#Ato I: A Lavoura e o Riso Perdido


Na manhã seguinte, o vale despertou sob uma luz dourada e límpida. A geada que cobrira os campos durante a madrugada começava a desaparecer sobre as folhas verdes das plantações de café, deixando pequenas gotas brilhantes presas às pontas dos galhos.


Depois do desjejum, o Conde Frederick conduziu a família real por uma trilha de terra que levava às lavouras mais afastadas da propriedade.


— A plantação principal fica depois daquela colina — explicou o conde, apontando para a extensão de arbustos alinhados. — Porém, antes de chegarmos a ela, há um pequeno lago que serve de reserva para a irrigação. Nesta época do ano, os trabalhadores costumam utilizá-lo para refrescar-se durante as horas mais quentes.


O Rei Kenan caminhava ao lado do conde, atento às explicações. Seyran seguia alguns passos atrás, acompanhada de Claire e Genevieve. Richard permanecia próximo da irmã, observando-a com discrição.


Claire mantinha a expressão serena, mas desde que deixara a biblioteca na noite anterior não conseguira dormir verdadeiramente. As palavras de Sebastian continuavam reverberando em sua mente.


*Eu não sou mais seu marido.*


Ela sabia que ele tinha razão. Ainda assim, ouvir aquilo de seus lábios fizera uma ferida antiga sangrar novamente.


A trilha contornou uma pequena elevação e, quando o grupo alcançou o topo, o som de vozes alegres chegou até eles, misturado ao ruído de água sendo agitada.


Julian foi o primeiro a aparecer entre as árvores.


O jovem estava descalço, com as calças arregaçadas até os joelhos e a camisa completamente molhada, colada ao peito. Ele ria enquanto tentava proteger o rosto de uma criada que segurava uma pequena vasilha de madeira cheia de água.


Ao lado deles, Thomas gargalhava abertamente. E, dentro do lago raso, Sebastian acabara de erguer as duas mãos para bloquear uma onda de água lançada por Julian.


A camisa de linho do antigo duque estava pendurada em um galho próximo. Sebastian permanecia apenas com uma calça simples, também encharcada até a altura das coxas. Os cabelos longos e úmidos caíam sobre sua testa, e gotas de água escorriam por seu rosto, pescoço e ombros.


A criada, uma jovem chamada Elin, aproximou-se sorrindo e atirou água contra ele.


Sebastian desviou-se com rapidez, mas parte do líquido atingiu-lhe o peito.


— Isso foi uma declaração de guerra — anunciou ele, fingindo indignação.


— O senhor começou! — respondeu Elin, rindo.


— Eu apenas tentei impedir que Julian destruísse o pouco de dignidade que ainda me restava.


— Dignidade? — Julian provocou, jogando outra porção de água contra ele. — Você perdeu essa dignidade no dia em que caiu dentro do tanque de cevada!


Thomas quase se dobrou de tanto rir.


— Foi a melhor manhã da minha vida — declarou. — Nunca imaginei ver Sebastian Blackwood derrotado por um barril.


Sebastian avançou alguns passos dentro da água e tentou alcançar Julian. O jovem fugiu pela margem, mas escorregou na lama e caiu sentado, provocando uma nova explosão de gargalhadas.


Foi então que o Conde Frederick sorriu ao avistar aquela cena.


— Sebastian! — chamou ele, em voz alta.


A brincadeira cessou imediatamente.


Julian levantou-se depressa, tentando limpar a lama das calças. Elin recuou para junto das árvores, corando ao perceber a presença da Família Real. Thomas baixou a cabeça, subitamente consciente de que carregava uma toalha sobre os ombros como se fosse uma bandeira de rendição.


Sebastian virou-se para a trilha.


Quando seus olhos encontraram os de Claire, toda a leveza de seu rosto desapareceu por um instante. O sorriso morreu, substituído pela expressão composta e distante que ele usava diante dela.


Ele saiu do lago, pegou uma toalha e passou-a rapidamente pelos cabelos e pelo rosto. Em seguida, caminhou até o grupo com a postura respeitosa, embora estivesse vestido apenas com as calças molhadas e uma camisa seca jogada sobre um dos braços.


— Perdoem-me, Majestades — disse ele, fazendo uma inclinação de cabeça. — Eu não esperava receber a visita real tão cedo e, por isso, não estou devidamente trajado.


Richard respondeu antes que qualquer outro pudesse fazê-lo:


— Estava bastante calor, Sebastian. Uma brincadeira sensata para quem trabalha sob o sol desde o amanhecer.


