​Ato I: A Audácia de Thomas

​Sebastian tornara-se um fantasma no Palácio de Hofburg. Ele aparecia apenas nas ocasiões em que a etiqueta diplomática exigia estritamente a presença do Rei Consorte, recolhendo-se aos aposentos leste imediatamente após cada compromisso. A palidez de sua pele era quase fantasmagórica, e seus olhos, outrora cheios de astúcia e vida, agora refletiam um vazio desolador.

​Thomas, incapaz de continuar assistindo à lenta definhada de seu senhor, tomou uma decisão desesperada. Sem o conhecimento de Sebastian, o fiel criado caminhou até a ala real e exigiu uma audiência privada com a Rainha Claire.

​— Vossa Majestade precisa me ouvir! — esbravejou Thomas, erguendo a voz diante dos guardas que tentavam contê-lo na entrada do Gabinete Real.

​Claire, que analisava relatórios sobre o baile de inverno que aconteceria naquela noite, levantou a cabeça. Seu rosto continuava esculpido em uma postura implacável, embora o cansaço estivesse estampado em suas feições.

​— Deixem-no entrar — ordenou ela, fria. — O que deseja, Thomas? Como ousa causar tal alvoroço?

​— Desculpe-me pela falta de modos, Majestade, mas não posso mais me calar! — declarou Thomas, dando passos largos para dentro do gabinete, sem demonstrar a reverência habitual. — A senhora está matando o Lorde Sebastian!

​Claire ergueu uma sobrancelha, os olhos faiscando de raiva.

​— Meça suas palavras, criado. Você fala com a Rainha da Áustria.

​— Falo com a mulher que está condenando o próprio marido à morte por orgulho! — desafiou Thomas, a voz trêmula de indignação. — O Lorde Sebastian errou ao não revelar o plano original do pai dele, sim! Mas ele mudou! Ele renegou a própria família por amor à senhora! Ele mal consegue parar em pé, não come há dias e deseja a própria morte a cada segundo em que a senhora o trata como um traidor! Se o plano dele era um golpe, por que ele está se destruindo por ter perdido o seu coração?!

​— Chega! — gritou Claire, batendo a mão espalmada sobre a mesa de madeira, levantando-se de golpe. — Você ultrapassou todos os limites do seu dever! A traição da família Blackwood foi documentada e assinada pelo próprio Duque de Suffolk! Não admitirei que um criado venha ao meu gabinete questionar as minhas decisões ou me acusar da fraqueza do seu senhor! Guardas!

​A porta se abriu imediatamente e dois guardas imperiais entraram com as espadas empunhadas.

​— Levem-no daqui! — ordenou Claire, apontando para Thomas, o peito arfando de fúria contida. — Coloquem este homem nas masmorras por desacato à Coroa!

​— Pode me trancar onde quiser, Rainha Claire! — esbravejou Thomas enquanto era arrastado pelos guardas. — Mas lembre-se: quando o Lorde Sebastian não aguentar mais e o coração dele parar, a culpa será da sua falta de misericórdia!

​Após a porta se fechar com um baque, Claire permaneceu de pé, trêmula. Ela sentou-se devagar, cobrindo o rosto com as mãos para esconder um tremor involuntário nas pálpebras. As palavras de Thomas ecoavam como um eco doloroso em sua cabeça, mas a ferida de ter sido enganada ainda sangrava forte demais para permitir qualquer tipo de condescendência.

​Ato II: O Silêncio no Altar de Gelo

​Ao retornar aos aposentos leste — solto no último minuto por uma ordem secreta de Claire, que preferiu evitar um escândalo maior —, Thomas correu para o quarto de Sebastian.

​O nobre estava deitado na cama, vestindo apenas uma camisa branca entreaberta. Seu rosto estava tão magro e abatido que as maçãs do rosto sobressaíam perigosamente.

​— Milorde... por favor — pediu Thomas, trazendo uma bandeja com caldo quente e pão macio. — O senhor precisa comer ao menos algumas colheradas. O baile de inverno começará em duas horas. O senhor não terá forças para permanecer de pé.

​Sebastian virou o rosto para o lado oposto, soltando um suspiro fraco.

​— Leve isso embora, Thomas... — murmurou com a voz rouca e sem força. — O cheiro de comida me causa náuseas.

​— O senhor vai morrer se continuar assim! — suplicou o criado, com os olhos marejados. — Eu imploro... faça isso por mim.

​— Viver para quê, Thomas? — perguntou Sebastian, encarando o teto com um olhar opaco. — Para vestir trajes luxuosos e ser exibido como um troféu de traição? Para ver a mulher que eu amo me olhar como se eu fosse um verme? Não há nada neste mundo que me faça querer continuar respirando. Se o meu corpo ceder hoje à noite, será a maior caridade que o destino poderá me fazer.

