O preço da Coroa Amor ,Sedução e ilusão

7 Capítulo 7: Sussurros no Espelho e a Festa do Milho



​Uma semana se passara desde a tempestuosa discussão no gabinete real. O tempo correu implacável, e as terras férteis da Áustria entregaram os seus frutos. As províncias vibravam com o sucesso dos campos, e os grãos enviados pela Suécia — sob as ordens de Genevieve — já preenchiam os celeiros do reino. Pela tradição secular do país, a primeira grande colheita após o fim do verão exigia o Baile do Milho e da Abundância, um evento festivo onde a nobreza e os embaixadores se reuniam para celebrar a fartura da terra.

​Claire, no entanto, detestava a ideia. O luto por Kenan e Seyran ainda queimava em seu peito como uma brasa viva, e vestir roupas de festa parecia uma traição à memória de seus pais.

​Na grande sala dos espelhos, os preparativos aconteciam a todo vapor. Dezenas de servos poliam os candelabros de cristal, espalhavam arranjos pesados de trigo dourado e uvas maduras pelas mesas, e penduravam cortinas de veludo carmesim. Claire acompanhava tudo de perto, segurando uma prancheta de madeira, tentando se distrair da dor que persistia.

​— Majestade — chamou Von Kinsky, aproximando-se com passos apressados. — Os arranjos de mesa para os embaixadores da Baviera foram posicionados. Precisa apenas autorizar a cor das velas.

​— Velas brancas, conselheiro — respondeu Claire, a voz baixa e cansada. — Nada de extravagâncias douradas este ano. É uma celebração pela terra, mas a corte ainda está de luto, quer o parlamento goste ou não.

​— Como desejar, minha rainha — assentiu o velho lorde, curvando-se.

​Enquanto instruía o mestre de cerimônias sobre o cardápio, Claire sentiu a espinha arrepiar. Não precisou olhar para trás para saber de quem se tratava. A presença dele se tornara uma constante quase magnética nos corredores de Hofburg.

​Sebastian Blackwood estava encostado em uma das imponentes colunas de mármore, a poucos metros dali. Como membro do parlamento e nobre encarregado de acompanhar a logística dos suprimentos ingleses, ele tinha acesso livre aos preparativos. Ele vestia uma camisas de linho escuro com as mangas levemente dobradas e o colarinho solto, exalando uma elegância despreocupada.

​Seus encontros durante a última semana haviam mudado drasticamente de tom. As discussões inflamadas e os gritos deram lugar a um silêncio denso, carregado de uma tensão palpável. Eles não trocavam mais ofensas diretas no salão; em vez disso, trocavam olhares.

​Claire ergueu os olhos da prancheta e encontrou o olhar castanho de Sebastian fixado nela. Ele não sorriu. Apenas sustentou o contato visual com uma intensidade perigosa, despir-lhe a alma com a calma de um predador que calcula cada passo da caça.

​A jovem rainha sentiu o pulso acelerar contra a sua vontade. Trancando o maxilar, ela sustentou o olhar com firmeza, recusando-se a desviar os olhos primeiro. Era um duelo silencioso no meio da agitação dos servos que carregavam banquetes e flores.

​Sebastian, percebendo a resistência dela, deu dois passos lentos na direção do centro da sala, mantendo os olhos cravados nos dela. Ele passou por um dos arranjos de trigo, pegou uma pequena raminha seca entre os dedos e girou-a devagar, como se a provocasse a dizer algo.

​Claire deu um passo à frente, com o queixo erguido.

​— Algum problema com a decoração, Lorde Suffolk? — perguntou ela, quebrando o silêncio com um tom aveludado, mas cortante.

​Sebastian parou a pouca distância, o suficiente para que Claire sentisse o aroma sutil de carvalho e couro que o acompanhava.

​— Problema algum, Majestade — respondeu ele, a voz descendo para um tom grave e pausado que fez os servos ao redor parecerem distantes. — Apenas admirando como a senhora consegue transformar uma obrigação odiosa em um espetáculo de disciplina.

​Claire estreitou os olhos verdes.

​— Não é um espetáculo. É o meu dever para com o povo que trabalhou no campo enquanto o senhor flanava pelos corredores.

​Um sorriso quase imperceptível surgiu no canto dos lábios de Sebastian. Ele deu mais um passo diminuto, reduzindo a distância entre eles ao limite do protocolo real.

​— O dever parece pesado quando se carrega sozinho, minha rainha. Especialmente quando a pessoa que o carrega se recusa a aceitar qualquer ajuda... ou qualquer trégua.

​— Eu não preciso de tréguas com homens cujas intenções desconheço — rebateu Claire num sussurro firme, sustentando a proximidade sufocante. — E certamente não preciso da sua ajuda, lorde Blackwood.

​— Certeza? — murmurou Sebastian, baixando a cabeça ligeiramente até que sua voz soasse apenas para ela. — Porque toda vez que passo por esta sala e a vejo encarando estes espelhos, tenho a impressão de que a senhora está procurando por um aliado... ou por alguém que finalmente não tenha medo do seu fogo.

​O ar entre os dois pareceu incendiar. A respiração de Claire falhou por um milésimo de segundo diante da audácia e da voz profunda de Sebastian. Por trás de toda a arrogância dele, havia uma inteligência afiada que a perturbava profundamente.

​— O meu 'fogo', como o senhor chama, serve para proteger este reino de homens gananciosos — declarou ela, dando um passo para trás para recuperar o espaço diplomático. — Sugiro que prepare suas roupas de gala, Duque de Suffolk. O baile começará em poucas horas, e espero que demonstre ao menos metade da elegância que tenta fingir que possui.

​Sebastian fez uma reverência impecável, baixa e lenta, sem jamais quebrar o contato visual.

​— Estarei lá, Vossa Majestade. Vestido a caráter para a sua festa... e ansioso para ver até onde a sua coroa aguenta o peso da dança.

​Ele deu meia-volta e caminhou devagar pelo corredor, deixando Claire parada no meio do salão. As mãos da jovem rainha tremiam levemente sobre a prancheta de madeira. O luto ainda rasgava seu peito, mas a presença de Sebastian Blackwood acabara de transformar aquele baile indesejado em um verdadeiro campo de batalha.