— Meu irmão tem razão — acrescentou Kenan, mantendo a expressão cordial. — Não há necessidade de desculpar-se por refrescar-se em um dia como este.


Sebastian agradeceu com uma breve reverência.


— Vossa Majestade é generoso.


Claire permaneceu em silêncio.


Seus olhos haviam percorrido involuntariamente o corpo dele, a pele bronzeada, os cabelos úmidos, o sorriso que momentos antes pertencera a outra pessoa. Ela odiou a si mesma por perceber cada detalhe. O pior, porém, era que Sebastian parecia completamente à vontade naquela vida. Mais do que isso: parecia feliz.


E a criada ainda o observava com um brilho evidente nos olhos.


Claire sentiu uma pontada aguda no peito.


— Conde Frederick — chamou Seyran, quebrando o silêncio. — Gostaríamos de ver a plantação de perto. Mas, antes disso, seu administrador poderia esclarecer algumas questões sobre a colheita?


Frederick virou-se para Sebastian.


— Naturalmente. Venha conosco por um momento, rapaz.


Sebastian acompanhou o grupo pela trilha, mantendo uma distância respeitosa da Família Real. Julian, Thomas e Elin permaneceram junto ao lago, embora a criada não tirasse os olhos dele.


Ao chegarem aos primeiros cafezais, Sebastian explicou cada etapa do cultivo com precisão. Falou sobre a umidade do solo, a exposição solar, o amadurecimento irregular dos grãos e a necessidade de colher apenas os frutos completamente avermelhados.


O Rei Kenan escutava com crescente interesse.


— E quando acredita que a colheita poderá ser iniciada? — perguntou ele.


Sebastian consultou mentalmente os registros que organizara.


— Se o clima continuar estável, os primeiros trabalhadores poderão começar dentro de oito dias. Contudo, recomendo que a colheita seja realizada em três etapas. Alguns frutos ainda precisam de mais tempo para atingir o ponto ideal. Se recolhermos todos agora, perderemos qualidade e uniformidade.


O conde Frederick assentiu, orgulhoso.


— Foi exatamente essa a conclusão a que chegamos depois de revisar os livros de produção.


— A análise é bastante inteligente — comentou Kenan. — Sua administração parece estar conduzindo a fazenda a um resultado extraordinário.


— Tenho apenas colocado em prática aquilo que aprendi, Majestade.


Claire observou-o em silêncio. Ele falava com segurança, mas sem arrogância. Não havia vestígio do homem que, meses antes, ocupava o trono ao lado dela. Sebastian parecia ter encontrado uma forma de existir sem precisar da aprovação de ninguém.


— Já obteve as respostas que desejava, Majestade? — perguntou Frederick.


Kenan sorriu.


— Sim. Não queremos impedir que os trabalhadores aproveitem a manhã.


Frederick olhou para Sebastian.


— Pode voltar ao lago. O calor está realmente insuportável, e Julian provavelmente está tramando alguma vingança contra você.


— Tenho certeza de que está — respondeu Sebastian, com um brilho discreto nos olhos.


Ele fez uma reverência formal ao Rei e à Rainha. Em seguida, seus olhos passaram por Richard e Genevieve até alcançar Claire.


Por um breve instante, o olhar dos dois se prendeu.


Claire esperou que ele dissesse alguma coisa. Qualquer coisa. Talvez uma palavra que lembrasse o passado ou um gesto que revelasse que ainda se importava.


Mas Sebastian apenas inclinou a cabeça.


— Vossa Alteza.


Então deu meia-volta e retornou ao lago.


Claire observou-o se afastar. Assim que ele se aproximou de Julian, o jovem atirou uma porção de água em sua direção. Sebastian desviou, agarrou-o pela cintura e o lançou de volta ao lago, sob os gritos divertidos de Thomas e Elin.


A princesa apertou as mãos dentro das luvas.


A criada aproximou-se de Sebastian, rindo, e limpou uma gota de água que escorria pelo canto de seu rosto.


O gesto era simples. Inocente, talvez.


Mas para Claire pareceu íntimo demais.


— Está tudo bem? — perguntou Genevieve, ao notar a rigidez de sua postura.


— Perfeitamente.


— Você está encarando a moça como se ela tivesse cometido um crime.


Claire desviou o olhar.


— Não sei do que está falando.


Richard soltou um suspiro baixo.


— Claire...


— Eu disse que está tudo bem.