​Mesmo contra a vontade, Thomas conseguiu fazê-lo beber um único gole de água antes de ajudá-lo a vestir o terno de veludo negro bordado em prata para o grande evento.

​Ato III: O Baile e o Retorno dos Reis

​O Salão dos Espelhos brilhava com centenas de lustres de cristal. A nobreza austríaca e os embaixadores estrangeiros reuniam-se para o tradicional Baile de Inverno.

​Quando os clarins anunciaram a entrada da realeza, Claire surgiu no topo da grande escadaria, deslumbrante em um vestido de seda azul-profunda. Ao seu lado, Sebastian caminhava com extrema dificuldade. Cada degrau parecia exigir dele um esforço monumental, mas ele mantinha o queixo erguido por puro resto de orgulho humano.

​A orquestra iniciou uma valsa lenta. Como a tradição exigia, o casal real abriu o baile no centro do salão.

​Claire colocou a mão sobre o ombro de Sebastian. O toque era frio, distanciado. Sebastian segurou a cintura dela com delicadeza, mas suas mãos trêmulas traíam a sua fraqueza.

​Durante toda a dança, o silêncio entre eles foi absoluto. Diferente dos bailes passados, onde ele sussurrava elogios ao seu ouvido e fazia seus olhos brilharem, Sebastian não pronunciou uma única palavra. Ele apenas manteve o olhar fixo no rosto dela, gravando cada detalhe da mulher que perdera, enquanto Claire mantinha os olhos voltados para o horizonte, recusando-se a encarar o sofrimento expresso nos olhos dele.

​De repente, antes que a música terminasse, o som estrondoso das pesadas portas de carvalho se abrindo fez a orquestra parar abruptamente.

​O salão emudeceu.

​Na entrada principal, emoldurados pela luz do corredor, estavam duas figuras abatidas. Vestiam roupas rasgadas, sujas de poeira e lama das estradas. Estavam extremamente magros, com os rostos marcados pelo cansaço terrível de meses de cativeiro e fuga.

​Eram a Rainha Seyran e o Rei Kenan — os pais de Claire e de seu irmão Richard.

​Um murmúrio de espanto e choque percorreu o salão. Claire paralisou no meio do salão. Seus olhos se arregalaram e sua respiração parou. Ao fundo do salão, Richard, que conversava com sua esposa Genevieve, congelou. Genevieve cobriu a boca com as mãos, chocada, enquanto Richard deixava a taça de cristal cair no chão, despedaçando-se.

​— Mãe...? Pai...? — murmurou Claire, a voz sumindo em um fio de descrença.

​— Claire! Richard! — gritou a Rainha Seyran, com as lágrimas abrindo caminho pela poeira de seu rosto, amparada por Kenan.

​O salão explodiu em aplausos e aclamações entusiasmadas. Os nobres curvavam-se emocionados. Claire e Richard — acompanhado de Genevieve — correram desesperadamente pelo salão, lançando-se nos braços de Seyran e Kenan em um abraço coletivo, envolto em soluços de alívio e choro desmedido.

​Enquanto a família real se reconstruía em lágrimas no centro do salão, Sebastian aproximou-se devagar, apoiando-se nas pilastras para não cair. Mesmo debilitado, ele interveio com a firmeza necessária para proteger a dignidade de Seyran e Kenan.

​— Guardas! Abram caminho! — ordenou Sebastian, a voz encontrando um último sopro de autoridade. — Levem Suas Majestades para os aposentos privados! Tragam médicos e roupas limpas imediatamente!

​Sebastian ajudou pessoalmente a amparar o Rei Kenan, segurando o braço do sogro enfraquecido e guiando-o com todo o respeito pelos corredores até a ala real. Ao chegarem ao quarto, Claire, ainda em choque com a surpresa, olhou para o marido e fez uma breve apresentação aos pais.

​— Mãe, pai... este é Sebastian — disse ela, a voz embargada pela emoção do reencontro. — Ele é... o meu marido. O Rei Consorte.

​Kenan, embora debilitado, olhou para Sebastian, enquanto Seyran observava o jovem. O rei segurou a mão de Sebastian com gratidão sincera.

​— Obrigado... por cuidar da minha filha e do nosso reino enquanto estivemos nas sombras, rapaz — murmurou Kenan.

​Sebastian apenas curvou a cabeça devagar, sem coragem de revelar que a paz entre eles era apenas uma ilusão prestes a ruir.

​Ato IV: O Ponto Final e a Anulação

​A madrugada já avançava quando Seyran e Kenan adormeceram sob os cuidados médicos. A estabilidade política da Áustria mudara em questão de horas: com o retorno dos reis legítimos, a Coroa voltaria a Kenan e Seyran, e Claire retornaria ao seu posto de Princesa Herdeira.

​Movida por uma mistura tóxica de alívio familiar e uma amargura renascida, Claire caminhou até os aposentos leste. Ela abriu a porta sem bater.

