O preço da Coroa Amor ,Sedução e ilusão
5 O Eco da Solidão e a Chegada das Sombras
Os dias que se seguiram à cerimônia memorial passaram como um borrão cinzento no Palácio de Hofburg. Os corredores, antes preenchidos pelas risadas calorosas do Rei Kenan e pelos passos firmes da Rainha Seyran, agora pareciam vastos e vazios, guardando apenas o som abafado dos suspiros de dor.
Na biblioteca real, a luz do entardecer atravessava as altas janelas, iluminando as pilhas de documentos e decretos que aguardavam a assinatura da nova soberana. Claire estava sentada atrás da imensa mesa de mogno, vestindo um vestido de luto preto e sóbrio. Seus olhos verdes, cercados por olheiras fundas, repousavam sobre uma carta não finalizada.
A porta da biblioteca rangeu suavemente. Richard entrou, acompanhado por Genevieve. O príncipe herdeiro trazia no rosto uma expressão dividida entre o peso do luto e a dor da despedida iminente.
— Claire... — chamou Richard baixinho, aproximando-se da mesa.
Claire ergueu os olhos, tentando forçar um sorriso que não chegou a alcançar sua expressão.
— Já está tudo pronto para a viagem de vocês? — perguntou ela, a voz saindo um pouco rouca.
— As carruagens já estão seladas no pátio — respondeu Genevieve, adentrando o recinto e colocando a mão com carinho sobre o ombro de Claire. — Eu sinto muito por termos que ir agora, minha querida. Mas os mensageiros de Estocolmo trouxeram notícias urgentes. A nobreza sueca está inquieta com a minha ausência prolongada, e há disputas territoriais nas fronteiras que exigem a minha presença imediata como rainha.
— Eu entendo, Genevieve. De verdade — disse Claire, cobrindo a mão da cunhada com a sua. — A Suécia precisa de você.
Richard suspirou fundo, ajoelhando-se ao lado da cadeira da irmã e segurando suas duas mãos com firmeza.
— Eu odiei ter que tomar essa decisão, Claire. Meu coração se despedaça ao deixar você sozinha neste castelo neste momento. Se eu pudesse, ficaria aqui ao seu lado até que essa tempestade passasse.
— Você tem deveres com a Suécia agora, Richard — declarou Claire, buscando uma maturidade que a dor tentava lhe roubar. — Você é o rei consorte lá. Eu ficarei bem. O conselho regente está aqui para me auxiliar nas decisões burocráticas.
— Cuidado com aquele conselho, irmã — alertou Richard, o tom de voz tornando-se rígido. — Eles enxergam a sua juventude como uma brecha. Não permita que nenhum daqueles lordes imponha vontades sobre a sua coroa. Você é a Rainha da Áustria.
— Eu lembrarei disso a cada segundo — assentiu ela, enquanto uma lágrima solitária escorria por sua bochecha.
Richard levantou-se, puxando Claire para um abraço demorado e protetor. Genevieve juntou-se a eles por um momento. Após as últimas palavras de afeto e consolo, o casal real despediu-se, deixando para trás o som distante dos cascos dos cavalos ecoando pelo pátio de pedra.
As duas semanas seguintes foram marcadas por um silêncio opressivo. Claire passou os dias isolada em seus aposentos e no escritório real. A dor da perda ainda pesava no peito como uma rocha, e a solidão das noites no palácio parecia amplificar a saudade de seus pais. A jovem rainha mal tocava nas refeições e dedicava cada hora do seu tempo a tentar compreender a complexa máquina do estado austríaco.
Entretanto, nos bastidores da nobreza, movimentações calculadas aconteciam. Stefan Blackwood, buscando garantir que seu filho tivesse voz ativa e assento garantido nas reuniões governamentais da corte austríaca, abdicara oficialmente de seu título principal. Em um ato burocrático e estratégico, o título de Duque fora transferido para seu filho. Agora investido como o novo Duque de Suffolk, o jovem aristocracy tinha acesso direto às sessões do parlamento e às reuniões do alto conselho.
Numa manhã fria de terça-feira, Claire foi convocada para uma reunião extraordinária com o parlamento e o conselho de nobres na Grande Sala do Conselho.
Caminhando a passos firmes, embora o coração estivesse inquieto, a rainha vestia um trajo de veludo escuro ajustado, mantendo a postura ereta ao cruzar as pesadas portas de madeira. Os lordes e parlamentares colocaram-se de pé, fazendo reverências formais enquanto Claire tomava seu assento na cabeceira da longa mesa oval.
— Bom dia, senhores — declarou Claire, mantendo a voz firme. — Espero que esta reunião tenha objetivos claros. Temos decretos pendentes sobre as províncias do norte.
O Conde von Wertheim, um homem de meia-idade com barba grisalha e olhar austero, pigarreou antes de tomar a palavra.
— Majestade, agradecemos sua presença. Os assuntos das províncias estão em andamento, contudo, este conselho e o parlamento reuniram-se hoje para tratar de uma pauta de extrema urgência para a estabilidade da Áustria.
Claire ergueu uma sobrancelha.
— E qual seria essa pauta tão urgente que não podia aguardar a sessão ordinária?