Seyran observou a filha com uma tristeza silenciosa. A princesa não percebia, ou se recusava a perceber, que a dor em seu rosto não era apenas arrependimento.


Era ciúme.


E o ciúme revelava aquilo que o orgulho ainda tentava esconder.


## Ato II: O Vinho e a Ferida Aberta


O restante do dia transcorreu entre visitas às plantações, inspeções nos armazéns e conversas sobre a expansão comercial do café. A Família Real percorreu boa parte da fazenda acompanhada do Conde Frederick, enquanto Sebastian permanecia envolvido com os trabalhadores.


Claire, porém, mal conseguia prestar atenção aos relatórios.


Sempre que encontrava uma desculpa para olhar ao redor, seus olhos buscavam Sebastian.


Ele estava em toda parte: conduzindo homens pela lavoura, verificando os sacos de grãos, conversando com os colonos e ajudando os animais a serem levados de volta às baias. Parecia pertencer àquela terra.


Ao entardecer, quando o céu assumiu tons de cobre e violeta, a família real retornou à casa principal. O jantar seria servido mais tarde, e os visitantes foram convidados a descansar nas salas nobres da propriedade.


Claire tentou permanecer junto dos pais, mas a inquietação dentro dela aumentava a cada minuto.


Acabou caminhando pelos corredores sem destino definido.


Ao passar perto da biblioteca, ouviu vozes e risadas.


A porta estava entreaberta.


Sebastian encontrava-se sentado junto à lareira, com uma taça de vinho nas mãos. Julian estava à sua frente, estirado confortavelmente em uma poltrona, enquanto Thomas ocupava um banco próximo à mesa. Sobre a madeira havia uma garrafa aberta, três taças e alguns pratos com pão, queijo e frutas secas.


Os três pareciam à vontade.


Riam como velhos amigos.


— Eu ainda sustento que Elin atirou água em Sebastian porque estava tentando chamar a atenção dele — dizia Julian, com um sorriso malicioso.


Thomas levantou a taça.


— Não há dúvida alguma. Ela pergunta por ele todas as manhãs.


Sebastian balançou a cabeça, divertido.


— Vocês dois estão imaginando coisas.


— Imaginando? — Julian riu. — Ontem ela queimou o próprio dedo na cozinha porque ficou distraída observando você carregar os sacos de café.


— Isso é uma acusação séria.


— E verdadeira — acrescentou Thomas. — Hoje, quando você tirou a camisa, ela quase deixou cair a bacia.


Sebastian lançou-lhe um olhar de advertência.


— Thomas.


— O quê? Estou apenas relatando fatos.


Julian gargalhou.


— Ela gosta de você, Sebastian. Até meu pai já percebeu.


— Elin é uma boa moça — respondeu Sebastian, com simplicidade. — Não vou permitir que façam piada às custas dela.


— Não estamos fazendo piada — disse Julian. — Estamos tentando convencer você de que ainda existe vida depois daquela mulher.


O sorriso de Sebastian desapareceu lentamente.


Thomas baixou os olhos, percebendo que a conversa se aproximara de um terreno perigoso.


Julian, no entanto, não percebeu a presença de Claire na porta.


— Você deveria olhar para frente — continuou ele. — Elin o admira, é inteligente, trabalha duro e—


— Acho que já chega — interrompeu Sebastian.


Sua voz não era alta, mas havia nela uma firmeza inquestionável.


Claire entrou na biblioteca.


Os três homens viraram-se para ela.


Julian levantou-se imediatamente. Thomas também fez menção de ficar de pé, mas Sebastian permaneceu sentado por mais um segundo, olhando para Claire com uma expressão cansada.


— Vossa Alteza — cumprimentou Julian, inclinando-se.


— Não precisam interromper a conversa por minha causa — disse Claire.


— Estávamos apenas conversando — respondeu Sebastian.


— Eu ouvi.


O silêncio que se seguiu foi desconfortável.


Claire caminhou até uma cadeira próxima à lareira e sentou-se sem ser convidada. Sebastian tomou um gole de vinho, mantendo os olhos na taça.


— Sobre a criada — disse Claire, sem rodeios.


Julian piscou.


— Perdão?


— Elin. Estavam falando dela.


— Era uma brincadeira — explicou Julian, percebendo enfim a tensão no ambiente.


— Uma brincadeira bastante insistente.


Sebastian ergueu os olhos.


— Não compreendo por que isso lhe interessa.


A frase atingiu Claire como uma bofetada.