​Sebastian estava sentado na beira da cama, retirando as botas com esforço e visivelmente exausto. Ele ergueu os olhos ao vê-la entrar.

​— Como eles estão? — perguntou ele, a voz falhada.

​Claire caminhou até o meio do quarto, cruzando os braços. Seu olhar trazia um brilho vitorioso, mas cruel.

​— Estão descansando. Os médicos disseram que com alguns dias de repouso eles recuperarão a saúde plenamente — respondeu ela, dando um passo à frente. — E agora, Sebastian... a sua comédia finalmente chegou ao fim.

​Sebastian franziu a testa, sem entender.

​— O que quer dizer?

​— Quero dizer que você perdeu — disse ela com um sorriso frio e desdenhoso. — O seu plano de dar um golpe através de mim foi completamente destruído. Meus pais reassumirão o trono. Minha mãe Seyran e meu pai Kenan voltarão a governar, e eu serei apenas a Princesa novamente. Você não terá mais poder, não terá mais decretos para assinar e não terá acesso aos cofres reais para enviar à sua família em Suffolk. O seu golpe falhou miseravelmente!

​As palavras de Claire caíram sobre Sebastian como lâminas afiadas. Ele encarou a mulher que amava mais do que a própria vida, sentindo o último réstia de sua dignidade ser esmagado sem piedade.

​Uma risada fraca, amarga e trágica escapou dos lábios dele. Ele levantou-se devagar, ficando de pé diante dela, o corpo tremendo não por medo, mas por exaustão da alma.

​— Você realmente pensa assim de mim...? — perguntou ele, a voz tremendo de dor e indignação. — Mesmo depois de tudo... você realmente acredita que eu me importo com a Coroa, com o trono ou com o dinheiro dos seus pais?!

​— Eu vejo os fatos, Sebastian! — esbravejou Claire. — A carta do seu pai...

​— A carta do meu pai era DELE, não minha! — gritou Sebastian, a voz ecoando pelas paredes do quarto com uma intensidade que assustou a própria Claire. — Eu renunciei ao meu pai por você! Eu me tornei um pária para a minha própria família por você! Eu aguentei o seu desprezo, a sua frieza e as suas humilhações diárias porque achava que, em algum lugar desse seu peito de pedra, ainda existia a mulher que me amou! Mas eu me enganei!

​Ele deu um passo à frente, os olhos vermelhos transbordando lágrimas de um desespero acumulado por semanas.

​— Eu não aguento mais, Claire! Eu não suporto mais olhar para você e ver esse desprezo! Eu não suporto mais ser julgado por um crime que eu não cometi contra você! Eu estou definhando nesta casa, estou morrendo aos poucos e você continua pisando no meu peito!

​Claire deu um passo para trás, chocada com a violência das palavras dele, mas manteve a postura ríspida.

​— Se está tão miserável assim, por que continua aqui?!

​— Porque eu era um tolo que esperava o seu perdão! — bradou ele, a voz embargada pelo choro rasgado. — Mas hoje eu cansei. Eu quero a anulação do nosso casamento, Claire!

​O quarto mergulhou em um silêncio sepulcral. Claire paralisou, o ar preso na garganta.

​— O quê...? — murmurou ela, incrédula.

​— O que você ouviu — disse Sebastian, a voz agora caindo para um tom calmo, terrível e definitivo. — Eu quero a anulação. Vou assinar todos os papéis que os seus advogados prepararem. Vou abrir mão de qualquer título, de qualquer compensação financeira e de qualquer direito que eu possa ter sobre a Áustria. Eu quero a minha liberdade. Quero ir embora deste palácio e nunca mais ter que ver o seu rosto.

​Claire sentiu um nó cego apertar sua garganta. A palavra anulação ecoou em sua mente como um golpe devastador, mas seu orgulho ferido falou mais alto. Ela engoliu em seco, erguendo o queixo para ocultar a dor repentina que ameaçava rasgá-la por dentro.

​— Se é isso o que você deseja, que assim seja — declared Claire, a voz fria como a morte. — Mandarei o Chanceler preparar os documentos de anulação pela manhã. Eu também concordo... pois eu nunca mais serei capaz de confiar em você novamente.

​— Excelente — disse Sebastian, virando-se de costas para ela e caminhando em direção à janela, recusando-se a deixá-la ver o choro convulsivo que tomava conta de seu rosto. — A Princesa terá a sua vida de volta. E eu terei a minha ruína. Pode sair do meu quarto agora.

​Claire permaneceu parada por alguns segundos, com o coração batendo desordenadamente contra as costelas. Ela queria dizer algo, queria gritar, mas a muralha de orgulho e dor a impediu. Virando as costas, ela saiu dos aposentos leste e bateu a porta, deixando Sebastian sozinho no escuro, desabando de joelhos sobre o tapete enquanto o silêncio da noite consumia o resto de sua alma.