O preço da Coroa Amor ,Sedução e ilusão
10 Cicatrizes e Sombras da Saudade
A rotina de Claire havia se transformado em uma maratona incansável de selos de cera, decretos fiscais e relatórios agrícolas. A manhã no gabinete real transcorria em um silêncio denso, quebrado apenas pelo tique-taque ritmado do relógio de parede e pelo farfalhar constante dos pergaminhos sobre a grande mesa de carvalho.
A porta do gabinete foi batida com duas pancadas secas e educadas antes de se abrir. Sebastian passou pelo umbral carregando uma pasta de couro preenchida com documentos recém-aprovados pelo parlamento. Ele vestia um terno azul-noturno de corte impecável, sem o excesso de adornos que outros nobres costumavam usar.
— Bom dia, Majestade — disse ele, a voz num tom surpreendentemente calmo e profissional, desprovido do deboche habitual. Ele aproximou-se e colocou os papéis sobre a mesa diante dela. — Decretos de alocação de verba para as estradas do norte. Precisam da sua assinatura antes do meio-dia.
Claire ergueu o rosto, franzindo levemente o cenho diante da postura compenetrada do duque.
— Bom dia, Lorde Suffolk — respondeu ela, pegando a pena de ganso e molhando a ponta no tinto da tontura de nanquim. — O parlamento trabalhou rápido hoje.
— Tivemos incentivo — murmurou ele, pegando o último documento da pilha e abrindo-o diante dos próprios olhos para fazer uma leitura final. — O Conde von Wertheim tentou adiar a votação, mas fiz questão de lembrá-lo de que a rainha não aprecia incompetência.
Enquanto Sebastian repassava as linhas com o olhar atento, o peito subindo e descendo em uma respiração pausada, Claire inclinou a cabeça. Sem a aura de ironia constante que ele costumava ostentar, a luz da janela cortava o rosto de Sebastian de maneira diferente. Foi então que ela notou: uma pequena linha clara, uma cicatriz sutil e fina que cortava a ponta da sobrancelha esquerda dele, quase oculta pelo contorno dos fios escuros.
Claire assinou o primeiro pergaminho, mas seus olhos voltaram para o detalhe no rosto do homem à sua frente.
— O que foi aquilo? — perguntou ela, apontando a ponta da pena na direção do rosto dele.
Sebastian ergueu os olhos do pergaminho, surpreso com a pergunta.
— Aquilo o quê?
— Na sua sobrancelha — disse Claire, pousando a pena sobre o tinteiro e cruzando os dedos sobre a mesa. — Uma cicatriz. Confesso que nunca tinha reparado.
Um sorriso brando, quase nostálgico, surgiu nos lábios de Sebastian. Ele levou os dedos à sobrancelha, tocando a marca com a ponta do indicador.
— Ah, isso... Uma lembrança da minha gloriosa falta de juízo aos dez anos de idade.
— Uma briga de espada clandestina? — provocou ela, aveludando o tom.
— Quem me dera ter uma história heroica para contar — riu ele baixo, entregando o último papel assinado a ela. — Tentei saltar uma cerca de pedra montado no sela de um semental britânico que tinha o dobro do meu tamanho. O cavalo recusou o salto no último segundo, eu fui arremessado direto contra as pedras. Meu pai quase teve um colapso quando me viu coberto de sangue, e a minha mãe jurou que eu ficaria deformado para sempre.
Claire soltou uma risada genuína, a primeira em muitas semanas que soou leve e sem o peso da coroa.
— Dez anos de idade e já tentando desafiar as leis da gravidade? Parece que a sua teimosia é realmente de nascença, lorde Blackwood.
— E a senhora, Majestade? Por acaso nunca caiu de um cavalo ou saiu correndo pelos jardins até rasgar os vestidos reais? — perguntou ele, apoiando uma das mãos na borda da mesa e inclinando-se levemente, o olhar curioso e aquecido.
— Várias vezes — admitiu Claire, o olhar perdendo-se por um instante nas memórias da infância. — Lembro-me de quando tinha oito anos. Tentei subir na macieira mais alta do pomar imperial para provar ao Richard que eu não tinha medo de altura. O galho quebrou. Caí direto de costas na terra fofa, perdi o ar completamente e comecei a chorar achando que ia morrer ali mesmo.
— E quem a salvou da tragédia da macieira? — indagou Sebastian com suavidade.
— Meu pai — a voz de Claire falhou sutilmente, o sorriso congelando em seus lábios. — Ele veio correndo pelo gramado, pegou-me nos braços e conferiu cada osso antes de rir e dizer que os Mackenzie tinham cabeças duras demais para se machucarem com uma simples árvore. E minha mãe... minha mãe limpou a poeira do meu vestido, ajeitou a minha tiara de flores e disse: "Nunca abaixe a cabeça por causa de uma queda, Claire. Se você abaixar a cabeça, a coroa cai."