— Não me interessa.


— Então não há motivo para continuarmos falando sobre isso.


— Você parecia muito interessado nela no lago.


Thomas fechou os olhos por um instante.


Julian olhou de Claire para Sebastian, completamente perplexo.


— No lago? — repetiu ele.


— Claire — disse Sebastian, pronunciando o nome dela pela primeira vez desde que chegara à fazenda. — Não transforme uma brincadeira entre trabalhadores em algo que ela não é.


— Eu não estou transformando nada. Apenas observei o que aconteceu.


— Observou?


— Sim. Vi como ela tocava em você. Vi como sorria para você.


Sebastian colocou a taça sobre a mesa com cuidado.


— E isso é um problema seu?


Claire levantou-se.


— Você parece muito feliz aqui.


— Sou.


A resposta foi imediata.


Ela empalideceu.


— Feliz?


— Sim.


— Como pode dizer isso com tanta facilidade?


— Porque é a verdade.


— Depois de tudo o que aconteceu entre nós?


Sebastian soltou uma risada curta, sem humor.


— O que aconteceu entre nós terminou, Claire.


Julian ficou imóvel.


Thomas abaixou a cabeça, apertando as mãos sobre os joelhos.


— Não fale comigo como se eu fosse uma estranha — disse Claire, a voz trêmula.


— Você não é uma estranha — respondeu Sebastian. — Mas também já não é minha esposa.


Claire sentiu o coração apertar.


— Eu estava magoada!


— Eu sei.


— Você se casou comigo por causa do plano do seu pai!


A acusação saiu carregada de dor.


Sebastian desviou o olhar por um instante.


— Sim.


A confirmação foi ainda mais dolorosa do que ela esperava.


— Então admita que me enganou!


— Eu admito que me aproximei de você com uma intenção que não era honesta — respondeu ele, contendo a própria emoção. — Admito que aceitei aquele casamento porque acreditava que poderia cumprir o plano do meu pai e ajudá-lo a alcançar o trono por meio da nossa união.


Claire ficou imóvel.


Julian e Thomas trocaram um olhar silencioso.


— Mas você não esperava apaixonar-se — murmurou ela.


Sebastian voltou os olhos para Claire.


— Não. Não esperava.


— E quando se apaixonou?


— Quando me apaixonei, já era tarde demais. Meu pai já havia depositado em mim responsabilidades que eu não sabia como abandonar. Eu tentei interromper os planos dele. Tentei proteger você. Tentei reparar o mal que eu mesmo havia ajudado a criar.


— Sem me contar nada.


— Sim. E esse foi o meu maior erro.


— Você me deixou acreditar que eu estava louca por desconfiar de você!


— Porque eu sabia que suas suspeitas não eram infundadas — respondeu ele, com amargura. — Você tinha motivos para desconfiar de mim. Eu havia entrado em sua vida com a intenção de usar nosso casamento para favorecer a conspiração do meu pai. Mesmo depois de mudar, continuei escondendo a verdade.


— Então por que eu deveria acreditar que o seu amor era verdadeiro?


Sebastian levantou-se devagar.


— Você não precisava acreditar. Mas poderia ter me dado a oportunidade de explicar.


Claire riu, embora as lágrimas já brilhassem em seus olhos.


— Eu encontrei a carta do seu pai! Descobri que tudo havia sido planejado! Você queria que eu o recebesse de braços abertos depois disso?


— Não.


— Eu fui humilhada! Toda a nossa união parecia uma mentira!


— Eu sei.


— Eu o tratei mal porque estava ferida!


— Eu também estava.


— Você escondeu de mim que havia participado daquele plano!


— E passei o restante da minha vida tentando impedir que os planos dele se concretizassem!


— Mas você sabia!


— Eu sabia que meu pai era um traidor! — Sebastian levantou a voz, finalmente perdendo a calma. — Sabia que ele havia usado nosso casamento para alcançar o trono e destruir a sua família. Eu sabia de tudo isso e fui covarde o bastante para acreditar que conseguiria corrigir o passado sozinho.


Claire ficou em silêncio por um segundo.


— Você deveria ter me contado.


— Eu deveria.


— Eu o chamei de traidor diante de toda a corte.


Sebastian apertou o maxilar.


— Chamou.


— Fiz você dormir em aposentos separados. Recusei-me a ouvi-lo. Disse coisas terríveis.


— Disse.


— Eu o fiz sentir-se como um inimigo.


— Fez.


