ombros. Nem sei como agradecer por tanta generosidade com o nosso povo.
— Não há o que agradecer, minha querida — sussurrou Genevieve, retribuindo o abraço com carinho e trocando um olhar profundamente apaixonado com Richard. — Agora somos a mesma família, unida por sangue e alianças. A prosperidade da Áustria é a paz da Suécia.
O riso leve de Claire e o calor daquele momento de cumplicidade familiar, contudo, foram bruscamente rasgados por um estrondo ecoante.
As portas da Sala do Trono foram empurradas com tanta violência que as dobradiças de ferro ganiram, chocando a madeira contra a pedra das paredes. Um mensageiro da marinha real invadiu o recinto. O homem estava irreconhecível: a túnica oficial rasgada e coberta de lama seca, o rosto pálido como cera e os olhos esbugalhados pelo mais puro horror. Ele tropeçou nos próprios pés e caiu de joelhos no mármoro do piso, tremendo violentamente enquanto segurava um tubo de couro lacrado com o selo real.
— Majestades... por piedade... Altas autoridades... — a voz do homem era um sopro entrecortado, abafado pelo desespero.
A atmosfera da sala mudou em uma fração de segundo. A descontracção de Richard evaporou instantaneamente; seu corpo tensionou-se, assumindo a rigidez firme de um comandante.
— Que ultraje é este? — exigiu Richard, dando dois passos à frente. — Levante-se, homem! Recobre a postura e diga o que justificaria invadir a Sala do Trono deste modo!
O mensageiro nem sequer ergueu a cabeça. Lágrimas abriam sulcos limpos na poeira de suas bochechas enquanto ele mantinha o olhar fixo no chão.
— A embarcação real... A Stella Maris... O navio em que o Rei Kenan e a Rainha Seyran navegavam...
No mesmo instante, o ar no peito de Claire pareceu congelar. Um arrepio gélido subiu por sua espinha, desfazendo o sorriso que ainda repousava em seus lábios.
— O que aconteceu com meus pais? — a voz de Claire saiu num fio frágil, um sussurro sufocado pela angústia súbita. — Fale de uma vez, homem! O que houve com o navio?!
— Uma tempestade... uma tempestade monstruosa no Mar do Norte, minha senhora... — soluçou o oficial, a voz quebrada pelo peso da notícia. — Os ventos de força descomunal rasgaram as velas como se fossem papel... As ondas arremessaram o casco contra os rochedos da costa... O navio... o navio foi partido ao meio e afundou nas profundezas. Mandamos barcos de resgate imediatamente, mas... só encontramos os destroços flutuando na água... Não há sobreviventes, minha rainha. Nenhum sequer.
O silêncio que caiu sobre a Sala do Trono foi pesado, sufocante, sepulcral.
O mundo inteiro de Claire pareceu desmoronar em mil pedaços de vidro invisíveis. A imagem de seu pai rindo à mesa do café da manhã, o abraço caloroso de sua mãe e o cheiro do perfume de lavanda que ela usava antes de partir... tudo passou por sua mente como uma ilusão cruel prestes a ser destruída.
— Não... — balbuciou Claire, dando um passo em falso para trás e levando as duas mãos à cabeça. — Não! Não, não, não! Isso é uma mentira absurda! O navio do meu pai era a nau mais forte da frota! Meus pais estão vivos! Eles... eles não podem ter morrido assim!
O pânico tomou conta de cada célula de seu corpo de dezoito anos. O ar recusava-se a entrar em seus pulmões, transformando sua respiração em uma arfada rápida e descontrolada. Sua visão começou a escurecer nas bordas, o chão parecia inclinar-se sob seus pés.
— Claire! — gritou Richard, esquecendo qualquer protocolo e correndo na direção da irmã no exato segundo em que as pernas dela cederam completamente.
Ele a aparou no ar antes que ela atingisse o piso frio, caindo ajoelhado e puxando-a contra o seu peito. Claire agarrou o colarinho de linho da túnica de Richard com uma força desesperada, enterrando o rosto em seu pescoço enquanto um grito de dor pura, dilacerante e desumano escapava de sua garganta, ecoando pelas abóbadas da sala.
Genevieve caiu de joelhos ao lado deles, as lágrimas correndo livremente por seu rosto soberano. Ela envolveu os dois irmãos em seus braços, tentando desesperadamente oferecer algum calor em meio àquele abismo de luto e desespero que acabara de engolir a Áustria.
— Calma, minha irmã... eu estou aqui... eu não vou soltar você — murmurava Richard com a voz totalmente embargada pelo próprio choro, apertando o corpo trêmulo da nova rainha contra o seu coração despedaçado.
Fale com o autor