— A sua sucessão e a aliança matrimonial, minha rainha — disse o conde, sem rodeios. — A Áustria encontra-se em uma posição vulnerável. Uma rainha jovem e solteira no trono atrai a atenção de reinos vizinhos e gera incertezas econômicas. É preciso considerar um casamento estratégico o quanto antes.
Um murmúrio de concordância percorreu a mesa. A mandíbula de Claire endureceu.
— Senhores — respondeu ela, o tom baixando para uma rigidez cortante —, meus pais faleceram há poucas semanas. O luto desta nação e o meu próprio luto ainda estão vivos. Não estou pensando em casamento neste momento, nem pretendo transformar minha vida pessoal em pauta de discussão tão precocemente. Meu foco absoluto é a administração deste reino.
— Com todo o respeito, Majestade, o luto não impede a diplomacia — uma voz profunda, aveludada e carregada de uma ironia sutil ressoou do canto direito da mesa.
Claire virou o rosto na direção da voz.
Sentado entre os parlamentares, vestindo um casaco de corte impecável em tom vinho escuro e linho negro, estava um jovem que ela jamais vira na corte. Ele mantinha os braços cruzados, a postura ligeiramente descontraída e um olhar de pura arrogância fixado nela.
— Um casamento não é uma mera questão de vontades pessoais ou sentimentos de luto, Vossa Majestade — continuou o rapaz, erguendo o queixo com desdém. — É uma necessidade estrutural. Um reino sem uma aliança sólida ao lado da coroa é um reino exposto a ataques e instabilidades comerciais. Achar que pode carregar o peso da Áustria sozinha, apenas pela teimosia de adiar o inevitável, parece-me uma visão um tanto ingênua da política.
O ar na sala pareceu pesar. Claire encarou o homem por longos segundos, medindo a audácia daquelas palavras.
— E quem, exatamente, lhe deu permissão para se manifestar com tamanha petulância sobre os meus sentimentos ou sobre a minha visão política? — perguntou ela, os olhos verdes faiscando com uma raiva contida. — Quem é você?
O jovem sorriu de canto, um sorriso lento e calculado, antes de se levantar da cadeira e fazer uma reverência perfeitamente executada, embora desprovida de qualquer submissão real.
— Sebastian Blackwood, Majestade. O novo Duque de Suffolk — apresentou-se ele, mantendo o olhar cravado no dela. — Recentemente empossado com assento neste parlamento.
— Pois bem, Lorde Blackwood — rebateu Claire, inclinando-se ligeiramente para a frente e apoiando as mãos na mesa. — Sugiro que utilize seu recém-adquirido assento para aprender os modos da corte austríaca antes de dar opiniões não solicitadas sobre o meu governo. Se o seu conceito de diplomacia é vir a este recinto ditar regras sobre o meu futuro, receio que sua presença aqui será bastante improdutiva.
Sebastian soltou uma risada abafada, sem se abalar.
— Perdoe-me se a verdade soa desagradável aos seus ouvidos, minha rainha. Mas o mundo fora deste palácio não espera o tempo das suas lágrimas terminar. Um governante precisa encarar os fatos, mesmo quando eles contrariam suas vontades infantis.
— Infantis? — Claire levantou-se bruscamente de sua cadeira, a indignação fazendo sua pele pálida corar nas bochechas. — Meus pais governaram esta terra com honra e sabedoria, e não permitirei que um nobre recém-chegado da Inglaterra, cujo único mérito até agora foi herdar um título do pai, venha me ensinar sobre responsabilidade! Se pensa que a minha juventude é sinal de fraqueza, está gravemente enganado.
— Fraqueza não, Majestade. Apenas negação da realidade — retrucou Sebastian, dando um passo à frente com o olhar queimando em provocação. — A coroa exige sacrifícios. Se não está disposta a fazer o maior deles pelo seu povo, talvez a coroa seja grande demais para a sua cabeça.
— Como se atreve?! — o tom de Claire ecoou pelas paredes.
— Senhores! Majestade! Por favor! — interveio o Barão von Kinsky, um dos conselheiros mais antigos, levantando-se e batendo a mão na mesa para interromper o confronto. — Esta sala é o parlamento da Áustria, não uma arena de insultos!
O barão olhou severamente para Sebastian e depois fez uma profunda reverência a Claire.
— Lorde Blackwood, meça suas palavras na presença da sua soberana. E Majestade, peço desculpas pela exaltação dos debates nesta manhã. A pauta do matrimônio é importante, mas reconhecemos que o momento exige cautela. A sessão está encerrada por hoje.
Um silêncio tenso tomou conta do recinto. Claire manteve o olhar fixo em Sebastian, cujos olhos castanhos sustentavam o confronto com uma calma irritante e um brilho malicioso. Sem dizer mais nenhuma palavra, a rainha virou-se sobre os calcanhares, com a capa de veludo esvoaçando atrás de si, e deixou a sala a passos largos.
No canto da mesa, Sebastian ajustou os punhos de seu casaco, observando a porta por onde ela saíra. O sorriso malicioso voltou aos seus lábios. O jogo em Viena havia começado.
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