A frieza daquelas respostas a atingiu com força.


— E, depois de tudo isso, você pediu a anulação.


Sebastian sustentou o olhar dela.


— Pedi.


Claire levou a mão ao peito.


— Você não esperou que eu mudasse de ideia?


— Esperei durante semanas. Talvez meses. Esperei que você me perguntasse a verdade, que lesse os documentos que eu havia reunido, que me permitisse mostrar o que fiz para impedir meu pai. Mas você continuou me tratando como um criminoso.


— Eu não sabia o que pensar!


— E eu não conseguia mais continuar vivendo ao seu lado enquanto você me desprezava.


— Então você simplesmente desistiu?


— Não desisti de você. Desisti de implorar para ser amado por alguém que já havia decidido que eu era indigno.


Claire aproximou-se dele, com os olhos marejados.


— Você deveria ter lutado mais.


— Lutei até não restar nada de mim.


— E depois foi embora.


— Fui embora porque fui eu quem pediu a anulação. Não queria obrigá-la a permanecer presa a um homem em quem você não confiava. Também não queria continuar dentro daquele palácio, sendo lembrado todos os dias de que você me via como uma fraude.


— Você parece muito feliz aqui.


— Sou.


A resposta foi imediata.


Ela empalideceu.


— Feliz?


— Sim.


— Como pode dizer isso com tanta facilidade?


— Porque é a verdade.


— Depois de tudo o que aconteceu entre nós?


Sebastian soltou uma risada curta, sem humor.


— O que aconteceu entre nós terminou, Claire.


Julian ficou imóvel.


Thomas abaixou a cabeça, apertando as mãos sobre os joelhos.


— Não fale comigo como se eu fosse uma estranha — disse Claire, a voz trêmula.


— Você não é uma estranha — respondeu Sebastian. — Mas não pode continuar exigindo de mim os direitos de uma esposa depois de ter sido eu quem pediu a anulação para que ambos pudéssemos seguir caminhos separados.


— Eu não estou exigindo nada!


— Então não compreendo por que está com ciúmes.


Claire olhou para ele, ferida.


— Você parecia muito interessado nela no lago.


— Elin é uma trabalhadora desta fazenda. Ela é gentil comigo, assim como Julian e Thomas. Isso não significa que exista algo entre nós.


— Vi como ela tocava em você. Vi como sorria para você.


Sebastian colocou a taça sobre a mesa com cuidado.


— E isso é um problema seu?


— Você parece feliz com ela!


— Não fale de Elin dessa maneira.


— Por quê? Está apaixonado por ela?


— Pare.


— Ela é o motivo de você ter me esquecido tão depressa?


— Pare, Claire.


— Talvez tenha sido fácil demais substituir-me!


Sebastian bateu a mão sobre a mesa. As taças estremeceram, e Julian deu um sobressalto.


— Eu disse para parar!


A biblioteca mergulhou em silêncio.


Os olhos de Sebastian estavam tomados por uma fúria dolorosa.


— Ela não é sua rival — declarou ele. — Elin é uma trabalhadora desta fazenda, uma moça honesta que não merece ser arrastada para a nossa ruína. E você não tem direito de questionar qualquer pessoa que se aproxime de mim.


— Não tenho direito? — Claire riu, mas as lágrimas já corriam por seu rosto. — Fui sua esposa!


— Foi. E fui eu quem pediu a anulação quando percebi que nosso casamento havia se transformado em uma prisão para nós dois.


— Eu ainda o amava!


— Mas não conseguia confiar em mim.


— Eu estava assustada!


— E eu estava destruído!


Claire cobriu a boca com a mão, tentando conter o soluço.


Sebastian respirava pesadamente, os punhos cerrados ao lado do corpo.


— Eu a amava tanto que achei que poderia suportar qualquer coisa — continuou ele, com a voz mais baixa. — Suportei seus insultos, sua desconfiança e a forma como me olhava como se eu fosse uma doença. Suportei vê-la rejeitar cada tentativa de explicação. Mas não consegui continuar vivendo ao seu lado depois que você me tratou como se eu fosse apenas a continuação dos crimes de meu pai.


— Eu sinto muito!


— Seu pedido de perdão não pode apagar o que aconteceu.


— Eu sei!


— Você não sabe como foi acordar todos os dias desejando desaparecer porque a mulher que eu amava olhava para mim como se eu fosse um inimigo! Você não sabe como foi assinar o pedido de anulação sabendo que, naquele momento, eu estava perdendo a única pessoa que realmente amei!