A menção aos pais fez o ar no gabinete mudar bruscamente. A lembrança do calor das mãos do Rei Kenan e do cheiro do perfume de Seyran atingiu o peito de Claire como um golpe físico. A dor do luto, sufocada sob camadas de obrigações e altivez, transbordou sem aviso.
Uma lágrima quente escorreu pela bochecha pálida de Claire, seguida por um soluçar preso na garganta. Ela cobriu a boca com a mão, tentando conter o choro, mas as lágrimas continuaram a cair silenciosamente.
Sebastian parou. A urgência dos papéis, o jogo político, as intrigas de Suffolk... tudo desapareceu de sua mente. Ver a rainha inabalável desmoronar diante dele quebrara qualquer barreira de sua postura calculista.
Passando para o outro lado da mesa, Sebastian aproximou-se devagar. Ele ajoelhou-se ao lado da cadeira dela, ficando na altura de seus olhos. Sem pedir permissão, ergueu a mão enluvada e, com o polegar, enxugou delicadamente a lágrima que corria pelo rosto de Claire.
— Claire... — chamou ele, a voz descendo para um sussurro profundamente grave e sincero. — Não precisa guardar o mundo nas costas o tempo todo.
Claire olhou para ele através do véu de lágrimas. A proximidade era avassaladora. O olhar castanho de Sebastian não carregava ironia, nem malícia; trazia um acolhimento puro e uma intensidade que fez o coração dela disparar no peito. O rosto dele avançou milímetros, a respiração quente roçando os lábios da jovem rainha. Claire não se afastou; pelo contrário, fechou os olhos por um segundo, inclinando-se inconscientemente para aquele toque, a ponto de sentir os lábios dele prestes a tocar os seus...
CLACK!
As pesadas portas do gabinete se abriram de par em par sem aviso.
— Claire, os relatórios da Suécia chegaram e nós... — a voz de Richard cortou o ar como um machado.
Richard e Genevieve pararam no meio do umbral. A cena diante deles era inegável: Sebastian ajoelhado ao lado da rainha, com a mão em seu rosto, a milímetros de beijá-la, enquanto Claire tentava esconder o rosto marejado.
Sebastian reagiu com uma rapidez impressionante. Ele levantou-se com elegância natural, ajustou os punhos de seu casaco e recolheu a pasta de documentos da mesa sem demonstrar qualquer embaraço.
— Os documentos estão devidamente assinados, Vossa Majestade — declarou Sebastian, fazendo uma reverência impecável para Claire e, em seguida, um aceno curto para Richard e Genevieve. — Com sua licença, Senhores.
Ele passou pelo casal real na porta com passos calmos e firmeza absoluta, deixando para trás um rastro de tensão palpável.
Richard cruzou os braços, a mandíbula travada enquanto observava o jovem duque afastar-se pelo corredor. Em seguida, marchou até a mesa da irmã, enquanto Genevieve o seguia com um brilho de curiosidade nos olhos.
— O que foi aquilo, Claire?! — exigiu Richard, o tom de voz alterado. — Quem era aquele homem e o que ele estava fazendo tão perto de você num gabinete fechado?
Claire respirou fundo, usando um lenço de renda para limpar os vestígios das lágrimas e recuperar a compostura soberana.
— Aquele é Sebastian Blackwood, o novo Duque de Suffolk e membro do parlamento — explicou ela, tentando manter a voz estável. — Ele veio apenas trazer os decretos para a minha assinatura.
Genevieve deu um passo à frente, ajustando as luvas e soltando um sorriso leve e muito atento.
— Bem... devo admitir que, para um mero entregador de decretos, ele tem uma presença marcante e modos bastante... expressivos. E é inegavelmente um homem atraente. Se me permite a opinião, querida, ele parece um bom partido para a corte.
Claire soltou uma risada debochada, ajeitando a postura na cadeira com todo o orgulho que conseguiu reunir.
— Um bom partido, Genevieve? Por favor! Aquele homem é um devasso incorrigível, arrogante e fútil! Eu nunca me casaria com alguém como ele, nem que a estabilidade de toda a Europa dependesse disso!
Richard franziu o cenho, o olhar protetor de irmão mais velho tornando-se ainda mais severo.
— Devasso ou não, Claire, eu vi como ele olhava para você. Homens como o Duque de Suffolk enxergam a fraqueza alheia como uma oportunidade de ouro. Mantenha distância dele. Não permita que ele se aproxime do seu coração ou da sua coroa.
Claire ergueu o queixo, encarando o irmão com firmeza e determinação nos olhos verdes.
— Não se preocupe, Richard. Eu sei exatamente o que estou fazendo. Sebastian Blackwood não dará um único passo nesta corte sem que eu saiba.
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