A voz dele se partiu no final.


Claire recuou, chorando.


— Eu não queria que você fosse embora.


Sebastian fechou os olhos por um instante.


— Mas foi isso que aconteceu.


— Você poderia ter ficado.


— Para quê? Para vê-la me desprezar todos os dias? Para continuar sendo tolerado por uma mulher que não conseguia sequer ouvir meu nome sem pensar na conspiração do meu pai?


— Eu estava errada!


— Estava.


Claire aproximou-se mais, desesperada.


— Eu estava errada, Sebastian. Eu fui cruel. Eu fui orgulhosa. Eu devia ter acreditado em você, mas estava com medo e—


— E decidiu me ferir antes que eu pudesse feri-la.


— Eu pensei que tudo tivesse sido uma mentira!


— Para mim, começou como parte de uma mentira. Mas o que senti por você tornou-se a única verdade da minha vida.


Claire ergueu os olhos.


— Então você me amava?


Sebastian riu sem alegria.


— Eu ainda amo. Esse é o problema.


As palavras fizeram o ar desaparecer da sala.


— Então por que age como se não sentisse nada?


— Porque amar você não significa que eu consiga voltar a ser o homem que era antes. Pedi a anulação porque precisava sobreviver ao que aconteceu entre nós. Fui embora porque não suportava mais permanecer em um lugar onde meu amor era recebido com desprezo.


— Talvez tenha sido fácil demais substituir-me!


— Ninguém a substituiu — disse Sebastian, com firmeza. — Mas eu não poderia permanecer parado, esperando que você decidisse se ainda queria destruir-me ou não.


Nesse momento, a porta da biblioteca se abriu bruscamente.


O Conde Frederick surgiu no vão, acompanhado da Condessa Mathilde, do Rei Kenan, da Rainha Seyran, de Richard e de Genevieve. Alguns guardas permaneciam mais atrás, no corredor.


Todos haviam ouvido os gritos.


— Basta! — bradou Frederick.


A palavra ressoou com tanta autoridade que até o fogo na lareira pareceu silenciar-se.


Sebastian virou-se de imediato.


— Senhor Conde...


— Eu não sei que desavença existe entre vocês — continuou Frederick, avançando para o interior da sala —, mas não permitirei que minha biblioteca se transforme em uma arena. Há convidados nesta casa e trabalhadores nos corredores. Todos estão ouvindo.


Claire abaixou o rosto, humilhada.


Sebastian respirava pesadamente, ainda tomado pela emoção.


Frederick apontou para a porta lateral.


— Sebastian. Para o meu gabinete. Agora.


O jovem obedeceu sem discutir.


Antes de sair, porém, lançou um último olhar para Claire. Havia dor nele, mas também uma distância que ela jamais conseguira atravessar.


Em seguida, os dois homens desapareceram pelo corredor.


## Ato III: A Verdade do Plebeu


O gabinete do Conde Frederick ficava no extremo norte da propriedade, distante dos aposentos dos hóspedes. Era uma sala austera, revestida de madeira escura, com mapas das províncias nas paredes e estantes repletas de livros sobre agricultura, comércio e administração de terras.


Frederick fechou a porta atrás de Sebastian.


Por alguns instantes, nenhum dos dois falou.


O conde caminhou até a mesa, serviu-se de um pouco de vinho e permaneceu de costas para o rapaz.


— Sente-se.


Sebastian obedeceu.


— Não vou exigir que me conte aquilo que deseja manter em segredo — disse Frederick. — Mas minha família o acolheu. Tenho o direito de saber por que a Princesa da Áustria entrou em minha biblioteca para acusá-lo de infidelidade, enquanto você gritava que não era mais marido dela.


Sebastian abaixou o olhar.


— O senhor merece saber.


Frederick voltou-se para ele.


— Então conte.


Sebastian respirou fundo. A tarefa parecia mais difícil do que qualquer trabalho que já realizara na fazenda.


— Meu nome completo é Sebastian Blackwood. Até pouco tempo atrás, eu era o Duque de Suffolk e marido da Princesa Claire.


Frederick permaneceu imóvel.


— Eu imaginei que houvesse algo mais — disse após alguns segundos. — Nenhum camponês comum lê livros de contabilidade como você.


— Meu pai, o antigo Duque de Suffolk, conspirou contra a Coroa austríaca. Ele planejou meu casamento com Claire para aproximar nossa família do trono. O objetivo era controlar as decisões do império, drenar os cofres reais e, no momento certo, tomar o poder.


— E você aceitou participar desse plano?


Sebastian demorou alguns segundos para responder.


— No início, sim.


Frederick estreitou os olhos.


— Explique.


— Eu me casei com Claire acreditando que cumpriria o propósito de meu pai. Nossa união deveria aproximar a família Blackwood da Coroa e facilitar o golpe. Eu sabia que havia interesses políticos por trás do casamento e, ainda assim, segui adiante.


— Você a usou.


— Usei — admitiu Sebastian, com a voz baixa. — Essa é uma verdade da qual nunca poderei fugir.


— E então se apaixonou por ela.


— Sim. No início, pensei que conseguiria separar meus deveres dos meus sentimentos. Mas Claire deixou de ser uma peça no plano de meu pai. Ela se tornou a pessoa mais importante da minha vida.


Frederick permaneceu em silêncio, esperando que ele continuasse.


— Quando percebi a extensão da conspiração, já não queria mais participar dela. Rompi com minha família, escondi documentos, impedi contatos e fiz tudo o que pude para destruir o plano que eu mesmo havia ajudado a colocar em movimento.


— Mas não contou nada a ela.


— Não.


— Por quê?


Sebastian soltou um riso amargo.


— Porque tive medo. Medo de que ela pensasse que meu amor era apenas uma parte do plano. Medo de que me visse como meu pai. Fui covarde. Acreditei que poderia protegê-la carregando sozinho o peso da verdade.


— E ela descobriu?


— Encontrou uma carta. Uma carta que provava que meu pai havia planejado o casamento e que eu tinha conhecimento de seus objetivos. Mas a carta não explicava tudo o que fiz depois. Claire acreditou que eu sempre soube de tudo e que continuara ao lado dela apenas para alcançar o trono.


— E como ela o tratou?


Sebastian apertou as mãos sobre os joelhos.


— Como um traidor. Talvez eu merecesse parte daquela desconfiança. Eu havia realmente entrado na vida dela com uma intenção oculta. Mas, quando tentei explicar que havia mudado e que estava lutando contra meu próprio pai, ela não conseguiu acreditar em mim.


— Você tentou convencê-la?


— Tentei. Muitas vezes. Mostrei documentos, pedi que me ouvisse, implorei para que me desse a oportunidade de explicar. Mas ela estava ferida, furiosa e cercada por conselheiros que desejavam minha queda.


— E o que aconteceu?


— Claire passou a tratar-me como se eu fosse um inimigo. Recusava-se a permanecer comigo, insultava-me diante dos criados e, por vezes, sequer permitia que eu me aproximasse. Eu entendia a dor dela, mas cada palavra tornava mais difícil continuar.


Frederick observou-o atentamente.


— Então foi você quem pediu a anulação.


— Fui.


— Não foi ela?


— Não. Claire estava convencida de que eu a havia enganado, mas não me pediu para libertá-la. Fui eu quem tomou essa decisão.


— Por quê?


Sebastian levantou os olhos.


— Porque nosso casamento havia se tornado uma punição diária para os dois. Ela não confiava em mim, e eu já não conseguia suportar ser tratado como um criminoso pela mulher que amava. Pedi a anulação porque não queria obrigá-la a permanecer presa a alguém que ela desprezava. Também precisava sair daquele palácio antes que perdesse o pouco de dignidade que ainda me restava.


— Você ainda a amava quando assinou os documentos?


— Mais do que nunca.


A resposta saiu sem hesitação.


Frederick desviou o olhar para a janela.


— Deve ter sido difícil abandonar tudo.


— Foi.


— A Coroa ofereceu-lhe uma fortuna.


— Recusei quase tudo.


— Por quê?


Sebastian olhou para as próprias mãos, agora marcadas pelo trabalho.


— Porque não queria que dissessem que eu vendi meu casamento. Ou que aceitei ser comprado pela família dela depois de pedir a anulação. Peguei cem moedas. O suficiente para comprar uma casa simples e sobreviver até encontrar trabalho.


Frederick apoiou os braços sobre a mesa.


— Você abandonou um título, uma fortuna e uma posição que muitos homens matariam para possuir.


— Abandonei uma vida que já não significava nada.


— E veio trabalhar em minha fazenda.


— Vim tentar continuar vivo.


A sinceridade da resposta atingiu Frederick com força.


Sebastian desviou o rosto, lutando para manter o controle.


— O trabalho foi a primeira coisa que não me pediu para fingir. A terra não se importa com meu sobrenome. Os animais não querem saber de qual família vim. Quando cometo um erro, basta corrigi-lo. Quando termino uma tarefa, sei exatamente o que fiz. Aqui, posso ser apenas um homem.


Frederick levantou-se lentamente e caminhou até a janela.


Do lado de fora, o crepúsculo cobria os campos. As lavouras se estendiam em linhas perfeitas, e, ao longe, pequenas silhuetas de trabalhadores recolhiam ferramentas.


— Um homem que abandona a coroa para viver como plebeu — murmurou o conde — não é um homem comum.


Sebastian permaneceu calado.


— Você poderia ter tomado o ouro — continuou Frederick. — Poderia ter comprado terras, criado uma nova fortuna e exigido respeito. Em vez disso, escolheu começar carregando fardos e limpando baias.


— Não queria respeito. Queria paz.


— E encontrou?


Sebastian pensou em Julian, Thomas, Elin, nos campos e na pequena casa de pedra.


— Encontrei algo próximo disso.


— Então não permita que ninguém lhe tire novamente.


Sebastian ergueu os olhos.


— Nem mesmo ela?


— Muito menos ela, se não compreender o valor do que destruiu.


O jovem ficou em silêncio, surpreso com a dureza do conde.


Frederick aproximou-se e pousou uma das mãos sobre seu ombro.


— Sebastian, enquanto estiver sob o meu teto, você não será tratado como um empregado comum. Será tratado como um homem digno. Se deseja permanecer aqui, terá um cargo oficial, salário correspondente e uma casa melhor para viver. Não por caridade, mas porque seu trabalho multiplicou o valor desta propriedade.


— Senhor Conde, eu não posso aceitar—


— Pode e aceitará. Não estou lhe oferecendo esmola. Estou reconhecendo mérito.


Sebastian baixou a cabeça, profundamente emocionado.


— Não sei como agradecer.


— Trabalhe bem, como já trabalha. E não permita que o orgulho, a culpa ou o medo de outra pessoa voltem a definir quem você é.


Aquelas palavras fizeram Sebastian fechar os olhos.


Do outro lado da porta, ninguém sabia que Richard havia parado no corredor com Claire, Seyran e Kenan. Eles haviam chegado a tempo de ouvir apenas parte da conversa, mas o suficiente para compreender a verdade.


Claire permanecia imóvel, com as mãos apertadas contra o peito.


Ouvira Sebastian confessar que se casara com ela para cumprir o plano do próprio pai. Ouvira-o admitir que se apaixonara e que, depois de ser tratado como um inimigo, fora ele quem pedira a anulação.


Ouvira sua voz confessar que só queria continuar vivo.


Ouvira-o dizer que encontrara paz longe dela.


E percebeu, com uma clareza dolorosa, que não bastaria dizer *eu te amo* para reconstruir tudo.


Ela o amava.


Mas havia ensinado Sebastian a viver sem seu amor.


Dentro do gabinete, Frederick abriu uma gaveta e retirou um documento.


— Amanhã assinaremos sua nomeação como administrador-geral das Carvalheiras — declarou. — Quero que supervisione não apenas as baias, mas toda a contabilidade, o armazenamento e o transporte do café.


Sebastian olhou para o papel.


— O senhor confia em mim mesmo sabendo quem sou?


— Confio em homens que reconhecem os próprios erros e enfrentam as consequências deles. E confio ainda mais naqueles que conseguem levantar-se sem pisar em ninguém.


Sebastian respirou fundo.


— Então ficarei.


Frederick sorriu pela primeira vez naquela noite.


— Ótimo. Porque meu filho já afirmou que não consegue administrar esta fazenda sem você, e minha esposa adotou Thomas como se ele fosse um sobrinho perdido.


Um sorriso cansado surgiu no rosto de Sebastian.


— Julian exagera.


— Julian sempre exagera. Mas, neste caso, está certo.


Frederick abriu a porta do gabinete.


No corredor, Claire ergueu o rosto.


Sebastian a viu.


Por um instante, nenhum dos dois se moveu.


Ela queria pedir perdão novamente. Queria tocar-lhe o braço, dizer que ouvira tudo, prometer que seria diferente.


Mas Sebastian parecia exausto demais para suportar outra batalha.


Frederick percebeu o silêncio e deu um passo ao lado.


— A reunião terminou — anunciou ele, com firmeza. — Sebastian precisa descansar.


Claire assentiu, contendo